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IlíadaLivro IX
LivroIX

Ronda-se a praça. Os Dânaos sobre-humano

583 versos · 6 notas do tradutor


  1. Ronda-se a praça. Os Dânaos sobre-humano
  2. Abalo invade, irmão de frio medo;
  3. Agro luto os fortíssimos domina.
  4. Qual da Trácia a roncar Zéfiro e Bóreas,
  5. Incha a piscoso ponto, e escarcéu turvo
  6. Em monte arqueia e de alga inunda as praias;
  7. Tal borrasca aos Aqueus revolve o seio.
  8. Chagado n’alma o Atrida, arautos manda
  9. Convocar em segredo a flor dos sócios,
  10. E ele alguns sem estrépito procura.
  11. Mal abanca o tristonho juntamento,
  12. Ergue-se, e como de árdua penha brota
  13. Negro olho d’água, em fio lagrimando,
  14. Fundo suspira: “Príncipes e amigos,
  15. Enredou-me o Satúrnio em lance infesto!
  16. Para a Grécia anuiu que eu só voltasse
  17. Depois de Ílio assolada, e quer arteiro
  18. Que, perdido o meu povo, inglório volte?
  19. Pois vença o prepotente, que há prostrado
  20. Muitas, e muitas prostrará cidades:
  21. Ele extirpar nos veda a excelsa Tróia;
  22. Naveguemos à pátria, eia, fujamos.”
  23. Silêncio em todos concentrou-se mudo,
  24. Que Diomedes quebranta belicoso:
  25. “A tal delírio oponho-me, Agamemnon.
  26. É jus deste conselho, e não te agraves.
  27. Perante jovens e anciãos, primeiro
  28. Tu de ignavo e cobarde me argüiste:
  29. O cetro e mando sumo deu-te o filho
  30. Do cálido Saturno, mas negou-te
  31. O maior dos poderes, a coragem.
  32. Louco? E esperas dos Graios a fraqueza
  33. De que os apodas? Se fugir cobiças,
  34. Foge; tens franco o mar, tens perto os vasos
  35. Que alterosos da Argólida esquipaste.
  36. Para exício de Tróia os mais cá ficam,
  37. E caso os Dânaos contamine o exemplo,
  38. Sós Diomedes e Estênelo bastamos
  39. A destruí-la: um nume nos protege.”
  40. O entusiasmo estronda, e Nestor surge:
  41. “És, Tidides, sem-par no márcio jogo,
  42. E entre os eqüevos ótimo discorres:
  43. Aqueu não há quem impugne e te conteste,
  44. Mas nem tudo previste. Bem puderas
  45. Ser meu filho menor, e a reis comados
  46. Falastes sério. Destas cãs blasono,
  47. E opinarei do mais: nenhum rejeite,
  48. Nem o máximo Atrida, meu conselho;
  49. Só deseja a intestina horrenda guerra
  50. Homem sem lar, sem teto, sem família.
  51. Mas ao repasto obriga a opaca sombra;
  52. Fora, esperta vigia e sentinelas:
  53. Isto encomendo aos jovens, que ordená-lo
  54. Toca-te, ó rei dos reis. É bom convides
  55. Os mais provectos: vinhos te sobejam,
  56. Que à Trácia em gregas naus contínuo exporta;
  57. O necessário tens, em cópia servos.
  58. Então se delibere, e o melhor colhas:
  59. Pouca é toda a prudência, que as fogueiras
  60. Dos inimigos junto às naus flamejam.
  61. Ah! quem se alegrará, quando esta noite
  62. Vai ressalvar o exército ou perdê-lo.”
  63. Ouvem-no, a guarda aprestam: sete cabos,
  64. O maioral Nestório Trasimedes,
  65. Os mavórcios Ascálafo e Jalmeno,
  66. Afareu, Merion, Deipiro, o nobre
  67. Licomedes Creôncio, rege hastatos
  68. Cada qual cem guerreiros; que, de vela
  69. Por entre o muro e o fosso iluminados,
  70. Curam da ceia. Aos próceres o Atrida
  71. Abre a tenda e os regala; os convidados
  72. Apegam-se às gostosas iguarias.
  73. Cheio o apetite, enceta o que antes sábio
  74. Tanto agradara, e seu discurso trama:
  75. “Dos varões glorioso augusto chefe,
  76. Por ti começo e acabo em ti: que Jove
  77. Dos povos concedeu-te a monarquia:
  78. Cabe-te expor aos príncipes teu voto,
  79. E o deles atender, se um mais discreto
  80. Se te inspirasse. Escuta-me e decide.
  81. Não pode haver mais salutar aviso
  82. Que este que em mim pondero, não só de hoje,
  83. Mas dês que, ó divo garfo, em sanha Aquiles,
  84. Da tenda arrebataste-lhe Briseida,
  85. Contra o nosso querer e meus esforços:
  86. Tu seu prêmio reténs; com dons e os obséquios
  87. De amaciá-lo o meio excogitemos.”
  88. “Sim, prudente ancião, responde o Atrida,
  89. Errei, confesso: o herói de Jove amado
  90. Batalhões equivale, e em honra sua
  91. Jove doma os Aqueus; mas, em desconto,
  92. Meus presentes magníficos o amolguem,
  93. E enumerá-los vou: trípodes sete
  94. Puras da chama, de ouro dez talentos,
  95. Caldeirões vinte esplêndidos, com doze
  96. Ungüíssonos que ao páreo vencedores,
  97. Me hão tais prêmios ganhado, que seu dono
  98. Do precioso metal não terá míngua.
  99. Sete acrescentarei prendadas moças,
  100. Que ele apresou na populosa Lesbos
  101. E entre as escravas elegi mais guapas.
  102. Irá Briseida mesma; e nunca, eu juro,
  103. Fui com ela varão, toquei seu leito.
  104. Isto já já; mas, quando apraza aos deuses
  105. Demolir as Priâmeas fortalezas,
  106. O espólio ao dividirmos, de ouro e bronze
  107. As naus cumule, e Teucras vinte escolha
  108. As mais belas depois de Argiva Helena.
  109. Se Argos Acaica ubérrima atingirmos,
  110. Seja meu genro, e igual ao próprio Orestes,
  111. Que, único herdeiro, na abundância medra.
  112. Hei filhas três no vasto meu palácio,
  113. Crisotêmis, Laódice e Ifianassa:
  114. A de seu gosto, sem que a dote, leve
  115. À casa de Peleu; cá me encarrego
  116. De a dotar, como nunca o foi donzela:
  117. Célebres lhe darei cidades sete,
  118. Cardâmile, Enope, Hira verdejante,
  119. Risonha Epéia, pascigosa Anteia,
  120. Pédaso uvífera, a sagrada Feres;
  121. Todas não longe da arenosa Pilos
  122. E à beira-mar, em gado e armento opimas,
  123. Têm gentes que o honorem como a nume,
  124. E amplos tributos a seu cetro paguem.
  125. Isto lhe oferto, se remite as iras:
  126. Ceda exorável, que Plutão por duro
  127. O deus é que os humanos mais odeiam;
  128. Ceda, que sou do que ele mais potente;
  129. Ceda, que sou do que ele mais idoso.”
  130. Inda o Gerênio: “Soberano egrégio,
  131. Dons não despiciendos lhe destinas.
  132. Legados, sus, ao pavilhão de Aquiles;
  133. Aqui mesmo os nomeio, e não recusem:
  134. Fênix guie, de Júpiter privado,
  135. O magno Ajax, o sapiente Ulisses,
  136. E arautos Hódio e Euríbates com eles.
  137. Águas às mãos, freio às línguas, deprequemos;
  138. De nós se comisere o deus supremo.”
  139. O aviltre aceitam: linfa arautos vertem,
  140. E de urnas coroadas vertem servos
  141. Dos auspicantes pelos copos vinho.
  142. Fartos de libações, iam saindo;
  143. Nestor a cada um lançando os olhos
  144. E ao Laértides mais, no empenho os firma
  145. De abrandar o magnânimo Pelides.
  146. Pelas do mar flutissonantes praias
  147. Ao padre Enosigeu vão suplicando
  148. Que as entranhas do Eácida comova.
  149. Já no arraial dos Mirmidões o encontram
  150. A recrear-se na artefata lira,
  151. Que travessa une argêntea, insigne presa
  152. Dos raros muros d’Etion: façanhas
  153. De valentes cantava, e só Pátroclo
  154. Tácito à espera está que finde o canto.
  155. Chegam-se, à testa Ulisses; e o Peleio
  156. Em pé, na sestra a lira, estupefato,
  157. Com seu fido consócio, as destras cerra:
  158. “Que urge? A que vindes? Bem que irado, amigos,
  159. Exulto ao ver os Dânaos que mais prezo.”
  160. À tenda eis se encaminha; sobre escanos
  161. De purpúreo tapete os acomoda,
  162. E ao seu dileto: “Na maior cratera
  163. Tu mescles do mais puro e aprontes copos;
  164. Caríssimos varões meu teto acolhe.”
  165. O camarada obedeceu contente.
  166. Ele, ante o lar, em cúpreo largo disco
  167. Dorso depôs de ovelha e gorda cabra
  168. E de um cevado os suculentos lombos:
  169. Automedon segura, o herói perito
  170. Em pessoa esposteja, enrosca e espeta;
  171. O Menécio deiforme atiça o fogo:
  172. Lânguida a flama, ao rúbido brasido
  173. Sobre as lareiras os espetos vira,
  174. De sal tempera-os sacro; todo assado
  175. Põe da cozinha à mesa, e o pão ministra
  176. Em lindos canistréis. Do Ítaco em face
  177. Toma a parede e as carnes trincha Aquiles;
  178. O sacrifício incumbe ao companheiro,
  179. Que ao fogo atira as divinais primícias.
  180. Deitam mãos dos manjares os convivas.
  181. Já satisfeitos, cabeceia a Fênix
  182. Ajax; Ulisses que o sinal percebe,
  183. Rasa o copo e alça o brinde: “Aquiles salve!
  184. Ou do Atrida na tenda, ou nesta agora,
  185. Semelhantes festins nos não falecem,
  186. Onde pratos gratíssimos abundam;
  187. Mas os dissaboreia o extremo risco
  188. Da instruta armada, se ó de Jove aluno,
  189. Da tua intrepidez te não revestes.
  190. Já da trincheira à vista acampam feros
  191. Os Teucros e os longínquos aliados,
  192. Que, acesas mil fogueiras, se gloriam
  193. De entrar sem resistência em nossos vasos.
  194. O Satúrnio propício lhes troveja:
  195. Nele estribado e em si, terrível senho
  196. Rola Heitor, e sanhudo não faz caso
  197. De homens nem de outros numes; freme e invoca
  198. O lento albor; às naus jura os aplustres
  199. Mesmo romper, despedaçar no incêndio
  200. Em cinza e fumo atônitos Aquivos.
  201. Tremo que se efetue essa ameaça;
  202. Que, longe das fecundas pátrias veigas,
  203. O céu nos fade a perecer em Tróia.
  204. Sus, bem que tarde, acode a aflita Grécia;
  205. Dor sentirás depois se a desamparas,
  206. Pois o mal consumado é sem remédio:
  207. Salva a tempo os Aqueus da fatal hora.
  208. Peleu de Ftia, amigo ao despedir-te,
  209. Para Agamemnon: — Filho meu, bradou-te,
  210. Minerva e Juno, se o quiserem, força
  211. Dêem-te e valor; sopeia tu no peito
  212. O orgulho e humano sê, de rixas foge,
  213. Por que moços e velhos te honrem sempre. —
  214. De tal pai tais conselhos esqueceste:
  215. Lembrem-te, enfreia as iras; se o fizeres
  216. Provarás as larguezas de Agamemnon.
  217. Ouve os dons que, em presença da Assembléia,
  218. O rei te destinou: trípodes sete
  219. Puras da chama, de ouro dez talentos,
  220. Caldeirões vinte esplêndidos, com doze
  221. Ungüíssonos que, ao páreo vencedores,
  222. Lhe hão tais prêmios ganhado, que seu dono
  223. Do precioso metal não terá míngua.
  224. Sete acrescentará prendadas moças
  225. Que em Lesbos apresaste populosa,
  226. E entre as escravas elegeu mais guapas.
  227. Virá Briseida mesma; e, jura, nunca
  228. Foi com ela varão, tocou seu leito.
  229. Isto já já; mas, quando apraza aos deuses
  230. Demolir as Priâmeas fortalezas
  231. O espólio ao dividirmos, de ouro e bronze
  232. As naus cumules, Teucras vinte escolha
  233. As mais belas depois de Argiva Helena.
  234. Se Argos Acaica ubérrima atingirmos,
  235. Serás seu genro e igual ao próprio Orestes,
  236. Que, único herdeiro, na abundância medra.
  237. Há filhas três no vasto seu palácio,
  238. Crisotêmis, Laódice e Ifianassa:
  239. A do teu gosto, sem que a dotes, leves
  240. À casa de Peleu; fica-lhe o encargo
  241. De a dotar, como nunca o foi donzela:
  242. Célebres haverás cidades sete,
  243. Cardâmile, Enope, Hira verdejante,
  244. Risonha Epéia, pascigosa Anteia,
  245. Pédaso uvífera, a sagrada Feres;
  246. Todas não longe da arenosa Pilos
  247. E à beira-mar, em gado e armento opimas,
  248. Têm gentes que te honorem como a nume,
  249. E amplos tributos a teu cetro paguem.
  250. Tanto promete, as iras se te aplaquem.
  251. Mas, se aborreces com seus dons o Atrida,
  252. Os consternados arraiais te movam,
  253. Que hão de às estrelas elevar teu nome.
  254. Anda, imola esse Heitor, que ousa afrontar-te.
  255. Raiva e alardeia que nenhum o iguala
  256. De quantos Gregos nossas naus trouxeram.”
  257. E o fogoso Pelides: “Sem rebuço,
  258. Dial sangue e astutíssimo Laércio,
  259. Declaro-te o que sinto, em que hei sentado;
  260. Nem mais teimem comigo, nem me azoinem.
  261. Qual do Orco as portas, abomino aquele
  262. Que de boca desmente o oculto n’alma.
  263. Descubro a minha: o Atrida não me dobra,
  264. Nem outro Grego, a tanto esforço ingratos
  265. O acre ou forte em conflito, o imbele ou frouxo
  266. Quinhão parelho têm e as mesmas honras;
  267. Têm o enérgico e o mole igual sepulcro.
  268. Que tirei de cruéis padecimentos,
  269. De infindos prélios, de hórridos perigos?
  270. Ave sou, que afamada olvida as penas,
  271. Pesquisando o cibato a implumes filhos.
  272. Noites insones, sanguinários dias
  273. Curti sem conto a contrastar guerreiros
  274. Pelas mulheres vossas. Praças doze
  275. Eu devastei por mar, onze por terra
  276. Nessas veigas Troianas. Vim de alfaias
  277. E espólios carregado, e à vista os punha
  278. De Agamemnon; que a bordo os ferrolhava,
  279. E poucos repartia a reis e a cabos.
  280. Estes os têm consigo: eu só dos Gregos,
  281. Fui da querida minha defraudado...
  282. Pois que durma e deleite-se com ela.
  283. Por que esta guerra? O exército Agamemnon
  284. Por causa não chamou da pulcra Helena?
  285. Atridas sós entre os falantes amam?
  286. Ama a consorte sua o reto e probo;
  287. Eu muito amava aquela, embora serva.
  288. Arrancou-ma falaz: pois basta, cesse
  289. De me tentar em vão. Contigo e os outros
  290. Busque, Ulisses, as naus livrar do incêndio.
  291. Sem mim já fez milagres, celsas torres,
  292. Profundo e largo fosso e paliçadas:
  293. Nem pode assim de Heitor suster o choque!
  294. Do fero Heitor, que nunca, eu posto em campo,
  295. Quis longe pelejar das portas Ceias,
  296. Nem da faia passar! um dia apenas
  297. Meu ímpeto arrostou; salvou-se a custo.
  298. O herói não mais profligo; e na alvorada,
  299. Assim que imole à corte e ao rei celeste,
  300. Meus baixéis bem providos se o desejas,
  301. Verás em nado, e ao som da ardente voga
  302. O piscoso Helesponto irem sulcando.
  303. Com favor de Netuno, à luz terceira
  304. Seremos nas de Ftia amigas várzeas.
  305. Riquezas lá deixei, partida infausta!
  306. Bronze e ouro, do sorteio, airosas moças,
  307. Ferro polido ajunto-lhes; que o dado
  308. O magnânimo Atrida retomou-me.
  309. Repete-lhe isto às claras ante os Gregos,
  310. Por que todos se indignem, se impudente
  311. Conta iludir algum. Protervo e ousado,
  312. O descoco não teve de encarar-me.
  313. Nem mais consulto, nem com ele trato:
  314. Enganou-me, ofendeu-me; é de sobejo.
  315. De mim descanse; ao precipício corra,
  316. Que o privou da razão previsto Jove.
  317. Como a escravo o desprezo e os dons lhe odeio:
  318. Nem que o décuplo e em dobro me ofertasse
  319. Do que amontoa e cobiçoso espera,
  320. Quanto Orcómeno importa, quanto a Egípcia
  321. Hecatômpila Tebas entesoura,
  322. Que, duzentos campeões de cada porta
  323. Vazando, carros vinte mil despede;
  324. Nem que prometa os mares e as areias,
  325. Me há de acalmar, sem que me pague o insulto
  326. Gota por gota. A filha, não lha quero,
  327. Vênus fosse em beleza, em lavor Palas:
  328. Aspire a genro de mais polpa e vulto.
  329. A preservar-me o Céu, de Hélade e Ftia
  330. Peleu me escolha algumas dentre as virgens
  331. De príncipes colunas dos Estados,
  332. E a que eu prefira me será consorte:
  333. O coração me pede grata esposa,
  334. Que se afeiçoe aos prédios meus paternos.
  335. São à vida inferiores os tesouros
  336. Que, antes do cerco, a populosa Tróia
  337. Em si continha, e as do vibrante Febo
  338. Da sáxea Pito do marmóreo templo:
  339. Reconquistar podemos bois e ovelhas,
  340. Trípodes e frisões de ruiva crina:
  341. Mas do encerro dos dentes a alma nossa
  342. Fora uma vez, não se recobra nunca,
  343. A mãe déia argentípede o meu duplo
  344. Fado abriu: se debelo a grã cidade,
  345. Não regresso, mas compro glória eterna;
  346. Se torno ao doce ninho, murcha a glória,
  347. Terei velhice longa e fim tardio.
  348. Os mais que voguem: não vereis o termo
  349. De Ílio escarpada; o mesmo Altitonante
  350. A mão lhe estende e exalta-lhe a coragem.
  351. Ide anunciar aos próceres, Aquivos,
  352. É dever de legados, que outro plano
  353. Tracem de proteger as naus e as tropas:
  354. Este falhou, persisto incontrastável.
  355. Pernoite Fênix, e amanhã me siga,
  356. Por gosto e não forçado, aos pátrios lares.”
  357. Tal dureza os contrista, e calam todos;
  358. Mas geme e chora o venerando Fênix,
  359. De mágoa e susto pela frota Argiva:
  360. “Se furente ir cogitas, sem livrares
  361. De ígnea peste os baixéis, como aqui, filho,
  362. Me abandonas? Contigo, estranho jovem
  363. À guerra e discussões que heróis afamam,
  364. Longevo o bom Peleu para Agamemnon
  365. De Ftia me expediu, que na loqüela
  366. Te amestrasse e no obrar: de ti repugno
  367. Desunir-me, ó querido, nem que um nume
  368. Conceba remoçar-me e enverdecer-me,
  369. Qual saí de Hélade em beldades fértil,
  370. Do Ormenida Amintor pai meu fugindo.
  371. Por flava pelice este a esposa ultraja;
  372. Para ter a comborça em asco o Velho,
  373. A mãe súplice instou-me a conhecê-la,
  374. E fi-lo assim; mas Amintor o aventa,
  375. Ruge e impreca às Eumênides que nunca
  376. Um nado meu nos joelhos se lhe pouse:
  377. Maldição tal os Céus, o inferno, Jove,
  378. A tremenda Prosérpina, escutaram.
  379. Então (quanto o furor nos cega e arrasta!)
  380. Pérfido eu quis... O braço um deus reteve,
  381. E me salvou de horrendo parricídio.
  382. Para ficar no antigo irado alvergue
  383. Faltou-me coração. Parentes obstam
  384. E amigos a rogar; degolam pretos
  385. Bífidos bois e ovelhas vicejantes,
  386. Ao fogo pelam saginados porcos,
  387. Os cangirões paternos se esvaziam.
  388. Dormindo ao pé de mim com luz constante,
  389. Por turno, um vela ao pórtico do pátio,
  390. Outro ao vestíbulo ante a minha alcova.
  391. Décima noite negrejando, alerta
  392. Forço e desfecho a porta o claustro pulo,
  393. Sem que o percebam guardas, nem mulheres,
  394. Corro a Hélade; em Ftia pecorosa
  395. Tratou-me o rei bem como único herdeiro
  396. Que em vastas possessões tardio houvesse;
  397. Nos confins de Ftiótide, opulentas
  398. Lavras doou-me; os Dólopes governo.
  399. Eu te criei com mimo e igual aos deuses;
  400. Nem com outro ir querias a banquetes,
  401. Ou em casa comer, sem que a meu colo
  402. Te saciasse partindo as iguarias,
  403. Regrando o vinho, que em vestido e seio
  404. Me arremessavas, caprichoso infante.
  405. Por ti que sofrimentos, que fadigas!
  406. Eu sem prole em ti via, ó alma grande,
  407. Filho que me valesse em dúbio transe.
  408. “Doma-te, essa aspereza mal te assenta:
  409. Rendem-se os deuses de maior virtude,
  410. Glória e poder; acalma-os o culpado
  411. Com libações e votos e holocaustos.
  412. Gérmen do Eterno, as enrugadas Preces,
  413. Coxas, vesgas, pós Ate se apressuram;
  414. Ate incansável, de robustas plantas,
  415. Remexe a terra e a vexa; atrás, as Preces
  416. A quem quer que as invoca o mal temperam:
  417. Ai do que as repelir! Subindo ao padre
  418. Exoram que Ate mesmo o fira e puna.
  419. Curva-te, Aquiles, do Satúrnio às filhas,
  420. Como os demais heróis também se curvam.
  421. Se, obstinado, o Atrida nem presentes
  422. Fizesse ou dons futuros, que amainasses
  423. Não te pedira, posto que de auxílio
  424. Precisamos os Gregos; mas dá muito,
  425. Muito promete, envia a suplicar-te
  426. Os do exército eleitos que mais amas;
  427. Nossos passos respeita e nosso empenho.
  428. A pertinácia tua era escusável;
  429. Mas de priscos varões nos conta a fama
  430. Que, se os picava a cólera, exoráveis,
  431. A brindes e razões eram sensíveis.”
  432. “Ora, amigos, me ocorre um velho exemplo.
  433. Na amena Calidona, encarniçados
  434. Batiam-se os Curetes e os Etólios,
  435. Estes por defender, ardendo aqueles
  436. Com fúria marcial por devastá-la.
  437. Da auritrônia Diana foi castigo,
  438. Porque Eneu, por olvido ou negligência
  439. Lhe falhou com primícias de agros férteis,
  440. Nem de outros imortais nas hecatombes
  441. A aquinhou: dorida a casta Febe
  442. De alvos colmilhos despediu javardo,
  443. Que o régio campo estraga, árvores prostra,
  444. Fruto e raízes confundindo e flores.
  445. Das vizinhanças, Meleagro Enides
  446. Chusmas de cães reúne e caçadores
  447. Para o poder matar; tamanha fera
  448. Muitos mandou primeiro à triste pira.
  449. A deusa entre os Etólios e os Curetes,
  450. Pela cabeça horrenda e hirsuta pele,
  451. Move guerra e tumulto. Enquanto o Marte
  452. Enides combatia, inda que imensos,
  453. O arraial os Curetes não largavam;
  454. Mas, de ira, que incha o peito aos mesmos sábios,
  455. Contra a mãe sua Alteia, em ócio esteve
  456. Junto à mulher Cleópatra, progênie
  457. Da Evemina Marpissa, cujo esposo
  458. Idas, então neste orbe o mais valente,
  459. Pela de pé mimoso casta ninfa
  460. De arco arrojou-se a Febo: Alcion em casa
  461. A apelidaram, pois da mãe saudosa,
  462. Que roubado lhe tinha o altifrecheiro:
  463. Como Alcion gemente suspirava.
  464. Ele nutria a sanha, porque Alteia
  465. Rogava aos numes, e das mãos ferindo
  466. A alma terra e de lágrimas lavada,
  467. Posta em joelhos, imprecava a Dite
  468. E à medonha Prosérpina que a vinguem
  469. Da morte dos irmãos no próprio filho:
  470. Do Erebo fundo Erínis despiedosa,
  471. Pelas trevas errando, ouviu-lhe as pragas.
  472. Às portas rui o estrondo e abala as torres:
  473. Disputam-lhe anciãos e sacerdotes
  474. A implorar que rechace os inimigos,
  475. Que no melhor da Calidona escolha
  476. Cinqüenta jeiras de fecundo prédio,
  477. Metade em vinhas e metade em lavras.
  478. Monta-lhe ao quarto o grave Eneu, cerrados
  479. Os batentes sacode e observa o filho;
  480. Arrependida a madre e irmãs suplicam,
  481. E companheiros e íntimos amigos:
  482. Ele tenaz renui, até que soube,
  483. No quarto os gritos a dobrar e os golpes,
  484. Dos muros a escalada e dentro o fogo.
  485. Aqui chorando o exora a bela esposa,
  486. Da cativa cidade os males pinta,
  487. Arquejando os varões, em cinza as casas,
  488. Presas virgens de rojo e as mães e os filhos.
  489. Tanto horror o comove; corre, veste
  490. Brilhantes armas, os Etólios salva
  491. Por ti, que à vista pulcros dons não tinha.
  492. Nenhum demônio, amigo, assim te influa;
  493. É pior socorrer as naus combustas:
  494. As dádivas recebe e vem conosco,
  495. Um deus serás aos Dânaos; se as recusas,
  496. Mas te demoras, menos honras alcanças,
  497. Bem que essa invicta mão remova a guerra.”
  498. Ei-lo então: “Fênix pai, dos Céus benquisto,
  499. Honras escuso; espero-as só de Jove,
  500. Que há de abordo reter-me, enquanto alento
  501. Haja o peito e sustentem-se os joelhos.
  502. No imo isto agora imprime: não me turbes
  503. Com mesto choro por amor do Atrida;
  504. Quero-te muito, em ódio não me sejas;
  505. A ti cabe agravar a quem me agrave.
  506. Estes que voltem, reina tu comigo.
  507. Meiado o meu poder, meiada a glória:
  508. Terás mórbida cama, e à luz da aurora,
  509. Se ficamos ou não, consultaremos.”
  510. A Pátroclo eis acena estenda o leito,
  511. A fim que os dois mais cedo se retirem.
  512. “Sábio Ulisses, rebenta Ajax divino,
  513. Laércio nobilíssimo, a caminho;
  514. Do bárbaro orgulhoso nada obtemos.
  515. Cumpre ao congresso, que por nós aguarda,
  516. Levar a atroz resposta, aos mesmos dada
  517. Que sem igual na frota o veneramos.
  518. Do irmão, do morto filho aceita a paga,
  519. Numa cidade congraçados vivem
  520. Ofendido e ofensor. No âmago alojas,
  521. Pelides sevo, um coração de bronze,
  522. Por conta de uma escrava, e te ofertamos
  523. Hoje beldades sete e mil presentes!
  524. Bane o despeito, reverente aos lares;
  525. Escolha dos Aquivos, tens em casa
  526. Amicíssimos teus que mais estimas.”
  527. “Bem dizes, torna Aquiles, generoso
  528. Príncipe Telamônio; mas a bílis
  529. Se me intumesce ao recordar a afronta
  530. Que em público me fez o audaz Atrida
  531. Como se eu fora ignóbil vagabundo.
  532. Porém desempenhar ide a mensagem:
  533. A sanguinosa guerra não me importa,
  534. Antes que aos Mirmidões o herói Priâmeo
  535. Com incêndio e matança o campo ataque;
  536. Da tenda e negra popa aqui pretendo
  537. Para sempre extinguir-lhe o márcio fogo.”
  538. Duplicôncova taça os dois empunham,
  539. Libam, vão-se, e o Laércio precedia.
  540. Servos e servas, de Pátroclo ao mando,
  541. Alastram cama de ovelhumes peles,
  542. Fina alva tela e tinta cobertura;
  543. Té que raie a manhã, deitou-se Fênix.
  544. Dorme Aquiles no fundo com Diomeda,
  545. Filha de Forbas de rosadas faces,
  546. Cativa em Lesbos. Dorme além Pátroclo
  547. E Ífis airosa, que lha trouxe o amigo
  548. Do íngrime Ciros, de Enieu cidade.
  549. Chegando aqueles ao real, os Dânaos
  550. Recebem-nos em pé com áureas taças,
  551. E Agamemnon primeiro os interroga:
  552. “Fala, adorno da Grécia, ó nobre Ulisses,
  553. Quer das naus afastar o hostil incêndio,
  554. Ou teimoso na cólera persiste?”
  555. “Na cólera persiste, e inda mais agora,
  556. O paciente Ulisses respondeu-lhe;
  557. Teus dons e a ti, chefe de heróis, desdenha:
  558. Diz que resolvas tu, com outros Graios,
  559. Como o Exército nosso e a frota escudes.
  560. Vogar ameaça no luzir da Aurora,
  561. E aconselha aos demais também naveguem
  562. À pátria cara: o termo não veremos
  563. De Ílio escarpada: o mesmo Altitonante
  564. A mão lhe presta e exalta-lhe a coragem.
  565. Ajax o testemunha e os dois arautos,
  566. Prudentes ambos. Lá pernoita Fênix,
  567. E Aquiles, sem forçá-lo, prescreveu-lhe
  568. Que em remeiros baixéis com ele parta.”
  569. Consterna-os a repulsa e calam todos;
  570. Mas Diomedes belaz: “Com dons infindos,
  571. Oh! nunca, rei sublime, o suplicaras!
  572. Era insolente, e refinou soberbo.
  573. Ou fique ou vá, nossa missão cumpramos:
  574. Peleje quanto queira e um deus lho inspire.
  575. Nisto ora concordar: refeitos vamos
  576. De Baco a Ceres, de homens força e brio,
  577. Nos recostar; e, assim que a dedirrósea
  578. Aurora brilhe, eqüestre e pedestre
  579. Ante a frota os perfiles e acorçoes,
  580. E tu mesmo combatas na vanguarda.”
  581. O équite exímio em roda excita aplausos:
  582. Fazem-se as libações; na tenda sua
  583. Cada qual em descanso adormecia. * * *

Sobre este livro · 1 nota

Interpretação
Assim, põe Homero na boca do herói o desejo de casar com uma que se acomode (apta) que se deleite (delectari) nas possessões de Peleu, e não com senhora de corte pomposa, como então era Argos e Micenas, a qual não se habituasse a uma vida simples e caseira. Na verdade, quem mora no campo, e mesmo em pequena povoação, faz mal em casar em grande cidade, e pior em corte: a boa da consorte nunca está satisfeita em casa; suspira pelos teatros, bailes mascarados, passeios e carruagens de luxo, pelas bonitas lojas, pelo tumulto das ruas, e não cessa de inspirar ao marido a idéia de ir gastar em seis meses o poupado em dez anos. — Tenho, cá na Europa, notado que os nossos Brasileiros ou Portugueses, casados com Francesas ou Inglesas, e mesmo com Alemãs ou Italianas, não podem mais viver no Brasil e em Portugal, em razão das instâncias de suas mulheres, que desfazem de tudo que há nas terras dos maridos, e choram pela sua Londres, Viena, Milão, Florença, e principalmente por Paris; e, o que é mais de lamentar, inspiram aos filhos a repugnância ao ninho paterno. Uma tal é que não desejava encontrar Aquiles.

Nota a nota · 5 notas

v. 181–198Já satisfeitos, cabeceia a Fênix ⋯ O lento albor; às naus jura os aplustres
Cabecear, no sentido de acenar com a cabeça, como o tomou Pereira na Elegíada. — Aplustres, ornamento nas proas, corresponde a horumba do original: Monti usou desta palavra, tirando-a do latim, e enriqueceu com ela o italiano, se é que não seja mais antiga nesta língua.
↩ voltar à passagem, v. 181
v. 257–266E o fogoso Pelides: “Sem rebuço,
Este discurso de Aquiles é longo, por ser a primeira ocasião em que desabafa as iras tanto tempo recozidas. Note-se que principia exprobrando a Ulisses a usual velhacaria, sendo que este, no fim da sua arenga, afirma que Heitor gabava-se de que nenhum Grego, e portanto nem mesmo Aquiles, era capaz de lhe resistir; ardil para excitar o herói, o que, não obstante o reparo, foi a cousa que mais o abalou, como se colige do seu terceiro discurso em resposta ao de Ajax. — No Verso 266, aparto-me de M. Giguet, e vou com Monti: Aquiles não pode queixar-se dos Gregos por morrer de igual maneira o fraco e o forte, pois que na morte os Gregos não tinham poder; mas queixa-se de que o fraco e o forte honrados fossem com iguais exéquias.
↩ voltar à passagem, v. 257
v. 318–324Nem que o décuplo e em dobro me ofertasse
Em quase toda essa passagem, tomei a Francisco Manuel uns versos que traz em nota aos Mártires. Quanto ao epíteto Hecatômpila, veja-se a 571 do livro II. O verso 324 é quase um de Ferreira, na tradução belíssima do Amor fugido de Moscho, elegia em que vem o mesmo pensamento de Homero; e, posto que não seja uma versão literal, adotei a fórmula consagrada no português por um dos sábios que melhor o têm falado.
↩ voltar à passagem, v. 318
v. 333–334O coração me pede grata esposa,
Diz M. Giguet: “Ah! oui, mon cœur généreux m’inspire de borner lá mes souhaits, de m’unir à une femme gracieuse, et de jouir des possessions que Pélée a acquises”. Creio que os versos de Homero contêm uma observação própria de quem havia tanto visto e peregrinado, como diz a interpretação latina: “Illic autem mihi plurimum appetit animus generosus, Ducta legitima uxore, apta conjuge, Possessionibus delectari quas semex quosivit Peleus.” “Illic autem mihi plurimum appetit animus generosus, Ducta legitima uxore, apta conjuge, Possessionibus frui quae senex conquisivit Peleus.”]
↩ voltar à passagem, v. 333
v. 399–404Eu te criei com mimo e igual aos deuses;
Este excelentíssimo conceito foi censurado por vários; e o mesmo Pope, tão judicioso ordinariamente, nesta passagem se extraviou, dizendo que a tinha por grosseira e indigna de Homero: é tributo pago aos refinamentos e delicadezas dos Ingleses. Como Pope não pensava Chateaubriand, que nos Martyres imitou este lugar do poeta Grego. Que ternura e singeleza nas palavras de Fênix! Seu discurso, primor de eloqüência, é sim longo, porque devia conter as recordações da meninice de Aquiles, dos trabalhos e paciência do aio, exemplos e preces. Tem redundâncias e repetições, que os seus não sentiam envoltas nos sons harmoniosos da língua. Servi-me também nesta fala de alguns versos de Francisco Manuel.
↩ voltar à passagem, v. 399
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