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IlíadaLivro II
LivroII

Deuses e campeões a noite os lia

776 versos · 7 notas do tradutor


  1. Deuses e campeões a noite os lia;
  2. Só vela o Padre, a ruminar de que arte
  3. Levante Aquiles e escarmente os Gregos.
  4. A Agamemnon soltar por fim resolve
  5. Um maléfico Sonho, e o chama e apressa:
  6. “Voa, Sonho falaz, do Atrida às popas;
  7. Quanto prescrevo, exato lho anuncia:
  8. Que arme os crinitos Graios e as falanges,
  9. De extensas ruas a cidade expugne;
  10. Que, intercedendo Juno, o Céu concorde
  11. Ameaça de ruína a excelsa Tróia.”
  12. De cor este recado, o Sonho parte
  13. Às naus ligeiras, e acha o Atrida preso
  14. Do sono, que lhe cerca e embebe a tenda.
  15. À cabeceira, os traços do Nelides
  16. Nestor vestindo, a quem o Argeu potente
  17. Mais do que a todos venerava, o argúi:
  18. “Dormes, de Atreu guerreiro ó nobre filho?
  19. E dorme em cheio o próprio em quem descansa,
  20. A quem do exército o cuidado incumbe?
  21. Escuta; mensageiro eu sou de Jove,
  22. Que de longe em ti pensa e te lastima:
  23. Arma os crinitos Graios e as falanges,
  24. De extensas ruas a cidade expugna;
  25. Por Juno o Céu concorde, a mão suprema
  26. De iminente ruína ameaça Tróia.
  27. Estas expressas ordens não te esqueçam,
  28. Do melífico sono ao despertares.”
  29. Eis some-se, e o rei fica em devaneios
  30. De ir assolar de Príamo a cidade;
  31. Ignora o que o Satúrnio lhe maquina,
  32. Suspiros e aflições que em duros transes
  33. A Troianos e Aquivos se aparelham.
  34. Acorda, e em torno inda a visão lhe soa:
  35. Sentado, a nova túnica luzente
  36. Mórbida enfia, embrulha-se no manto,
  37. Liga as sandálias que nos pés lhe fulgem,
  38. Do ombro suspende a claviargêntea espada,
  39. Cetro paterno empunha incorruptível;
  40. Passa da tenda aos bronzeados bucos.
  41. Do Sol embaixatriz à corte Olímpia,
  42. A Aurora abria; com pregões o Atrida
  43. Os comados Grajúgenas convoca,
  44. E à voz canora dos arautos correm.
  45. Primeiro, ante o baixel do rei de Pilos,
  46. Os príncipes longânimos consulta:
  47. “Sócios, visão divina eu tive à noite;
  48. Era Nestor em talhe, em gesto e porte.
  49. À minha cabeceira, assim me increpa:
  50. — Dormes, de Atreu guerreiro ó nobre filho?
  51. E dorme em cheio o próprio em quem descansa,
  52. A quem do exército o cuidado incumbe?
  53. Escuta; mensageiro eu sou de Jove,
  54. Que de longe em ti pensa e te lastima:
  55. Arma os crinitos Graios e as falanges,
  56. De extensas ruas a cidade expugna;
  57. Por Juno o Céu concorde, a mão suprema
  58. Em Tróia pesa. O mando não deslembres. —
  59. E evolou-se a visão, deixou-me o sono.
  60. De armar a gente o meio imaginemos.
  61. Quero apalpá-la, intimarei que fujam
  62. Nossas naus; de propósito espalhadas,
  63. Persuadi vós outros o contrário.”
  64. Ei-lo assentou-se, e da arenosa Pilos
  65. O cordato reinante em pé discorre:
  66. ” Da Grécia esteios, príncipes e amigos.
  67. Se outrem, que não do exército o cabeça,
  68. Tal sonho referisse, de mentira
  69. O tacháramos todos impugnando:
  70. Grave é seu testemunho e irresistível.
  71. Arme-se a gente; examinemos como.”
  72. Larga o velho o conselho, e o mesmo fazem,
  73. Obsequiando ao maioral dos povos,
  74. Cetrados reis. A multidão fervia:
  75. Quais de oca pedra, em sucessivos bandos,
  76. Brotam nações de abelhas, pressurosas
  77. No multíplice adejo, e em cachos pousam
  78. Do verão sobre as flores; tais, brotando
  79. De naus e tendas, sobre a vasta praia
  80. Grupos e grupos à assembléia afluem.
  81. Pica-os a Fama, que enviara Jove;
  82. Cresce a balbúrdia, arengam, tumultuam.
  83. Do tropel freme a terra, o estrondo ecoa.
  84. De arautos nove a brados, o alarido
  85. Lá cede à voz dos reis, do Olimpo alunos.
  86. Cala a turba e se abanca; alçou-se o Atrida.
  87. O seu cetro esculpiu Vulcano a Jove,
  88. Que ao de Argos matador brindou com ele,
  89. E ao cavaleiro Pélope Mercúrio;
  90. Atreu régio pastor houve-o de herança:
  91. Depois coube a Tiestes pecoroso;
  92. A Agamemnon Tiestes o transmite,
  93. Com a Argólida inteira e bastas ilhas.
  94. Neste se apóia, e rápido se explica:
  95. “Ó fâmulos de Marte, amigos Dânaos,
  96. Enreda-me o Satúrnio em lance infesto:
  97. Selou que, Ílio extirpada, eu regressasse;
  98. Hoje enganoso, tanta vida extinta,
  99. À pátria exige que eu reverta inglório.
  100. Do prepotente é gosto, cujo braço
  101. Pujante há mil cidades derrocado,
  102. E mil derrocará. Mancha indelével!
  103. Ressoe no porvir que inumeráveis,
  104. Sem êxito nenhum, travamos guerra
  105. Com tão poucos varões; pois, lealmente
  106. Ferida a paz, e os Troas computados
  107. E em decúrias os Gregos, vinho um Troa
  108. Vertesse a cada Grego, faltariam
  109. Escanções a muitas decúrias:
  110. Tanto julgo aos de Tróia sobejamos.
  111. Porém grandes cidades a auxiliam,
  112. Bravas lanças brandindo, que, mau grado,
  113. Reparos seus desmoronar me tolhem.
  114. De Júpiter nove anos decorreram,
  115. Lenhos já podres, cabos já delidos;
  116. E em casa à espera esposas e filhinhos
  117. Talvez estão. Da empresa desistimos;
  118. Assim nos é forçoso: velas dadas,
  119. Volte-se ao ninho pátrio; não podemos
  120. Ílio soberba conquistar; fujamos.”
  121. Isto comove os corações estranhos
  122. Ao privado conselho, e se afervoram,
  123. Quais do Icário as maretas que Euro e Noto,
  124. Fendendo a Jove as nuvens, encapelam.
  125. Como ao volúvel Zéfiro a seara
  126. Cicia em ondas, a assembléia toda
  127. Se atira às naus com militar celeuma,
  128. E à marcha o pó se enrola e o céu remuge.
  129. Da volta ansiosos, em limpar caneiros
  130. E em deitá-las ao pélago porfiam.
  131. As quilhas, dos rolhões desimpedidas,
  132. Iam partir, contra a fatal vontade
  133. Se não se dirigisse a Palas Juno:
  134. “Quê! do Egíaco prole, em fuga os nossos
  135. Traçam por entre o equóreo dorso imano
  136. Rever a pátria, a Príamo o triunfo
  137. E aos dele abandonando Helena Argiva,
  138. Por quem tantos em Tróia hão perecido
  139. Longe da mesma pátria? Ah! com doçura
  140. Os Dânaos suadindo eriarnesados,
  141. Coíbe homem por homem, que não desçam
  142. Ao mar nenhum baixel que a remo vogue.”
  143. A olhigázea Minerva incontinente
  144. Lá do pino do Olimpo se despenha;
  145. Baixa à frota veloz, de Ulisses perto:
  146. Sisudo como Jove, em dor imerso,
  147. Na embarcação, de apelamento pronta,
  148. Pausado nem tocava; e a deusa o aborda:
  149. “Generoso Laércio, astuto Ulisses,
  150. Em bem providas naus fugis, a palma
  151. A Príamo deixando e em Tróia Helena,
  152. Por quem já pereceram tantos Gregos
  153. Longe da pátria? Sem tecer demoras,
  154. Revista o exército, e com brandas vozes
  155. Coíbe homem por homem, que não desçam
  156. Ao mar nenhum baixel que a remo vogue.”
  157. Ele a compreende, e arremessando a capa,
  158. Que, Ítaco e arauto seu, lhe apanha Euríbate,
  159. Ao quartel se encaminha de Agamemnon;
  160. Toma-lhe o cetro avito. As naus perlustra
  161. E Aqueus de ênea loriga; e, se encontrava
  162. Magnata ou rei, dulcíloquo o detinha:
  163. “Quê! Trepidas, varão? Teu posto guarda,
  164. Sossega as tropas. O ânimo do Atrida
  165. Sondaste acaso? Agora os Gregos tenta,
  166. E breve os punirá. Nem tudo ouvimos
  167. Do que expôs no conselho. Contra os nossos
  168. A cólera do rei quiçá dispare.
  169. Jove ao trono o moldou, Jove o protege.”
  170. Mas, se topa um plebeu vociferando,
  171. Lhe imprime o cetro e grita: “Ímprobo, cal-te;
  172. Atende aos superiores. Néscio e ignavo,
  173. No alvitre és nulo, és nulo nas pelejas.
  174. Pois tantos reinaremos? Dana e empece
  175. De muitos o primado: um rei domine,
  176. Que houve este cetro e o jus do deus supremo.”
  177. E assim refreia a chusma. A congregar-se
  178. De naus e tendas outra vez ruíam
  179. Estrepitosos, qual batendo as praias
  180. Muge horríssima vaga e o mar reboa.
  181. Quietos já, Tersites inda gane,
  182. Petulante motino que, de inépcias
  183. Pleno o bestunto, contra os reis verboso
  184. Alterca e à soldadesca excita o riso:
  185. Dos cercantes feiíssimo, era manco,
  186. Vesgo e giboso, e tinha o peito arcado
  187. E em pontuda cabeça umas falripas;
  188. Mordia sempre a Ulisses e o Pelides,
  189. Cego de inveja; estruge então com ladros
  190. O rei dos reis e a todos afeleia,
  191. E quanto mais se indignam mais braveja:
  192. “Atrida, que te falta? A rodo os bronzes,
  193. Tens contigo mulheres que, ao rendermos
  194. Qualquer cidade, escolhes o primeiro.
  195. Que inda cobiças? ouro que te oferte
  196. Éqüite Frígio em remissão do filho,
  197. Quer o eu traga em prisões, quer outro Grego?
  198. Ou moça que se mescle em teus amores
  199. E apartada retenhas? É miséria
  200. Ser escândalo aos súditos. Voguemos,
  201. Gregas, não Gregos, raça mole e inerte:
  202. Cá permaneça e o que tragou digira;
  203. Aprenda se de ajuda ou não lhe somos
  204. Quem, de baldões coberto o mais valente,
  205. A escrava arrebatou-lhe. Ah! se o Pelides
  206. Não remitisse a cólera e afrouxasse,
  207. O teu descoco, Atrida, último fora.”
  208. Assim contra Agamemnon blasfemava.
  209. Carregado no vulto, o assalta Ulisses:
  210. “Pare a cantiga, charlator Tersites,
  211. Abarbar-te com reis tu só não queiras:
  212. Escória dos sectários dos Atridas,
  213. Na língua os teus balofa e audaz censuras?
  214. Vil pela fuga opinas: duvidamos
  215. Se é bem, se é mal, que efeito isso produza;
  216. Mas porque vituperas Agamemnon,
  217. O maior potentado, nos é claro:
  218. De heróis te pesa dádivas receba.
  219. Guar-te que eu te inda veja em tais loucuras:
  220. Fora mesmo a cabeça tenha Ulisses,
  221. Nem pai do meu Telêmaco me chamem,
  222. Se não te agarro e dispo-te os vestidos,
  223. Capa, túnica e o mais que o pudor vela,
  224. Se, da assembléia expulso e azurragado,
  225. Choramingando às naus te não remeto.”
  226. Na espádua eis o fustiga: ele se encolhe
  227. E lagrimeja à dor; sangrento as costas
  228. Lhe incha o vergão do cetro; indo sentar-se,
  229. Pávido e oblíquo olhando, enxuga as faces;
  230. Do afogo em meio espraia-se a risada.
  231. Um virou-se ao vizinho: “À fé, que o douto
  232. Conselheiro sagaz, na guerra instruto,
  233. Nunca entre Aqueus obrou com tanto acerto,
  234. Como açaimando agora esse palreiro,
  235. Que os reis há-de poupar de escarmentado.”
  236. Sussurra o vulgo, e em pé de cetro acena
  237. O de cidades vastador Ulisses;
  238. De arauto em forma a deusa olhicerúlea
  239. Impõe silêncio nas fileiras todas,
  240. Para que simultâneo o sábio aviso
  241. Do eloqüente orador nos Dânaos cale:
  242. “Querem-te, ó rei dos reis, que o labéu sejas
  243. Dos falantes mortais, os que a ti mesmo
  244. Juraram não rever da Grécia os campos,
  245. Sem que de Ílio as muralhas destruíssem:
  246. Qual ou pobre viúva ou criancinha,
  247. Da casa estão chorando com saudades.
  248. Após fadigas tais, regresso triste!
  249. Longe um mês da mulher definha o esposo
  250. Em nau remeira, de invernais marulhos
  251. Retardada: nove anos devolvidos,
  252. Como estranhar ao povo a impaciência?
  253. Porém se é torpe, amigos, a demora,
  254. Não o é menos tornarmos de vazio.
  255. Constância um pouco mais, e averigüemos
  256. As predições de Calcas: bem nos lembram;
  257. Testemunhai-me, todos vós da Parca
  258. Redimidos fatal. Inda ontem, Gregos,
  259. Não foi que em Áulis congregou-se a frota
  260. Contra Príamo e Tróia? Ante uma fonte,
  261. No imolarmos completas hecatombes,
  262. De um plátano frondoso, donde mana
  263. Límpida veia, surge grã prodígio:
  264. Drago horrendo, malhado em sangue o lombo,
  265. (À luz o Olímpio sumo o expediu mesmo)
  266. Do supedâneo da ara deslizando,
  267. Ao plátano rojou. Nele acoutadas
  268. Sob a rama oito implumes avezinhas,
  269. Novena a mãe fagueira as aninhava.
  270. Pipitando era dó se debaterem,
  271. Quando ele as engolia, e a mãe carpindo
  272. Em torno revoar; última o drago
  273. Da asa lhe trava e súbito a devora.
  274. Mas, durante o holocausto, em pedra o muda
  275. Quem o mandara; e a nós, emudecidos
  276. E extáticos do horrífico portento,
  277. Calcas vaticinou: — Comantes Graios,
  278. Estupefatos sois? Previsto Jove
  279. Daqui nos prognostica um tardo evento,
  280. Se bem de glória eterna. As oito implumes,
  281. E nona a mãe, tragou-as a serpente:
  282. Forçoso é pelejar por tantos anos,
  283. Mas ao dezeno cairá Dardânia. —
  284. A profecia é tal, cumprir-se deve.
  285. Eia, grevados sócios, persistamos,
  286. Té sucumbir a soberana Tróia.”
  287. Um geral grito, horrendo retumbando
  288. Pelas côncavas naus divino o aclama.
  289. Presto o Gerênio: “Discursais, oh! pejo,
  290. Fracos meninos da milícia alheios.
  291. Onde a jurada fé? Tem gasto o fogo
  292. Viris projetos e consultas, pactos
  293. Que as libações e as destras consagraram?
  294. Disputas vãs! o tempo aqui perdemos.
  295. Cessem palavras: como sempre, Atrida,
  296. Rege firme os combates. Apodreçam
  297. Em ócio os raros díscolos; mas nunca
  298. Tornar conseguirão, sem deslindarmos
  299. Se nos falseia o egífero Satúrnio:
  300. Ele anuiu, no dia em que embarcamos
  301. De Ílio trazendo o fado em naus veleiras,
  302. E à destra fulgurou, propício agouro.
  303. Com a esposa de um Teucro antes que durma,
  304. Rapto e mágoas de Helena assim vingando,
  305. Nenhum se apresse; e quem, da fuga amigo,
  306. De crenado baixel tocar nos bancos,
  307. O mortal trago provará primeiro.
  308. Agamemnon, reflete e os bons escuta,
  309. Nem este meu alvitre, ó rei, desdenhes:
  310. Divisa em tribos toda a gente e em cúrias,
  311. Socorra cúria a cúria e tribo a tribo.
  312. Coadjuvem-te os Dânaos; que, seu braço
  313. Na ação mostrando cada qual, o esforço
  314. Distinguirás do chefe ou do soldado;
  315. Se obstam os deuses a que expugnes Tróia,
  316. Ou dos teus a imperícia e cobardia.”
  317. Respondeu-lhe Agamemnon: “Consumado
  318. Na eloqüência, ó Nestor, superas todos.
  319. Júpiter, Palas, Febo, quem me dera
  320. Dez conselheiros tais! Breve arrasadas
  321. As muralhas de Príamo seriam.
  322. De pesares transbordo! Em lide amarga
  323. Pelo Satúrnio imersos eu e Aquiles,
  324. Acres sobre a donzela contendemos;
  325. Primeiro eu me irritei. Se inda o congraço,
  326. Num só momento acabará Dardânia.
  327. Ide comer, que pelejar nos cumpre:
  328. Afilem-se hastas, lustrem-se rodelas;
  329. Bem fartos os sonípedes, os coches
  330. Bem revistados, cuide-se na guerra;
  331. É sacro o dia todo a Marte sevo.
  332. Depois, nem trégua nem repouso, enquanto
  333. A noite resfriar o ardor não venha:
  334. Quente o suor do escudo a soga banhe,
  335. Pulsos fatigue o menear da lança,
  336. Ao carro terso o corredor espume.
  337. Porém se algum, para fugir à pugna,
  338. Eu souber se desleixa em nau rostrada,
  339. Aos abutres e cães fugir não conte.”
  340. Alteia-se um clamor, qual de onda equórea
  341. Que arroja Noto sobre aguda penha,
  342. Sempre de opostos ventos combatida:
  343. Já se levantam; pelas tendas lume
  344. Acendem logo, a refeição preparam;
  345. Cada Argivo a seu nume ofrenda, roga
  346. Livre-o da morte e bélicos perigos.
  347. Ao pai sumo Agamemnon sacrifica
  348. Pingue touro qüinqüene; os mais conspícuos,
  349. Nestor em frente e Idomeneu, convida;
  350. Um e outro Ajax, Diomedes; sexto Ulisses,
  351. No siso igual a Jove: per si mesmo
  352. Vem Menelau guerreador, ciente
  353. Dos generosos fraternais cuidados.
  354. Com seus bolos nas mãos, a rês circundam,
  355. E ora o chefe de heróis: “Senhor etéreo
  356. Das cerrações, glorioso onipotente,
  357. Antes que o sol transmonte e assome a treva,
  358. Dá-me o esplêndido paço, em brasa as portas,
  359. A Príamo assolar; de Heitor ao seio
  360. Romper a brônzea túnica, e de rastos
  361. Os seus em torno dele a terra mordam.”
  362. Sem que anua, lhe aceita a oferta Jove,
  363. E aumenta o afã. Perfeita a rogativa,
  364. Esparso o farro, à vítima o pescoço
  365. Vergam atrás, e degolada a esfolam;
  366. Cérceas as coxas, no redenho envoltas,
  367. Vivas postas em cima, esgalhos secos
  368. As vão tostando. As vísceras ao fogo
  369. No espeto enroscam; mas, provadas estas,
  370. Já combustas as coxas, em tassalhos
  371. A mais carne enfiada assam peritos.
  372. Finda a obra, adereça-se o banquete,
  373. E das iguais porções nenhum se queixa.
  374. Exausta a sede e a fome, assim perora
  375. O picador Gerênio: “Ó rei sublime,
  376. Augustíssimo Atrida, ócios quebremos,
  377. Urge a façanha que nos fia o Padre:
  378. Os arautos na praia, eia, arrebanhem
  379. Emalhados Aqueus; pelo amplo exército
  380. Vamos nós despertar mavórcios brios.”
  381. Agamemnon concorda, e arautos manda
  382. O assalto apregoar: crinita gente
  383. Convocada referve; os circunstantes
  384. Reis da escolha de Jove as linhas formam;
  385. A gázea Palas a imortal embraça
  386. Égide incorruptível, donde pendem
  387. Cem franjas de áurea tela, cada franja
  388. Do preço de cem bois: de fila em fila
  389. A vibrá-la, os Aquivos apressura
  390. A pugnar valorosos e incessantes;
  391. E combater então lhes foi mais doce
  392. Que à pátria regressar. Como edaz fogo,
  393. Selva imensa abrasando em serranias,
  394. Longe fulgura; a hoste assim marchava
  395. Entre aêneo esplendor, que inflama os ares.
  396. Como, aleando em batalhões volúveis,
  397. Por Ásio pasto, em cerco do Caístro,
  398. Ora uns, ora outros a avançar, exultam
  399. Gansos ou grous ou colilongos cisnes,
  400. E o grasnido confuso atroa o prado;
  401. Assim da frota e pavilhões as turbas
  402. Ali se esparzem, do tropel medonho
  403. De homens e de corcéis rebrama a terra;
  404. Tantos as veigas do Escamandro pisam.
  405. Quantas folhas vernais ou flores brotam.
  406. Quais erram moscas pelo estio, quando
  407. Nos tarros do pastor esguicha o leite;
  408. É tal no plaino a soma desses Dânaos,
  409. Do sanguíneo triunfo ambiciosos.
  410. Mas, de inúmeros fatos nos pastios
  411. Se o cabreiro separa as notas crias,
  412. Seus soldados na ação discerne e alinha
  413. Cada chefe. Exalçava-se Agamemnon:
  414. O Tonante emprestou-lhe o porte e os olhos,
  415. Netuno os peitos, a cintura Marte.
  416. Entre novilhas armental o touro
  417. A fronte eleva: Júpiter não menos
  418. Fez que o primaz Atrida aquele dia
  419. Entre celsos varões se abalizasse.
  420. Oh! Celícolas Musas, inspirai-me;
  421. Sois deusas e na mente abrangeis tudo:
  422. Roçou-nos único o rumor da fama.
  423. Nem que dez bocas, línguas dez houvesse,
  424. Voz infrangível, coração de bronze,
  425. Pudera eu memorar quantia e nomes
  426. Dos que às plagas Ilíacas vieram:
  427. Isso às filhas do Egífero compete.
  428. Vou pois enumerar as naus e os cabos.
  429. Os Beócios governa Peneleu,
  430. Protenor, Clônio, Leuto e Arcesilau:
  431. De Aulide pétrea, Esqueno, Téspia, Escolo,
  432. Da Serrana Eteone íncolas eram,
  433. De Híria, Graia e espaçosa Micalesso;
  434. Ou de Hile, Harma, Elíola, Hésio, Eritas,
  435. Péteon, Ocaleia, Eutresis, Copas,
  436. Da columbosa Tisbe e torreada
  437. Medeona; ou de Glissa e Coroneia,
  438. Da virente Haliarto e de Plateias,
  439. Ou de Hipotebas de edifícios nobres;
  440. Mais do aprazível Netunino luco,
  441. Ou de Mideia e de Arne pampinosa,
  442. Da augusta Nissa, Antédona postrema.
  443. Cada Beócia nau, de umas cinqüenta,
  444. Guerreiros tripulavam cento e vinte.
  445. Os da Minieia Orcómeno e de Asplédon
  446. São com Iálmeno e Ascálafo, que a Marte
  447. Pariu de Actor Azida em casa Astíoque:
  448. À interna alcova da pudica virgem
  449. O deus subiu furtivo e entrou com ela.
  450. Naus destes filhos abordaram trinta.
  451. Sob Epístrofo e Esquédio, nado insigne
  452. De Ífito Naubolides, os Focenses,
  453. Quer de Píton fragosa e augusta Crissa,
  454. Daulida, Ciparisso e Panopeia,
  455. De arredores de Hiâmpole e Anemória,
  456. Quer do ilustre Cefisso, ou de Lilaia
  457. Dele matriz, em galeões quarenta,
  458. Dos Beócios à esquerda os colocaram.
  459. Não como o Telamônio alto e membrudo,
  460. Pequeno em corpo e o seu jubão de linho,
  461. Mas no dardo excedendo Aqueus e Helenos,
  462. O lesto Ajax de Oileu movia os Lócrios,
  463. De Cino, Escarfe, Opóente e Calíaro,
  464. De Bessa a Angeia amena habitadores,
  465. De Tarfe e Trônio, às abas do Boágrio:
  466. Dos que d’além da sacra Eubéia moram,
  467. Seguem-lhe a voz quarenta escuros vasos.
  468. Eubéia expede Abantes alentados:
  469. São de Estira e Caristo, Erétria e Cálcis,
  470. De Histieia racimosa, Dio alpestre
  471. E litoral Cerinto. O Calcodôncio
  472. Príncipe Elefenor, de Márcia estirpe,
  473. Em quarenta galés os petrechara;
  474. Ágeis, forçosos, de comada nuca,
  475. Destros na hasta fraxínea e aos tresdobrados
  476. Peitos hostis em desfazer couraças.
  477. Os da orgulhosa Atenas (corte egrégia
  478. De Erecteu magno, da alma Télus parto,
  479. A quem Palas Dial, que o educara,
  480. Deu sede em ricas aras, onde o povo
  481. De lustro em lustro imola e de ano em ano
  482. Cordeirinhos e bois que a deusa abrandem)
  483. Capitaneia-os Menesteu Petides.
  484. Homem nenhum como ele ordenar soube
  485. Jungidos carros e adargadas hostes,
  486. Salvo o experto Nestor por mais longevo.
  487. Cinqüenta embarcações lhe obedeciam.
  488. De Salamina as doze, reuniu-as
  489. O Telamônio às Áticas falanges.
  490. De Tirinto munida, Argos, Trezene,
  491. Lá do golfo de Hermíone e de Asine,
  492. De Eiona e da vitífera Epidauro,
  493. E de Egina e Masete a flor guerreira,
  494. Tidides fero, Estênelo do exímio
  495. Capaneu filho amado, os reprimiam;
  496. Mais o divino Euríalo, do régio
  497. Talaionides Mecisteu progênie:
  498. Diomedes belicoso o máximo era.
  499. Bojos negros oitenta os encerravam.
  500. Os de Órnias, da magnífica Micenas,
  501. Da altaneira Cleona, áurea Corinto,
  502. Sicíone em que reinou primeiro Adrasto;
  503. Os da fresca Aretírea, os que Hiperésia,
  504. Agros de Hélice extensa e a costa habitam,
  505. E Gonoessa altiva, Égion, Pelena:
  506. Todos em cascos cem trouxe Agamemnon.
  507. Tropa extremada e imensa o rei mantinha;
  508. Em bronze reluzindo, galhardeia
  509. De ser entre os Aqueus o assinalado,
  510. Em forças o maior e o mais possante.
  511. Os do vale da grã Lacedemônia,
  512. Fáris e Esparta, Messa altriz de pombas,
  513. De Amiclas, Lãa, Brísea e leda Augia;
  514. De Helos marinha, de Étilo e contornos:
  515. O estrênuo Menelau, segundo Atrida,
  516. A parte armou-os em galés sessenta.
  517. Afouto os acorçoa, ardido anela
  518. Desagravar o rapto e ais da esposa.
  519. Nestor o velho de Gerena, em cavos
  520. Baixéis noventa, presidia os Pílios,
  521. Os de Épi encastelada e Arena aprica,
  522. De Trio vau do Alfeu, Ciparessenta,
  523. Ptéleon e Anfigênia, de Helos, Dórion,
  524. Onde ufanoso, ao vir de Eurito e Ecália,
  525. A cantar provocou Tamires Trácio
  526. As do Egíaco filhas doutas Musas,
  527. Que o tino e a vista irosas lhe apagaram:
  528. Da alma a poesia lhe fugiu celeste,
  529. Nem na cítara mais dedilhar soube.
  530. Os de perto pugnazes, das da Arcádia
  531. Cilênias faldas, junto à Epítia campa,
  532. De Feneu, Ripe e Orcômeno armentosa,
  533. Tégea, Estrátia e risonha Mantineia,
  534. Ventosa Enispe, Estínfalo e Parrásia,
  535. Práticos na milícia, os acaudilha
  536. Em naus sessenta, cada qual mais cheia,
  537. O Anceides Agapénor. Para o ponto
  538. Cérulo transfretano atravessarem,
  539. Pois que eles da marinha careciam,
  540. Deu-lhas aparelhadas Agamemnon.
  541. Os de Hirmine e Buprásio, Elide santa,
  542. Mírcino extrema, Alísio, Olénia sáxea,
  543. Em dez quadripartida ocupam frota
  544. Que Epeus esquipam. De Cteato filho,
  545. Os manda Anfímaco; após ele Tálpio,
  546. Do Actoriônio Eurito; o Amarineides
  547. Belaz Diores é terceiro; é quarto
  548. O divinal formoso Polixino,
  549. Do Augeiada Agastenes procriado.
  550. Os Dulíquios e os mais das ilhas sacras
  551. Equínades, ao mar de Elide sitas,
  552. Em quarenta baixéis com Márcio arrojo
  553. Meges dirige: a vida a Fileu deve,
  554. Équite a Jove grato, que em Dulíquio
  555. Emigrando esquivou paternas iras.
  556. Os Cefalenses e Ítacos briosos,
  557. Os da áspera Egilipe e de Crocílio,
  558. Zacinto, Samos, Nérito sombria,
  559. E os do Epiro e fronteiro continente,
  560. Ao divo prudentíssimo Laércio
  561. Em doze rubros galeões seguiam.
  562. Em quarenta os Etólios velejaram,
  563. De Olenos, de Pleurona e de Pilene,
  564. Cálcis marinha e Cálidon fragosa,
  565. Sob o Andremônio Toas, que imperava;
  566. Eneu já sendo e a boa prole extintos,
  567. Pois nem restava o louro Meleagro.
  568. Fuscos oitenta cascos, das famosas
  569. Licto, Mileto, Rício, Festo e Cnosso,
  570. Da murada Gortina, alva Licasto,
  571. Na hecatômpola Creta abastecidos,
  572. Anima Idomeneu de invicta lança,
  573. E o de Belona Merion querido.
  574. Nove outros forneceu dos Ródios feros,
  575. Entre Jalisso, Linde e a branquejante
  576. Camiro tripartidos, grande e forte
  577. O hábil hasteiro Tlepolemo, estirpe
  578. De Astioqueia e de Hércules, que a trouxe
  579. De Efírio e do Seleis, cidades várias
  580. Tendo a alunos de Jove derruído.
  581. Crescendo em casa, ele matou Licinos,
  582. Idoso de seu pai materno tio,
  583. Renovo do Gradivo. Esquadra a furto
  584. Forma e guarnece, e escapa-se dos netos
  585. E outros filhos de Alcides à vingança.
  586. Flutua e a Rodes, pesaroso, arriba:
  587. Em tribos três seu povo ali segrega,
  588. Povo benquisto ao nume soberano,
  589. Que largueou-lhe pródigas riquezas.
  590. Nireu três naus irmãs de Sine ostende,
  591. Nireu do rei Caropo e Aglaia prole,
  592. O Grego mais gentil que veio a Tróia,
  593. Depois do em tudo sem senão Pelides;
  594. Mas, pusilânime, arrebanha poucos.
  595. Fidipo e Antifos trinta bucos enchem
  596. (Tessalo Heráclida é seu pai) de quantos
  597. Cultivam Cason, Crápato e Nisiro,
  598. E Cós ilha de Eurípilo e as Calidnas.
  599. De Álope, Argos Pelasga, Álon, Trequina,
  600. De Ftia e de Hélade em beldades fértil,
  601. Os Mirmidões e Aqueus e Helenos ditos,
  602. Aquiles em cinqüenta os refreava.
  603. De horríssonas contendas se deslembram,
  604. Falta-lhes capitão; que, ausente a jovem
  605. Crinipulcra Briseida, o herói a bordo
  606. Irado jaz. Tomou-a de Lirnesso,
  607. Que ele a bem custo soverteu com Tebas,
  608. Mortos Mínete e Epístrofo belazes,
  609. De Eveno Selepíada nascidos.
  610. Mas do ócio ainda surgirá terrível.
  611. Os de Fílace e Itone mãe de ovelhas,
  612. Do Pirrásio de Ceres flóreo parque,
  613. De Ptélon pascigosa e Ântron costeira,
  614. Denodado os juntara em naus quarenta
  615. Protesilau, que a terra já cobria:
  616. Primeiro no saltar, um Teucro o mata;
  617. No inacabado alvergue as faces rasga
  618. Em Fílace a mulher. Saudosos dele,
  619. Do em rebanhos ali possante Ificlo
  620. Nado menor, Podarces ordenava-os;
  621. Tão prestante não era e apessoado,
  622. Mas dignamente pelo irmão supria.
  623. Dos de Glafire e altíssima Iaolcos,
  624. Beba e Feres ao pé do lago Bébis,
  625. Tem galés onze Eumelo, prenda cara
  626. De Admeto e Alceste, exemplo de matronas,
  627. Das que Pélias gerara a mais formosa.
  628. Das sete em que os Metónios e os Taumácios,
  629. Os da tosca Olizona e Melibeia,
  630. Continha o magno archeiro Filoctetes,
  631. Remavam sagitíferos cinqüenta
  632. Cada bélica popa. Em Lemnos sacra
  633. Dos seus desamparado, ele agras dores
  634. Da úlcera de tetra e feroz hidra
  635. Mestíssimo curtia. Os próprios Gregos
  636. Se hão-de amiúde lembrar de Filoctetes;
  637. Mas, bem que tarde por seu rei suspirem,
  638. Submetem-se a Medon, que em Rena espúrio
  639. Houve o urbífrago Oileu. — Tem Podalírio
  640. E Macaon, herdeiros de Esculápio,
  641. Trinta vasos de Trica e bronca Itone,
  642. Também de Ecália capital de Eurito.
  643. De Evemon garfo ilustre, manda Eurípilo,
  644. Da alva serra Titane, Hipéria fonte,
  645. Ormênio e Astério, embarcações quarenta.
  646. Noutras tantas os de Orte, Elon, Gírtone,
  647. Da branca Oloossona e Argissa, o firme
  648. Campeador Polipetes sujeitava-os.
  649. Do rebentão de Jove Pirítoo
  650. Bela Hipodame o concebeu, do Pélion
  651. Nesse dia em que às Étices montanhas
  652. Ultriz lançara os híspidos Centauros.
  653. Leonteu se lhe agregou de Márcio esforço,
  654. Digna vergôntea de Coron Cenides.
  655. Em vinte duas traz Guneu de Cifo
  656. Aguerridos Perebus e Enienes,
  657. Os da fria Dodona, os que residem
  658. Nas lavras do suave Titarésio,
  659. Que sem mesclar-se no Peneu deságua
  660. De vórtices de argento e pulcra a veia
  661. Como óleo sobrenada; pois da Estige,
  662. Grave para jurar-se, ele dimana.
  663. Em quarenta os Magnetes, do frondoso
  664. Pélion e margens de Peneu, vogaram
  665. Sob o veloz Protôo Tentredônio.
  666. Tais são da Grécia os cabos. Lembra, ó Musa,
  667. Qual o mais forte assecla dos Atridas,
  668. Quais dos ginetes os melhores eram.
  669. De um livel, pêlo e dorso, equevas ambas,
  670. Éguas de Feres que maneja Eumelo,
  671. Alípedes que Apolo arco-de-prata
  672. Na Piéria nutrira, muito excelem,
  673. Fêmeas de ímpeto e fogo e as mais tremendas.
  674. O Telamônio Ajax vencia a todos,
  675. Enquanto Aquiles, que sem par sofreia
  676. Os mais guapos frisões, raivoso estava
  677. Nos bicudos baixéis contra Agamemnon.
  678. Nas tendas a coberto, junto aos carros,
  679. Aipo os corcéis palustre e loto pascem.
  680. Pela praia os soldados se divertem
  681. Ao disco, ao dardo e seta; ou, desgostosos
  682. Da inação, na peleja o herói ver querem,
  683. Nos arraiais aqui e ali vagueiam.
  684. Os demais Graios fervem, qual se a flama
  685. Vorasse a terra; e a terra do estrupido
  686. Muge e calcada geme, como quando
  687. Em cólera o Tonante o chão verbera
  688. De Arima, em que Tifeu se diz repousa.
  689. Eles transpunham rápido a campina.
  690. Mais que o vento ligeira, aos Teucros Íris
  691. Do Egífero desceu com triste anúncio:
  692. Mistos velhos e moços discutiam
  693. Aos pórticos reais; com rosto e fala
  694. Do Priâmeo Polites, sentinela
  695. De Esiete no túmulo vetusto,
  696. Que, em pés fiado, a ponto vigiava
  697. Se do recinto os Gregos se buliam,
  698. Acomete a celeste mensageira:
  699. “Como em dias de paz, senhor, debates,
  700. E a guerra hoje rebenta inelutável.
  701. Afeito a pugnas, tropas tais e tantas
  702. Nunca vi: da cidade assaltadores
  703. Iguais às folhas e às areias marcham.
  704. Heitor, ouve-me agora. Auxiliares
  705. De vária casta e língua em Tróia abundam.
  706. Cada príncipe os seus, tu firma os nossos;
  707. Mas a suma ordenança a ti pertença.”
  708. Heitor, apenas reconhece a deusa,
  709. Despede o parlamento; o al’arma soa.
  710. Abertas, precipitam-se das portas
  711. Em burburinho equestres e pedestres.
  712. Ante Ílio na planície avulta um cole,
  713. De caminhos cercado, que os humanos
  714. Batícia, imortais sepulcro chamam
  715. De Mirina agilíssima: distintos
  716. Aí perfilam Teucros e aliados.
  717. Dos Troianos à testa, o Priamides
  718. Cristado exímio Heitor em cópia armara
  719. Seletos belacíssimos hastatos.
  720. Os Dardânios alenta o grande Eneias:
  721. A deusa Vênus do mortal Anquises
  722. Teve-o no cume Ideu. Com ele Acamas
  723. E Arquíloco Antenóridas comandam,
  724. Em omnígeno prélio examinados.
  725. Aos que às raízes do Ida em Zélia bebem
  726. Água do fundo Esepo, venturosos,
  727. De Licaon precede o claro filho
  728. Pândaro, a quem doou seu arco Apolo.
  729. Nos de Pitieia, Adéstria, Apeso e Téries,
  730. Alto monte, imperava Adrasto e Ânfio
  731. De couraça de linho; irmãos que o padre
  732. Percóssio Méropo, adivinho e cauto,
  733. Vedou que entrassem na homicida guerra:
  734. Surdos a nera Parca os atraía.
  735. Os varões de Percote, Sesto e Abido,
  736. Prátio e Arisba divina, desta o Hirtácio
  737. Príncipe Ásio os viera estimulando;
  738. Ásio que doma férvidos cavalos,
  739. Das ribas do Seleis famosas crias.
  740. Das Larisseias glebas os Pelasgos
  741. Lanceiros com Pileu manda de Hipotoo,
  742. Do Teutamides Lito márcios filhos.
  743. Do estuoso Helesponto rege Acamas
  744. E herói Piroo os Traces. — Rege Eufemo
  745. Sagitários Cicones, de Trezênio
  746. Ceades geração, dileta a Jove.
  747. Tem Pirecme os Peônios de arco e amentos,
  748. Lá de Amídone, do Áxio largo à margem,
  749. Do Áxio que inunda límpido a campanha.
  750. Pilemeneu veloso os Paflagônios
  751. De Enete move, altriz de agrestes mulas,
  752. Os que o Citoro e Sésamo possuem,
  753. As lindas várzeas do Partênio rio,
  754. Comna e Egíalo e os celsos Eritinos.
  755. Da longe Aliba vêm de argênteas minas,
  756. Sob Epistrofo e Hódio, os Halisones.
  757. Os Mísios Crómis guia, e o vate Enono,
  758. A quem da morte agouros não livraram:
  759. Furente o Eácida o prostou no rio,
  760. Que rubro intumesceu de humano sangue.
  761. Acesos Fórcis e o deiforme Ascânio
  762. Da Ascânia os Frígios à batalha impelem.
  763. Das Tmólias faldas os Meônios seguem
  764. A Antifo e Mestles, Pilemênios ambos,
  765. Da Gigeia lagoa produzidos.
  766. Os Cares de Mileto e Ftiro umbroso,
  767. Do Meandro e Micale de árduos picos,
  768. De linguagem barbárica, os sopeiam
  769. Os filhos dois de Nómion preclaro,
  770. Nastes e Anfímaco. Este, qual donzela
  771. De ouro enfeitado, insano floreava:
  772. O enfeite o não salvou; que às mãos de Aquiles
  773. Tem de haurir no Escamandro o gole amaro,
  774. Será do vencedor esse ouro presa.
  775. Os Lícios lá do Xanto vorticoso
  776. Conduz Sarpédon, e o sem mancha Glauco. * * *

Nota a nota · 7 notas

v. 148Pausado nem tocava; e a deusa o aborda:
Na Eneida quis servir-me de abordar no figurado, mas receei que cheirasse a galicismo: aqui aventurei-me. Este verbo significa em português por a borda de uma embarcação contígua à de outra, ou abalroar, e figuradamente acometer: Barros e outros clássicos o trazem a miúdo. Será galicismo na significação de chegar, se quem chega não vem com ânimo de hostilizar ou de repreender; mas se vem com esse ânimo, então o figurado facilmente corre do sentido próprio, e é admissível. Não sou dos que fogem do verbo exigir, que é do latim e tem um sentido muito especial, só porque os Franceses dele usaram primeiro. Em semelhantes palavras, o essencial é lançar mão delas discretamente: exigir, em vez de pedir, em vez de requerer é abusivo; garantia (para darmos outro exemplo) é indispensável no sentido das constituições modernas, e é insuportável na significação de abono ou fiança ou segurança; e assim por diante. Aspiro a ser puro e não a ser purista.
↩ voltar ao verso 148
v. 170Mas, se topa um plebeu vociferando,
Minerva manda Ulisses impedir a partida, e recomenda-lhe bons termos e doçura; mas o sábio entendeu que isso era para os magnatas, e levou o povo a golpes de cetro. É antiquíssimo haver duas justiças, uma para os figurões e outra para os pequenos. É aqui Homero fiel historiador.
↩ voltar ao verso 170
v. 238–246De arauto em forma a deusa olhicerúlea
Glaukópis é quem tem olhos verdemares ou cor de azeitona. Os nossos o vertem por de olhos gázeos ou garços ou zarcos: deixo-me ir com a maior parte, posto que tenha por mais exato o primeiro sentido. Crêem outros, não sei com que fundamento, que o adjetivo quer dizer cor de olhos de coruja. — Qual no singular torna-se invariável nas comparações; vem em Moraes, que cita a Camões: — Qual para a cova as próvidas formigas. — Não o traz Constâncio, sem embargo de ser útil por abreviado e elegante.
↩ voltar à passagem, v. 238
v. 262–273De um plátano frondoso, donde mana
Francisco Manuel, em nota aos Mártires, verteu esta passagem admiravelmente. Adotei-lhe os versos com leve diferença; e fi-la, porque ele omitiu alguma cousa que se refere aos antecedentes, e eu nada podia omitir.
↩ voltar à passagem, v. 262
v. 319Júpiter, Palas, Febo, quem me dera
Alguns tradutores não se lembraram de que em Homero, se às vezes podemos sem inconveniente alterar a ordem em que vêm os nomes próprios, nem sempre é isso permitido. Aqui não se poderia pôr Febo em primeiro lugar que Palas, porque esta ocupava as honras depois logo de Júpiter, e só lhas disputava Juno. Diz Horácio: Proximos illi (Jovi) tamen occupavit Pallas honores.
↩ voltar ao verso 319
v. 429Os Beócios governa Peneleu,
Começa a enumeração das naus, difícil de verter pelos muitos nomes próprios de homens e terras. Os Italianos ordinariamente não omitem os epítetos; o que lhes levou a mal Rochefort, afirmando que sendo a passagem excelente em grego, é impossível trasladá-la em francês em muitas particularidades, e ralha com eles por ousarem fazê-lo: ao mesmo tempo tachou a língua toscana de inconsistente e não sei de que mais, quando na verdade é sonora, doce, poética e locupletíssima. Para o francês mostrou M. Giguet, na sua tradução em prosa, que se podiam traspassar os epítetos gregos. Se idéias há que mais sobressaem numa língua do que em outra, não é menos certo que o belo o é em todas e em todos os séculos: quando uma boa obra no original torna-se má na versão, culpa é do tradutor. — Este lugar, cheio de adjetivos compostos e de nomes individuais, para agradar aos modernos deve ser sustentado com harmoniosa versificação ou com prosa à Chateaubriand. Outros constam de miudezas, interessantes aos antigos e fora do gosto presente; outros parecem vulgares ou baixos. O meio de acabar o tradutor com essa vulgaridade ou baixeza, é exprimir-se em termos precisos e frisantes; por exemplo, quando se fala da matança ou talho das reses, dos golpes em certos membros ou partes do corpo. Que há de mais comum e simples que preparar um chá e convidar para ele um amigo? Porém Garção pintou com tão vivas cores todos os pratos, que é esse um dos seus admiráveis sonetos: o espírito, ocupado em confrontar a expressão com os objetos, sente um grandíssimo prazer; não nos deleitamos somente com o sublime e com o patético, e no mundo de pensamentos e imagens que se chama epopéia bom é haver de tudo. — Não sou pois daqueles que desprezam formosos pedaços de Homero sob o pretexto de serem contra o paladar moderno. Cumpre lutar com o original, temperando a iguaria com os adubos que nos ministra cada língua, ou pedindo-os às estranhas em caso de necessidade: o mais não é traduzir; é emendar ou corrigir o que não há mister emenda nem correção; é tirar aos leitores o gosto de penetrar na antiguidade.
↩ voltar ao verso 429
v. 571Na hecatômpola Creta abastecidos,
O epíteto hecatômpola, que ouso introduzir, quer dizer de cem cidades: não se confunda com hecatômpila, isto é de cem portas, introduzido por Francisco Manuel; do qual me servirei também nesta versão.
↩ voltar ao verso 571
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