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IlíadaLivro VI
LivroVI

Sós na lide os mortais, de parte a parte

468 versos · 8 notas do tradutor


  1. Sós na lide os mortais, de parte a parte
  2. Ígneo furor aqui e ali se ateia;
  3. Nos dois campos graniza, arremessada
  4. Entre o Símois e o Xanto, ênea procela.
  5. Ajax, da Grécia muro, escala a Tróica
  6. Falange, e livra os seus do Eussório Acamas,
  7. Dos Traces o maior, mais formidável:
  8. Dardo pelo cocar de espessa crina
  9. O osso varou da testa, e em feral treva
  10. Os lumes lhe apagou. — Diomedes rende
  11. O Teutrânida Axilo, que opulento
  12. Na grandiosa Arisba, humano em casa,
  13. Da estrada à beira agasalhava a todos:
  14. Mas nenhum lhe acorreu no transe amaro,
  15. Nem ao pajem Calésio, então cocheiro;
  16. Que ao reino de Sumano ambos desceram.
  17. Prostra Euríalo a Dreso e Oféltio; assalta
  18. Pédaso com Esepo, que houve gêmeos
  19. Bucolion da náiada Abarbárea:
  20. Vero Bucolion de Laomedonte
  21. Primogênito filho, inda que espúrio,
  22. Ovelhas pastorava, e em doce amplexo
  23. Concebeu-os a ninfa: os pulcros membros
  24. Lhes dissolve e os despoja o Mecisteide.
  25. A Astíalo o aguerrido Polipetes,
  26. A Pedites Percósio enfia Ulisses;
  27. Teucro ao divo Etaon, a Ablero Antíloco;
  28. O rei dos reis a Elato, que da altiva
  29. Pédaso o puro Satnióis gozava.
  30. A Fílaco fuginte o heróico Leuto
  31. Veloz suplanta; Eurípilo a Melântio.
  32. Partindo-se o temão desembestados
  33. A Adresto os brutos, pávidos num ramo
  34. De tamargueira se enlearam, quando
  35. Para a cidade em fuga os mais seguia:
  36. Testa no pó, revira junto à roda;
  37. Menelau toma-o vivo e a lança aponta;
  38. Adresto ajoelha e implora: “Sê piedoso,
  39. Por mim resgate esplêndido recebe:
  40. Cobre, ouro, ferro variamente obrado,
  41. Entesourou meu pai; com mão profusa
  42. Dará, se a bordo me souber cativo.”
  43. Já, de compadecido, ia entregá-lo
  44. A um servo que o levasse à Grega frota;
  45. Minaz bramindo acorre-lhe Agamemnon:
  46. “Débil a Teucros, Menelau, perdoas?
  47. De certo agradeceram-te a hospedagem.
  48. Nem mesmo o infante no materno ventre
  49. Escape à nossa fúria; em cinzas Tróia,
  50. Inglórios todos insepultos jazam.”
  51. Com tais razões mudado, o irmão lhe empurra
  52. O nobre Adresto; a quem na ilharga fere,
  53. Supino estende, e a retrair o freixo,
  54. O pé finca-lhe aos peitos Agamemnon.
  55. Nestor a gritos: “Eia, amigos Dânaos;
  56. Nenhum, de Marte ó fâmulos, se atrase
  57. Para às naus se tornar com pingue espólio:
  58. Matai, matai; que os mortos pelo campo
  59. Devagar ao depois saquearemos.”
  60. Isto os atiça e alenta. E em Ílio os Teucros
  61. Talvez de acobardados se acoutassem
  62. Lá se não fosse Heleno Priamides,
  63. Augur sem par: “Em vós, Heitor e Eneias,
  64. Que sois no pulso e aviso os mais prestantes,
  65. Lícios e Troas a esperança libram:
  66. De ala em ala, ide já deter os nossos,
  67. Que em destroço nos braços das consortes
  68. Não se salvem, com riso dos contrários.
  69. Mas, assim que exortardes as falanges,
  70. Nós, do cansaço opressos, neste aperto
  71. Combateremos firmes, para aos muros
  72. Ires, Heitor. A nossa mãe requeiras
  73. Que as matronas congregue, e de Minerva
  74. Subindo ao sumo alcáçar, os batentes
  75. Ao sacrário descerre; oferte às plantas
  76. Da olhicerúlea crinipulcra déia
  77. De quantos peplos guarda o que mais preza
  78. Por grande e por donoso, e doze intactas
  79. Anejas indomadas lhe prometa
  80. Sacrificar, se houver dos nossos filhos
  81. E das esposas dó, longe da santa
  82. Ílio apartando o campeão Tidides,
  83. Formidoloso artífice da fuga.
  84. Dos Gregos valentíssimo o reputo;
  85. Nem de Aquiles, que prole crêem divina,
  86. Nos temíamos tanto: agora aquele
  87. Mais sanhudo se mostra e inelutável!”
  88. Concorde o irmão, do carro em armas salta,
  89. Hastas pontudas brande, e por onde ia
  90. Inflama os seus, que revertendo arrostam.
  91. Vão-se escoando os Gregos da matança,
  92. E o rumor se espalhou que em pró dos Frígios
  93. Do estelífero pólo um deus baixara.
  94. Clama a todos Heitor: “Ânimo, Teucros,
  95. Vós longínquos amigos e aliados,
  96. Sede homens, vosso ardor não se arrefeça,
  97. Enquanto vou-me a idosos conselheiros
  98. E às consortes propor que o Céu demovam
  99. Com preces e hecatombes.” Nisto ombreia
  100. O galeato herói de copa o escudo,
  101. E ao marchar o debrum de couro negro
  102. A cerviz lhe batia e os calcanhares.
  103. Na ânsia de pelejar, da liça em meio
  104. Glauco de Hipóloco e o Tidides perto
  105. Já se afrontavam; mas falou Diomedes:
  106. “Quem és, homem bravíssimo, a quem nunca
  107. Vi no conflito, que os varões afama?
  108. Tu na afouteza a todos longe excedes,
  109. Expondo-te ao rigor da lança minha;
  110. Só filhos malfadados se me atrevem.
  111. Do céu vens? Com celestes não contendo:
  112. Viveu pouco o Driâncio atroz Licurgo
  113. Que a tal se abalançou. De Baco as amas
  114. Pelo sacro Nisseio perseguidas,
  115. Picou-as de aguilhada, e elas no afogo
  116. Deixam cair os tirsos; Baco mesmo,
  117. De susto de um mortal, se atira às ondas,
  118. E trêmulo em seu seio o abriga Tétis.
  119. Os de perene vida enraiveceram,
  120. E o Satúrnio o cegou: de curto alento
  121. Sepultou-se aborrido pelos deuses.
  122. Com bem-aventurados não me avenho.
  123. Mas, se a terra te nutre com seus frutos,
  124. Chega-te, e as raias tocarás da morte.”
  125. Então Glauco: “Magnânimo Tidides,
  126. Quem sou perguntas? Como as folhas somos;
  127. Que umas o vento as leva emurchecidas,
  128. Outras brotam vernais e as cria a selva:
  129. Tal nasce e tal acaba a gente humana.
  130. Pois o queres, conhece-me a linhagem;
  131. É bem sabida. — Num recesso de Argos,
  132. A corcéis pacigosa, avulta Efira,
  133. Onde Sísifo Eólides, o astuto
  134. Mais cadimo reinou; seu filho Glauco
  135. Teve a Belerofonte, a quem prendaram
  136. Os Céus de esforço e garbo e gênio afável.
  137. Mas de Preto a mulher, a diva Anteia,
  138. Louca de amores, desejou furtiva
  139. Misturar-se com ele, e despeitosa
  140. De não ter seduzido o casto peito
  141. Pérfida ao rei mentiu: — Belerofonte
  142. Intentou-me forçar; ou morre ou mata-o —,
  143. Em sanha Preto, a cujo prepotente
  144. Cetro os Aquivos sujeitara Jove,
  145. O exilou da cidade; e, religioso
  146. Temendo assassiná-lo, urdiu na mente
  147. Feia vingança: de funestas cifras
  148. Ao sogro o envia com fechado rolo,
  149. Onde a sentença lhe traçou de morte.
  150. Por numes escoltado, ao Xanto e à Lícia
  151. Plaga admitido, em novenal hospício
  152. Lhe imolou touros nove o rei benigno;
  153. Mas na décima aurora dedirrósea
  154. O interrogou, pedindo-lhe a tabela
  155. Que lhe fiara Preto. Os caracteres
  156. Fatais lendo, a Quimera inexpugnável
  157. Mandou-lhe exterminar: tinha esse monstro,
  158. De raça divinal que não terrestre,
  159. A cara de leão, de serpe a cauda,
  160. Caprino ventre, ignívoma a garganta;
  161. E ele extinguiu-a por celeste influxo.
  162. Logo os Solimos debelou, façanha
  163. Que julgava a maior; e enfim deu cabo
  164. Das Amazonas varonis. De volta,
  165. Os mais guapos da Lícia e destemidos,
  166. Juntos numa cilada, o herói desfê-los,
  167. Nenhum restando que levasse a nova.
  168. Nele então vendo o rei divino garfo,
  169. O aquinhoou no império e aceitou genro;
  170. Em patrimônio os povos lhe escolheram
  171. Amplo vinhedo e lavras. Da princesa
  172. Houve Hipóloco e Isandro e Laodâmia.
  173. Esta no toro do prudente Jove
  174. O deiforme gerou pugnaz Sarpédon.
  175. Belerofonte, já dos Céus malquisto,
  176. Na alma comendo-se e evitando os homens,
  177. Sozinho errava pelo campo Aleio.
  178. A Isandro, que os Solimos opugnava,
  179. Trucidou Marte; à Laodâmia Febe,
  180. Que áureas bridas meneia em carro argênteo.
  181. Hipóloco é meu pai, que, no expedir-me
  182. De Ílio em socorro, superior coragem
  183. Me encomendou; que nunca desmentisse
  184. De meus nobres avós, não só de Efira,
  185. Da Lícia em peso altíssimos guerreiros.
  186. Deste preclaro sangue eu me glorio.”
  187. Ledo no chão Diomedes prega a lança,
  188. E diz brandíloquo ao pastor de povos:
  189. “Certo hóspede paterno me és antigo;
  190. Por Eneu dias vinte agasalhado
  191. Belerofonte, mútuos se brindaram:
  192. Coube-lhe um bálteo fúlgido e puníceo;
  193. Coube a Eneu duplicôncova áurea taça,
  194. Prenda que tenho em casa. Não me lembro
  195. De Tideu, que deixou-me em tenra infância,
  196. Indo à facção Tebana, infausta aos Gregos.
  197. Sou teu hóspede em Argos; sê na Lícia
  198. O meu também. Reciprocar os tiros
  199. Mesmo evitemos na refrega: Teucros
  200. Nem outros faltam que eu persiga ou renda,
  201. E Aqueus te sobram, se os depare a sorte.
  202. Patenteemos, permutando as armas,
  203. Que dos avós o hospício respeitamos.”
  204. Nisto, apeiam-se os dois, as destras cerram,
  205. Penhor de fé. Na troca dos arneses
  206. Ofusca Jove a Glauco: pois demente
  207. Com Diomedes cambeia ouro por cobre,
  208. A valia de cem por nove touros.
  209. Vizinho à faia Heitor e às portas Ceias,
  210. Cercam-no e indagam donas e donzelas
  211. Por amigos e irmãos, filhos e esposos.
  212. “Em regra aos numes obsecrai, responde;
  213. Ide, urge a muitas iminente luto.”
  214. Os pórticos reais polidos passa:
  215. Dentro, em lapídeas câmaras contíguas,
  216. Noras cinqüenta e os Priameus dormiam;
  217. E no alto, além do pátio, numas doze,
  218. Também contíguas e também lapídeas,
  219. Os genros e as castíssimas consortes.
  220. A carinhosa mãe, que no aposento
  221. Visitava a pulquérrima Laódice,
  222. O encontra e a mão lhe prende: “O duro prélio
  223. Deixaste, filho? Ah! próximo lutando,
  224. O odioso inimigo assédio estreita;
  225. E desejaste as palmas vir do alcáçar
  226. Para Jove estender. Fica-te um pouco,
  227. Vinho te quero ministrar melífluo,
  228. Com que libes ao Padre e às mais deidades:
  229. Restaurarás bebendo as lassas forças;
  230. Que o vinho as corrobora, e as esgotaste
  231. Por defender os cidadãos lidando.”
  232. “Não, venerável mãe, torna o guerreiro,
  233. Do suave licor não me ofereças,
  234. Que me enerve e do brio me deslembre:
  235. E ao das nuvens Senhor com mãos impuras
  236. Temo libar, e infando é suplicá-lo
  237. De sangueira poluto. Mas ao templo
  238. Da predadora Palas com perfumes
  239. Vai-te asinha, e as matronas congregando,
  240. Oferta aos pés da crinipulcra déia
  241. De quantos peplos guardas o que prezas
  242. Por grande e por donoso; e doze intactas
  243. Anejas indomadas lhe prometas
  244. Sacrificar, se houver dos nossos filhos
  245. E das esposas dó, longe da santa
  246. Ílio apartando o campeão Tidides,
  247. Incutidor feroz de espanto e medo.
  248. Ao templo sobe; eu vou, se me ouvir Páris,
  249. Do ócio espertá-lo. Aberta, o sorva a terra!
  250. O Olímpio o fez medrar, funesto à pátria,
  251. Funesto ao rei. No inferno se afundisse,
  252. Cuido que olvidaria os meus pesares.”
  253. Disse; a mãe volve ao quarto, e pelas servas
  254. De Ílio convoca as donas. Desce mesma
  255. À fragrante recâmara, onde os peplos
  256. Vários tinha e gentis, lavor das moças
  257. Que trouxe da Sidônia o divo Páris,
  258. Da vez que o largo pélago sulcava
  259. Com sua Helena excelsa. Hécuba escolhe
  260. Um que último encontrou, mais recamado
  261. Grande e loução, fulgente como um astro.
  262. Põe-se a caminho; as damas a acompanham.
  263. Ei-las no sumo templo, que a Cisseide
  264. Fresca Teano, de Antenor esposa,
  265. Dali sacerdotisa instituída,
  266. Lhes escancara. As palmas logo todas
  267. Com pranto e grita para o altar ergueram;
  268. E, aceito o peplo, o colocou Teano
  269. Aos pés de Palas, deprecando à filha
  270. Pulcrícoma de Jove: “Honra das deusas,
  271. De Ílio apoio, a Diomedes quebra a lança:
  272. O pó morda, ó Minerva, às portas Ceias;
  273. Doze intactas indômitas anejas
  274. Te imolaremos já, se houveres mágoa
  275. Destes muros, de nós, de nossos filhos.”
  276. Renui Tritônia a rogos tais; e enquanto
  277. As mães votavam, ganha Heitor o alvergue,
  278. Primor que engenhou Páris e os mais destros
  279. Operários de Tróia executaram,
  280. De átrios, salões e camarins soberbos,
  281. Junto a Príamo e Heitor na cidadela.
  282. Entra o herói caro a Jove, sustentando
  283. De onze cúbitos haste, onde encavada
  284. Fulge ênea choupa, que aro de ouro aperta.
  285. Na câmara acha o irmão lustrando a malha,
  286. Curvos arcos, loriga e fino escudo;
  287. E, entre as criadas suas, a Lacena
  288. Às servas repartindo insignes obras.
  289. “Páris, disse agro Heitor, ó desastrado,
  290. Ódio vão cevas, e por ti pugnando
  291. Perecem tantos! Ruge em torno a guerra,
  292. Arde o clamor; e a ti mormente os frouxos
  293. Competia aguçar. Vem, vem, desperta,
  294. Antes que lavre o incêndio em nossos lares.”
  295. E o deiforme Alexandre: “Eu não to nego,
  296. Justo me argúis. Atende-me contudo:
  297. Não por despeito aos nossos, mas por folga
  298. À dor pungente, em ócio me encerrava.
  299. E brando agora mesmo Helena ao prélio
  300. Me compelia; abraço-lhe o conselho,
  301. Porque alterna a vitória os seus favores.
  302. Que eu vista as armas deixa, ou me antecede;
  303. Lá sem demora, irmão, serei contigo.”
  304. Calou-se Heitor, e meiga Helena fala:
  305. “Oxalá, bom cunhado, eu fenecera
  306. Nas entranhas maternas, ou que a brenhas
  307. Um tufão me arrojara, ou me afundira
  308. No flutíssono mar, de horríveis danos
  309. Para não ser a abominanda causa,
  310. Nem perpetrar sem pejo infâmias tantas!
  311. Mas, já que o fado o quis, eu fosse ao menos
  312. Mulher de um bravo, a quem doesse o opróbrio
  313. E o motejar dos homens: sem firmeza,
  314. Nunca a terá por certo, e o fruto espere.
  315. Agora neste escano, irmão, descansa
  316. Do afã que te salteia o peito e a mente,
  317. Por imprudência minha e culpa dele.
  318. Ah! cruel condição! de Jove opressos,
  319. Fábula às gentes no porvir seremos.”
  320. E o cristado varão: “Cortês e afável,
  321. Não me contes reter: esta alma ferve
  322. Por ajudar os que por mim suspiram.
  323. Ativa a Páris, que dos muros dentro
  324. Se me reúna: a despedir-me corro
  325. Da família, da esposa e meu filhinho;
  326. Ignoro se me outorgue o céu revê-los,
  327. Ou se domar-me ordene às mãos dos Gregos.”
  328. Nem mais; segue, e acha fora de seu paço
  329. Andrômaca gentil, que albinitente,
  330. Com o infante e uma serva bem velada,
  331. A gemer e a chorar na torre estava.
  332. Desencontrando a cônjuge incorrupta,
  333. Já da soleira, às fâmulas virou-se:
  334. “Que é da senhora? declarai sinceras:
  335. A uma de longo peplo ou minha ou sua
  336. Cunhada iria, ou agregar-se as damas
  337. Que a Palas crinipulcra infensa aplacam ?”
  338. Respondeu-lhe a zelosa despenseira:
  339. “Pois o queres a flórida princesa
  340. Com nenhuma cunhada ou tua ou dela
  341. De longo peplo está, nem entre as donas
  342. Que a Palas crinipulcra infensa aplacam;
  343. Sim na grã torre de Ílio: ouviu que os nossos
  344. Eram da força Graia assoberbados;
  345. E, levando o menino em braços da ama,
  346. Como doida partiu para as trincheiras.”
  347. Ei-lo as praças desanda e extensas ruas;
  348. E às portas Ceias, no sair ao campo,
  349. Ocorre a esposa, de Eetion nascida,
  350. Que os Cilícios, de Hipóplaco selvosa,
  351. Rei dominava na Hipoplácia Tebas;
  352. De Eetion, que a dotou grandiosamente
  353. Para dá-la ao Priâmeo eriarnesado.
  354. O tenro único Hectóreo, astro em beleza,
  355. A ama o afagava: o nome de Escamândrio
  356. Seu pai lhe impôs, de Astianax o povo,
  357. Por herdeiro do herói de Tróia apoio.
  358. Tácito ele sorriu no filho absorto;
  359. A lagrimar Andrômaca nas suas
  360. A mão lhe aperta e clama: “Temerário!
  361. Perde-te esse valor, nem te amiseras
  362. Desta criança, nem de mim coitada
  363. Cedo viúva; que da Grega fúria
  364. O alvo serás. A terra me sepulte,
  365. Se me faltares tu: só pesadumes
  366. Hão-de cercar-me, sem nenhum conforto.
  367. Pai nem mãe tenho: rasa a de altas portas
  368. Cilícia Tebas, o tremendo Aquiles
  369. A Eetion matou; com seu dedáleo
  370. Arnês, sem despojá-lo, o queimou pio,
  371. E térreo ergueu-lhe um túmulo, que de olmos
  372. Em redor as Oréadas plantaram,
  373. Do Egífero almas filhas. De irmãos sete,
  374. Num dia o Celeríssimo no inferno
  375. Todos mos despenhou, quando pasciam
  376. Bois flexípedes, cândidas ovelhas.
  377. A augusta mãe de Hipóplaco rainha,
  378. Trouxe-a com basta presa; ao depois solta
  379. Por um preço infinito, em seu palácio
  380. Vítima foi de Artemide frecheira.
  381. Tu me és, Heitor, mãe, pai, irmão, florente
  382. Consorte e amigo: tem de mim piedade;
  383. Cá te fiques na torre; órfão não deixes
  384. O infante e a mulher tua. A gente postes
  385. Cerca da baforeira, onde acessíveis
  386. Prestam-se os muros nossos à escalada.
  387. Vezes três os melhores a empreenderam,
  388. Os dois Ajax, Idomeneu, Diomedes,
  389. E os Atridas; ou fosse de agoureiros,
  390. Ou de seus próprios ânimos impulso.”
  391. E Heitor: “São meus, esposa, os teus cuidados;
  392. Mas dos Frígios me temo e das matronas
  393. De roçagantes opas, se em muralhas
  394. Qual fraco a luta evado; e hei-de mim pejo,
  395. Que tenho à frente combatido sempre,
  396. Vindicando a paterna e a glória minha.
  397. Prevejo n’alma o fim da sacra Tróia,
  398. Do corajoso Príamo e seu povo;
  399. Ah! da pátria o porvir me aflige menos,
  400. Da mãe, do rei, de tanto irmão valente
  401. Estendido no pó, que de um soldado
  402. Brutal cativa e em pranto imaginar-te,
  403. E em Argos a tecer, e da estrangeira
  404. Por duro império, atroz necessidade!
  405. À fonte ir de Hipereia ou de Messeide.
  406. E dir-te-ão, do choro teu movidos:
  407. — Pobre mulher de Heitor, o herói que de Ílio
  408. Com mais denodo propugnava em torno! —
  409. De teu marido gemerás saudosa
  410. Para te libertar. Cubra-me a terra,
  411. Antes que os ais te escute e a rastos veja.”
  412. Eis lança ao filho as mãos, que averso e em gritos,
  413. No seio da ama de elegante cinto,
  414. Espantado se encolhe ao pátrio aspecto;
  415. A armadura o apavora, a juba eqüina
  416. Que da cimeira aênea hórrido nuta:
  417. Sorriu-se Heitor, a augusta mãe sorriu-se.
  418. Despe o guerreiro o fulgurante casco,
  419. Pousa-o no pavimento; a seu querido
  420. Em braços leve embala e o beija e ameiga:
  421. “Ó Júpiter, perora, ó deuses todos,
  422. Como eu dai que este seja aos Teucros honra;
  423. Potente o cetro empunhe; ao vir do prélio,
  424. — Inda é que o pai mais forte —, alguém lhe exclame;
  425. Morto o inimigo, no cruento espólio
  426. Volte, e a mãe leda folgue.” À doce esposa
  427. O entrega então, que entre chorando e rindo
  428. No fragrante regaço o filho acolhe.
  429. Terno olhando o consorte, a acaricia:
  430. “Por mim tanto, anjo meu, não te consternes:
  431. Contra o fado abismar-me ninguém pode,
  432. Nem há nascido quem se furte ao fado,
  433. Por estrênuo ou medroso. A casa busca;
  434. No tear, no lavor, na roca entende,
  435. E as servas atarefa: aos homens de Ílio,
  436. E a mim principalmente, a guerra incumbe.”
  437. Do chão leva o emplumado capacete,
  438. E retirou-se Andrômaca, amiúde
  439. Atrás volvendo os olhos gotejantes.
  440. Na cômoda mansão de Heitor sangrento
  441. Em luto encontra as servas, que o pranteiam
  442. Vivo, por crerem que do urgente risco
  443. Nem dos feros Aqueus se escaparia.
  444. Não langue Páris na orgulhosa estância;
  445. De brônzeo arnês vistoso revestido,
  446. Com pé ligeiro atravessava as ruas.
  447. De centeio cevado à manjedoura,
  448. Do amor pungido, a claro banho afeito,
  449. Roto o cabresto, unguíssono cavalo
  450. Pulsa o campo; a cabeça engala e emproa,
  451. A crina a flutuar pelas espáduas;
  452. Da bizarria ufano, ágil galopa
  453. Ao rio ameno e aonde as éguas pastam:
  454. Assim de Pérgamo o Priâmeo em armas
  455. Desce, luz como o Sol, exulta e marcha;
  456. De pronto e lesto alcança a Heitor, que vinha
  457. Da prática de Andrômaca, e lhe fala
  458. Pressuroso: “Eu talvez, remisso às ordens,
  459. Te hei, venerando irmão, contido o fogo.”
  460. E alegre Heitor: “Quem saiba avaliar-te
  461. Far-te-á justiça, ó caro; és denodado,
  462. Mas tíbio e inerte e mole; é-me penoso
  463. Exprobrarem-te os sócios, que padecem
  464. Pelo erro teu. Avante; comporemos
  465. Estas questões, quando aprouver a Jove
  466. Que, expulsos os Grajúgenas grevados,
  467. Em nosso lar brindemos e erijamos
  468. Livre cratera aos sempiternos deuses.” * * *

Nota a nota · 8 notas

v. 30A Fílaco fuginte o heróico Leuto
Tomei a liberdade, aqui e já no segundo livro, de usar do nome Leuto, e não Leito, cujo som traz à memória uma cama.
↩ voltar ao verso 30
v. 147–156Feia vingança: de funestas cifras
Esta passagem, mostrando que antes da guerra de Tróia já se comunicavam por cifras e sinais, parece opor-se aos que afirmam que no tempo de Homero ainda não se conhecia a escritura. Note-se que as tais cifras iam num rolo, como ao depois se fazia com as letras.
↩ voltar à passagem, v. 147
v. 205–208Penhor de fé. Na troca dos arneses
Tenho por um pouco fora de propósito este cálculo comercial de Homero, de que a troca era contra Glauco.
↩ voltar à passagem, v. 205
v. 356Seu pai lhe impôs, de Astianax o povo,
A Escamândrio, o filho de Heitor, o povo chamava Astianax, porque seu pai era ãsteos anax, isto é defensor de Tróia.
↩ voltar ao verso 356
v. 376–378Bois flexípedes, cândidas ovelhas.
Flexípede, do latim, responde ao grego no verso 424. — Artemide, outro nome de Diana, adotado por Monti. — Ajaces, no plural, é precedido quase sempre do artigo os, juntam-se muitos sons sibilantes, cousa desagradável quando não serve à harmonia imitativa; assim, gosto mais do plural Ajax, como em francês. Temos outros nomes próprios que não mudam; e, se muitos dizem cálices, a maior parte usa de calis em ambos os números.
↩ voltar à passagem, v. 376
v. 385Cerca da baforeira, onde acessíveis
Digo baforeira e não figueira brava, porque é o vocábulo português mais próprio e que melhor traduz éphineós ou o latim caprificus: figueira brava é mais genérico. Veja-se a este respeito o dicionário de Moraes.
↩ voltar ao verso 385
v. 413–427No seio da ama de elegante cinto, ⋯ O entrega então, que entre chorando e rindo
Euzoncio, de belo cinto, é epíteto que se não pode omitir; mostra que naqueles tempos, como nestes nossos, as mães traziam as amas enfeitadas; e o mesmo consta do epíteto bem velado, correspondente ao do verso grego 330, que vem acima. — Juba comumente se aplica ás guedelhas do leão; mas com o adjetivo eqüina pode aplicar-se às crinas do cavalo, como em latim. — A interpretação do verso 484 do original, no meu 427, é que Heitor pôs o menino entre os braços da mulher, a qual no meio das lágrimas sorriu; e não que chorava o menino, cousa que na passagem nada acrescentava: do meu parecer foram o intérprete latino, Monti e outros mais.
↩ voltar à passagem, v. 413
v. 439–440Atrás volvendo os olhos gotejantes.
Daimonin é tanto o mau como o bom espírito; em português demônio só significa o mau, chamando-se anjo ao bom. Sei que anjo tem uma aceitação particular entre cristãos e muçulmanos; mas aqui o tomo no sentido genérico, bem que figuradamente, de bom espírito ou gênio tutelar. — Homero, no verso 497 correspondente ao meu 410, chama cômoda a morada de Heitor, e assim contrasta os gostos modestos do protetor de Tróia com o luxo de Páris, cujo palácio era custoso e magnífico. Este epíteto está bem longe de ser supérfluo, posto que tenha sido omitido pela maior parte dos tradutores.
↩ voltar à passagem, v. 439
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Próximo livroVIIAssim, das portas rui Heitor mais Páris