Ao desdobrar seu manto a crócea Aurora
455 versos · 4 notas do tradutor
- Ao desdobrar seu manto a crócea Aurora,
- No vértice do Olimpo cumioso
- Junta o Fulminador a etérea corte;
- Acena, e escutam-no: “O que em mim resolvo,
- Celícolas, sabei; nem deus, nem deusa
- Renua, mas unânimes concorram
- Para os projetos meus cumpridos serem.
- Se algum for socorrer Aqueus ou Frígios,
- Cá voltará golpeado e vergonhoso;
- Ou no Tártaro eu próprio hei-de afundi-lo,
- Gólfão de érea soleira e férreas portas,
- Do Orco distante como o céu da terra:
- Quem sou conheça. Duvidais? Suspensa
- Da abóboda estrelada áurea cadeia,
- Deuses e deusas, pendurai-vos dela
- E juntos forcejai, que a Jove sumo
- Nem mesmo abalareis; mas, se aprover-me,
- Puxar-vos-ei de cima e a terra e os mares,
- E enrolada a cadeia ao tope Olímpio,
- Penderá das alturas o orbe inteiro:
- Tanto os numes supero e tanto os homens.”
- Esta ameaça espanta-os e emudece,
- Menos a de olhos garços: “Pai Satúrnio,
- Senhor te confessamos e invencível.
- Se combater porém nos é vedado,
- Permite aconselhemos os briosos
- Lamentáveis Aqueus, para que ao sopro
- Da ira tua não pereçam todos.”
- E a sorrir o Nubícogo: “Tritônia,
- Descansa: austero fui, mas condescendo
- Contigo, ó filha amada.” — Aqui, jungindo
- Erípedes corcéis de crina de ouro,
- Monta cosido em ouro, em ouro o açoute
- Lavrado agita: a rápida parelha
- Entre o sidéreo pólo e a terra voa.
- No Ida, que em fontes brota e abunda em feras,
- Junto ao Gárgaro o autor de homens e deuses,
- Onde ara tem fragrante e umbroso luco,
- Solta os frisões do coche e os enevoa;
- De glória a comprazer-se, está no pino
- Contemplando a cidade e a frota Argiva.
- Depressa almoça a guedelhuda gente,
- Arma-se. Em menor cópia armam-se os Teucros;
- Insta a lei de amparar filhos e esposas.
- Francas as portas, com fragor borbotam
- Équites e peões. Já face a face,
- De érea malha os guerreiros se rechaçam,
- Cruzam-se hastas, embatem-se rodelas,
- Com tumulto e alarido: um cai gemendo,
- Este urra, outro alardeia; o sangue jorra.
- Cresce a luz matutina, o estrago é dúbio;
- Mas, quando o sol medeia, áurea balança
- Libra o Supremo, e dos partidos ambos
- De sonífera morte os fados pesa:
- A concha dos Aqueus se inclina e abate;
- Sobe a dos Frígios e se eleva aos astros.
- Contra os Aqueus fulgura e do Ida toa;
- Eles de frio susto e assombro enfiam:
- Idomeneu retira-se e Agamemnon,
- E os fulmíneos Ajax. Mau grado, resta
- Nestor só, dos Grajúgenas custódio;
- Que Alexandre frechou-lhe um dos cavalos
- Nos testos e onde vem primeiro a crina,
- Sítio letal. Varado o cerebelo,
- Dorido e em gêmeas, conturbando os outros,
- Ao pé da roda o bruto se debate:
- E, enquanto a gládio o velho corta os loros,
- De Heitor as éguas buscam-no fogosas,
- E audaz cocheiro as guia, o mesmo Heitor.
- Morto o Gerênio fora, se advertido
- Horrendo não bramasse o herói Diomedes:
- “Cauto Laércio, no tropel te ocultas?
- Vil por detrás um dardo não receias?
- Pára, afastemos o feroz contrário
- Do venerando amigo.” — Surdo Ulisses,
- Paciente e apressado, às naus caminha.
- Antessignano, bem que só, Tidides
- Chega-se ao bom Neleio, e sem demora:
- “Bravo ancião, mancebos te perseguem:
- Torpe enerva-te as forças a velhice;
- Fraco é teu pajem, teus cavalos débeis:
- Monta, e prova os de Troe, pouco há tomados
- Ao nobre Anquíseo artífice da fuga,
- No encalço ardentes, no evadir-se lestos.
- Esses aos nossos confia; o meu dos Frígios
- Contra os carros desfeche; a Heitor mostremos
- Se a lança em minhas mãos desvaira insana.”
- A Eurímedon e Estênelo animosos
- Deixa os corcéis Nestor, ascende e agita
- Logo o flagelo e as artefatas rédeas
- Ao coche de Tidides; que já perto
- A Heitor esgrime a lança; a lança errada
- Ao do grã Tebeu filho espeta a mama,
- A Eniópeo fiel, que, em punho as bridas,
- Cai do assento, e os ginetes retrocedem.
- O arcar do sócio ao bravo Heitor consterna,
- Que mesto e aflito, em busca de outro auriga,
- Expirante o abandona. Os corredores
- Não lhe tardou quem reja; encontra prestes
- Arqueptolemo Ifítides galhardo,
- Fá-lo subir e entrega-lhe os tirantes.
- Em derrota sanguenta, encurralados
- Seriam dentro os Frígios como ovelhas,
- Se ante o coche Diomédeo o pai dos deuses,
- Com medonho estampido, não vibrasse
- Candente raio de sulfúrea chama:
- Os solípedes fremem de assustados;
- Perde as bridas Nestor: “Hui! não retardes,
- Rege, Tidides, aos corcéis a fuga:
- Do infesto Jove o desfavor não sentes?
- Hoje é pelo inimigo, e se lhe agrade,
- A nós depois concederá vitória.
- De Jove ninguém há, por mais pujante,
- Que à vontade resista onipotente.”
- Responde ele: “Ancião, tu bem ponderas;
- Mas dói n’alma que Heitor jacte-se um dia:
- — De mim fugindo se embarcou Tidides. —
- Antes fenda-se a terra e em si me engula.”
- E o Gerênio: “Tidides, que proferes?
- Heitor chame-te embora ignavo e imbele,
- Certo o não crêem Dardânidas e Frígios,
- Nem as mulheres de adargados jovens
- Que arrojaste no pó.” — Nisto, à carreira
- Os ungüíssonos toca; Heitor e os Troas
- Bramando chovem gemebundos tiros.
- E o Priâmeo a zombar: “Tidides fera,
- No assento os Graios campeões te honravam,
- Das viandas na escolha e em cheias taças;
- Desprezam-te hoje, ó coração de fêmea.
- Foge, estes muros não transpões, donzela;
- Sou quem to impede: acabarás primeiro
- Que arrastes a teu bordo as caras Teucras.”
- Pugnaz Diomedes quis voltar seu coche;
- Cuida e o pensa três vezes, três vitória
- Sinalando aos Trojúgenas, murmura
- Dos serros do Ida o próvido Satúrnio.
- Então vozeia Heitor: “Sede homens, Lícios;
- Dardanos, Troas, afrontai perigos;
- Seu denodado esforço a todos lembre.
- Acena-me o Tonante; a glória é nossa,
- Ai deles! A meu braço empeço frágil,
- Essa trincheira estultos construíram.
- Lestos cavalos saltarão seu fosso.
- Tratai próximo às naus de acender fachos,
- Com que eu mesmo as abrase e imole nelas
- Os Aquivos no fumo estonteados.”
- E afalando os corcéis: “Pagai-me agora,
- Xanto, Lampo divino, Eton, Podargo,
- Da nobre Andrômaca Etiônia o penso,
- O doce farro, o prodigado vinho
- A vós primeiro do que a mim, que jovem
- Marido seu me ufano: eia, alcancemos
- De etérea fama áureo broquel Nestório
- De áureas embraçadeiras, e dos ombros
- Desse Diomedes o gibão dispamos,
- Primor Vulcâneo. Se os consigo, espero
- Que os Aqueus esta noite às naus se acolham.”
- Deste orgulho indignada, Juno augusta
- No trono agita-se e estremece o Olimpo;
- Olha a Netuno: “Enosigeu potente,
- Que! dó não tens dos miserandos Gregos?
- Enchem-te eles contudo em Hélice e Egas
- De guapos dons. Se os amas, seus fautores
- Unamo-nos, e os Troas rechaçados,
- A assentar-se no Gárgaro obriguemos
- O Amplo-fremente solitário e triste.”
- “Cala-te, ousada, lhe gritou Netuno;
- Com todos resistir eu não quisera
- A quem único a todos nos supera.”
- Entanto, coches e peões se apinham
- Desde a praia à trincheira e desta ao fosso;
- Que, a Marte igual, os atropela e cerra
- De glória Heitor por Jove cumulado.
- E ardera a frota, se, de Juno a impulsos,
- Por navios e tendas Agamemnon,
- Na mão purpúreo manto, não parasse
- De Ulisses no baixel, que era no centro,
- A fim de ouvido ser nos dois extremos,
- Onde o arraial, em seu valor afoutos,
- O Telamônio e Aquiles assentaram.
- Alto vociferou: “Que infâmia, ó Dânaos,
- Pasmosos em beleza, em obras torpes!
- Que é dos brios que em Lemnos blasonáveis,
- De cornígeros bois gostando as carnes,
- Das crateras bebendo engrinaldadas?
- Cem ou duzentos cada qual prostrava;
- Hoje Heitor só nos vence, e as naus em chamas
- Vai devorar!... Ó Padre, um potentado
- Hás por bem afligi-lo e desonrá-lo?
- Teu culto preteri na instruta popa?
- Tua ara não brilhou? Por toda a parte
- Gordura e coxas te queimei taurinas,
- Cobiçando assolar aqueles muros.
- Escaparmos, senhor, permite ao menos,
- Não consintas que os Teucros nos destruam.”
- Anui, das queixas condoído o nume,
- A que salve-se o campo; envia uma águia,
- Infalível augúrio, a qual das unhas
- Roubado o gamozinho à mãe ligeira
- Junto larga do altar, onde os Aquivos
- A Jove Panonfeu sacrificavam.
- Da ave Dial à vista, eles furentes
- A peleja precípites renovam.
- De tantos só Diomedes a carnagem,
- Transpondo o fosso em vívidos ginetes,
- Se gabou de estrear: muito antes de outrem.
- Mata o varão, que elmado ia fugindo,
- Fradmonide Agelau; entre as espáduas
- Enterra o dardo, que lhe sai aos peitos;
- Ao cair do seu coche, o arnês ressoa.
- Logo os Atridas, os Ajax forrados
- De intrepidez; Idomeneu seguiu-se
- Com Merion, rival do cru Mavorte;
- Mais o famoso Eurípilo Evemônio;
- O arco elástico atesa e é nono Teucro.
- Este ao pavês do grande irmão se abriga:
- Seguro em torno esguarda, e assim que frecha
- E derriba um na chusma, qual menino
- Da mãe ao seio, para Ajax reverte,
- Que sob o escudo esplêndido o protege.
- A quem o exímio herói prostrou primeiro?
- A Orsíloco e Detor, Crômio, Ofelestes,
- O Poliemônio Hamópaon e Órmeno,
- Menalipo e o disforme Licofonte;
- O almo chão de cadáveres juncando.
- Do arco letal, que batalhões descose
- Contente o rei dos reis chegou-se a Teucro:
- “De povos chefe amado, eia, sê brilho
- À Grécia e a Telamon, que a ti bastardo
- Criou-te em casa com paterno afeto;
- Honra-o de longe e paga-lhe a ternura.
- Se o Egíaco e Palas me consentem
- Soverter a cidade majestosa,
- Prometo-te após mim do prêmio a escolha,
- Uma trípode, ou carro e dois cavalos,
- Ou moça esbelta que te suba ao leito.”
- E Teucro: “Incitas-me, ínclito Agamemnon?
- Como! do ardor não vês que nada afrouxo?
- Deste que repelimos o inimigo,
- A dignos campeões disparo setas;
- Oito farpadas já vararam todas
- Corpos de oito mancebos valorosos;
- Mas o rábide cão tocar não posso.”
- Do nervo aqui desprega uma ansiosa
- De embeber-se em Heitor; mas deste a berra,
- Na polpa entrando peitoral do insigne
- Gorgition, que a Príamo parira
- Gentil consorte e airosa como as deusas,
- Castianira, de Ésima roubada:
- Qual dormideira em horto ao peso dobra
- Do fruto e verno humor, a testa o jovem
- Do elmo agravada inclina. — Eis outra em busca
- Zune de Heitor; mas, desviando-a Febo,
- De Arqueptolemo audaz, que em sanha ataca,
- Prega-se à mama; ao revirar do auriga
- Moribundo os solípedes recuam.
- O herói, pungido n’alma, o deixa; as bridas
- Comete a Cebrion, que ali presente,
- Monta ao coche do irmão; de um pulo, em terra
- O galeato sevo Heitor se apeia;
- Bramindo horrendamente, um seixo aferra,
- Ávido corre a Teucro, ao passo que este
- Seta amarga destoja e ao nervo adapta,
- E o puxa e ombreia já: mas o Priâmeo
- Joga a pedra à clavícula, onde os peitos
- Separa da cerviz, lugar funesto:
- Rota a corda, a munheca amortecida,
- Nos joelhos se escora, e foge-lhe o arco.
- Do irmão sem descuidar-se, à pressa o cobre
- Ajax com seu pavês, té que dois sócios,
- Divo Alastor e Mecisteu de Équio,
- Egro e gemente em braços o transportam.
- O Olímpio inflama os Troas, que em seu fosso
- Acuam o inimigo; Heitor à testa
- Gira medonho os lumes: qual sabujo
- Pós javardo ou leão, nos pés fiado,
- Ancas mordeu-lhe ou coxas; tal, no alcance,
- Mata o mais atrasado. Assim que os Dânaos,
- Depois de horrível perda, se entrincheiram
- E vão às naus, aos céus em altas vozes
- Alçam palmas; Heitor passeia em torno
- Bem-crinitos frisões, e uns olhos vibra
- Como a Górgona ou Marte sanguinário.
- A bracinívea Juno aguça a Palas:
- “Ah! do Egífero prole, aos Gregos nossos
- Nem valemos no lance derradeiro!
- Por fúria intolerável de um Priâmeo,
- Que de mortes! que males! que desastres!”
- “Na pátria ele acabara às mãos dos Gregos,
- Diz Minerva, se iníquo, insano e duro,
- Os ímpetos meu pai não me impedisse;
- Esquece que do céu baixei freqüente
- Para ao filho acudir que ao céu mandava
- De opressões de Euristeu carpidas queixas!
- Previsse eu tal, que nunca o mesmo Alcides,
- Do Orco às validas portas enviado
- A prender o atro cão do rei das sombras,
- Desse Estígio escapara abismo fundo.
- Hoje pospõe-me a Tétis, que os joelhos
- Beija-lhe e afaga o mento, para que honre
- O urbífrago Pelides; mas ainda
- A Glaucopide sua há-de chamar-me
- Aparelha os corcéis enquanto à régia
- Vou me arnesar, a ver se o nosso aspecto
- Alegra o herói famoso: a cães e abutres
- Cuido satisfará de zerbo e carnes,
- Junto às naus estirado, algum Troiano.”
- Presto a real Satúrnia arreia de ouro
- E orna a fronte aos cornípedes comados.
- Solta Minerva no paterno solho
- Bordado véu que nítido lavrara;
- Do nubícogo deus veste a loriga,
- Veste o arnês dos combates lagrimosos;
- Monta ao fulgente coche, enorme libra
- Hasta pesada, com que inteiras hostes,
- Do prepotente filha, irada prostra.
- Juno os tiros verbera: eis por si rangem
- Portões que as Horas guardam, sentinelas
- Da suma casa etérea, a cuja entrada
- Fechar e abrir lhes toca a nuvem densa;
- Dóceis transpassam-na os corcéis divinos.
- Do Gárgaro as vê torvo, expede o Padre
- Íris ali-dourada: “Eia, a caminho,
- Voa e volta, e nos poupa ímpia contenda;
- Hei-de ao jugo, assevero, os corredores
- Estropear, e derribadas elas,
- O carro esmigalhar: do raio as chagas
- Nem em dez nos sararão; Minerva
- Saiba quem é seu pai. Vezeira Juno
- Sempre a contrariar, me irrita menos.”
- Procelípede a núncia, do Ideu cimo
- Ao de altibaixos grande Olimpo adeja;
- Topa-as na falda: “Suspendei; mensagem
- Trago de Jove. Que furor vos cega?
- Ele vos tolhe auxiliar os Dânaos.
- Sob o jugo assevera os corredores
- Estropear, e derribadas ambas,
- O carro esmigalhar. Do raio as marcas
- Mais de anos dez comprovarão, Minerva,
- Quem é teu celso pai. Vezeira Juno
- Sempre a contrariá-lo, o irrita menos:
- Ousarás, insolente ladradora,
- Enristar contra Jove a enorme lança?”
- Íris foi-se, e virou-se a Palas Juno:
- “Ó do Egífero prole, eu já não quero
- Que por mortais com ele contendamos.
- Vivam, pereçam, como ordene a sorte;
- Reto o Supremo a seu prazer decida.”
- E os comantes sonípedes revira,
- Que as Horas desjungidos ao presepe
- Ligam suave, e às lúcidas paredes
- O carro inclinam: mestas, entre os numes,
- Em selas de ouro as duas se recostam.
- Do Ida ao céu roda o Padre em coche airoso;
- Que dos corcéis desprende, em linho o envolve
- Junto às aras Netuno. Do entronado
- Altissonante aos pés o Olimpo treme.
- Sós de parte, assentadas, Juno e Palas
- Nem boquejavam; mas percebe-as Jove:
- “Tristonha estás, Satúrnia, e tu Minerva?
- Quão lassas da batalha gloriosa
- Em que aborridos Teucros derrotastes!
- Esqueceu-vos que os íncolas do Olimpo
- Ao poder do meu braço não resistem?
- Antes mesmo das bélicas proezas,
- Os melindrosos membros vos tremiam.
- Fulminadas, por certo, em vosso coche
- Às mansões imortais não voltaríeis.”
- Contíguas, gemem comprimindo os lábios
- Juno e Minerva, e dano aos Teucros urdem.
- Cala e a seu pai Minerva oculta a raiva;
- Mas Juno estoura: “Cru minaz Satúrnio!
- Senhor te confessamos e invencível.
- Se combater porém nos é vedado,
- Permite aconselhemos os briosos
- Lamentáveis Aqueus, para que ao sopro
- Da ira tua não pereçam todos.”
- E o tonante: “Olhitáurea augusta Juno,
- Quem sou te mostrarei; verás, se o queres,
- N’alva os teus feros Gregos em derrota.
- Heitor há de acossá-los, té que esperte
- Um dia o ágil Pelides, ante as popas
- No estreitar-se ao cadáver de Pátroclo
- Sevíssimo conflito: é lei do fado.
- Que presta vão rancor? Nem que te sumas
- Da terra e mares nos confins, abismos
- Do Tártaro onde Iápeto e Saturno
- De aura jacunda e claro sol não logram;
- Nem que erres tão remota, iguais furores,
- Ó poço de impudência, em pouco tenho.”
- Não tuge a bracinívea. No Oceano
- Cai o Sol, e após ele na alma terra
- Se espalha a noite, com pesar dos Teucros;
- Mas aos Dânaos foi grata a espessa treva.
- Das naus longe, ante o rio vorticoso,
- Do morticínio fora, a Heitor atentos,
- Caro a Jove, os Troianos se apeavam,
- E em lança de onze cúbitos, luzida
- Com ênea cúspide e áureo anel em torno,
- Ele se apóia, e rápido perora:
- “Ouvi, Dardanos, Troas e aliados.
- Pouco há pensáveis, destruída a frota,
- Em Ílio entrar ovantes; mas na praia
- Salvou denso negrume as naus e os Gregos.
- Ceda-se à noite, e a ceia preparemos.
- Ao pasto soltos os frisões crinitos,
- Vinho comprai suave, e o pão das casas
- E bois trazei da praça e ovelhas gordas.
- Lenhai com que entreter noturnos fogos,
- Até que a filha da manhã resplenda:
- Pelo amplo dorso equóreo a gente Aquiva
- Não cometa às escuras escapar-nos;
- Nem se embarquem sem risco, mas na praia
- Cure-se algum dos tiros e lançadas
- Que o firam no trepar; temam vindouros
- Guerra mover chorosa a heróis Troianos.
- Apregoai, de Jove amados núncios,
- Que os de alvas cãs e os púberes em rondas
- Nos muros velem que imortais ergueram;
- Cada mulher seu fogaréu acenda;
- N’ausência nossa advirtam sentinelas
- De ataque súbito a cidade inerme.
- Isto se cumpra; de manhã, guerreiros,
- Mais vos direi. No Olimpo e em Jove espero
- Esses cães enxotar, que em fuscos vasos
- Trouxe destino infausto, e infausto os leve.
- De noite alerta, na arraiada prontos
- Junto às naus excitemos o acre Marte.
- Verei se o Grã Tidides me repele
- Das popas à muralha, ou de hasta aênea
- Se o prostro e arranco-lhe o sangüento espólio.
- Seu valor provará, se deste braço
- O embate sustiver, mas conto em frente
- Caia no albor do Sol, com muitos sócios.
- Isento eu seja da velhice e morte,
- E honre-me qual Minerva ou qual Apolo,
- Como o dia aos Aqueus será funesto.”
- O aplauso ecoa. Desjungidos foram
- Os suados ginetes, e a seu coche
- O tiro se encabresta. Ovelhas gordas
- E bois trazem da praça e o pão das casas,
- Vinho compram suave e lenha empilham;
- Fumo e cheiro do campo ao céu remontam;
- Em ordem bélica, ufanosos todos
- Ante os fogos pernoitam, quando no éter
- Sereno, em cerco da fulgente Lua,
- As formosas estrelas aparecem,
- Grutas, serros e brenhas aclarando:
- Abre-se imensa a região sidérea,
- E o pastor em si folga: de Ílio em face
- Iam-se tantos lumes acendendo
- Entre o Xanto e os baixéis. De mil fogueiras
- Homens cinqüenta a cada uma assistem.
- Farro e espelta os corcéis comendo, esperam
- A Aurora apoltronada em pulcro sólio. * * *