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IlíadaLivro XXI
LivroXXI

Num vau do refluente ameno Xanto

512 versos · 8 notas do tradutor


  1. Num vau do refluente ameno Xanto,
  2. Gérmen de Jove, os Teucros divididos,
  3. Parte à cidade Aquiles os rechaça,
  4. Por onde à fúria do ínclito Priâmeo
  5. Os Aquivos na véspera fugiram,
  6. E ora, expandindo Juno um nevoeiro,
  7. Detinha os outros: parte nas voragens
  8. Se despenham do fundo argênteo pego,
  9. E hórrido ao longe as ribas retumbando,
  10. Entre abismos a nado esparsos fremem.
  11. Se do fogo a um riacho os gafanhotos
  12. Voando abrigam-se e os persegue o fogo,
  13. N’água medrosos caem: assim de Aquiles
  14. Vão de envolta correndo homens e carros,
  15. E do sonoro Xanto o bojo atulham.
  16. Sob uma tamargueira esconde a lança,
  17. Como um demônio pula, e só de espada,
  18. Rumina estragos, estoqueia e talha;
  19. Gemidos e urros a seus golpes soam,
  20. E rubeja a corrente. Qual de enorme
  21. Delfim, que os vai tragando, em porto escuso
  22. Com susto refugiam-se os peixinhos;
  23. Tais os Teucros do Xanto impetuoso
  24. Nos recessos das bordas se agachavam.
  25. Já de matar cansado, escolhe doze
  26. Que do Menécio aos manes sacrifique;
  27. Do rio os tira, e como uns corçozinhos
  28. Estupefatos, para trás os pulsos,
  29. Ata-os com loros que gentis cingiam
  30. Das túnicas em torno, e a bordo os manda.
  31. Sedento na carnagem progredindo,
  32. Aquiles dá com Licaon Priâmeo
  33. A escafeder-se; o qual foi seu cativo,
  34. De assalto à noite nos paternos prédios,
  35. Onde uma baforeira a gume aêneo
  36. Para chaços e cambas esgalhava.
  37. De súbito empolgado, e na possante
  38. Lemnos ao filho de Jason vendido,
  39. Hóspede Eetion d’Imbro ali comprou-o
  40. Por alto preço, e o pôs na sacra Arisba,
  41. Donde ele fugitivo à casa veio.
  42. Ao duodécimo dia que no seio
  43. De parentes e amigos se alegrava,
  44. Fê-lo um deus recair nas mãos de Aquiles,
  45. Que a Dite sem refúgio ia enviá-lo.
  46. Quando o avistou nu d’elmo e escudo e lança
  47. (Do rio ao se escapar, tudo largara,
  48. De suor e cansaço titubando),
  49. Consigo o herói magnânimo se indigna:
  50. “Oh! Que portento! Os que hei mandado aos mares
  51. Certo ressurgirão do centro escuro,
  52. Se este aqui surde que, vendido em Lemnos,
  53. Foi da Parca poupado; nem reteve-o
  54. O espúmeo salso mar, que enfreia a tantos.
  55. Prove a cúspide nossa, a ver se torna
  56. Desta vez, ou se a terra ultriz, que impede
  57. Os mais valentes, impedi-lo sabe.”
  58. Enquanto o herói discursa, o triste anseia
  59. Abarcar-lhe os joelhos e esquivar-se
  60. Ao negro fado: mas esgrime Aquiles;
  61. Prostra-se o moço trêmulo, e por cima
  62. O pique vara e finca-se na terra,
  63. Desejando fartar-se em carne humana.
  64. Ele a sustém na destra, e com a esquerda
  65. Abraçando-lhe os pés, rápido exclama:
  66. “De Jove aluno, compaixão! Respeita
  67. Um como suplicante; pois de Ceres
  68. O pão já te comi, quando apanhado,
  69. Longe do pai e amigos me vendeste:
  70. Cem bois ganhaste, hoje haverás trezentos.
  71. Depois de tanta pena, há doze auroras
  72. Que de Ílio gozo, e a ti me entrega a sorte
  73. E o rancor do Satúrnio! Curto em anos
  74. Me produziu Laotoe, a de Altes filha,
  75. De Altes que rege os Lélagas da margem
  76. Do Satnióis em Pédaso escarpada:
  77. Príamo a teve esposa e outras princesas;
  78. Dela nascemos dois, e exício és de ambos:
  79. Entre os peões da frente a Polidoro
  80. Já tu sacrificaste; a vez me toca.
  81. Um mau gênio me trouxe, e não me salvo;
  82. Mas ouve ao menos: tem de mim piedade,
  83. Que eu uterino irmão não sou daquele
  84. Que do sócio privou-te e meigo e forte.”
  85. Assim perora, e imite voz escuta:
  86. “Louco! Em resgate falas? Grato me era,
  87. Antes que ao meu Pátroclo urgisse a Parca,
  88. Perdoar a alguns Teucros e vendê-los;
  89. Hoje a nenhum, que me depare um nume,
  90. Perdoarei, mormente aos Priameios.
  91. Amigo, morre; por que em vão pranteias?
  92. Também, melhor do que és, morreu Pátroclo.
  93. Vês-me aqui belo e bravo, de mãe deusa
  94. E ilustre pai gerado? Pois violento
  95. Fado me ocorrerá, quer manhã seja,
  96. Ou tarde ou meio-dia, quando a vida
  97. Alguém de hasta me tronque ou seta alada.”
  98. Esmorecido e de joelhos frouxos,
  99. Larga o pique e sentado as mãos protende:
  100. Logo o aucípite gládio puxa Aquiles,
  101. Entre a clavícula e a cerviz lho enterra;
  102. Ele de bruços tomba, em sangue negro
  103. O chão regando. Por um pé no rio
  104. O vencedor o arroja a gloriar-se:
  105. “Vai-te, e ao golpe te lamba audaz cardume:
  106. Nunca em fúnebre leito a mãe te chore,
  107. Mas em vórtices rola ao vasto ponto;
  108. Peixe entre a vaga turva em cima salte,
  109. E o ceve Licaon de branco zerbo.
  110. Hei de ir-vos trucidando e perseguindo
  111. Até rendermos Tróia, sem valer-vos
  112. De argêntea veia o férvido Escamandro,
  113. A quem freqüentes imolais novilhos,
  114. Vivos corcéis lançando-lhe às voragens.
  115. Sim, com morte cruel pagareis todos
  116. A de Pátroclo, ó vós que em minha ausência
  117. A alma a tantos Aquivos arrancastes.”
  118. O Xanto irou-se, e ali cogita o como
  119. Remova tal flagelo e os Teucros livre.
  120. De ávida lança entanto investe Aquiles
  121. A Asteropeu, de Pélegon gerado,
  122. Que o foi de Áxio profundo e amplo-fluente,
  123. Com quem mesclou-se Peribeia, a filha
  124. Maior de Acessameno: Pelegônio
  125. Com duas lanças do Escamandro surge,
  126. Que alento lhe infundiu, por indignar-se
  127. De que em seu seio Aquiles despiedoso
  128. Tantos jovens heróis sacrificasse.
  129. Já fronte a fronte, o pé-veloz pergunta:
  130. “Quem és para encarar-me? Os que se atrevem
  131. São de infelizes malfadados filhos.”
  132. E Asteropeu: “Magnânimo Pelides,
  133. Quem sou perguntas? Cabo vim de hastatos,
  134. Há somente onze auroras, da longínqua
  135. Fértil Peônia; entronco no Áxio rio
  136. De larga veia, a mais louçã na terra,
  137. No Áxio que é pai de Pélegon lanceiro,
  138. E este gerou-me. Agora pelejemos.”
  139. Disse-o minaz; levanta o freixo o Aquivo.
  140. Presto ambidestro esgrime o herói Peônio:
  141. Uma hasta o escudo fere, e no ouro pára,
  142. Dom de Vulcano; o cotovelo destro
  143. Esfola a outra, em sangue o tinge escuro,
  144. Finca-se em terra, as carnes anelando.
  145. Segundo Aquiles de matar ansioso,
  146. Vibra o voante lenho, que erradio
  147. Vai metade pregar-se à ribanceira;
  148. Puxa de junto a coxa o ardente gládio.
  149. Lidava Asteropeu com mão robusta
  150. Por despregar a furibunda lança,
  151. Três vezes tenta e as forças lhe falecem;
  152. Mas da quarta, encurvando-a por quebrá-la,
  153. Pronto, abaixo do umbigo, uma estocada
  154. Vaza-lhe as tripas, e atra noite o cobre.
  155. Salta-lhe em cima e o despe ovante Aquiles:
  156. “Jaze aí: se de um rio a origem trazes,
  157. Lutar é árduo com Dial progênie:
  158. Provir dizias do Áxio amplo-fluente;
  159. Eu me glorio de provir de Jove:
  160. O rei dos Mirmidões Peleu gerou-me,
  161. A este Eaco, a Eaco o padre sumo.
  162. Quanto ele é poderoso mais que os rios,
  163. De um rio a descendência à dele cede.
  164. Eis perto o largo Xanto, e não te vale,
  165. Pois nenhum ao Satúrnio se equipara;
  166. Nem o régio Aqueloo, nem o imenso,
  167. Flutíssono Oceano, donde os rios,
  168. Os mares todos manam, fontes, poços;
  169. Porque este mesmo do Tonante treme,
  170. Do celeste fragor, do raio horrendo.”
  171. Então saca da borda o pique aêneo;
  172. Deixa o morto na areia e turbas águas,
  173. Onde enguias em roda e peixes fervem,
  174. E dos rins a gordura ávidos comem.
  175. Caído o exímio cabo, os seus nos coches
  176. Do Xanto ao longo espavoridos fogem:
  177. Segue-os o celerípede, e lhes mata
  178. Astipilo, Ofelestes, Mneso e Trásio,
  179. Medon, Ênio e Tersíloco. Outros muitos,
  180. O herói prostara, se agastado o rio,
  181. Em vulto humano de profundo pego
  182. Entre voragens não falasse: “Aquiles,
  183. Em crueza e denodo os homens vences,
  184. E o Céu te ajuda. Se os Troianos todos
  185. Exterminar concede-te o Satúrnio,
  186. Sai do meu leito, ao campo o estrago leva;
  187. De mortos plena e estreita a clara veia,
  188. Não posso ao divo ponto abrir caminho,
  189. E inda mais de cadáveres me atulhas!
  190. Príncipe, é muito, o assombro meu te baste.”
  191. E ele: “Divo Escamandro, como ordenas
  192. Será; mas eu não cesso, antes que encerre
  193. Na cidade os fedífragos Troianos,
  194. E a braços com Heitor, ou morra ou mate.”
  195. Ao tropel eis dispara o atroz demônio,
  196. E a Febo clama o rio: “Argenti-archeiro,
  197. Do Satúrnio os preceitos não te lembram
  198. De assistires aos Teucros e amparares,
  199. Té que o sol vespertino o prado obumbre?”
  200. Da riba entanto se despenha Aquiles;
  201. Mas, qual touro mugindo e a revolver-se,
  202. Túmido o Xanto os apinhados mortos
  203. De si furioso expele, esconde os vivos
  204. Na alva corrente e vórtices profundos,
  205. E o voraz homicida escarcéus turvos
  206. Cerram, batem no escudo, os pés lhe embargam.
  207. Ei-lo, extirpando com porção da margem
  208. Olmo que ali viçoso ia crescendo,
  209. Sustém na rama a cheia e em ponte o lança,
  210. Por onde perturbado ao campo voa:
  211. Após negreja o rio e alteia vagas,
  212. Para impedir o exício dos Troianos.
  213. O herói saltando como um dardo alcança;
  214. Águia é fusca a dar caça impetuosa,
  215. Fortíssima e celérrima entre as aves:
  216. Troa-lhe o arnês medonho, e oblíquo foge;
  217. Mas flutíssono o rio atrás o acossa.
  218. Se de negro olho d’água o fontaneiro
  219. Arroio aduz por hortos e plantios,
  220. E de enxada o regueiro desentope,
  221. Decliva a linfa os seixos remexendo,
  222. Murmura, e em breve se adianta ao guia:
  223. Tal (pois os deuses mais que os homens valem)
  224. Supera a enchente ao pé-veloz Pelides.
  225. Sempre que arrosta e pára, a ver se à fuga
  226. Os celícolas todos o constrangem,
  227. Incha o rio e lhe banha e embate os ombros;
  228. Dá mesto um novo salto, e em roda o Xanto,
  229. Progênito de Jove, o enerva e cansa,
  230. Rouba-lhe às plantas a inundada areia.
  231. Geme enfim e olha os céus: “Nenhum dos numes,
  232. Ai! Júpiter, me livra deste rio?
  233. Socorro, e apararei qualquer tormenta.
  234. Não culpo outro imortal quanto a mãe culpo,
  235. Que mendaz com morrer me acalentava
  236. À frechada de Apolo ante Ílio sacra.
  237. Oh! Matasse-me Heitor, o herói Dardânio
  238. Fora de um bravo um bravo despojado.
  239. Hoje inglório pereço, aqui submerso,
  240. Como o zagal mesquinho que, ao passá-la,
  241. A torrente invernal o engole e afoga.”
  242. Netuno e Palas súbito aparecem
  243. Em vulto humano, a mão nas mãos lhe tomam;
  244. E o grande abalador: “Ânimo, Aquiles;
  245. Jove o permite, ajudo-te eu com Palas;
  246. No Xanto perecer não é teu fado,
  247. Refluir o verás. Escuta agora
  248. Prudente aviso: o braço não repouses
  249. Nem te recolhas, sem que dentro encoves
  250. Quantos possam fugir e Heitor suplantes;
  251. Nós te aplainamos o triunfo e a glória.”
  252. Finda, juntam-se os deuses; propelido,
  253. Ele ao campo alagado se arremessa,
  254. Onde armas e cadáveres boiavam,
  255. Com mor esforço, que lho influi Minerva,
  256. Salva de um pulo as vagas. O Escamandro
  257. Não desiste; sanhoso e intumescido,
  258. Mais se encarneira, ao Símois vocifera:
  259. “Caro irmão, reprimi-lo ambos devemos,
  260. Ou, só por este esparsos os Troianos,
  261. Desabará de Príamo a cidade.
  262. Acode, acode; o álveo encham-te as fontes,
  263. Os ribeiros concita, engrossa e estua,
  264. Derriba troncos, desarreiga pedras,
  265. Contra o imano varão, que assim campeia
  266. E ousa igualar-se a deuses. Que lhe prestam
  267. Garbo e vigor e pulcro arnês, se tudo
  268. Vai sumir-se em meu seio reminhoso
  269. E afundar-se no limo? Aquiles mesmo,
  270. Hei-de em saibro envolvê-lo e imensa vasa,
  271. Por único sepulcro; nem seus ossos
  272. Tem de colher-se, e exéquias celebradas,
  273. Sobre o corpo deitar-se amiga terra.”
  274. Túrbido eis se encapela e avança urrando,
  275. Subleva-se entre espuma e sangue e mortos;
  276. Mas, do Xanto divino quando a vaga
  277. Vermelha o assoberbava, um grito Juno
  278. Dá, receando que o revolto rio
  279. Na voragem profunda o herói sorvesse,
  280. E recorre a Vulcano: “Sus, meu filho,
  281. Combate o Xanto, e vasto fogo acende;
  282. Zéfiro e Noto eu chamo, e uma borrasca
  283. Soprem do ponto a propagar o incêndio,
  284. Que aos Troas armas e cabeças queime:
  285. As árvores do rio e o leito inflama,
  286. Nem te retenha o impulso ameaça ou rogo;
  287. Somente ao brado suspende a fúria.”
  288. Disse, e o fogo rebenta; os corpos queima
  289. Empilhados no campo, e o campo enxuga
  290. E estanca a inundação; qual, pelo outono
  291. Desseca Bóreas encharcadas veigas
  292. E alegra o lavrador. Ao rio as chamas
  293. O Ignipotente inclina; olmos, salgueiros,
  294. Tamargueiras, morraças, lotos, junças,
  295. Quanto as margens lhe adorna, abrasa tudo:
  296. Peixes e enguias, do hálito Vulcânico
  297. Aflitos, pelos vórtices mergulham;
  298. Violento o Xanto, abafa e diz: “Mulcíber,
  299. Nenhum deus se te opõe; lutar não quero
  300. Com tanto fogo, da contenda cessa;
  301. Expulse Aquiles da muralha os Teucros.
  302. De rixas e de auxílios que me importa?”
  303. Mais a ígnea tormenta se exaspera:
  304. Qual de um cevado a banha, a derreter-se
  305. Em caldeirão que muita lenha aquece,
  306. Crepita e bolha e espirra; assim fervia
  307. Do Xanto o belo seio, e sem que as águas
  308. Pudesse despejar, pois lhe vedavam
  309. Labareda e vapor, depreca: “Ó Juno,
  310. Por que teu filho contra mim só raiva?
  311. Se é culpa, Ílio outros numes favorecem.
  312. Pois o mandas, me abstenho, e ele desista;
  313. Eu juro nunca mais socorrer Tróia,
  314. Nem que inteira a consuma o fogo Argivo.”
  315. Ouviu-lhe a prece a bracinívea déia,
  316. A Vulcano bradou: “Bom filho, basta,
  317. Por humanos um deus não mais flageles.”
  318. Ei-lo súbito apaga o imano incêndio,
  319. E em regatos gentis reflui o Xanto:
  320. Os rivais, bem que irosa, aparta Juno.
  321. Ali nos corações dos outros numes
  322. Cresce o furor, o burburinho cresce,
  323. Reclama a larga terra e o céu remuge;
  324. Porém no Olimpo Júpiter sentado,
  325. Se regozija a rir-se do conflito.
  326. Já, testa a testa, o fura-escudos Marte
  327. Corre a Palas de lança: “Por que os deuses,
  328. Varejeira audacíssima, discordas?
  329. Lembras-te que, a Tidides instigando,
  330. A hasta sua, orgulhosa, dirigiste,
  331. E o meu corpo divino laceraste?
  332. Ora me vingarei daquela afronta.”
  333. E na terrível égide, que ao raio
  334. De Jove resistira, o desmedido
  335. Pique lhe crava; a recuar, Minerva
  336. Levanta negra pedra áspera e grossa,
  337. Com que seu campo antigos demarcavam;
  338. Fere ao pescoço o turbulento Marte,
  339. E lhe enfraquece os membros: sete jeiras
  340. Ocupa ao longo, e o pó lhe mancha a coma,
  341. Com desusado ronco o arnês ribomba.
  342. Rindo Minerva, gloriosa grita:
  343. “Néscio! Atreves-te a mim que sou mais forte?
  344. As maldições da mãe em ti caíram,
  345. Furiosa de que os Dânaos desertasses
  346. E os fedífragos Teucros auxilies.”
  347. Disse, e os numes arreda. Conduz Vênus
  348. A Marte, que os sentidos mal cobrando,
  349. Vai gemendo açodado. Avista-o Juno
  350. E diz: “Prole do Egífero indomada,
  351. Olha a mosca impudente, que inda leva
  352. Pela destra o flagelo dos humanos
  353. Entre o aceso alvoroto: a ela, filha.”
  354. Folga Minerva, e diligente parte;
  355. Senta a pesada mão no peito a Vênus,
  356. Que ajoelha e esmorece, e os dois prostrando,
  357. Orgulha-se a Tritônia: “Assim caíssem,
  358. Quantos protegem contra os Gregos Tróia!
  359. Firmes e ousados como Vênus fossem,
  360. Grande minha rival, de Marte apoio,
  361. Que há muito, finda a guerra, ao nosso esforço
  362. A altanada cidade se curvara.”
  363. A deusa bracinívea aqui sorriu-se.
  364. Fala Netuno a Febo: “Estamos quedos!
  365. Já dado o exemplo, é torpe à casa aênea
  366. De Júpiter voltarmos sem combate.
  367. Enceta: sou mais velho e mais ciente,
  368. Não me cabe o fazê-lo. Estulto, esqueces,
  369. O que ambos sós em Tróia padecemos?
  370. — Fora do Olimpo, um ano a Laomedonte
  371. Contratamos servir por justo preço,
  372. E ele ordens arrogante nos passava:
  373. Eu fundei-lhe à cidade inexpugnáveis
  374. Largos muros; flexípedes armentos
  375. Em vales do Ida e selvas lhe pastavas.
  376. Gratíssimas o termo as Horas trazem,
  377. E o tirano sem paga nos expulsa;
  378. De algemas e grilhões vender-te ao longe
  379. E as orelhas cortar-nos prometia:
  380. Partimos da injustiça estomagados.
  381. E em prêmio deste crime é que te negas
  382. De falsos a extirpar filhos e esposas?”
  383. Mas Febo rei: “Netuno, é coisa indigna
  384. Eu contender contigo por humanos,
  385. Que míseros, às folhas parecidos,
  386. Ora viçam com fruto, ora emurchecem.
  387. Retiremo-nos presto, os mais que briguem.”
  388. Em respeito a seu tio, ele se aparta:
  389. A caçadora irmã lho estranha e exprobra:
  390. “Foges, guapo frecheiro? Entregas fácil
  391. A vitória a Netuno, e esse arco ostentas.
  392. Nunca mais te ouvirei no eterno alcáçar
  393. Blasonar, como outrora entre os celestes,
  394. Que ao mesmo Enosigeu te afrontarias.”
  395. Nada contesta Apolo, e enfurecida
  396. A esposa do Satúrnio veneranda
  397. À fragueira Diana encara e ultraja:
  398. “E atreves-te, cachorra, a ter-me rosto?
  399. Essas frechas comigo não te valem:
  400. Deu-te Jove, leoa entre as mulheres,
  401. Feri-las a prazer; é menos árduo
  402. Correr cervos e corços que aos potentes
  403. Reagir com vigor. Provar se o queres,
  404. Quanto mais forte sou conhece agora.”
  405. Com a esquerda eis lhe prende ambos os pulsos,
  406. Do ombro a destra o carcás e o arco tira,
  407. Com que rindo lhe bate pelas faces,
  408. Fazendo-a voltear: por terra as setas,
  409. Foge a deusa a carpir, qual voa a pomba
  410. E ao gavião se esconde em oca penha,
  411. De cujas garras a desvia o fado.
  412. A Latona o Argicida mensageiro
  413. Cauto exclamou: “Contigo não combato;
  414. Esposa és do Nubícogo, e receio,
  415. Prontíssima aos celícolas te gabes
  416. De que à força de braço me venceste.”
  417. Vai Latona colhendo arcos e frechas
  418. Envoltos na poeira, após a filha.
  419. Esta chega do Olimpo aos éreos paços,
  420. Pranteia e senta-se ao paterno grêmio,
  421. O peplo a lhe tremer. Jove abraçou-a
  422. Com suave sorriso a interrogá-la:
  423. “Que deus, filha, atreveu-se a maltratar-te,
  424. Como se um erro às claras cometesses?”
  425. E a coroada caçadora: “Juno,
  426. A tua bracicândida consorte,
  427. Juno, que entre imortais lança a discórdia.”
  428. Sobe Febo entretanto a Ílio santa,
  429. Vela nos muros, por temer que os Dânaos
  430. Contra o fado esse dia os subvertessem.
  431. Entram no Olimpo os outros sempiternos,
  432. Quais agastados, quais de glória ovantes,
  433. Sentam-se em torno ao Padre. — Mas Aquiles
  434. Homens talha e corcéis: bem como, em chamas
  435. Por cólera celeste uma cidade,
  436. Entre nuvens de fumo o vasto incêndio
  437. Causa a todos fadiga e a muitos morte;
  438. Ele os Teucros molesta, acossa e rende.
  439. Príamo ali do torreão divino
  440. Os seus descobre sem defesa esparsos
  441. Ante o herói giganteu; choroso o velho
  442. Desce em terra, aos bravíssimos custódios
  443. Ordem passando expressa: “Tende abertas
  444. Nas mãos as portas, por que em fuga os nossos
  445. Livrem-se do furor do atroz Pelides,
  446. E assim que dentro em salvo respirarem
  447. Trancai-as logo: o mal está no cume!
  448. Hei medo que essa peste invada os muros.”
  449. As barras e os batentes se descerram
  450. Para abrigá-los, e de um pulo Febo
  451. Vem socorrer os que a cidade buscam,
  452. Sórdidos de poeira e ardendo em sede.
  453. Hasta em reste, os encalça o velocípede,
  454. Ira o esporeia e glória; e as rijas portas
  455. Certo arrombara, se no peito Febo
  456. De Agenor Antenórida mor brio
  457. E audácia não vertesse: ao pé da faia,
  458. Para o esquivar das graves mãos da Parca,
  459. Em atra névoa se coloca perto.
  460. Agenor, ao turrífrago avistando,
  461. Pensoso pára, o coração lhe ondeia,
  462. Com quem fala magnânimo e suspira:
  463. “Ai! Se fujo na turba ao fero Aquiles,
  464. Há-de alcançar-me, e acabarei cobarde;
  465. Mas, se o deixo o tropel ir derrotando,
  466. E pelo campo Ilíaco me deito
  467. No Ida a matejar, então no rio
  468. Lavado e fresco do suor, à tarde
  469. Entro em seguro... Que profiro? Ao ver-me
  470. Ir da cidade no fugaz empenho,
  471. Há-de apanhar-me e tenho certa a morte,
  472. Que ele os homens em força muito excede.
  473. Vou pois ante as muralhas encontrá-lo:
  474. Seu corpo a corte aêneo é vulnerável,
  475. E uma só alma tem; que é mortal soa,
  476. Posto que lhe dê Jove eterna glória.”
  477. Volto, o Eácida aguarda, e combatê-lo
  478. Pede-lhe o coração. Qual sai pantera
  479. Da mata ao caçador, sem que o ladrido
  480. A afugente ou perturbe, inda que a punja
  481. Pregada ou seta ou lança, não desiste,
  482. Antes que lute ou morra; assim não foge
  483. O divino Agenor, mas quer medir-se
  484. Com o Eácida mesmo. Arrodelado
  485. A hasta apontando, grita: “Ilustre Aquiles,
  486. Aos Troas derribar a grã cidade
  487. Contavas hoje: inda por ela, insano
  488. Sofrereis muitas lidas; inda há nela
  489. Muitos varões de pulso, que a defendam
  490. Pelos queridos pais, filhos e esposas.
  491. És tu que bebes hoje o mortal trago,
  492. Bem que audaz campeão terrível sejas.”
  493. Pronto, na perna o rigoroso tiro
  494. Sob o joelho acerta, e em torno à greva
  495. Ressoa o estanho; é repelido o bronze
  496. Da arma recente por Vulcano obrada.
  497. Contra Agenor deiforme rui Aquiles,
  498. Porém Febo a vitória assim roubou-lhe:
  499. Cobre de nuvem densa o herói Troiano,
  500. Põe-no fora; tomando-lhe a figura,
  501. Coloca-se ardiloso ante o Peleio,
  502. Que o segue rápido e abandona a liça;
  503. O Longe-vibrador entre as searas
  504. O atrai às margens do Escamandro pingues,
  505. Pouco avante correndo afasta Aquiles,
  506. Que espera celerípede alcançá-lo.
  507. Entanto, aforçurados os Troianos
  508. Entram no muro; e, fora uns pelos outros
  509. Nem esperar, nem conhecer querendo
  510. Os mortos e os incólumes, se espalham
  511. Pela cidade, lassos, impacientes,
  512. Quantos em pés ligeiros se escaparam. * * *

Nota a nota · 8 notas

v. 17Como um demônio pula, e só de espada,
Já falei da palavra grega daimõn, que os tradutores se obstinam em nunca a verter por demônio: nesta passagem, enfim, Monti ousou, e disse: “Come demón lanciossi”. Adiante, verso 81, como verá o leitor, uso de equivalente mau gênio. Daimon deve ser traspassado em português por diversos modos, segundo a ocasião.
↩ voltar ao verso 17
v. 38–48Lemnos ao filho de Jason vendido,
Iésonos é Jason, posto que o poeta neste lugar o escrevesse com um eta: M. Giguet escreveu Jêson; ignoro se este exato e bom tradutor crê ser Jêson diferente pessoa, ou qual seja a razão quo teve para deixar o nome adotado em francês. — Confundem alguns Eetion d’Imbro, do partido da Grécia, com Eetion de Tebas o pai de Andrômaca. Ora, se o pai de Andrômaca fosse quem a Jason comprou Licaon filho de Príamo, tê-lo-ia restituído ao seu consogro e amigo; e Licaon não se veria na precisão de fugir para a casa paterna. Eetion d’lmbro foi hóspede de Jason, e a este comprou o jovem Licaon, levando-o para a cidade de Arisba; a qual, tendo pertencido a Tróia, a esse tempo tinha sido conquistada por Aquiles, segundo consta deste mesmo poema. — Usa Homero da palavra Idros suor: Monti, crendo porventura que podia suar quem estivera dentro do rio, omite a circunstância; e M. Giguet, para conservá-la, dá um sentido diverso à passagem, dizendo: “ Lorsque, baigné de sueur, rompu de fatique, il s’est plongè dans le fleuve.” Mas o texto é imperioso, Homero diz que Licaon suava ao sair do Xanto: ek potamou quer dizer do rio e não dentro do rio. Eu sigo o texto, e opino que muitas vezes um homem pode suar mesmo em um banho frio, quanto mais quem estava já suado e cansadíssimo quando se meteu no Xanto. No meu conceito, nem há precisão de omitir a circunstância, nem de torcer o texto
↩ voltar à passagem, v. 38
v. 67Um como suplicante; pois de Ceres
Como suplicante, e não simplesmente suplicante; porque só tinha este nome quem vinha espontâneo suplicar, e Licaon esteve constrangido em casa de Aquiles.
↩ voltar ao verso 67
v. 208–218Olmo que ali viçoso ia crescendo,
Penso que o olmo arrancado por Aquiles não estava no auge da sua grandeza, não obstante o megaten do original, que é modificado pelo euphúea, que o intérprete latino traspassa por Feliciter crescentem: era um olmo já crescido sim, mas não inteiramente feito. Por mais forte que fosse Aquiles, não podia arrancar um olmo que estivesse no último grau do seu crescimento. O termo fontaneiro, o que trata das fontes, não vem nos dicionários; é português, assim como é, com leve modificação, francês, italiano e espanhol: seria frigidíssimo vertê-lo aqui por um circunlóquio.
↩ voltar à passagem, v. 208
v. 230–244Rouba-lhe às plantas a inundada areia. ⋯ E o grande abalador: “Ânimo, Aquiles;
Entendo que o rio, à medida que fugia Aquiles, ia ganhando a areia, de sorte que era inundado pelo Xanto o terreno em que a herói acabava de pisar; e neste ponto não sigo a M. Giguet na sua versão: “et enléve la poussiére de ses cnèmides.” — Chamo aqui a Netuno o grande abalador, como o fez Monti, para variar o epíteto Enosigeu, tantas vezes repetido.
↩ voltar à passagem, v. 230
v. 328Varejeira audacíssima, discordas?
Marte chama a Palas canina mosca, em português varejeira, moscão, moscardo, atavão ou tavão ou atabão, inseto importuníssimo aos animais: não sei porque os tradutores fogem do termo próprio, e fazem Marte chamá-la sem vergonha; o que é maior insulto, porque ser importuna e trêfega é menos que ser descarada. Adiante, verso 351, verto a mesma palavra pelas duas mosca impudente, porque Vênus, cujos amores com Marte causava escândalo no Olimpo, então ia levando o amante pelo braço, e a esses amores parece aludir o poeta.
↩ voltar ao verso 328
v. 398“E atreves-te, cachorra, a ter-me rosto?
A soberana do céu chama a pobre Diana cadela atrevida. Como entre nós dizem cadela a mulher de costumes devassos, a palavra cachorra exprime o insulto sem a idéia contida no termo português, insulto não contido no termo grego. Estas amenidades são do uso dos deuses em Homero.
↩ voltar ao verso 398
v. 467No Ida a matejar, então no rio
Matejar neutro, meter-se no mato ou na mata, é termo antigo: faz uma pequena diferença de embrenhar e de emboscar, quanta é a que vai de mata a brenha ou a bosque. Ora Agenor queria esconder-se numa selva ou mata do Ida; mas não lhe era preciso ocultar-se numa brenha, que é mata áspera e dura entre fragas e penhascos; nem podia ser um bosque, a querer-se tomar no sentido restrito e próprio, sendo bosque um arvoredo manso e ameno: dizemos um bosque de laranjeiras e de oliveiras, e na mata, selva ou brenha.
↩ voltar ao verso 467
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