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IlíadaLivro XXII
LivroXXII

Trépidos gamos na carreira os Teucros

434 versos · 7 notas do tradutor


  1. Trépidos gamos na carreira os Teucros
  2. À sombra dos merlões se refrigeram
  3. Do suor e da sede, e os inimigos
  4. De escudo sobre os ombros se aproximam.
  5. Como atado em grilhões a Heitor a Parca
  6. Demora às portas Ceias, e ao Pelides
  7. Fala Apolo: “Por que te afanas tanto?
  8. Cego de fúria, em mim não vês um nume?
  9. Olha que és transviado, e os fugitivos
  10. Dentro em seguro: um deus matar pretendes?”
  11. Turvo o herói: “Crudelíssimo de todos,
  12. Que assim me distraíste! O pó teriam
  13. Muitos mordido: a glória me roubaste
  14. Salvando aqueles vis, sem me temeres;
  15. Mas de ti, se pudesse, eu me vingara.”
  16. Então voa à cidade, e os passos move
  17. Qual vencedor ginete, que soberbo
  18. Árdego pelo campo o coche leva.
  19. Já nele avista Príamo essa estrela
  20. Cão de Órion nomeada, que, nascida
  21. No outono, os astros vence em noite bruna
  22. Por grande e resplendente, e agoura morbos
  23. Contra os homens calores dardejando:
  24. Na rapidez seu peito lampejava.
  25. Bate o velho na testa, eleva as palmas,
  26. Soluça, roga ao filho, que ante as portas
  27. Só por Aquiles brama: “Heitor, que fazes?
  28. Sem auxílio a tal monstro não te oponhas;
  29. Longe em forças te excede, e vai matar-te.
  30. Oh! Quanto a mim fosse ele aos deuses grato,
  31. Que, sendo em breve a cães e abutres cevo,
  32. Este meu coração consolaria!
  33. Trucidando ou vendendo em longes terras
  34. Filhos tantos e tais, privou-me deles;
  35. Nem Licaon enxergo e Polidoro,
  36. Que Laotoe me pariu formosa e casta:
  37. Se estão nos arraiais, com ouro e bronze,
  38. De Altes famoso à filha inteiro dote,
  39. Os remiremos; se a Plutão baixaram,
  40. Dor é minha e da mãe que os procriamos;
  41. Será breve a do povo, se de Aquiles
  42. Não te prostra o furor. Entra, meu filho,
  43. Não lhe dês glória tanta; para esteio
  44. De Tróia te reserva e das Troianas.
  45. Pena há de mim que, são de mente ainda,
  46. Sinto no cabo da velhice males
  47. Por Jove amontoados: filhos mortos,
  48. Filhas cativas, tálamos corruptos,
  49. No tropel a esmagarem-se crianças,
  50. Noras de rojo em brutas mãos profanas,
  51. Quiçá, de alma arrancada a brônzeo fio,
  52. Cães ao portal em peças me devorem,
  53. Guardas que à minha mesa eu nutri mesmo,
  54. E em meu sangue apagando a raiva e a gana,
  55. Se espojem no vestíbulo! Em batalha
  56. Jazendo um moço, lhe aparece tudo
  57. Nédio e composto; mas, defunto um velho,
  58. Já de cabeça branca e branca barba,
  59. De vergonhas à mostra, o lacerarem
  60. Torpes cães... Oh! Miséria das misérias!”
  61. Ele carpe-se e rasga-se ululando,
  62. Sem demover-se Heitor. Hécuba em pranto,
  63. Lastimosa do seio a mama tira:
  64. “Esta respeita, ó caro, com que eu meiga
  65. Teu vagir mitigava; a mãe to implora,
  66. Asila-te, meu filho, desse monstro,
  67. A sós não brigues. A matar-te a fera,
  68. Nem eu que te gerei, nem tua esposa,
  69. No leito funeral te choraremos:
  70. Serás perante as naus de cães pastura.”
  71. A lagrimar os velhos ambos rogam:
  72. Mas Heitor inconcusso espera Aquiles,
  73. Que agigantado assoma. Ao viandante
  74. Se pascida em má grama espreita a cobra,
  75. Fica assanhada e a vista acende horrível
  76. A enrolar-se na toca: Heitor não menos,
  77. Quedo e fogoso, à torre proeminente
  78. O escudo apóia fúlgido, e sentido
  79. Fala em sua alma grande: “Ai! Se entro agora,
  80. Mo exprobrará primeiro Polidamas,
  81. Que a recolher a gente aconselhou-me,
  82. A noite em que aziago alçou-se Aquiles.
  83. Fora melhor; a pertinácia minha
  84. Danou do povo a causa! Os nossos temo
  85. E as Troianas de peplos roçagantes;
  86. Ouço em roda: — Ei-lo Heitor, que temerário
  87. O exército perdeu! — Di-lo-ão por certo.
  88. Mais vale ou triunfar do imano Aquiles,
  89. Ou morrer pela pátria em luta honrosa.
  90. E se elmo e escudo e lança ao muro encosto,
  91. E indo encontrá-lo, dar prometo Helena,
  92. Motivo desta guerra, e o que Alexandre
  93. Nos trouxe em cavas naus, para os Atridas,
  94. Para os outros Aqueus o que Ílio encerra;
  95. Que de ancião com firmeza os Teucros jurem
  96. Nada ocultar, e dividir ao meio
  97. Quanta riqueza esconde a grã cidade...
  98. Quê! Deliras, minha alma? Eu suplicante!
  99. Sem mais dó nem resguardo, a mim sem armas,
  100. Qual imbele mulher, há-de imolar-me.
  101. Do rochedo e carvalho não é tempo
  102. De lhe ir falar como donzela e moço,
  103. Quando moço e donzela entre si falam.
  104. Combater, investir: saiba-se, e presto,
  105. A quem o Olímpio agora entrega a palma.”
  106. Entanto, igual a Marte, avança Aquiles
  107. De elmo a nutar, e à destra o lenho ingente,
  108. O arnês brilha em seu peito à semelhança
  109. De vivo ardente fogo ou sol no eoo.
  110. Trêmulo Heitor, ao vê-lo, as portas larga,
  111. Deita a correr; em pés fiado Aquiles,
  112. No encalço voa: açor montês imita,
  113. Ave a mais lesta, que, ao fugir de esguelha
  114. Tímida pomba, acerca-se guinchando
  115. Faminto à presa, a redobrados chofres.
  116. Precipita-se Aquiles, e o Priâmeo
  117. Em susto move rápido os joelhos.
  118. Vão, pela estrada ao longo da muralha,
  119. Da atalaia à ventosa baforeira,
  120. E às claras fontes chegam donde bolha
  121. O férvido Escamandro: uma flui quente,
  122. Como um lar acendido fumegando;
  123. No verão mesmo a outra é sempre fria,
  124. Tanto quanto a saraiva ou neve ou gelo.
  125. Ali, na paz que os Dânaos perturbaram,
  126. De pedra em largas elegantes pias
  127. Cônjuges Teucras e engraçadas virgens
  128. Roupa e vestes louçãs lavar soíam.
  129. Transpõem-nas ambos: o que foge é bravo,
  130. É mais bravo o que o segue: não bovina
  131. Vítima ou pele, da carreira prêmios,
  132. Do herói Priâmeo se disputa a vida.
  133. Qual circulando a meta os corredores,
  134. Para ganhar-se ou trípode ou cativa,
  135. Ágeis galopam nos funéreos jogos;
  136. Os dois assim de Príamo ante os muros
  137. Giram três vezes. Contemplando-os Jove,
  138. Aos mais deuses discursa: “Ah! vêem meus olhos,
  139. Com pesadume, a voltear aflito
  140. Varão que, em Pérgamo ou cabeços do Ida,
  141. Muitas coxas de bois me queima pio,
  142. E atrás o Velocípede! Salvá-lo
  143. Deliberemos se nos cumpre, ó numes,
  144. Ou se antes convirá que o dome Aquiles.”
  145. A Olhicerúlea exclama: “Onipotente
  146. Senhor do raio, à Parca já fadado
  147. Livras um mortal! Seja; mas todos
  148. Não to aprovamos.” — Respondeu-lhe o Padre:
  149. “Inda em nada assentei, sossega, filha,
  150. Quero aprazer-te, ampla licença tenhas.”
  151. Isto, por si disputa, incita a Palas,
  152. Que do Olimpo se arroja, enquanto Aquiles
  153. Urge tenaz a Heitor. Se, em monte ou vale,
  154. Do covil a cervato ergue o sabujo,
  155. A estremecer na moita ele se oculta,
  156. E o sabujo o rasteja até que o acha;
  157. Tal na trilha de Heitor ia o Pelides.
  158. Sempre que às torres e às Dardânias portas,
  159. Cujos tiros de cima o socorressem,
  160. Pende Heitor, ele aos muros mais vizinho,
  161. Lhe vem de frente, para o campo o arreda.
  162. Como em sonhos não pode ao fugitivo
  163. Este alcançar, nem se livrar aquele:
  164. Heitor assim de Aquiles não se livra,
  165. Nem Aquiles o alcança. E Heitor o golpe
  166. Evitara fatal, se ao lado Apolo
  167. Não lhe aumentasse a força e a ligeireza?
  168. Acena Aquiles de cabeça às tropas,
  169. Que a dardos não o ajudem, nem lhe tirem
  170. Ferir primeiro e só. No quarto giro
  171. Juntos eles às fontes, alça o Padre
  172. Áurea balança; numa concha o eterno
  173. Sono libra de Heitor, noutra o de Aquiles:
  174. Grave de Heitor a sorte a Plutão baixa,
  175. E Febo o deixa. A déia olhicerúlea
  176. Se avizinha ao Pelides: “Ora espero,
  177. Ó caro a Jove, encher de glória os Dânaos,
  178. Heitor aqui rendermos. De combates
  179. O insaciável escapar não conte,
  180. Nem que aos pés do Tonante o implore Febo.
  181. Tu quieto resfolga, e entanto eu mesma
  182. Vou suadi-lo a pelejar contigo.”
  183. Ele contente ao freixo de érea choupa
  184. Se encosta; e Palas a Deifobo o vulto
  185. E a voz toma indefessa: “Heitor, gritou-lhe,
  186. Fogoso ante a muralha o fero Aquiles,
  187. Ó divo irmão, te acossa; alto façamos
  188. Firmes a recebê-lo.”— E Heitor: “Prezado
  189. Me eras, Deifobo, sobre quantos filhos
  190. De Hécuba teve Príamo: hoje em dobro
  191. Te prezo, irmão, que, ao veres meu perigo,
  192. Vens sustentar-me, e dentro os mais se ficam.”
  193. Então Minerva: “Nossos pais augustos
  194. E os sócios, caro irmão, de medo frios,
  195. De joelhos, não sair me suplicavam;
  196. Mas dor interna o coração pungiu-me.
  197. Lutemos dardo a dardo e rosto a rosto,
  198. Sem pouparmos fadiga; às naus vejamos
  199. Se ele nos leva o espólio sanguinoso,
  200. Ou se desse teu pique hoje é domado.”
  201. Ei-la dolosa avança, e ambos já perto,
  202. O galeato herói primeiro fala:
  203. “Ante a cidade vezes três, Pelides,
  204. Sem te suster girei; não mais te fujo;
  205. Agora a te arrostar me força o brio,
  206. Ou vencer ou morrer. Porém guardemos
  207. Pacto que os deuses testemunhem todos:
  208. Se da vida privar-te eles me outorgam,
  209. Teu corpo restituo inteiro e puro,
  210. E só das pulcras armas despojado;
  211. Igual favor Pelides, me assegures.”
  212. E ele feroz: “Um pacto ousas propor-me,
  213. Acerbíssimo Heitor! Pacto há sincero
  214. Entre homem e leão, lobo e cordeiro?
  215. Ódio nutrem recíproco e perpétuo.
  216. Não, tratados jamais; de um de nós ceve
  217. O sangue esparso ao belicoso Marte.
  218. O valor todo envida; ora te cumpre
  219. N’hasta acérrimo ser e audaz guerreiro.
  220. Não tens refúgio, pune-te Minerva
  221. Por minha destra; as agonias vingo
  222. Dos meus que trucidaste.” E aqui dispara:
  223. Furta-se Heitor; Minerva às escondidas
  224. Da areia arranca o pique, ao dono o entrega.
  225. Diz o Dardânio: “Erraste, herói divino.
  226. De Jove, gabas-te, o meu fado sabes.
  227. São dolos teus pra remeter-me susto
  228. E embotar-me o valor. Se o quer um nume,
  229. Não de costas, no seio a ponta aênea
  230. Me cravarás. Evita agora a minha,
  231. Que em teu corpo oxalá se enterre toda.
  232. Será, tu morto, nosso afã mais leve;
  233. És o maior flagelo dos Troianos.”
  234. E desferida a lança, ao meio acerta;
  235. O escudo a repulsou. Do bote inútil
  236. Sentido o herói, demisso o rosto, enfia
  237. Por não ter outra lança, e a gritos pede
  238. Uma a Deifobo de alvo abroquelado;
  239. Este ali não se achava, e conhecendo
  240. A ilusão, clama Heitor: “Ai! morte os numes
  241. Me aprestam já! Deifobo ao lado eu cria;
  242. Mas ele é dentro, e me enganou Minerva.
  243. A Parca se apropinqua inelutável:
  244. De longe o quis o Padre e o filho archeiro,
  245. Meus custódios outrora. Urge-me o fado:
  246. Sequer não morro imbele; a glória minha
  247. Vá ressoar grandiosa nos vindouros.”
  248. Da espada aqui puxou, que lhe pendia
  249. Grande e fornida e aguda, e rui coberto,
  250. Bem como águia altaneira entre nublados
  251. Sobre tímida lebre ou tenra ovelha.
  252. Iracundo e ferino investe Aquiles:
  253. O escudo aos peitos brilha artificioso;
  254. No elmo de quatro cores relumbrante
  255. Áureo ondeia o penacho, que Vulcano
  256. Pela cimeira derramou. Qual Vésper,
  257. A mais donosa estrela em fusca noite,
  258. Fulge na destra a lança a Heitor funesta;
  259. Busca a jeito empregá-la, que a Pátroclo
  260. O arnês belo despido ao belo corpo
  261. Todo guarnece, e a crava em mortal sítio,
  262. Onde o pescoço ao ombro se articula;
  263. Mas não lhe ofende a jugular o bronze,
  264. Nem tronca a voz. No pó rola o vencido;
  265. O outro blasona: “Impune, Heitor, cuidavas
  266. Pátroclo despojar? Não vias, louco,
  267. Naquelas naus um vingador mais forte,
  268. Que vim hoje esses membros dissolver-te?
  269. Corvos te hão-de roer e torpes gozos,
  270. E ele terá pomposo enterramento.”
  271. Balbuciante o herói: “Por teus joelhos
  272. E por teus genitores, eu te obsecro,
  273. Não deixes animal dilacerar-me:
  274. Bronze e ouro aceites que meu pai te oferte
  275. E minha augusta mãe; Teucros e Teucras
  276. Ah! dêem meu corpo à fúnebre fogueira.”
  277. Torvo o Pelides: “Nem por meus joelhos,
  278. Nem por meus genitores, cão, me implores.
  279. Autor cru do meu mal, tivesse eu forças
  280. De tragar-te essas carnes palpitantes!
  281. Não tens remédio algum: de tais presentes
  282. Nem que o décuplo e em dobro se me oferte
  283. Com promessa de mais, nem que te pese
  284. Príamo a ouro, tua mãe augusta
  285. Há-de em leito feral chorar seu filho;
  286. Sê pasto e jogo de animais famintos.”
  287. E a vasquejar Heitor: “Previ que os rogos,
  288. Ó férreo coração, baldados eram:
  289. Talvez que esta impiedade irrite os numes,
  290. Quando, embora valente, às mãos caíres
  291. De Febo e de Alexandre às portas Ceias.”
  292. A morte a voz lhe embarga; a Plutão baixa
  293. A alma dos membros solta, a lamentá-lo
  294. Murcho em flóreo vigor da mocidade.
  295. Não vive mais, e o vencedor o insulta:
  296. “Morre, venham meus fados quando Jove
  297. E os outros imortais cumpri-los queiram.”
  298. Então lhe puxa a lança e a põe de parte,
  299. Despe-lhe o arnês sangüento. Em roda enxame
  300. De Argeus acode, que de Heitor pasmados,
  301. Admiram-lhe a estatura e gentileza;
  302. Vem cada qual feri-lo, e entre si dizem:
  303. “Hui! Como Heitor é brando e mais tratável
  304. Que ao deitar fogo às naus!” Com tais motetes,
  305. Lhe ia o tropel o corpo vulnerando.
  306. O espólio toma, e aos Gregos fala Aquiles:
  307. “Chefes e amigos, por favor celeste,
  308. Jaz o varão, que os Teucros todos juntos
  309. Mais nocivo: à cidade arremetamos;
  310. Toca saber se abandoná-la tentam,
  311. Ou contrastar-nos, bem que Heitor perdessem...
  312. Mas que resolvo? Está Pátroclo morto
  313. Ante as naus, insepulto e não chorado;
  314. De quem, mova eu na terra estes joelhos,
  315. Nunca me esquecerei, nem se no inferno
  316. Memória desta vida se consente.
  317. O peã entoai, mancebos Dânaos,
  318. E às naus frio o cadáver transportemos;
  319. Imensa glória sobre Heitor ganhamos
  320. Que era dos Troas como um deus honrado.”
  321. Logo, para ultrajá-lo, aos pés lhe fura
  322. Do calcanhar ao tornozelo as fibras,
  323. Bovinos loro mete, ao carro o prende,
  324. Cabeça a rastos: com o espólio monta,
  325. Sacode o açoute, os corredores voam.
  326. Rojado, o pó levanta, e o pó lhe afeia
  327. A coma negra, o vulto, que era há pouco
  328. Tão belo e nobre: Júpiter a injúrias
  329. Hostis o vota nos paternos campos!
  330. Da cena atroz à vista, a mãe coitada
  331. Se carpe e rasga, o véu nítido expele,
  332. E ulula e geme; triste o pai lamenta;
  333. Pela cidade o miserando povo
  334. Soluça em pranto, qual se Tróia em peso
  335. Do excelso cume em chamas desabasse.
  336. O velho mal continham de sair-se
  337. Pelas Dardânias portas; e ele a todos,
  338. Rolando-se na lama, suplicava,
  339. A chamar um por um: “Ir só deixai-me,
  340. De mim não se vos dê, perante a frota
  341. Ao cruel matador prostrado, amigos,
  342. Implorar, comover: talvez respeite
  343. Em mim o eqüevo de Peleu, que o teve
  344. E o nutriu para exício dos Troianos.
  345. Mormente a mim me cumulou de angústias:
  346. Quantos filhos em flor me tem roubado!
  347. Porém, dos que pranteio, um só de todos
  348. Me dói mais e me arrasta ao centro escuro
  349. Heitor... Oh! Se em meus braços expirasse!
  350. Em lágrimas eu mesmo, em ais e em luto,
  351. Com a mãe que mo gerou desafogara.”
  352. Gemente o chora o povo; entre as mulheres
  353. Hécuba rompe em lúgubres suspiros:
  354. “Morreste, filho, e eu vivo! Dia e noite
  355. Eras o meu orgulho e amparo d’Ílio,
  356. Eras um deus aos Teucros e às Troianas
  357. Já foste nossa glória, e és um cadáver!”
  358. Entanto, aviso Andrômaca nem tinha
  359. De que o marido só restasse fora.
  360. Em cima e no interior, tecia tela
  361. Dúplice e esplêndida, em folhagem vária;
  362. E às servas ordenara emadeixadas
  363. Um banho em ampla trípode aquecessem,
  364. Para quando voltasse da batalha.
  365. Néscia! De banhos longe, a gázea Palas
  366. Domado o havia pelas mãos de Aquiles.
  367. Mas da parte da torre ouviu lamentos
  368. E alto alarido; a lançadeira solta,
  369. Convulsa fala: “Duas me acompanhem.
  370. Que será? Sinto a voz da augusta sogra;
  371. Tremor no coração me salta aos lábios,
  372. E os frígidos joelhos se entorpecem:
  373. Algum dano sucede aos Priamidas.
  374. Oxalá que eu não ouça infausto anúncio!
  375. Mas temo que meu bravo Heitor sozinho
  376. Fora esteja, e o persiga o fero Aquiles;
  377. Que este lhe extinga a exicial coragem,
  378. Com que longe da turba e à frente lida,
  379. Nunca a ninguém cedendo em valentia...”
  380. E das fâmulas duas escoltada,
  381. Sai quase doida, a palpitar-lhe o peito;
  382. Sobe à torre, aos guerreiros se aproxima,
  383. E olha em torno do muro: a Heitor avista,
  384. Que de rojo os corcéis ante a cidade
  385. Para as naus cruelmente arrebatavam;
  386. Enoitam-se-lhe os olhos, e de costas
  387. Cai desmaiada, o espírito exalando.
  388. A laçaria e fitas se lhe espalham,
  389. Coifa e toucado, e o véu de Vênus prenda
  390. Quando, com dote infindo, o esposo a trouxe
  391. Da casa paternal. Para a conterem
  392. Ansiosa de acabar, de seu marido
  393. As irmãs e as cunhadas a rodeiam.
  394. Enfim no coração recobra o alento,
  395. Soluça e geme e chora: “Heitor, ai! Triste,
  396. Com fado igual nascemos, tu nos paços
  397. Do rei Príamo em Tróia, eu na Tebana
  398. Hipóplaco selvosa, onde criou-me
  399. De menina Eetion para infortúnios,
  400. E antes me não gerasse! Ora ao subtérreo
  401. Orco desces profundo, e em luto e nojo
  402. No viúvo aposento me abandonas;
  403. Nem do nosso filhinho és mais o arrimo,
  404. Nem ele o teu será. Da crua guerra
  405. A escapar, não se escapa à desventura;
  406. Mudado o marco, o esbulharão do prédio.
  407. O pupilo no dia da orfandade
  408. Perde os jovens amigos: baixo o rosto,
  409. Água nos olhos, se o do pai segura,
  410. Um pela túnica, outro pela capa,
  411. Indigente é repulso; o mais piedoso
  412. Bebida num copinho lhe escanceia,
  413. Que os beiços banha e o paladar não molha.
  414. O que possui os genitores ambos,
  415. Fero da mesa o expulsa, espanca e enxota:
  416. -Sai, conosco teu pai já não convive. —
  417. Tal há-de vir choroso à mãe viúva
  418. O infante meu, que aos paternais joelhos
  419. Com tutanos de ovelha se nutria,
  420. E lasso de brincar, entregue ao sono,
  421. Da nutriz afagado ao brando colo,
  422. Contente em mole berço adormecia.
  423. Órfão, misérias sofrerá meu filho,
  424. Que Astianax os nossos denominam,
  425. Porque eras, nobre Heitor, único apoio
  426. Destas muralhas. Ante as naus rostradas,
  427. Longe dos pais, hão-de roer-te vermes,
  428. Depois que nu te comam cães raivosos,
  429. A ti, que hás finas e elegantes vestes,
  430. Por tuas servas e por mim tecidas.
  431. Já que para a mortalha nem te servem,
  432. Em honra tua ao fogo vou queimá-las,
  433. Dos Teucros em presença e das Troianas.”
  434. As mulheres ao pranto ecos faziam. * * *

Nota a nota · 7 notas

v. 101–103Do rochedo e carvalho não é tempo
Diz Heitor que não é tempo de contar histórias a Aquiles, como as do rochedo e do carvalho, isto é, como então contavam moços e moças, crendo que homens antigamente nasceram dos carvalhos e dos rochedos. É o mesmo que se hoje em dia disséssemos que não era tempo de falar de histórias da carouchinha.
↩ voltar à passagem, v. 101
v. 184–300Se encosta; e Palas a Deifobo o vulto ⋯ De Argeus acode, que de Heitor pasmados,
Por mais que tenham justificado esta passagem, confesso que não gosto de ver a deusa da sabedoria enganar a Heitor com tanta perfídia. Se Virgílio assim tivesse escrito, como gritariam certos críticos Franceses e Alemães, vãmente apostados em rebaixar o poeta Latino! Eles, que opinam ser bastante para enterrar a Eneida o riso malicioso de Vênus perante Juno, acham excelente este engano de Minerva!
↩ voltar à passagem, v. 184
v. 247–249Vá ressoar grandiosa nos vindouros.”
O verso 247 é, com leve mudança, um de Francisco Manuel nos Mártires. — Monti omitiu a circunstância exprimida pela palavra aleis, isto é envolto ou coberto; mas esta circunstância aumenta a justeza da comparação: quer dizer Homero que Heitor, de espada na mão, cobriu-se com seu broquel, assim como a águia, dando sobre a lebre ou a cordeira, cai envolta em negras nuvens.
↩ voltar à passagem, v. 247
v. 316–317Memória desta vida se consente.
O primeiro é um verso de Camões num dos seus mais belos sonetos; exprime aqui o original, mas com certo mavioso toque, de que me quis aproveitar. No segundo, uso da palavra péan, renovada por Francisco Manuel com muita razão; porque péan não é um canto qualquer, mas o canto em honra dos deuses. Já, na tradução de Virgílio, mostrei que o termo vem nos dois nossos melhores dicionários. Moraes e Constâncio; e Moraes cita a Eneida Portuguesa do grande mestre da língua João Franco Barreto.
↩ voltar à passagem, v. 316
v. 361–365Dúplice e esplêndida, em folhagem vária;
Monti serve-se da palavra rabesco na passagem correspondente ao meu verso 361; o que é um anacronismo injustificável: rabescos ou arabescos são, como diz Constâncio, ornamentos de folhagens de flores, de figuras de arquitetura, imitados dos Árabes ou Mouros, cuja lei proibe as pinturas e esculturas que representam figuras de homens e de animais; e portanto não podia Homero conhecer isto, que não era do seu tempo. Monti só pudera justificar se o termo fosse exclusivo e único no italiano para exprimir o conceito: nesse caso, prescinde-se da origem. — Trípode não é somente uma tripeça ou assento de tres pés; é também uma espécie de caldeira de três longos pés, de que se serviam os Gregos para aquecer água. No Maranhão (ignoro se ainda é assim) todas as casas tinham, para o cozido principalmente, um ou mais caldeirões de ferro batido e fortíssimo, que passavam de pais a filhos; e estes caldeirões tinham três longos pés, de sorte que, no meio mesmo de um campo, sem ajuda de fogão, podiam servir, metendo-se-lhes por baixo a lenha: era uma cousa bem semelhante ao vaso Grego, sendo este porém de certa composição de cobre, e não de ferro. — M. Giguet, na passagem correspondente ao meu verso 365, em vez de longe de banhos, diz loin de ses tendres soins, referindo-se a tudo que fazia Andrômaca; mas parece-me que a repetição da palavra banhos aqui traz à lembrança o estado em que se achava Heitor, ensangüentado pelo pó arrastado, longe da verdade do banho que lhe preparava a mulher.
↩ voltar à passagem, v. 361
v. 393–404As irmãs e as cunhadas a rodeiam.
Monti aqui põe somente le cognate, e M. Giguet les soeurs de son époux et les femmes de ses frères: o segundo foi exato, porque verteu fielmente as palavras galõo e einateres do original. — O lugar de Homero correspondente aos meus versos 403 e 404, diz unicamente que nem Heitor será mais o apoio de Astianax, nem Astianax será o de Heitor; verte Monti que nem o pai será o sustentáculo do filho, nem o filho vingará seu pai; e eu, com outros, cinjo-me ao sentido literal. Creio que a pobre Adrômaca não fala de vingança, mas, com seu conjugal afeto, lembra-se de que o filho não será no futuro o apoio de seu pai na velhice: isto é mais terno, mais conforme ao todo do seu discurso, onde reinam sem mistura os sentimentos maternais e de consorte.
↩ voltar à passagem, v. 393
v. 418–432O infante meu, que aos paternais joelhos ⋯ Em honra tua ao fogo vou queimá-las,
Não quis Monti (contra a sua ordinária ousadia) traduzir o grego myelon, medula ou tutano, e disse: egli che dianzi d’eletti cibi si nudrìa. Eu usei da palavra tutanos, usada por Camões em uma das suas melhores odes, e desta maneira conservo a declaração do costume, que naqueles tempos havia, de alimentarem-se as crianças com tutanos e gorduras de ovelha; somente omiti a palavra gordura, porque em tutanos está suficientemente memorado o costume. — Os meus versos 431 e 432 cuido que exprimem os do autor, posto que mais concisamente: Homero diz, por boca de Andrômaca: Irei queimar todas as vestes em fogo ardente, já que não te servirão nem jazerás nelas; e eu, aclarando o pensamento, verto: Já que para a mortalha nem te servem, em honra tua ao fogo vou queimá-las. A negativa nem já mostra que as vestes não eram unicamente destinadas para Heitor nelas jazer ou para sua mortalha, mas também o eram para outros usos. Veja-se Nem em Constâncio e o fim do seu artigo.
↩ voltar à passagem, v. 418
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