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IlíadaLivro XX
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Enquanto com o herói sedentos Graios

408 versos · 5 notas do tradutor


  1. Enquanto com o herói sedentos Graios
  2. Se armam na frota, e na colina os Teucros,
  3. Do Olimpo sinuoso expede Jove
  4. Têmis, que gira tudo e chama os deuses
  5. À Dial corte: menos o Oceano,
  6. Rio algum não faltou, nem faltou ninfa
  7. Que bosque habite ou fonte ou prado ervoso.
  8. Já do Nubícogo em polidas selas,
  9. Que lhe engenhou Vulcano, estavam todos,
  10. Quando cortês o rei dos mares chega,
  11. Toma seu trono e diz: “Senhor do raio,
  12. Por que de novo os imortais convocas?
  13. Sobre os Aqueus e os Teucros deliberas,
  14. Prestos a arder em sanguinosa lide?”
  15. Responde o irmão: “Netuno, em mim penetras;
  16. Eu de Ílio curo, bem que já no extremo.
  17. Mas, do espetáculo a gozar tranqüilo,
  18. No celso Olimpo ficarei; vós outros,
  19. A bel-prazer, a Gregos ou Troianos
  20. Auxiliai: se Aquiles só combate
  21. Os que de o ver atônitos fugiram,
  22. Nem por um pouco o susterão, mormente
  23. Ora que pelo amigo enraiva e brame.
  24. Temo que assole, contra o fado, o muro.”
  25. Com isto inflama os deuses, que discordes
  26. Vão-se: às naus, Juno e Palas, mais Netuno,
  27. O útil sutil Mercúrio, e o coxo nume
  28. Duro e atroz, bem que as tíbias lhe vacilem;
  29. Mas aos Troas, Gradivo de éreo casco,
  30. O intenso Apolo, a madre, a irmã frecheira,
  31. Xanto e a ridente Vênus. Longe os deuses
  32. Da luta, ovantes os Aqueus floreiam
  33. Da aparição de Aquiles, e os Troianos
  34. Tremem do velocípede, que em armas
  35. Lampeja e emula ao cru Belipotente;
  36. Mas, do Olimpo ao descerem, num ruído
  37. Ferve tudo: Minerva ora do fosso,
  38. Ora da praia ressonante grita;
  39. Qual negro furacão rugindo Marte,
  40. Anima os Teucros, ou do sumo alcáçar,
  41. Ou do Símois correndo os verdes coles.
  42. Mal os celestes o conflito abrasam,
  43. Troveja horrendo Júpiter; Netuno
  44. Abala a terra ingente e os celsos montes,
  45. Do Ida manante os cimos e as raízes,
  46. A Troiana cidade e as naus Aquivas;
  47. Pálido o inferno rei do trono salta,
  48. Com medo exclama de que, o chão fendendo,
  49. O Enosigeu aos vivos descobrisse
  50. A hedionda mansão, terror dos homens,
  51. De que as mesmas deidades se horrorizam:
  52. Com tal fragor os imortais contendem!
  53. Febo a Netuno opunha-se de setas;
  54. Palas a Marte; a Juno a de arco-de-ouro
  55. Do Longe-vibrador irmã fragueira;
  56. Ao lucroso Mercúrio a mãe de Apolo:
  57. A Vulcano o Escamandro, que os Supremos
  58. Xanto nomeiam, vorticoso rio.
  59. Deus a deus se afrontava: mas Aquiles
  60. Busca entre a chusma Heitor, que no seu sangue
  61. Da guerra o nume ceve. Apolo entanto
  62. Esperta e incita o coração de Eneias,
  63. Simula a voz de Licaon Priâmeo:
  64. “Onde, ilustre Anquisiada, a promessa,
  65. Que entre os copos fizeste ameaçadora,
  66. De arrostar o Peleio?” — Eneias logo:
  67. “Por que assim, Priamides, me constranges
  68. A pelejar contra o soberbo Aquiles?
  69. Já nos medimos, do Ida já de lança
  70. Me afugentou, caindo em nossos gados
  71. E arrasando-nos Pédaso e Lirnesso:
  72. Jove deu-me asas e vigor nas pernas;
  73. Senão, domado eu fora; porque avante
  74. Minerva a derribar o acorçoava
  75. Com bronze agudo a Lélagas e Troas.
  76. Varão não se lhe atreve: um deus ao lado
  77. Preserva-o sempre, e o tiro seu voando
  78. Sem falência transpassa humanas carnes.
  79. Tivesse eu patrocínio igual ao dele,
  80. Que o Pelides não fácil me vencera,
  81. Ser de metal embora se glorie.”
  82. Febo tornou: “Depreca os Sempiternos.
  83. De inferior deusa vem, que o dizem filho
  84. Da filha de Nereu; por mãe tens Vênus,
  85. Prole de Jove. De éreo pique, a ele;
  86. De seus feros, herói, não te acobardes.”
  87. Assim o inspira, e o maioral de povos
  88. Brioso à frente sai e armado brilha.
  89. Juno em busca do Eácida o percebe
  90. Turmas rompendo, e ao bando seu previne:
  91. “Olhai como isto irá, Netuno e Palas;
  92. Contra Aquiles Apolo o Anquíseo impele.
  93. Repulsemos o deus, e um de nós perto
  94. Corrobore o Pelides; o herói sinta
  95. Que deuses potentíssimos o escudam,
  96. E outros em pró de Tróia em vão se empenham.
  97. Do Olimpo aqui baixamos, para que hoje
  98. Não padeça: ao depois lhe estale o fio
  99. Curto que desde o berço as Parcas dobam.
  100. Se informado não for por nós Aquiles,
  101. Temerá qualquer deus que infenso veja;
  102. Que a presença de um deus sempre é terrível.”
  103. O Enosigeu responde: “Não te assustes,
  104. Fica-te mal, Satúrnia. Por mais fortes,
  105. Nos abstenhamos, e os mortais que briguem:
  106. De atalaia espreitemos. Entre em liça
  107. Marte ou Febo, de Aquiles a ação tolham,
  108. Que travaremos guerra; e estou que em breve
  109. À divina assembléia e sacro Olimpo
  110. Terão de reverter, por nós domados.”
  111. Então sobe à muralha o azul monarca
  112. Por Minerva e os Troianos construída,
  113. Refúgio para Alcides, se a tremenda
  114. Orca da praia o perseguisse ao plaino:
  115. Sentam-se ali Netuno e os sócios deuses,
  116. De insolúvel nublado circunfusos.
  117. D’além, Arcitenente, nesses coles
  118. Os teus com Marte urbífrago te cercam.
  119. Uns e outros espaçosos deliberam,
  120. Estrear duvidando o morticínio;
  121. O Satúrnio de cima os esporeia.
  122. Luzem no cheio campo homens e carros,
  123. Treme e reboa do estrupido a terra;
  124. Mas dois varões ao meio ardentes marcham,
  125. O Anquíseo belicoso e o divo Aquiles.
  126. De elmo a nutar pesado, avança Eneias,
  127. Minaz agita o escudo e o peito cobre,
  128. Brande êneo pique; vem de encontro o Grego.
  129. Sevo leão, que um pago todo investe,
  130. Primeiro desdenhoso encara a turba;
  131. Se de azagaia o sangra ousado moço,
  132. Torcido e hiante mostra espúmeos dentes,
  133. Geme, de cauda açouta ilhais e coxas,
  134. Raiva, olhos gázeos rola, aos dianteiros
  135. Pular ensaia ou perecer com brio:
  136. Tal fúria invade o coração de Aquiles
  137. Contra o galhardo corajoso Eneias.
  138. Já fronte a fronte, o pé-veloz começa:
  139. “Por que, Eneias, tão fora estás da linha?
  140. Vens combater comigo, e imperar contas
  141. Nos cavaleiros Teucros? Se venceres,
  142. Príamo em tuas mãos não larga o cetro,
  143. Que há prole e mente sã. Talvez esperas,
  144. Por matar-me, vinhedo e férteis veigas?
  145. Árdua empresa, pois cuido que esta lança
  146. Talvez te afugentou. Lembras-te quando,
  147. Longe dos bois, do Ida rechacei-te?
  148. Nem para trás olhavas na carreira,
  149. Até Lirnesso. Com Minerva e o Padre,
  150. A Lirnesso abati, privei do livre
  151. Dia as mulheres e comigo as trouxe;
  152. Mas Júpiter salvou-te: hoje em vão pensas
  153. Que ele te salve. Às linhas te recolhas;
  154. Evita o meu furor, foge, que é tempo.
  155. Do erro tarde o insensato se arrepende.”
  156. Retorque Eneias: “Eu não sou, Pelides,
  157. Criancinha que assustes com palavras.
  158. Posso também de injúrias carregar-te;
  159. Que sabemos de ouvida a estirpe nossa,
  160. Bem que avós teus não conheci de vista,
  161. Nem conheceste os meus. Prole te aclamam
  162. Peleia e da pulcrícoma Nereida;
  163. Nasci de Vênus e do grande Anquises:
  164. Parte hoje destes chorarão seu filho;
  165. Pois não creio daqui nos separemos,
  166. De pueris bravatas satisfeitos.
  167. Mas ouve, se te apraz ouvir quem somos,
  168. Que Júpiter gerou, como é constante,
  169. A quem Dardânia ergueu; pois Ílion sacra
  170. Em pé não era, e do Ida fontanoso
  171. À raiz os falantes habitavam.
  172. Dárdano houve o riquíssimo dos homens
  173. Erictônio, que em brejos lhe pasciam
  174. Éguas três mil, da nédia raça ufanas:
  175. Prenhes do amante Bóreas, na aparência
  176. De um corcel negro de azulada crina,
  177. Pariram doze poldros, que saltando
  178. Pela alma terra, a messe nem feriam,
  179. E a brincar pela vasta equórea espalda,
  180. Leves no salso argento escorregavam.
  181. Erictônio houve a Troa, que o príncipe Ilo
  182. Teve e Assáraco após, e o mais formoso
  183. Dos mortais o deiforme Ganimedes,
  184. Para escanção de Jove arrebatado,
  185. Celícola gentil. Foi de Ilo fruto
  186. O exímio Laomedonte; o qual por filhos
  187. Contou Clício e Titon, Príamo e Lampo,
  188. Hicetoon mavórcio. Cápis, que era
  189. De Anquises pai, de Assáraco foi nado,
  190. Gerou Príamo a Heitor, gerou-me Anquises,
  191. Gabo-me sim de uma prosápia ilustre;
  192. Bem que, absoluto e onisciente, Jove
  193. Alça ou baixa o valor no peito humano.
  194. Mas loquela infantil cesse entre as armas,
  195. Podemos ambos despejar opróbrios
  196. Que uma nau de cem remos abarrotem;
  197. Que a língua é solta e infindos os dictérios,
  198. E troco é de um convício outro convício.
  199. Mas para que ralharmos, quais mulheres
  200. Que, na rua assanhadas altercando,
  201. Se insultam com verdades e mentiras?
  202. Pronto a pugnar, teus feros não me aterram.
  203. Eia, as lanças de perto experimentemos.”
  204. E vibra a sua contra o escudo horrendo,
  205. Onde fixa ressoa a cúspide ênea.
  206. Turba-se Aquiles, e do peito o escudo
  207. Com mão robusta afasta, receando
  208. Que o magnânimo Eneias lho atravesse:
  209. Deslembra estulto que divinas armas
  210. Fácil ao braço de um mortal não cedem.
  211. Lâminas cinco lhe dobrou Vulcano,
  212. De cobre as duas, as de estanho em baixo,
  213. Áurea a do meio: nesta embaça o tiro,
  214. Que as de cima traspassa o herói Troiano.
  215. Então sua hasta longa expede Aquiles,
  216. E a rodela inimiga no alto fura,
  217. Onde éreo fio em derredor corria
  218. E tênue couro: o arnês rebrame ao choque
  219. Do Pelíaco freixo; o corpo Eneias
  220. De susto encolhe, e a tarja ao longe estende;
  221. Ávido rasga o pique as orlas duas,
  222. Por sobre o dorso vara e o solo espeta.
  223. Livre do bote, os olhos se lhe ofuscam
  224. De centúplice dor, sentindo a lança
  225. Perto no chão pregada. Lesto Aquiles
  226. De gládio o investe com terríveis urros.
  227. Pega e meneia o Anquíseo pedra enorme,
  228. A dois varões d’agora nímia carga:
  229. Certo, por defender-se, o escudo ou casco
  230. Eneias lhe fendera; mas à espada
  231. O matara o Pelides, se Netuno
  232. Aos deuses não bradasse: “Dói-me, ó numes,
  233. Que às mãos de Aquiles o brioso Eneias
  234. Louco desça a Plutão, por confiar-se
  235. No Longe-vibrador, que o não socorre.
  236. Por que inocente pagará por outros
  237. Quem sempre aos imortais mil dons oferta?
  238. Salvemo-lo, que Jove há-de agastar-se
  239. De o ver extinto. É fado que a progênie
  240. Permaneça de Dárdano, a mais cara
  241. Prole que de mulher teve o Satúrnio;
  242. A geração de Príamo ele odeia:
  243. Quer pois que Eneias reine, mais seus filhos,
  244. E os que dos filhos procedendo forem.”
  245. A quem Juno olhitáurea: “Considera
  246. Contigo, Enosigeu, se tu o resguardas,
  247. Ou se acabe no instante o pio Eneias;
  248. Que eu e Palas juramos ante os deuses
  249. Nunca a um Teucro valer, nem que Ílio em cinzas
  250. Caia abrasada pela Grega chama.
  251. Isto ouvindo Netuno, entre o ruído
  252. E furor do combate, a Eneias busca;
  253. Derrama logo em torno do Pelides
  254. Cego negrume; da rodela saca
  255. Do bravo Teucro o freixo de érea ponta,
  256. Põe-no aos pés do rival; com rude impulso
  257. Faz o deus que de um salto Eneias vença
  258. Muitas filas de heróis, de carros muitas,
  259. E pare n’ala extrema, onde em batalha
  260. Armavam-se os Caucomes. Face a face,
  261. Presto Netuno exclama-lhe: “Insensato!
  262. Que deus ora te excita contra Aquiles,
  263. Mais do que tu valente aceito aos numes?
  264. Ah! foge de encontrá-lo, a não quereres,
  265. Apesar do destino, ir aos infernos:
  266. Mas, quando a morte o ceife, audaz propugnes;
  267. De outro Aquivo nenhum temer-te podes.”
  268. Assim que instrui a Eneias, d’ante Aquiles
  269. Desfaz a névoa grossa. Este vê claro,
  270. Entre si diz gemente: “Hui! Que prodígio!
  271. A hasta a meus pés, sumiu-se o herói que ardente
  272. Com ela eu quis matar! Os deuses o amam,
  273. Não é vanglória sua. E bem, comigo
  274. Não mais se atreverá: salvou-se, basta.
  275. Ora sus; aguçado o esforço Aquivo,
  276. Os mais Teucros provemos. Logo às filas
  277. Salta, exorta um por um: “Valentes Gregos,
  278. Longe estais; barba a barba, arremessai-vos:
  279. Por mais forte que seja, é-me impossível
  280. A tantos perseguir, lutar com todos;
  281. Nem Mavorte imortal, nem Palas mesma
  282. Turmas tais acossando opugnaria.
  283. Mas, quanto em mãos e em pés e em brio valho,
  284. Tudo vos sagro, e sem respiro aos Teucros
  285. Me enviarei; nem folgará, presumo,
  286. Quem deste pique a tiro se aproxime.”
  287. Também Heitor concita, aos seus promete
  288. Ao Pelides marchar: “Bizarros Frígios,
  289. Aquiles não temais. Eu de palavras
  290. Posso aos deuses me opor, nunca de lança,
  291. Que mais potentes são: nem tudo Aquiles
  292. Tem de acabar; obtenha uma façanha,
  293. Que outra será no meio mutilada.
  294. Corro a encontrá-lo, embora ao ferro ou bronze
  295. Imite seu valor, seu braço ao fogo.”
  296. Animados os Teucros, de hasta em punho,
  297. Em algazarra, em mó se precipitam
  298. Mas a Heitor susta Febo: “Heitor, suspende,
  299. Que se da linha sais, a estoque ou dardo
  300. O Aqueu te prostrará.” Da voz divina
  301. Heitor se abala, no tropel se esconde.
  302. De coragem vestido, urrando fero,
  303. Surge Aquiles. De lança em duas racha
  304. A testa a Ifition, de imensos cabo,
  305. Do turrífrago Otrinto insigne gérmen,
  306. De uma Naida parido sob o Tmolo
  307. Nervoso, de Hides no opulento burgo;
  308. Ele baqueia, e orgulha-se o Pelides:
  309. “Tremendíssimo Otrintes, aqui jazes,
  310. Bem que a família e os agros tens paternos
  311. Do lago Gíjes nas risonhas margens,
  312. Ao pé do Hilo piscoso e túrbido Hermo.”
  313. Entanto, Ifition se imerge em trevas,
  314. E a rodar Graios coches o espedaçam.
  315. A Demoleon, belígero Antenórida,
  316. Pela viseira a têmpora atravessa;
  317. Nem éreo o elmo ao campeão defende,
  318. Que ávida a choupa os ossos e os miolos
  319. Quebra ou derrama: o temerário tomba.
  320. A Hipodamas, que apeia-se e escapole,
  321. No dorso enterra a cúspide: ele expira
  322. A alma feroz, mugindo como touro
  323. Que ante o Helicônio Enosigeu mancebos
  324. Arrastam, com prazer do azul tirano.
  325. Atira-se ao deiforme Polidoro,
  326. A quem Príamo pai vedava a pugna,
  327. Porque era o seu menor e estremecido;
  328. Porém, sobre os irmãos de pés ligeiro.
  329. Vaidoso na vanguarda ia correndo,
  330. Quando Aquiles veloz lhe enfia às costas,
  331. Onde encruzam do bálteo áureas fivelas
  332. Em reforço da coura: pelo umbigo
  333. Lhe sai a ponta; ajoelha-se ululando,
  334. E em letal noite os intestinos colhe.
  335. Heitor, que vê rolar o irmão por terra
  336. Os intestinos a reter, os olhos
  337. Ofusca em treva, do Pelides longe
  338. Não pode mais estar; brandindo a lança,
  339. Como chama arremete. Exulta Aquiles
  340. E diz jactancioso: “Eis quem no peito
  341. Mais me pungiu, matando-me o dileto!
  342. Cessemos de fugir-nos mutuamente
  343. Por atalhos do exército.” E prossegue
  344. A olhar medonho: “Heitor, chega-te perto,
  345. Para mais breve a morte receberes.”
  346. O divo Heitor impávido responde:
  347. “Não sou menino que falando assustes;
  348. Prescindamos, Aquiles, de impropérios.
  349. Conheço que és valente e que me excedes;
  350. Mas dos deuses no grêmio a sorte pousa,
  351. E inferior eu talvez te arranque a vida,
  352. Pois também do meu dardo a ponta fura.”
  353. Vibra o arremesso então, que ao leve sopro
  354. De Palas, desviando-se de Aquiles,
  355. Torna aos pés do senhor. Feroz bramindo
  356. Presto o Pelides rui sanguissedento;
  357. Mas Febo, como deus, rápido leva
  358. E encerra Heitor em tenebrosa nuvem.
  359. Três vezes o fogoso esgrime a lança,
  360. Três verbera a espessíssima caligem;
  361. Da quarta enfim como um demônio troa:
  362. “Inda escapaste, cão; salvou-te Apolo,
  363. Que entre o márcio estampido invocas sempre.
  364. Mas noutro encontro, se me assiste um nume,
  365. Certo mo pagarás: dos teus agora,
  366. Quantos possa alcançar, farei matança.”
  367. Nisto, a cerviz a Dríope lanceia.
  368. Deixa-o, fere na rótula o famoso
  369. Demouco Filetório, que detido
  370. A gládio acaba. A Dárdano e Laogono,
  371. De Bias prole, do seu coche deita;
  372. Este cai de um revés, de um bote aquele.
  373. Troe Alastório prostra-se, rogando
  374. Que o deixe vivo, e igual idade alega
  375. Por comovê-lo: estulto! É sem brandura
  376. O atroz Peleio, e no ato em que aos joelhos
  377. Ia Troe abraçá-lo, a espada irosa
  378. Desentranha-lhe o fígado, que o seio
  379. De cruor enche; inânime o coitado
  380. Escuros olhos fecha. Ao perto em Múlio
  381. De orelha a orelha embebe a choupa aênea.
  382. De estoque vara do Agenório Equéclos
  383. A testa, e o sangue a empunhadura aquece;
  384. Fatal purpúrea morte o cega e rende.
  385. A Deucalion dardeja onde se ligam
  386. Pulso e cúbito; o braço a atormentá-lo,
  387. Aguarda a instante Parca: degolado,
  388. A medula da vértebra desparge,
  389. E ao longe elmo e cabeça, o tronco estira.
  390. A Rigmo estrênuo, de Pireu nascido
  391. Lá na glebosa Trácia, o ventre passa,
  392. De cima o arroja: ao fâmulo Arcitoo,
  393. O coche ao revirar, perfura o dorso;
  394. Derrui da sela, espantam-se os cavalos.
  395. Qual, de árida montanha em fundos vales,
  396. Amplo devora a mata imano incêndio,
  397. A contorcer-se do Ábrego às rajadas;
  398. Assim furente, como um deus, Aquiles
  399. Arde, e no morticínio a terra ensopa.
  400. Qual a junta de bois de larga fronte,
  401. Na eira a separar branca cevada,
  402. Mugindo os feixes pisa e os grãos debulha;
  403. Assim vão os ungüíssonos calcando
  404. Corpos e escudos: sangue o eixo escorre,
  405. Que das patas espirra; o assento em roda
  406. Gotas aspergem que dos aros vertem.
  407. As mãos o invicto herói, na glória aceso,
  408. De suor sujas leva e pó cruento. * * *

Nota a nota · 5 notas

v. 28Duro e atroz, bem que as tíbias lhe vacilem;
Tíbias por pernas delgadas; quando são magras, mostram os ossos principais ou as tíbias.
↩ voltar ao verso 28
v. 129–134Sevo leão, que um pago todo investe,
Pago não vem em Constâncio, sim em Moraes, que cita as Pindáricas de Diniz. — Nem Buffon, nem o Diccionaire d’histoire naturelle, dá-nos a cor dos olhos do leão, que são azulados ou azuis claros, como o notou Homero. Dos tradutores do meu conhecimento, fiel só foi M. Giguet.
↩ voltar à passagem, v. 129
v. 307Nervoso, de Hides no opulento burgo;
O intérprete latino pôs Idœ por Idès do verso 385 do original; mas é evidente que Ifition não podia nascer no Ida e sob o Tmolo: Idès foi uma vila ou povoação, Hydes ou Hyla, nas abas do Tmolo, monte da Lídia.
↩ voltar ao verso 307
v. 323Que ante o Helicônio Enosigeu mancebos
Helicônio, epíteto de Netuno, que tinha um templo em Hélice da Acaia, destruída por um terremoto.
↩ voltar ao verso 323
v. 373–384Troe Alastório prostra-se, rogando
Tomo Troe por nome próprio e não por um Troiano qualquer: assim o fizeram alguns tradutores. — Creio já ter advertido que porpureos thanatos do original deve traduzir-se à letra purpúrea morte, por ser violenta e com sangue a de que se trata: mais de uma vez serve-se Homero desta expressão, que foi imitada por Virgílio.
↩ voltar à passagem, v. 373
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