Da nau fervia o prélio, e ao divo Aquiles
737 versos · 9 notas do tradutor
- Da nau fervia o prélio, e ao divo Aquiles
- Vem Pátroclo a verter cálido choro,
- Como de celsa rocha em fio brota
- Fundo olho d’água. Comovido o encontra
- O amigo velocípede: “Pátroclo,
- Pranteias molemente? És qual menina
- Que, da mãe apressada após, retêm-na
- Pelo vestido, e em lágrimas olhando,
- Insta-lhe até que em braços a receba.
- Aos Mirmidões, a mim, que novas trazes?
- Veio de Ftia um núncio? Vivem, consta,
- Menetes e Peleu, cujo trespasso
- Tinha de entristecer-nos. Ou lamentas
- Os que ante as cavas naus ingratos morrem?
- Não me ocultes, amigo, as mágoas tuas.”
- Gemente assim Pátroclo: “Não te agastes,
- Aqueu sem par; dor grave oprime os nossos:
- Os mais valentes já feridos jazem,
- De lança o Atrida e Ulisses, e frechados
- Na coxa Eurípilo e no pé Diomedes.
- Médicas mãos os curam cuidadosas;
- Mas não se dobra teu rancor, Pelides.
- Nunca ira tal me cegue, herói funesto!
- Quem mais em teu valor fiar-se pode,
- Quando não livras da ruína os Gregos?
- Nem te gerou, cruel, Peleu nem Tétis;
- Filho és do turvo mar, de broncas penhas.
- Se agouros temes, se de Jove arcanos
- Declarou-te a mãe deusa, ao menos dá-me
- Teus Mirmidões, e aos nossos lume escasso
- Talvez serei. Tua armadura emprestes:
- Crendo-te em liça os Teucros, é factível
- Cessem do assalto, e aos márcios Gregos deixem
- Útil breve respiro em tanta lida;
- Frescos nós outros, o inimigo lasso
- Fácil do campo e naus rechaçaremos.”
- Ai! Néscio implora, e o fado e a morte chama.
- Suspira Aquiles: “Como! Eu, bom Menécio,
- De agouros me temer! De Jove Tétis
- Nada me revelou. Mas dói-me o agravo
- De um prepotente par, que o prêmio ganho
- Por minha lança na invadida praça,
- A jovem bela escrava, arrebatou-me;
- Dói-me sim que esse Atrida ma tirasse,
- Como das mãos de ignóbil vagabundo.
- Olvide-se o passado, nem perpétuo
- Ódio quero nutrir: de não depô-lo
- Voto fiz, sem primeiro à minha esquadra
- Chegar o estrondo e a pugna. O arnês que pedes,
- Veste-o, conduz os Mirmidões fogosos:
- De Teucros nuvem basta as naus circunda;
- Pouca ourela da praia aos Dânaos resta;
- Ílio em peso concorre e afouta inunda.
- Oh! Não vêem mais luzir meu capacete:
- Se o rei me fora justo, em fuga tinham
- O fosso de cadáveres enchido;
- Ora, opugnando, o exército encurralam.
- Não mais braveja a Diomédea lança,
- Os Dânaos resguardando; a voz calou-se
- Das goelas do Atrida abominável:
- A de Heitor homicida aos seus troveja;
- Guerreiros vivas o triunfo aclamam.
- Sus, Pátroclo, das naus remove a peste,
- Anda, acomete; a frota não se abrase,
- Que nos deve repor na doce pátria.
- Ouve e do meu conselho não te olvides,
- A fim que honras os Dânaos me prodiguem,
- E a cativa gentil me restituam
- Com magníficos dons: repulsos, volta;
- Embora o esposo altíssimo de Juno
- Te apreste a glória, os bélicos Hectóreos
- Não combatas sem mim, que me é desdouro;
- Nem ávido exultando na carnagem,
- Aos muros de Ílio o exército avizinhes;
- Pois descerá do Olimpo um dos Supremos,
- Talvez o Longe-vibrador que os ama.
- Salva as naus e retorna; eles pleiteiem
- Em raso campo. Ó sempiterno Padre,
- Minerva e Apolo, a morte a nenhum Teucro
- E a nenhum Grego poupe; escapos ambos,
- Sós Ílio sacra derribar nos caiba.”
- De rojões, entretanto, Ajax vexado,
- Mal se sustinha, que o domava Jove
- E o dardejar contino; em torno às fontes
- O elmo hórrido rouqueja, que o brilhante
- Artífice cocar alvo é dos tiros.
- Do pavês o ombro esquerdo já tem lasso,
- Mas quedo apara a chuva de arremessos;
- De anélito açodado, os membros todos
- Escorrendo em suor, nem resfolgava,
- Aumentando um perigo outro perigo.
- Musas do Olimpo, recontai-me como
- O fogo se ateou na Argiva armada.
- Onde a espiga se encava, de montante,
- Corta o Priâmeo o freixo ao Telamônio,
- Que mutilado vibra hastil inútil,
- E cai no chão tinindo a cúspide ênea.
- Treme o indômito Ajax reconhecendo
- Que obra é celeste, que o senhor do raio
- Decide e quer aos Teucros a vitória;
- Enfim recua. A infadigável chama,
- Remessada ao baixel, inextinguível
- Pega de popa a proa; então veemente
- Bate Aquiles na coxa: “Eia, Pátroclo,
- Vejo lavrar tenaz o hostil incêndio;
- Não se nos tolha o meio à retirada;
- Já já te arneses, e eu reúno as hostes.”
- Cinge o Menécio deslumbrante saio;
- Com prata afivelando, as finas grevas
- Ajusta às pernas; estrelada e vária
- Aos peitos liga a do veloz Pelides
- Érea couraça; o claviargênteo gládio
- Pendura; o grã pavês, sólido ombreia;
- Põe à forte cabeça o casco insigne,
- De nutante penacho e horrente crista;
- Válidas lanças a seu pulso adapta,
- Que a do Eácida exímio, por disforme,
- Argeu nenhum, só ele, manejava:
- Cortou Quiron seu freixo no alto Pélion,
- De heróis futuro dano, a Peleu dado.
- A Automedon manda aprontar o coche,
- A quem mais preza após o rompe-esquadras,
- Pajem fiel, no afogo das batalhas.
- Este junge os ligeiros Xanto e Bálio,
- Ao vento iguais: Podarga harpia, ao sopro
- De Zéfiro num prado os concebera
- Junto ao rio Oceano. Ata à boléia
- Com imortais corcéis Pédaso fero,
- Preia de Aquiles d’Eetion nos muros.
- O filho de Peleu, de tenda em tenda,
- Arma os seus. Quando crus vorazes lobos,
- O estômago a instigá-los, dilaceram
- Montês cervo ramoso, em alcatéia,
- Rubros os queixos, com delgadas línguas
- Lambem de cima a funda escura fonte;
- E, teso o ventre, a impar, cruor vomitam,
- Mais gana inda os instiga e os acorçoa:
- Dos Mirmidões os príncipes, não menos,
- O amigo audaz famintos e animosos
- Do Eácida ladeiam, que os ginetes
- E adargados belígero afervora.
- Cinqüenta lestes naus a Tróia Aquiles,
- Caro ao Satúrnio, trouxe, com cinqüenta
- Remos em cada uma, e a cabos cinco
- Diviso o mando, presidia a todos.
- Menéstio encouraçado era o primeiro,
- Que a Espérquio rio, gênito de Jove,
- Polidora pariu, de Peleu filha,
- Gentil mulher que ao deus se unira assíduo:
- Nado o criam de Bóros Periério,
- Que lhe esposara a mãe com dote imenso.
- Era Eudoro o segundo, que houve oculta
- A de Filas garbosa Polimela:
- O Argicida Mercúrio amou-a, vendo-a
- Cantos guiar e danças da auri-archeira
- Diana estrepitosa, e manso ao quarto
- Subindo virginal, teve este egrégio
- Rápido campeão; mas, dês que ao lume
- Do sol o deu cruíssima Ilitia,
- Casou com Polimela o Actório Equecles,
- Dotando-a com mil dons: o avô cuidoso
- O criou como seu. Era o terceiro
- Pisandro Memalides, que excedia
- Na lança os Mirmidões, Pátroclo exceto.
- Quarto, o équite Fênix; era o quinto
- Alcimedon famoso Laerceio.
- Tudo Aquiles ordena, e diz severo:
- “Não vos esqueça, Mirmidões, que a bordo
- Ameaçáveis os Troas; que freqüente,
- Condenando meu ódio, me exclamáveis:
- — De fel a mãe te amamentou, Pelides;
- Tirano, os sócios à inação constranges;
- Pois que a ira fatal caiu-te n’alma,
- De volta à casa o pélago sulquemos. —
- Ei-lo o conflito pelo qual bramíeis:
- Quem tiver coração, corra aos Troianos.”
- A voz régia afogueia as filas todas.
- Como, a prova dos ventos, o arquiteto
- Em parede superba ajunta as pedras;
- Ajuntam-se, elmo a elmo, escudo a escudo,
- Lado a lado, os varões: tocam-se e ondeiam
- Indistintos penachos e cocares.
- Sós dois, Pátroclo e Automedon, concordes
- Em ferir a batalha, os precediam.
- Vai logo à tenda Aquiles, abre a tampa
- Da que a mãe argentípede, à partida,
- Lhe dera arca louçã, de agasalhados
- Capotes cheia, e túnicas e mantas
- E tapetes felpudos: copa tira
- De alto lavor, em que ele só bebia
- E a Jove só libava; com enxofre
- Untada a expurga e em água a purifica;
- Também lavando as mãos, purpúreo vinho
- Despeja, e em meio dos guerreiros posto,
- Nos céus a vista, ao fulminante Padre,
- A seus rogos atento, assim brindava:
- “Jove Pelasgo, tu que longe habitas
- E imperas em Dodona hiberna e fria,
- Dos Selos teus intérpretes cercado,
- Que de pés andam nus e em terra dormem,
- Perfaze ora os meus votos, já que os Dânaos
- Por honrar-me afligiste: eu permaneço,
- E de muitos à testa envio o sócio;
- Dá-lhe vitória, altíssono, e a coragem
- No peito lhe confirma; Heitor aprenda
- Se é de si forte o amigo, ou se invencível
- É só quando combate à minha ilharga.
- Mas, depois que do assalto as naus liberte
- E do tumulto, incólume aqui volte,
- Com meu arnês inteiro e os meus soldados.”
- Previsto Jove, anui somente em parte:
- Salve Pátroclo as naus, mas não se salve.
- Depois que liba súplice, o Peleio
- Entra na tenda, e a copa na arca fecha;
- À porta volve, e espectador ainda
- Quis ser da atroz mortífera batalha.
- Como Pátroclo bizarro as hostes marcham,
- Té que aos Troas remetem corajosas.
- Quando as vespas, que encelam-se na estrada,
- Insensatos meninos irritando,
- Público mal preparam buliçosos,
- Por descuido se as toca o viandante,
- Elas com forte coração rebentam
- Em defesa do enxame: assim prorrompem
- Os Mirmidões, e a cuquiada ruge.
- Grita Pátroclo: “Ó sócios do Pelides,
- De quem sois recordai-vos, com façanhas
- Esse herói dos heróis honremos hoje:
- O amplo-dominador confesse a culpa
- De agravar o fortíssimo dos Gregos.”
- Com tal estímulo, adensados ruem;
- Das naus em torno o alarma horrível soa.
- Vendo ao Menécio coruscar nas armas
- E o mesmo auriga, trépidos os Teucros
- Se desconcertam; cuidam congraçado
- O Eácida veloz, e olhando em roda
- Cada qual busca efúgio à instante Parca.
- Pátroclo estréia, com fulgente lança,
- Onde mais tumultuam, junto à popa
- Do Grã Protesilau: fere o armo destro
- A Pericmeu, que os équites Peônios
- Caudilha de Amidon e do Áxio largo;
- Vai de costas, no pó gemendo rola,
- E a flor de seus espavoridos fogem.
- Remove e extingue o fogo, e atropelados
- Da nau já semi-ardida os Frígios deita:
- Por entre as outras, com ruído enorme
- Derramando-se os Dânaos, os repulsam.
- Se alquando espalha Júpiter fulgúreo
- O negrume do cimo da montanha,
- Aberto o máximo éter, aparecem
- Rocas, píncaros, bosques; tais os Dânaos,
- Livres do incêndio, um pouco respiraram:
- Porém dura ainda a pugna; que os Troianos
- Costas não davam todos, mas forçados
- Iam deixando o campo e resistindo.
- Cada chefe um contrário acossa e mata.
- Logo a bronze o Menécio de Areilico
- Fratura o fêmur e o debruça em terra.
- A Toas, que do peito arreda o escudo,
- Prosterna Menelau. Na arremetida,
- Meges lanceia a perna, onde há mais polpa,
- Ao nobre Anficlo, e os nervos lhe descose;
- Letal escuridão lhe cega os olhos.
- Antíloco Nestório de érea ponta
- A Atínio espeta o lado e o prostra. Máris,
- Ante o fraterno corpo, ao Grego vibra;
- Mas Trasimedes, prevenindo o golpe,
- No ombro lhe mete a cúspide, e lhe corta
- Os músculos do braço e o osso escarna:
- Baqueia Máris em medonha treva.
- E dois irmãos a Dite assim remete,
- Ambos hasteiros, a Sarpédon caros,
- Filhos de Amisodar, que, infensa a muitos,
- A Quimera nutria insuperável.
- Na baralha a Cleóbulo impedido
- O Oiliades empolga, e na garganta
- Lha ensopa toda e em sangue a espada aquece:
- Purpúrea morte o imerge em noite escura.
- Lícon e Peneleu, que se entrechocam,
- Botes errando, às lâminas recorrem:
- Lícon no hostil cocar imprime o gládio,
- Que pelo punho estrala; sob a orelha,
- Peneleu de um revés lhe fende o colo,
- E a cabeça, da pele só retida,
- Lhe dependura e os órgãos lhe desata.
- Merion desenvolto após Acamas,
- Ao montar, o escalavra no ombro destro:
- Ofusca-se-lhe a vista e rui do coche.
- De pique atroz Idomeneu, de Erimas
- Por sob o cérebro atravessa a boca,
- Racha alvos ossos e desloca os dentes:
- Os olhos dois infiltram-se de sangue,
- Sangue das ventas bolha e abertas fauces;
- Da nera morte o envolve a nuvem baça.
- Cada herói Grego assim talha uma vida.
- Como lobos roazes que, de espreita,
- A mães roubam cabritos ou cordeiros,
- Cujo pastor os descuidou no monte,
- E aos balantes imbeles despedaçam;
- Dão sobre os Troas, que olvidando o brio,
- Só na horríssona fuga se afiúzam.
- Ansioso o grande Ajax a Heitor procura;
- Que, adargando experiente os ombros largos,
- Dos tiros o zunido ou silvo observa,
- E inclinada a vitória, inda constante
- Vela nos companheiros. Qual do Olimpo
- Ao céu vai nuvem, se o nimboso Padre
- O éter sereno tolda, as naus expedem
- O trépido Tumulto: os de Heitor passam
- Em debandada, e os rápidos ginetes
- Apartam-no dos seus, que o fosso embarga.
- Quantos corcéis, na escarpa escorregando,
- Quebram temões, donos e coches largam!
- Uns alenta o Menécio, outros acossa
- Com ignito furor: em gritos fogem,
- As estradas enchendo, e os corredores,
- Por turbilhões de pó que os ares turvam,
- Das naus e tendas à cidade voam.
- Trota e se envia onde há maior distúrbio,
- E minaz urra: sob os eixos muitos
- Rolam dos voltos clamorosos carros.
- Os imortais ungüíssonos dos deuses,
- Dom preclaro a Peleu, transpõe o fosso
- De um pulo; e de ir o impulso tem Pátroclo
- Sobre Heitor, que é de biga arrebatado.
- No outono, quando Júpiter, sanhudo
- Contra o julgar dos homens que a justiça
- Do foro banem sem temor dos numes,
- A negra terra agrava de chuveiros,
- Com tal fúria desfecha, que em dilúvio
- Rios dos montes, sementeiras e agros
- Arrasando, a gemer se precipitam
- No vasto mar purpúreo: assim nitrindo
- Iam na desfilada as Teucras éguas.
- Rotas as hostes, para as naus Pátroclo,
- De Ílio tolhendo o ingresso desejado,
- As repulsa, e entre a praia e o Xanto e o muro
- Gira a vingança e a morte. Nu de escudo
- Fere a Pronos o peito; os membros laxa,
- E fragoroso expira. De outro bote
- Prostra o Enópio Testor, que perturbado
- No assento encolhe-se e demite as rédeas:
- Pela destra maçã lhe fisga os dentes,
- A si contrai a lança; e, qual se pesca
- De linha e anzol, de cima de um rochedo,
- Grã sacro peixe, pela boca hiante
- Do carro abaixo o tira inanimado.
- Joga uma pedra a Eríalo que arrosta,
- O elmo parte a cabeça racha em duas;
- Por terra se debruça, e a morte o cinge.
- Pátroclo, um após outro, ao chão derriba
- A Erimas e Anfotero, Epalte e Pires,
- Équio e Ifeu, Tlepolemo Damastório,
- A Polímelo Argeiades e Evipo.
- Dele Sarpédon vendo os seus domados,
- Repreende os nobres Lícios: “Que vergonha!
- Onde, Lícios, fugis? Como sois ágeis!
- Corro a provar o armipotente braço,
- Que a tantos campeões tolhe os joelhos.”
- Do carro eis salta e apeia-se Pátroclo.
- Quais, de bico recurvo e garra adunca,
- Sobre alta penha aos guinchos dois abutres,
- Travam-se eles gritando. — Ao contemplá-lo,
- Para a consorte e irmã suspira Jove:
- “Dos homens o mais caro, ai! Meu Sarpédon,
- À lança do Menécio está votado:
- Hesito n’alma se na Lícia o ponha,
- Subtraído ao combate lutuoso,
- Ou se ao cruel destino o deixe entregue.”
- Mas a augusta olhitáurea: “Que proferes,
- Ó formidável Júpiter? Salvares
- Mortal à triste Parca já fadado!
- Salva-o, porém do Céu não tens o assenso.
- Digo mais, e reflete, à pátria vivo
- Se envias teu Sarpédon, outros numes,
- Da injustiça irritados, hão de os filhos
- Muitos livrar que ante Ílio estão pugnando.
- E do teu predileto se hás piedade,
- Mal do Menécio a mão do alento o prive,
- Consente à Morte e ao Sono que o transportem
- À opulenta alma Lícia: irmãos e amigos
- Façam-lhe exéquias e lhe sangrem pios
- Túmulo e cipo, aos mortos honra extrema.”
- O pai de homens e deuses resignou-se;
- Mas pelo filho, a quem da pátria longe
- Na feraz Tróia imolará Pátroclo,
- Asperge a terra de sanguíneo orvalho.
- Já se contrastam; mas Pátroclo ao bravo
- Pajem do rei Sarpédon, Trasimelo,
- Vulnera no imo ventre e solta a vida.
- Sarpédon brande a lança impetuosa,
- E o golpe errado a pá direita fere
- De Pédaso corcel, que em vascas geme
- Na arena a espernear e arcando expira.
- Xanto escouceia e Bálio; o jugo estala,
- E as bridas se embaraçam no que atado
- Ao temão jaz no pó. Na afronta, o hasteiro
- Automedon provê: de Junto à coxa
- Robusta saca a lâmina aguçada,
- E ao da boléia presto aos loros talha.
- Direita a imortal biga ao freio acode.
- Aos dois rói nova sanha e fogo novo:
- Inda a Sarpédon falha a cúspide ênea,
- O ombro só roça esquerdo; mas certeiro
- Pátroclo o pique lhe enterrou por onde
- O coração as víceras torneiam.
- Como o carvalho, ou choupo ou celso pinho,
- Para naval fabrico, ao truz desaba
- De afiada secure; ante os cavalos
- E o carro jaz, e o pó sanguíneo apalpa,
- Os dentes a estrugir. Qual fulvo touro,
- Soberbo entre a flexípede manada,
- Sob os colmilhos do leão morrendo,
- Muge, inda se debate; assim, vencido,
- Gemente o rei dos adargados Lícios,
- A bracejar, o camarada chama:
- “Diletíssimo Glauco, mais que nunca,
- Mostra o que és, sê pugnaz, o mando assume.
- Por Sarpédon concita os cabos todos
- A pelejar; tu mesmo a lança enrestes.
- Infâmia e opróbrio te será perpétuo
- Os Gregos despojarem-me o cadáver,
- Onde os Lícios heróis as naus disputam.
- Eia, as tropas inflama, inabalável.”
- Cala, afila o nariz e empana os lumes,
- Revolto em morte. O Aqueu lhe calca os peitos,
- A cúspide lhe saca e entranhas e alma.
- Os Mirmidões retêm corcéis que vagam
- Açodados, sem coches nem senhores.
- De Sarpédon a voz contrista a Glauco,
- Nem este lhe valeu, que na mão preso
- Tinha o braço, e a frechada o confrangia
- Do Aquivo Teucro na mural contenda;
- Mas ora a Febo: “De Ílio, ou da possante
- Lícia, Escuta-me, ó nume arcipotente;
- Queixas em qualquer parte e rogos ouves
- De afligido mortal: picadas sinto
- Lancinantes, o sangue não se estanca,
- O ombro é pesado, o pique mal sustento.
- Nada posso compreender; mas jaz Sarpédon,
- Sem que ao valente filho acuda Jove.
- Ó rei, sequer me sara esta ferida,
- Alivia-me, a fim que esforce os Lícios
- E o cadáver eu mesmo lhe defenda.”
- Benigno Febo, as dores já lhe acalma,
- Veda o sangue e o robora. Exulta Glauco
- Da proteção do deus; primeiro os chefes
- Lícios procura, e a cheio passo aos Teucros
- Agenor se dirige e Polidamas,
- Mais a Eneias e Heitor, e a este exprobra:
- “Sócios esqueces que da pátria e amigos
- Longe perecem, nem salvá-los queres!
- Sarpédon morto jaz, da Lícia apoio,
- Valoroso, eloqüente e justiceiro;
- Pelas mãos do Menécio o prostrou Marte.
- Indignai-vos, consócios, de que o dispam
- E insultem Mirmidões, vingando irosos
- Aos que ante as naus a botes aterramos.”
- Lavra um luto geral; que, estranho embora,
- Esteio era de Tróia, e o mais galhardo
- Entre os galhardos Lícios. Por Sarpédon
- Chameja e os guia Heitor; Pátroclo, os Dânaos,
- Instigando os Ajax de si fogosos:
- “Vós Ajax, dantes sempre os mais estrênuos,
- Hoje aos Teucros. O herói que entrou primeiro
- No Graio muro, em terra está, Sarpédon.
- Possamos nós despi-lo e encher de afrontas,
- A bronze escarmentar os que se oponham!”
- De estímulo os Ajax não careciam.
- Uns e outros firmam-se em renhida pugna,
- Teucros e Lícios, Mirmidões e Aquivos,
- Com medonho alarido e fragor de armas.
- Para estrago maior em torno ao corpo
- Do amado filho, Júpiter estende
- Lôbrega noite sobre o atroz conflito.
- Olhinegros Aqueus primeiro afrouxam,
- Ferido um Mirmidon não lerdo, prole
- De Agacles valoroso, Epigeu divo,
- Que em Budeia magnífica imperava,
- E morto um primo audaz, súplice veio
- A Tétis argentípede e ao marido,
- Que a Tróia em poldros fértil o enviaram
- Do seu rompe-esquadrões na comitiva:
- Sobre Sarpédon quando a mão já punha,
- De uma pedrada o elmo Heitor partiu-lhe
- E em duas a cabeça; do cadáver
- Descai por cima, e a feia Parca o cinge.
- Qual açor caça a gralhos e estorninhos,
- Entre os primipilares, anojado
- Pelo defunto sócio, tu Menécio,
- De chofre dás nos Lícios e Troianos,
- De seixo a Atenelau Itemeneides
- Os tendões rompes da cerviz; recua
- Com seus primipilares o Priâmeo:
- Quanto, ou no jogo ou na homicida guerra,
- Alcança um tiro de esforçado pulso,
- Ganham tanto os Aqueus e os Teucros perdem.
- Glauco o primeiro se voltou, matando
- O caro filho de Calcon, Baticles,
- De Hélade opulentíssima habitante
- E o Mirmidon mais rico: este após ele,
- Já quase o apanha; de repente o Lício
- Vira-se e a lança embebe-lhe no seio:
- Ao baquear do braço, um grito soltam,
- Com mágoa os Dânaos, com prazer os Troas,
- Que em derredor se apinham; mas briosos
- Vêm de encontro os Aqueus. Merion derriba
- O audaz Laogono, de Onetor progênie,
- Do Ideu Jove ministro e um nume ao povo;
- Sob a orelha e a maxila o fere e prostra:
- A alma afunda-se logo em treva horrenda.
- O Anquíseo a Merion dispara, crendo
- Sob o escudo o enfiar na arremetida;
- Ele previsto se proclina, e o freixo
- Por cima zune, enterra-se na areia,
- E o conto fixo treme, até que Marte
- A fúria impetuosa lhe aquieta,
- Pois dardou mão robusta o bote inútil.
- E Eneias irritado: “És bom dançante;
- Mas o pique, Merion, certeiro fosse,
- Que para sempre te afracara as pernas.”
- Ao que retorque o hasteiro: “És forte, Eneias;
- Mas nem a todos que arrostar-te ousarem,
- Tu contes extinguir. Mortal nasceste;
- A tocar-te o meu bronze, embora sejas
- Na destra afouto, me darias glória,
- Tua alma ao rei da lúgubre quadriga.”
- Mas o Menécio a Merion censura:
- “Que te apresta o falar, valente amigo?
- Antes que um morda o pó, com feros nunca
- Arredarás os Teucros do cadáver:
- O braço à guerra, ao parlamento a língua;
- Não palavras, sim obras.” Nisto avança,
- Marcha e o ladeia Merion deiforme.
- Qual soa ao longe a mata, em fundo vale,
- Dos lenhadores aos contínuos golpes,
- Ei-los em todo o campo o estrondo excitam
- De êneos arneses, bipontudas hastas,
- Elmos, lorigas, e broquéis e espadas.
- Desconhecera o experto ao Lício cabo,
- Desde a cabeça aos pés de pó coberto
- E sangue e tiros: cercam-no e vozeiam,
- Como em curral, na primavera, moscas
- De alvos tarros de leite em roda zumbem.
- Júpiter, fitos no combate os olhos,
- Medita ansioso de Pátroclo o fado:
- Se ali sobre Sarpédon o Priâmeo
- O imole e dispa, ou se ele a vários inda
- Lance no extremo afã. Por fim resolve
- Que o fâmulo de Aquiles à cidade
- Com matança repila o chefe e os Teucros.
- O coração primeiro a Heitor quebranta,
- Que à pressa monta e exorta os seus que fujam,
- A balança Dial pender sentindo.
- Nem os Lícios resistem, vendo em meio
- Jazer seu rei de um vasto morticínio,
- Pois sobre ele muitíssimos caíram,
- Quando o Satúrnio o prélio exasperava.
- Despem-lhe as éreas coruscantes armas,
- Que às naus remete o vencedor Pátroclo.
- Diz a Febo o Nubícogo: “Anda, filho,
- De sob os dardos meu Sarpédon ergas,
- Puro do negro sangue, a parte, em veia
- Limpa o lava, e de ambrosia perfumado
- Veste-lhe imortal roupa, e o dá que o levem
- Os dois gêmeos cursores Morte e Sono
- À opulenta ampla Lícia: irmãos e amigos
- Façam-lhe exéquias e lhe sagrem pios
- Túmulo e cipo, aos mortos honra extrema.”
- Dócil Apolo, do Ida ao campo desce:
- De sob os dardos a Sarpédon ergue,
- Puro do negro sangue, a parte, em veia
- Limpa o lava, e de ambrosia perfumado
- Veste-lhe imortal roupa, e à Morte e ao Sono
- O dá, que na alma Lícia o depuseram.
- A Automedon excita e aos inimigos
- Deita o coche Pátroclo; e, se os preceitos
- Louco não desprezasse do Pelides,
- O trespasso evitara. Mas os de homens
- Vence o aviso de Jove, que afugenta
- E ao forte que instigou tolhe a vitória,
- Ao Grego estimulando. — A quem, Menécio,
- Derribaste primeiro, a quem postremo,
- Quando a morrer os deuses te chamaram?
- A Adresto e Equeclo e o Mégades Perimo,
- E Autonoo, e Epistor e Melanipo;
- Depois a Elaso e Múlio, enfim Pilarte:
- Mata-os, os mais persegue. E a de altas portas
- À tremebunda lança ajoelhara,
- Na grã torre se Apolo não parasse,
- Em mal dos Dânaos e a favor dos Troas.
- O herói pelo espigão do altivo muro
- Três vezes trepa, três a eterna destra
- O empurra e bate-lhe o fulgente escudo;
- Qual deus indo a investir, minaz o impede
- O Longe-vibrador: “Não mais, Pátroclo,
- À brava lança tua os fados vedam
- Ílio santa arrasar; compete a braço
- Que o teu muito mais forte; ao grande Aquiles.”
- Temendo a frecha do agastado Apolo,
- Retrograda o Menécio. Às portas Ceias
- Tem-se Heitor, cogitando se os cavalos
- De novo atire à turba, ou clame às tropas
- E as congregue ante o muro; e, enquanto hesita,
- Aproxima-se Apolo em forma de Ásio,
- Tio seu maternal, mas verde e guapo,
- De Dimas geração, que às Frígias margens
- Do Sangário habitava, e assim lhe fala:
- “Que vil moleza, Heitor! Oh! Quanto em forças
- Te cedo, eu te excedesse, que da inércia
- Te havia de pesar. Anda, coragem!
- A Pátroclo os ungüíssonos propele;
- Busca matá-lo, e dê-te a glória Febo.”
- Disse, e torna à refrega: Heitor ordena
- Ao belaz Cebrion que açoute as éguas
- E entre em peleja. O deus corre as fileiras,
- Turba e assusta os Aqueus, exalça os Teucros.
- Despreza os mais Heitor, só trata e marcha
- Contra o Menécio, que do coche pula,
- Na sestra o pique, na direita um branco
- Áspero seixo oculto, e forcejando
- Errado o joga, mas não foi baldio,
- Que acerta em Cebrion, Priâmeo espúrio,
- Tendo as rédeas auriga: às sobrancelhas
- O esmecha a pedra e o osso lhe espedaça,
- Aos pés vaza-lhe os olhos na poeira;
- Ele exânime ao chão vai de mergulho.
- E Pátroclo a zombar: “Oh! Como é ágil!
- De nau saltara no piscoso ponto,
- Como da sela, e a mergulhar nas vagas,
- Sustentara de ostrinhos a maruja.
- São bons mergulhadores os Troianos.”
- Aqui, remete a Cebrion, em guisa
- De agro leão, que ao devastar o cerco,
- É malferido, e nímia ardência o perde.
- Pronto apeia-se Heitor. Qual num cabeço
- Crus também dois leões esfomeados
- Morta corça tetérrimos disputam;
- Os dois, Pátroclo e Heitor, da pugna mestres,
- Cortarem-se almejando a sevo bronze,
- Brigam por Cebrion: dos pés o aferra
- O Menécio, e o Priâmeo da cabeça;
- Teucros e Argeus frenéticos se abarbam.
- Quando, em floresta ou brenha, de Euro e Noto
- O certame sacode o cortiçoso
- Corniso e o freixo e a faia, gemebundos
- Seus longos ramos confundindo, estralam
- Num contínuo fragor: tais se entrelaçam,
- Não pensando na fuga desastrosa,
- De Cebrion em roda os contendores,
- Em recíproco ataque a trucidar-se.
- Lanças pregam-se e dardos, setas voam
- Dos nervos rechinando, e a rodar pedras
- Aos combatentes os broquéis abolam;
- Da boléia esquecido, o herói se estira
- De pó num turbilhão por grande espaço.
- Enquanto o Sol montava, a tiros morrem
- De parte a parte; mas no seu declive
- Era imensa dos Gregos a vantagem,
- Que a Cebrion arrancam do tumulto
- E do acervo das armas e o despojam.
- Pátroclo a Marte igual, medonho urrando,
- Três vezes rui, três vezes mata a nove;
- Mas ah! da quarta, ó campeão divino,
- Luziu teu fim! Terrível sai Apolo;
- Oculto em nevoeiro, a mão pesada
- Lhe carrega no dorso e largos ombros;
- Vidra-lhe os olhos súbita vertigem;
- Desenlaçado o esguio capacete,
- Rola aos pés dos ungüíssonos tinindo;
- Sangue e pó suja as crinas e a cimeira,
- Nunca dantes manchadas, quando ornavam
- Do divo Aquiles a venusta fronte:
- Na cabeça de Heitor, para seu dano,
- Pôs Jove esse elmo. Reforçado e rijo
- De Pátroclo nas mãos rebenta o pique;
- Dos loros o pavês se lhe desliga;
- Mesmo Febo a couraça lhe desprende.
- Quedo e estúpido, os membros entorpece:
- Traspassa-o pelas costas o Pantóides
- Jovem Euforbo, auriga e hasteiro insigne,
- Celérrimo e adestrado, que dos carros
- Novel já despenhou vinte inimigos,
- E a ti, Menécio, te feriu primeiro,
- Sem derribar-te; e, assim que extrai a lança,
- Mete-se no tropel; pois não se atreve
- Encarar com Pátroclo, bem que inerme.
- Este, opresso de um nume e vulnerado,
- Aos seus retrocedendo, ia salvar-se;
- Mas Heitor, ao magnânimo ferido
- E em retirada, vem por entre as alas,
- No vazio lhe ensopa o aêneo gume:
- Tomba o herói com fracasso, e os Gregos gemem.
- Qual se um leão com javali forçudo,
- Beber ambos querendo em fonte exígua,
- Luta cruel empenha em árduo cume,
- Té que o cerdo açodado enfim sucumbe;
- Tal ao Menécio, a tantos pernicioso,
- Desalma Heitor. Sobre ele ovante o insulta:
- “Creste assolar, demente, a pátria nossa,
- E à tua, subtraído o livre dia,
- As Teucras embarcar: por defendê-las
- Desse dia servil, é que os sonípedes
- Corredores de Heitor à pugna o levam;
- Por guardar seu decoro, é que na lança
- Os Troianos supero belicosos.
- Hão de comer-te, mísero, os abutres!
- Nem vale o forte Aquiles, que ao ficar-se
- Recomendou-te certo: — Às naus bojudas
- Não me revertas, cavaleiro amigo,
- Sem que de Heitor ferino aos peitos rasgues
- A cruenta loriga. — Essas palavras
- Seduziram-te, louco, e te perderam.”
- E lânguido o Menécio: “Ora blasonas!
- Domado eu fui por Júpiter e Apolo,
- Que o próprio arnês dos ombros me arrancaram.
- Sem eles, como tu vinte guerreiros
- Pelo meu dardo acabariam todos;
- Mas fatal sorte e o filho de Latona,
- E entre os mortais Euforbo, me renderam:
- És terceiro e despojas um finado.
- Escuta, e fixo o tenhas: longo tempo
- Não viverás; a Parca já te espera
- Sob a lança do Eácida invencível.”
- Disse, e expira: dos membros desatada,
- A alma voa aos infernos lamentando
- O seu viril esforço e mocidade.
- Ao morto fala Heitor: “Por que me agouras
- Destino tal? Quem sabe se inda ao nado
- Da pulcrícoma Tétis hei-de a vida
- Extinguir?” Nisto, o calca, e o êneo pique
- Da ferida sacando, o ressupino
- Corpo com ele afasta; o enresta ansioso
- Trás o pajem deiforme do Pelides,
- Automedon, que os imortais ginetes,
- A Peleu dom celeste, arrebataram. * * *