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IlíadaLivro IV
LivroIV

Em consulta com Jove recostados

458 versos · 6 notas do tradutor


  1. Em consulta com Jove recostados,
  2. Néctar Hebe louçã tempera aos deuses
  3. Na régia de áureo solho, e de áureas taças
  4. Mutuam brindes a atentar em Tróia.
  5. Eis, com mordaz cotejo, a irmã Satúrnio
  6. Remoca: “A Menelau protegem duas,
  7. Juno Argiva e Minerva Alalcomênia,
  8. Que de olhá-lo tranqüilas se comprazem;
  9. De Páris guarda assídua, a mãe dos risos
  10. Da Parca o subtraiu, tem-no em seguro.
  11. Ao bravo Menelau coube a vitória.
  12. Deliberemos se é melhor de novo
  13. Encarniçar a guerra, ou congraçá-los.
  14. A ser a paz jucunda às partes ambas,
  15. Habite-se de Príamo a cidade,
  16. O Atrida reconduza a Grega Helena.”
  17. Contíguas, gemem comprimindo os lábios
  18. Juno e Minerva, e dano aos Teucros urdem.
  19. Cala e a seu pai Minerva oculta a raiva;
  20. Mas Juno estoura: “Atroz Satúrnio, como!
  21. Corcéis tenho estafado em colher tropas
  22. Contra Príamo e os seus; e frustrar queres
  23. Meu suor, meu trabalho? Embora o faças;
  24. Nunca os deuses porém to aprovaremos.”
  25. O anuviador se indigna: “Endiabrada,
  26. Em que Príamo e os filhos te pecaram,
  27. Para afanares sempre arrasar Tróia?
  28. Só fartarás esse ódio quando, as portas
  29. E os muros conquistados, cru devores
  30. Príamo e os Priamidas e o seu povo.
  31. Bem; não seja entre nós de briga acerba
  32. Este o motivo. Mas na mente o grava:
  33. Se extirpar me aprouver cidade que ames,
  34. Não me embargues a cólera; que à tua,
  35. A meu pesar, entrego Ílio sagrada;
  36. Que eu, sob o pólo e o sol, nenhuma honrava
  37. Tanto como essa, nem terrestres homens
  38. Como ao bélico Príamo e os Troianos:
  39. Recendiam-me sempre as aras pingues,
  40. Nunca a nós outros libações faltavam.”
  41. E a de olhos majestosa: “Três cidades
  42. Às mais prefiro, Esparta, Argos, Micenas
  43. De amplas ruas: soverte-as, se as odeias,
  44. Que não to levo a mal: e, se o levasse,
  45. Que lucrava em me opor, se és mais potente?
  46. Convém não malograres meus desígnios,
  47. Nasci também do perspicaz Saturno,
  48. E às deidades precedo, irmã e esposa
  49. Do rei dos imortais: guardemos ambos
  50. Mútuo respeito para exemplo deles.
  51. Manda já Palas excitar a pugna;
  52. Trace o como Trojúgenas infrinjam,
  53. Não triunfantes Gregos, a aliança.”
  54. Concorda o pai supremo, e volto a Palas:
  55. “Já, passa aos dois exércitos, sem mora
  56. Traça o como Trojúgenas infrinjam,
  57. Não triunfantes Gregos, a aliança.”
  58. Propensa a deusa, incontinente voa
  59. Lá do empinado Olimpo. Qual estrela,
  60. Se, ao nauta e às hostes portentosa, a envia
  61. O alto Satúrnio, fulgurante brilha;
  62. Tal desliza na arena e ali se ostende.
  63. Pasmam da aparição e entre si rosnam
  64. Grevados Gregos, picadores Teucros:
  65. “Quer o árbitro da guerra a paz firmar-nos,
  66. Ou da matança renovar as cenas.”
  67. Ei-la, entre a chusma Teucra, simulada
  68. No Antenórida impávido Laodoco,
  69. Pós o robusto Pândaro deiforme,
  70. Que em meio estava das do rio Esepo
  71. Tropas abroqueladas que o seguiram.
  72. Chega e de golpe: “Queres-me um conselho,
  73. Ínclito Licaônio? Expedir ousas
  74. Ligeira seta a Menelau? Ganharas
  75. Honra e o Teucro louvor, e o régio Páris
  76. De bens te enriquecera, ao ver domado
  77. Por ti, na triste pira, o márcio Atrida.
  78. Eia, abaixa-lhe o entono; ao de arco exímio
  79. Lício Apolo hecatombe de cordeiros
  80. Primogênitos vota que lhe imoles,
  81. Teu palácio ao rever na santa Zélia.”
  82. Néscio desta arte o suadiu Minerva,
  83. E ele o seu arco destojou brunido.
  84. Espreitando a lascivo agreste capro
  85. Ao pular de um rochedo, roto o peito,
  86. O estirava supino: artífice hábil
  87. De palmos dezesseis lhe engenha os cornos,
  88. E lhos alisa e de ouro os encastoa.
  89. Apóia em terra este arco, e o tende e ajusta;
  90. Escudam-se os intrépidos consócios,
  91. Temendo o assaltem marciais Aquivos,
  92. Primeiro que seu rei ferido seja.
  93. Destapando o carcás, tira empenada
  94. Intacta frecha, de atras dores fonte,
  95. Que ao nervo adapta: e a Febo arcipotente
  96. Cem anhos primogênitos promete,
  97. Para quando voltar a santa Zélia.
  98. Puxa o extremo chanfrado e a táurea corda;
  99. A corda à mama encosta e o ferro ao arco;
  100. O arco arredonda-se e desarma o estalo;
  101. O estalo zune, e voa a seta aguda,
  102. De abrevar-se no sangue impaciente.
  103. Houve o Céu, Menelau, de ti cuidado:
  104. Palas depredadora ocorre e a frecha
  105. Desvia-te empezada, qual de leve
  106. A mosca enxota a mãe da criancinha
  107. Sopita em meigo sono; a ponta mesma
  108. Dirige aonde fechos de ouro atacam
  109. Talim que ao peitoral duplica a força.
  110. Pelos dedáleos cinturão e coura,
  111. Ela perfura a malha tão provada,
  112. Reparo derradeiro, e a pele esflora:
  113. Cruor escuro da ferida mana.
  114. Quando o marfim mulher Meônia ou Cária
  115. Para cãibas eqüinas purpureia,
  116. Na casa exposto, o invejam cavaleiros;
  117. Mas tem só de arrear ginete régio:
  118. Tal, Menelau, tingiram-se-te as rijas
  119. Coxas, pernas, luzidos tornozelos.
  120. Ao roxear do sangue, o rei dos homens
  121. Horrorizou-se, e Menelau com ele;
  122. Mas, fora vendo a seta e o nervo e as barbas,
  123. Alento cobra o generoso peito.
  124. Com mágoas dos consócios, Agamemnon
  125. Tem-no e grave suspira: “Irmão dest’alma,
  126. Sagrei-te à morte com selar por todos
  127. Pugnasses tu. Feriram-te e calcaram
  128. Os Troianos a fé; mas vãs não foram
  129. Hóstias, nem libações, nem destras dadas:
  130. Se do Olimpo o senhor hoje os não pune,
  131. Há-de os punir; com suas vidas próprias,
  132. De esposas, filhos, pagarão de sobra.
  133. Cuido próximo o dia em que Ílio sacra
  134. E o rei beloso e o povo seu pereçam:
  135. Lá das alturas, da perfídia em ódio,
  136. A égide horrenda agitará Satúrnio;
  137. Nem fútil é seu ódio. Mas, se a Parca
  138. Tronca-te a vida, ó Menelau, que luto!
  139. A Argos sequiosa voltarei, de infame
  140. Labéu marcado; que, na pátria os Graios
  141. Só tendo a mente, a Príamo e aos Priâmeos
  142. Deixaremos a palma e Helena Argiva.
  143. Podres em Tróia jazerão teus ossos,
  144. Sem concluir-se a empresa; e um desses feros,
  145. Do claro Menelau sobre o sepulcro
  146. Motejará: — Sacie o rancor sempre
  147. Deste modo Agamemnon, que infinitas
  148. Falanges trouxe embalde às nossas plagas:
  149. Abandonando a Menelau valente,
  150. Já vogou sem despojo ao doce ninho. —
  151. Antes que eu ouça tal, me engula a terra!”
  152. O herói flavo o assegura: “Nem te assustes,
  153. Nem aterres o exército; que a seta
  154. Letal não foi: meu boldrié salvou-me,
  155. E o cinturão e a malha, obra de mestre.”
  156. E inda Agamemnon: “Oxalá, dileto;
  157. Mas adestrada mão tenteie o golpe,
  158. Com bálsamos te aplaque as tetras dores.”
  159. Nisto, virando-se ao divino arauto:
  160. “Já já, Taltíbio, a Macaon procures,
  161. Peritíssimo filho de Esculápio;
  162. Que presto acuda a Menelau, que um Lício
  163. Ou Tróico archeiro de frechá-lo acaba,
  164. Por glória sua e pesadume nosso.”
  165. O arauto logo, às lorigadas linhas
  166. Lustrando, o heróico Macaon procura:
  167. No meio estava de escudadas hostes,
  168. Que o seguiram de Trica em poldros fértil.
  169. Aproxima-se, e rápido: “Agamemnon
  170. Chama-te, Esculapíada; não tardes,
  171. Acode, acode a Menelau, que um Lício
  172. Ou Tróico archeiro de frechá-lo acaba,
  173. Por glória sua e pesadume nosso.”
  174. Sobressalta-se o médico; atravessam
  175. O exército, e em redor acham do louro
  176. Maioral vulnerado os chefes Dânaos.
  177. Extrai da parte Macaon a seta,
  178. E no extrair as farpas reviraram:
  179. Saca o bálteo listado, a cinta, a malha
  180. De primor, e à ferida já patente
  181. Chupa o sangue, e lhe asperge os linimentos
  182. Que ensinara a seu pai Quiron amigo.
  183. De Menelau enquanto se ocupavam,
  184. Rompe arnesada e em forma a Teucra gente;
  185. Lembra aos Gregos a lide, as armas vestem.
  186. Dormir, tremer, não viras Agamemnon,
  187. Ou recusar peleja, sim o honroso
  188. Conflito apressurando. O eri-incrustrado
  189. Coche e os cavalos anelantes larga:
  190. Tem-nos o auriga Eurímedon, rebento
  191. De Ptolomeu Piraide, a quem prescreve
  192. Atrás venha de passo, a fim que o tome,
  193. Quando o girar os membros lhe afadigue.
  194. O Atrida a pé de fila em fila ordena,
  195. Os mais zelosos eloqüente inflama:
  196. “Nada afrouxeis, que Júpiter, Aquivos,
  197. Traidores não defende: os que infringiram
  198. O pacto e a fé, serão de abutres cevo;
  199. Ílio assolada, filhos seus e esposas
  200. Breve em nossos baixéis transportaremos.”
  201. E os que titubam repreende amargo:
  202. “Valentões de balhesta, oh! pejo e opróbrio!
  203. Sois corçozinhos tímidos, que lassos
  204. De correr a campina, esmorecidos
  205. Param sem ânimo? Aguardais que altivas
  206. Popas abordem na alva praia os Teucros,
  207. Para saber se a mão vos dá Satúrnio?”
  208. Por entre a chusma, em tudo pondo cobro,
  209. Chega-se aos Créssios, que na frente armados
  210. O militar Idomeneu já tinham,
  211. Em vigor javali; na retaguarda
  212. Os incitava Merion. De vê-los
  213. Exulta o rei dos reis, contente e afável:
  214. “Nos feitos, Créssio herói, prezo-te acima
  215. Dos crinitos varões, té quando à mesa
  216. Misturam na cratera o vinho de honra:
  217. Bebem regrado os mais; teu copo sempre,
  218. Qual o meu transbordando, a gosto empinas.
  219. Vai combater, e teu renome iguala.”
  220. Idomeneu responde: “Camarada
  221. Jurei ser-te leal; não falto. Inspira
  222. Denodo aos outros, acelera a pugna:
  223. Infratores do pacto, a morte, o exício
  224. Recairá sobre infiéis Troianos.”
  225. Alegre o Atrida progredindo, encontra
  226. Os dois Ajax de ponto em branco, e em torno
  227. Um negrume de espessa infantaria.
  228. Do oeste às vezes bruna pícea nuvem
  229. Traz pelas vagas túrbida procela;
  230. O pastor, que a divisa do penedo,
  231. Freme e à gruta recolhe a grei balante:
  232. Assim um e outro Ajax movia ao prélio
  233. Aguerridas intrépidas falanges,
  234. De enfuscados broquéis e horrentes piques.
  235. Gostoso o Atrida, rápido lhes fala:
  236. “Ajax, cabos de Argivos lorigados,
  237. Fora ultraje animar-vos; que vós mesmos
  238. Forte a bater-se estimulais o povo.
  239. Oh! Jove, Palas, Febo, em todo peito
  240. Soprassem vosso ardor! Presto, às mãos nossas,
  241. Desabaria a Priameia Tróia.”
  242. Prossegue, e topa o arguto orador Pílio,
  243. Que os seus alinha, férvido acorçoa
  244. O grande Pelagon, Alastor, Crômio,
  245. E Hémon e Bias príncipes das gentes;
  246. Atrás bastos peões, da guerra esteios,
  247. E na vanguarda os éqüites e os carros,
  248. Entremete os poltrões, que à força pugnem.
  249. A conter seus corcéis avisa os donos,
  250. Por que as alas não turbem: “Confiado
  251. No manejo e valor, sôfregos Teucros
  252. Ninguém ataque só, nem retroceda;
  253. Que mais débeis sereis. Do próprio carro
  254. Quando alguém desça e a carro hostil afronte,
  255. Enreste a lança, que é melhor partido.
  256. Assim nossos avós, com força e manha,
  257. Derrocavam muralhas e castelos.”
  258. Tal o decano tático procede;
  259. O grã rei jubiloso o exalta e gaba:
  260. “Conforme o coração, robustos fossem
  261. Teus joelhos, teu corpo! Inexorável
  262. Te consome velhice: oh! se ela em outrem
  263. Já carregasse, e remoçar pudesses!”
  264. E Nestor: “Não ser eu como antes era,
  265. Quando Ereutalion matei famoso!
  266. O Céu nunca aos mortais confere tudo,
  267. Moço então, hoje a idade me acabrunha.
  268. Mas, tal qual sou, no prélio os cavaleiros
  269. Ajudarei de alvitres e conselhos,
  270. Dos provectos ofício: os que eu mais ágeis
  271. Dardem, gladeiem, no verdor fiados.”
  272. Avante, passa ao campeão Petides,
  273. A quem Cecrópios adestrados cercam;
  274. Sem lhes dar inda o al’arma, o fino Ulisses
  275. Perto forma os não lerdos Cefalenses;
  276. Pois, começando apenas o alvoroto,
  277. Aguardam que remeta aos inimigos
  278. Outra falange Aquiva e estréie a pugna.
  279. Olha-os o rei dos reis acrimonioso:
  280. “Menesteu cujo pai Jove alentava,
  281. E tu poço de ardis e estratagemas,
  282. Tardios trepidais? Com ígnea força
  283. Combater vos cumpria antessignanos;
  284. Que sois nos meus convites os primeiros,
  285. Quando os chefes Aqueus se banqueteiam:
  286. Regalai-vos de assados saborosos,
  287. E dulcíssimos copos vos saciam;
  288. E ora esperais que em menear o bronze
  289. Dez Graios batalhões vos antecedam?”
  290. Rude Ulisses contesta: “Que te escapa
  291. Do encerro destes dentes? Nós remissos!
  292. Nós que atroz morte aos picadores Teucros
  293. Já movemos? Se o tens a peito e o queres,
  294. De Telêmaco o pai ante as bandeiras
  295. Verás, Atrida, e vãos discursos bastem.”
  296. O rei sente-lhe o enfado, e a sorrir torna:
  297. “Sublime solertíssimo Laércio,
  298. Não te arguo excessivo. Sim, de acordo
  299. Comigo sempre vai tua alma grande.
  300. Eia, rompe a tardança: eu me retrato;
  301. E o Céu risque a lembrança desta ofensa.”
  302. Finda a revista no pugnaz Tidides,
  303. Que entre os corcéis estava e unidos carros,
  304. Mais a de Capaneu briosa estirpe.
  305. Tal observa Agamemnon e o censura:
  306. “Tremes, Diomedes, o êxito receias?
  307. Ah! teu pai de tremer não se aprazia;
  308. Sempre entre os seus maior se abalizava:
  309. Nunca vi, mas o afirmam testemunhas.
  310. A Micenas contudo hóspede veio,
  311. Quando, com Polinice igual aos deuses,
  312. De Tebas sitiava os sacros muros,
  313. E ambos gente e socorro nos pediram.
  314. Quisemo-lo servir, porém vedou-nos
  315. Dial prodígio infausto; e na tornada,
  316. Ao juncoso arribaram verde Asopo.
  317. De Etéocles no paço, num convívio
  318. Tideu, como legado, imensos topa:
  319. Sozinho entre os Cadmeios, destemido
  320. Muitos então a duelo desafia,
  321. E de Palas por graça a todos vence.
  322. De emboscada, ao regresso, despeitosos
  323. O acometem cinqüenta cavaleiros,
  324. Com chefes dois, Meon divo Hemonides,
  325. O inconcusso Antofônio Licofonte.
  326. Ele os castiga, e por celeste auspício
  327. Poupa a Meon, que núncio envia a Tebas.
  328. Tal foi Tideu Etólio, pai de um filho
  329. Melhor de língua e de valor somenos.”
  330. Sofre-o Diomedes respeitoso e mudo,
  331. E Estênelo é quem fala: “Atrida, mentes;
  332. Sabe que de mais fortes blasonamos
  333. Que nossos pais: com Jove e o Céu propício,
  334. Bem poucos, derruindo-lhe as muralhas,
  335. Tomamos Tebas a de sete portas;
  336. Eles, ímpios e insanos, pereceram.
  337. Nossos avós conosco não compares.”
  338. Sério o encarou Tidides: “Cala e atende.
  339. Fogoso o grande rei não culpo, amigo,
  340. De grevados Aqueus urgir ao prélio:
  341. Se destrói Ílio santa, a glória é sua,
  342. E ingente o luto, se nos falha a empresa.
  343. No ímpeto nosso intrepidez provemos.”
  344. Do carro em armas salta; o bronze aos peitos
  345. Do furibundo campeão remuge,
  346. Pondo nos corações gelado medo.
  347. Antes que rolem na sonora praia,
  348. No alto encapela Zéfiro as maretas,
  349. Que na terra a fremir túmidas quebram,
  350. Té que no promontório em cerco espumam:
  351. Tais, sob os cabos seus, vão-se adensando
  352. Graias falanges em fervor contínuo.
  353. Tácito ia o soldado e atento às ordens;
  354. Creras a turba toda emudecida:
  355. Na marcha o vário arnês lampeja e fulge.
  356. Qual a miúdo inúmeras ovelhas,
  357. Ao mungi-las do leite o rico dono,
  358. Balam, gemer ouvindo os cordeirinhos;
  359. Assim clamava o exército contrário:
  360. Misto confuso de nações remotas,
  361. Não tinha o mesmo grito, acento ou língua.
  362. Uns Gradivo, outros insta a gázea Palas,
  363. Fuga, Terror, Discórdia sitibunda,
  364. Parenta e amiga do sanguíneo Marte;
  365. Que, tímida ao princípio, aos Céus remonta,
  366. No chão caminha e a fronte enubla e esconde.
  367. Esta, ao passar, aqui e ali semeia
  368. Raiva homicida, mestos ais dobrando.
  369. Juntos os campos, já de escudos e hastas
  370. E de éreas malhas chocam-se os guerreiros;
  371. Os copados broquéis do embate rugem;
  372. Gloria o vencedor; soluça arcando
  373. O moribundo; o sangue alaga a terra.
  374. Qual, inchados jorrando estrepitosos
  375. Do monte ao vale, rios dois volteiam
  376. Num mesmo abismo, e longe o estrondo escuta
  377. Espantado o pastor: assim, por todos
  378. Lavra o susto, baralha-se o estampido.
  379. Antíloco encetou num da vanguarda,
  380. No Teucro Talisíada Ecepolo,
  381. A quem fura o morrião de basta coma,
  382. E brônzea cúspide o frontal penetra:
  383. Enoita-se-lhe a vista, e como torre
  384. Baqueou. Por despi-lo, o Calcodôncio
  385. Digno rei dos Abantes, pretendendo
  386. Isentar-se dos tiros, debruçado
  387. Agarrando-lhe os pés, desvia a tarja:
  388. Magnânimo Agenor com ênea ponta
  389. Lhe vulnera o vazio e os órgãos laxa;
  390. A alma o corpo deserta, e em acre pugna
  391. Sobre ele Argeus e Troas rosto a rosto,
  392. Quais lobos carniceiros, se abalroam.
  393. Lanceia o Telamônio a Simoésio,
  394. Filho de Antemion, solteiro e imberbe:
  395. No Ida, os gados a ver baixando às margens
  396. Do Símois com seus pais, a mãe o teve;
  397. Donde vinha-lhe o nome. Aos que o geraram
  398. Em frutos não pagou ternura tanta,
  399. Pelo bronze de Ajax em flor cortado:
  400. A destra mama atinge e lhe atravessa
  401. O ombro a lançada, que o rebolca e estende.
  402. Ao pé de úmido lago o choupo liso,
  403. Que a rama e o cimo exalta, o carpinteiro
  404. Talha a ferro aceirado, por que em rodas
  405. Curve-o de belo coche, e à beira o tronco
  406. Jaz do rio a secar; destarte o jovem,
  407. A quem despoja o herói, murchece e tomba.
  408. A Ajax, na chusma, o Priameio Antifo
  409. De arnês betado aponta: a Leuco, assecla
  410. De Ulisses, na virilha o dardo alcança;
  411. E Leuco, indo arrastando a Simoésio,
  412. Larga-o das mãos e dele a par descamba.
  413. Raivoso pelo amigo, em brilho aêneo,
  414. Se envia Ulisses às primeiras filas;
  415. Tem-se, os lumes rodeia, a lança brande.
  416. Afastaram-se os Teucros; mas o tiro
  417. Não se esgarrou, que a Democoonte fere,
  418. De Príamo bastardo, o qual de Abido
  419. Frisões árdegos trouxe: a letal choupa
  420. As fontes passa; a vista se lhe entreva,
  421. Soam-lhe com fragor na terra as armas.
  422. A vanguarda, Heitor mesmo é rechaçado.
  423. Recolhendo os cadáveres e em grita,
  424. Com mor ímpeto os Gregos acometem.
  425. De Pérgamo olha Febo e iroso brama:
  426. “Constância, forte gente, ânimo, Teucros.
  427. Não têm corpos de pedra ou ferro os Dânaos,
  428. Que brônzeo gume expilam; nem de Tétis
  429. Crinipulcra os protege agora o filho,
  430. Que mesto em seus baixéis recoze a bílis.”
  431. De alto assim troa o deus; mas a Tritônia,
  432. De Jove augusta prole, de ala em ala,
  433. Onde os vê tíbios, acalora os Dânaos.
  434. Diores de Amarinceu do fado é preia:
  435. Um calhau de enche-mão, que joga o de Enos
  436. Dos Traces condutor Piso Imbrasides,
  437. No tornozelo destro o aleija; o canto
  438. Os tendões ambos e ossos lhe esmigalha:
  439. A alma exalando, a bracejar aos Gregos,
  440. De costas cai; no umbigo a lança Piso
  441. Mete-lhe; os intestinos se derramam,
  442. Eterna escuridão lhe cobre os olhos.
  443. Toas Etólio ao matador se atira,
  444. Pela mama ao pulmão lhe enterra o bronze;
  445. Aproxima-se dele, e a válida hasta
  446. Lhe extrai dos peitos, puxa logo a espada,
  447. Que lhe traspassa o ventre e a vida rouba.
  448. Desarmá-lo não pôde, que em redondo
  449. Hastatos sócios de topete hirsuto,
  450. Beloso embora, a Toas repeliram.
  451. Assim, dois capitães ali ficaram,
  452. Um Trácio, um dos Epeus eriarnesados,
  453. E outros bravos com eles pereceram.
  454. Quem, de golpes ileso ao longe e ao perto,
  455. Guiando-o Palas, pelo campo andasse,
  456. A nenhum dos guerreiros acusara.
  457. Muitos naquele dia Aqueus e Frígios,
  458. Em pó submersos, prosternados foram. * * *

Nota a nota · 6 notas

v. 7Juno Argiva e Minerva Alalcomênia,
Alalcomênia, epíteto de Minerva, ou porque venha de àlátó ajudar e de menos força, significando ajudadora poderosa; ou porque se refira ao herói Alalcomeneo, que na Beócia ergueu à deusa um templo e uma estátua. Monti adotou a palavra.
↩ voltar ao verso 7
v. 25O anuviador se indigna: “Endiabrada,
Por Endiabrada verto o grego Daimonin, que o intérprete latino mal traspassou por Improba; e nenhum dos tradutores quis ir com o original: Monti mesmo, que acerta quase sempre, deu por equivalente Feroce Diva, crendo ser indigno do senhor dos trovões chamar diabo à sua esposa. Mas o Júpiter de Homero, se é grandioso e terrível nas cenas em que ostenta seu poder, é familiar e caseiro com sua mulher; e tal contraste, muito agradável ao meu gosto, caracteriza o de Homero e o do seu tempo.
↩ voltar ao verso 25
v. 83E ele o seu arco destojou brunido.
Destojar é tirar do estojo ou da caixa: vem nos dicionários o simples estojar, não o composto, que é verbo excelente.
↩ voltar ao verso 83
v. 105–115Desvia-te empezada, qual de leve
Echepeykes diz untada de pez ou resina, em português empezada: vertem a palavra por funesta, quando Homero a toma no sentido próprio. Na seta enrolavam-se as penas com um cordel enresinado para maior segurança. Os selvagens da América, que têm muitos costumes dos tempos Homéricos, hoje em dia fazem a mesma cousa. — Cãibas (paréion) são peças do freio: Moraes adverte que não confundamos o termo com cãibras de sentido mui diferente.
↩ voltar à passagem, v. 105
v. 134–202E o rei beloso e o povo seu pereçam: ⋯ “Valentões de balhesta, oh! pejo e opróbrio!
Príamo às vezes é dito beloso ou bélico, por tê-lo sido em moço e pela coragem com que ainda se portava. — O intérprete latino faz corresponder a iomoroi o seu sagittes addicti, adotado geralmente; não por Monti, que aclara o sentido vertendo: “O guerrier da balestra”. E acertou, como de ordinário, pois o grego diz guerreiros que só usam de besta, arma que atira de longe; e assim Agamemnon de fracos opoda os Aquivos, por não se atreverem a pelejar de perto. Sirvo-me de balhesta e não de besta, por que, menos vulgar, mais enobrece a expressão; e de valentões, porque encerra uma ironia, bem assente no lugar.
↩ voltar à passagem, v. 134
v. 404Talha a ferro aceirado, por que em rodas
Uso de ferro para sidéros, nunca para verter chalkos, que é ou cobre ou uma composição de cobre de que faziam armas defensivas e ofensivas. Possuíam já ferro; mas sendo pouco, empregavam-no só em alguns instrumentos de artífice ou de agricultura, e raramente em pontas de setas e em maças. Uso de aceirado, que julgo ser o correspondente ao adjetivo grego: tanto sobre isto, como sobre o emprego do cobre em vez de ferro entre os antigos, remeto o leitor à curiosíssima obra respectiva de M. Mauduit, extraída da que sobre a Troada publicou em 1840. Quanto à sua opinião de nunca se empregar bronze, mas sempre airin, será isso bom em francês, não em português, onde arame tem contraído uma acepção especial: ninguém ousaria dizer que a lança de Aquiles era de arame, nem que ele com seu arame feria os inimigos. Traduzo pois chalkos por cobre, quando a cousa pode ser de cobre sem mistura, v. g. o forro dos navios; traduzo por bronze a composição antiga, reconhecendo que não era como a do bronze moderno. Sempre que vir esta palavra, entenda-se do cobre temperado com mais ou menos liga de que fala Homero. Tendo a nossa língua felizmente os adjetivos éreo, êneo e aêneo, da nossa mãe latina, deles me sirvo para evitar o vocábulo bronze em certas ocasiões e deste contudo lançarei mão sem escrúpulo, quando houver de significar alguma obra artificiosa. — Afirma-se, e com argumentos não despiciendos, que sidéros nunca é tomado por ferro nos poemas de Homero; que era uma composição, metálica semelhante ao bronze dos nossos dias, ou um produto mineral em que entrava também ferro em pequena quantidade: como porém tudo são conjecturas, e os Gregos ao depois tomaram sidéros por ferro contento-me com a distinção que fiz.
↩ voltar ao verso 404
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