Em consulta com Jove recostados
458 versos · 6 notas do tradutor
- Em consulta com Jove recostados,
- Néctar Hebe louçã tempera aos deuses
- Na régia de áureo solho, e de áureas taças
- Mutuam brindes a atentar em Tróia.
- Eis, com mordaz cotejo, a irmã Satúrnio
- Remoca: “A Menelau protegem duas,
- Juno Argiva e Minerva Alalcomênia,
- Que de olhá-lo tranqüilas se comprazem;
- De Páris guarda assídua, a mãe dos risos
- Da Parca o subtraiu, tem-no em seguro.
- Ao bravo Menelau coube a vitória.
- Deliberemos se é melhor de novo
- Encarniçar a guerra, ou congraçá-los.
- A ser a paz jucunda às partes ambas,
- Habite-se de Príamo a cidade,
- O Atrida reconduza a Grega Helena.”
- Contíguas, gemem comprimindo os lábios
- Juno e Minerva, e dano aos Teucros urdem.
- Cala e a seu pai Minerva oculta a raiva;
- Mas Juno estoura: “Atroz Satúrnio, como!
- Corcéis tenho estafado em colher tropas
- Contra Príamo e os seus; e frustrar queres
- Meu suor, meu trabalho? Embora o faças;
- Nunca os deuses porém to aprovaremos.”
- O anuviador se indigna: “Endiabrada,
- Em que Príamo e os filhos te pecaram,
- Para afanares sempre arrasar Tróia?
- Só fartarás esse ódio quando, as portas
- E os muros conquistados, cru devores
- Príamo e os Priamidas e o seu povo.
- Bem; não seja entre nós de briga acerba
- Este o motivo. Mas na mente o grava:
- Se extirpar me aprouver cidade que ames,
- Não me embargues a cólera; que à tua,
- A meu pesar, entrego Ílio sagrada;
- Que eu, sob o pólo e o sol, nenhuma honrava
- Tanto como essa, nem terrestres homens
- Como ao bélico Príamo e os Troianos:
- Recendiam-me sempre as aras pingues,
- Nunca a nós outros libações faltavam.”
- E a de olhos majestosa: “Três cidades
- Às mais prefiro, Esparta, Argos, Micenas
- De amplas ruas: soverte-as, se as odeias,
- Que não to levo a mal: e, se o levasse,
- Que lucrava em me opor, se és mais potente?
- Convém não malograres meus desígnios,
- Nasci também do perspicaz Saturno,
- E às deidades precedo, irmã e esposa
- Do rei dos imortais: guardemos ambos
- Mútuo respeito para exemplo deles.
- Manda já Palas excitar a pugna;
- Trace o como Trojúgenas infrinjam,
- Não triunfantes Gregos, a aliança.”
- Concorda o pai supremo, e volto a Palas:
- “Já, passa aos dois exércitos, sem mora
- Traça o como Trojúgenas infrinjam,
- Não triunfantes Gregos, a aliança.”
- Propensa a deusa, incontinente voa
- Lá do empinado Olimpo. Qual estrela,
- Se, ao nauta e às hostes portentosa, a envia
- O alto Satúrnio, fulgurante brilha;
- Tal desliza na arena e ali se ostende.
- Pasmam da aparição e entre si rosnam
- Grevados Gregos, picadores Teucros:
- “Quer o árbitro da guerra a paz firmar-nos,
- Ou da matança renovar as cenas.”
- Ei-la, entre a chusma Teucra, simulada
- No Antenórida impávido Laodoco,
- Pós o robusto Pândaro deiforme,
- Que em meio estava das do rio Esepo
- Tropas abroqueladas que o seguiram.
- Chega e de golpe: “Queres-me um conselho,
- Ínclito Licaônio? Expedir ousas
- Ligeira seta a Menelau? Ganharas
- Honra e o Teucro louvor, e o régio Páris
- De bens te enriquecera, ao ver domado
- Por ti, na triste pira, o márcio Atrida.
- Eia, abaixa-lhe o entono; ao de arco exímio
- Lício Apolo hecatombe de cordeiros
- Primogênitos vota que lhe imoles,
- Teu palácio ao rever na santa Zélia.”
- Néscio desta arte o suadiu Minerva,
- E ele o seu arco destojou brunido.
- Espreitando a lascivo agreste capro
- Ao pular de um rochedo, roto o peito,
- O estirava supino: artífice hábil
- De palmos dezesseis lhe engenha os cornos,
- E lhos alisa e de ouro os encastoa.
- Apóia em terra este arco, e o tende e ajusta;
- Escudam-se os intrépidos consócios,
- Temendo o assaltem marciais Aquivos,
- Primeiro que seu rei ferido seja.
- Destapando o carcás, tira empenada
- Intacta frecha, de atras dores fonte,
- Que ao nervo adapta: e a Febo arcipotente
- Cem anhos primogênitos promete,
- Para quando voltar a santa Zélia.
- Puxa o extremo chanfrado e a táurea corda;
- A corda à mama encosta e o ferro ao arco;
- O arco arredonda-se e desarma o estalo;
- O estalo zune, e voa a seta aguda,
- De abrevar-se no sangue impaciente.
- Houve o Céu, Menelau, de ti cuidado:
- Palas depredadora ocorre e a frecha
- Desvia-te empezada, qual de leve
- A mosca enxota a mãe da criancinha
- Sopita em meigo sono; a ponta mesma
- Dirige aonde fechos de ouro atacam
- Talim que ao peitoral duplica a força.
- Pelos dedáleos cinturão e coura,
- Ela perfura a malha tão provada,
- Reparo derradeiro, e a pele esflora:
- Cruor escuro da ferida mana.
- Quando o marfim mulher Meônia ou Cária
- Para cãibas eqüinas purpureia,
- Na casa exposto, o invejam cavaleiros;
- Mas tem só de arrear ginete régio:
- Tal, Menelau, tingiram-se-te as rijas
- Coxas, pernas, luzidos tornozelos.
- Ao roxear do sangue, o rei dos homens
- Horrorizou-se, e Menelau com ele;
- Mas, fora vendo a seta e o nervo e as barbas,
- Alento cobra o generoso peito.
- Com mágoas dos consócios, Agamemnon
- Tem-no e grave suspira: “Irmão dest’alma,
- Sagrei-te à morte com selar por todos
- Pugnasses tu. Feriram-te e calcaram
- Os Troianos a fé; mas vãs não foram
- Hóstias, nem libações, nem destras dadas:
- Se do Olimpo o senhor hoje os não pune,
- Há-de os punir; com suas vidas próprias,
- De esposas, filhos, pagarão de sobra.
- Cuido próximo o dia em que Ílio sacra
- E o rei beloso e o povo seu pereçam:
- Lá das alturas, da perfídia em ódio,
- A égide horrenda agitará Satúrnio;
- Nem fútil é seu ódio. Mas, se a Parca
- Tronca-te a vida, ó Menelau, que luto!
- A Argos sequiosa voltarei, de infame
- Labéu marcado; que, na pátria os Graios
- Só tendo a mente, a Príamo e aos Priâmeos
- Deixaremos a palma e Helena Argiva.
- Podres em Tróia jazerão teus ossos,
- Sem concluir-se a empresa; e um desses feros,
- Do claro Menelau sobre o sepulcro
- Motejará: — Sacie o rancor sempre
- Deste modo Agamemnon, que infinitas
- Falanges trouxe embalde às nossas plagas:
- Abandonando a Menelau valente,
- Já vogou sem despojo ao doce ninho. —
- Antes que eu ouça tal, me engula a terra!”
- O herói flavo o assegura: “Nem te assustes,
- Nem aterres o exército; que a seta
- Letal não foi: meu boldrié salvou-me,
- E o cinturão e a malha, obra de mestre.”
- E inda Agamemnon: “Oxalá, dileto;
- Mas adestrada mão tenteie o golpe,
- Com bálsamos te aplaque as tetras dores.”
- Nisto, virando-se ao divino arauto:
- “Já já, Taltíbio, a Macaon procures,
- Peritíssimo filho de Esculápio;
- Que presto acuda a Menelau, que um Lício
- Ou Tróico archeiro de frechá-lo acaba,
- Por glória sua e pesadume nosso.”
- O arauto logo, às lorigadas linhas
- Lustrando, o heróico Macaon procura:
- No meio estava de escudadas hostes,
- Que o seguiram de Trica em poldros fértil.
- Aproxima-se, e rápido: “Agamemnon
- Chama-te, Esculapíada; não tardes,
- Acode, acode a Menelau, que um Lício
- Ou Tróico archeiro de frechá-lo acaba,
- Por glória sua e pesadume nosso.”
- Sobressalta-se o médico; atravessam
- O exército, e em redor acham do louro
- Maioral vulnerado os chefes Dânaos.
- Extrai da parte Macaon a seta,
- E no extrair as farpas reviraram:
- Saca o bálteo listado, a cinta, a malha
- De primor, e à ferida já patente
- Chupa o sangue, e lhe asperge os linimentos
- Que ensinara a seu pai Quiron amigo.
- De Menelau enquanto se ocupavam,
- Rompe arnesada e em forma a Teucra gente;
- Lembra aos Gregos a lide, as armas vestem.
- Dormir, tremer, não viras Agamemnon,
- Ou recusar peleja, sim o honroso
- Conflito apressurando. O eri-incrustrado
- Coche e os cavalos anelantes larga:
- Tem-nos o auriga Eurímedon, rebento
- De Ptolomeu Piraide, a quem prescreve
- Atrás venha de passo, a fim que o tome,
- Quando o girar os membros lhe afadigue.
- O Atrida a pé de fila em fila ordena,
- Os mais zelosos eloqüente inflama:
- “Nada afrouxeis, que Júpiter, Aquivos,
- Traidores não defende: os que infringiram
- O pacto e a fé, serão de abutres cevo;
- Ílio assolada, filhos seus e esposas
- Breve em nossos baixéis transportaremos.”
- E os que titubam repreende amargo:
- “Valentões de balhesta, oh! pejo e opróbrio!
- Sois corçozinhos tímidos, que lassos
- De correr a campina, esmorecidos
- Param sem ânimo? Aguardais que altivas
- Popas abordem na alva praia os Teucros,
- Para saber se a mão vos dá Satúrnio?”
- Por entre a chusma, em tudo pondo cobro,
- Chega-se aos Créssios, que na frente armados
- O militar Idomeneu já tinham,
- Em vigor javali; na retaguarda
- Os incitava Merion. De vê-los
- Exulta o rei dos reis, contente e afável:
- “Nos feitos, Créssio herói, prezo-te acima
- Dos crinitos varões, té quando à mesa
- Misturam na cratera o vinho de honra:
- Bebem regrado os mais; teu copo sempre,
- Qual o meu transbordando, a gosto empinas.
- Vai combater, e teu renome iguala.”
- Idomeneu responde: “Camarada
- Jurei ser-te leal; não falto. Inspira
- Denodo aos outros, acelera a pugna:
- Infratores do pacto, a morte, o exício
- Recairá sobre infiéis Troianos.”
- Alegre o Atrida progredindo, encontra
- Os dois Ajax de ponto em branco, e em torno
- Um negrume de espessa infantaria.
- Do oeste às vezes bruna pícea nuvem
- Traz pelas vagas túrbida procela;
- O pastor, que a divisa do penedo,
- Freme e à gruta recolhe a grei balante:
- Assim um e outro Ajax movia ao prélio
- Aguerridas intrépidas falanges,
- De enfuscados broquéis e horrentes piques.
- Gostoso o Atrida, rápido lhes fala:
- “Ajax, cabos de Argivos lorigados,
- Fora ultraje animar-vos; que vós mesmos
- Forte a bater-se estimulais o povo.
- Oh! Jove, Palas, Febo, em todo peito
- Soprassem vosso ardor! Presto, às mãos nossas,
- Desabaria a Priameia Tróia.”
- Prossegue, e topa o arguto orador Pílio,
- Que os seus alinha, férvido acorçoa
- O grande Pelagon, Alastor, Crômio,
- E Hémon e Bias príncipes das gentes;
- Atrás bastos peões, da guerra esteios,
- E na vanguarda os éqüites e os carros,
- Entremete os poltrões, que à força pugnem.
- A conter seus corcéis avisa os donos,
- Por que as alas não turbem: “Confiado
- No manejo e valor, sôfregos Teucros
- Ninguém ataque só, nem retroceda;
- Que mais débeis sereis. Do próprio carro
- Quando alguém desça e a carro hostil afronte,
- Enreste a lança, que é melhor partido.
- Assim nossos avós, com força e manha,
- Derrocavam muralhas e castelos.”
- Tal o decano tático procede;
- O grã rei jubiloso o exalta e gaba:
- “Conforme o coração, robustos fossem
- Teus joelhos, teu corpo! Inexorável
- Te consome velhice: oh! se ela em outrem
- Já carregasse, e remoçar pudesses!”
- E Nestor: “Não ser eu como antes era,
- Quando Ereutalion matei famoso!
- O Céu nunca aos mortais confere tudo,
- Moço então, hoje a idade me acabrunha.
- Mas, tal qual sou, no prélio os cavaleiros
- Ajudarei de alvitres e conselhos,
- Dos provectos ofício: os que eu mais ágeis
- Dardem, gladeiem, no verdor fiados.”
- Avante, passa ao campeão Petides,
- A quem Cecrópios adestrados cercam;
- Sem lhes dar inda o al’arma, o fino Ulisses
- Perto forma os não lerdos Cefalenses;
- Pois, começando apenas o alvoroto,
- Aguardam que remeta aos inimigos
- Outra falange Aquiva e estréie a pugna.
- Olha-os o rei dos reis acrimonioso:
- “Menesteu cujo pai Jove alentava,
- E tu poço de ardis e estratagemas,
- Tardios trepidais? Com ígnea força
- Combater vos cumpria antessignanos;
- Que sois nos meus convites os primeiros,
- Quando os chefes Aqueus se banqueteiam:
- Regalai-vos de assados saborosos,
- E dulcíssimos copos vos saciam;
- E ora esperais que em menear o bronze
- Dez Graios batalhões vos antecedam?”
- Rude Ulisses contesta: “Que te escapa
- Do encerro destes dentes? Nós remissos!
- Nós que atroz morte aos picadores Teucros
- Já movemos? Se o tens a peito e o queres,
- De Telêmaco o pai ante as bandeiras
- Verás, Atrida, e vãos discursos bastem.”
- O rei sente-lhe o enfado, e a sorrir torna:
- “Sublime solertíssimo Laércio,
- Não te arguo excessivo. Sim, de acordo
- Comigo sempre vai tua alma grande.
- Eia, rompe a tardança: eu me retrato;
- E o Céu risque a lembrança desta ofensa.”
- Finda a revista no pugnaz Tidides,
- Que entre os corcéis estava e unidos carros,
- Mais a de Capaneu briosa estirpe.
- Tal observa Agamemnon e o censura:
- “Tremes, Diomedes, o êxito receias?
- Ah! teu pai de tremer não se aprazia;
- Sempre entre os seus maior se abalizava:
- Nunca vi, mas o afirmam testemunhas.
- A Micenas contudo hóspede veio,
- Quando, com Polinice igual aos deuses,
- De Tebas sitiava os sacros muros,
- E ambos gente e socorro nos pediram.
- Quisemo-lo servir, porém vedou-nos
- Dial prodígio infausto; e na tornada,
- Ao juncoso arribaram verde Asopo.
- De Etéocles no paço, num convívio
- Tideu, como legado, imensos topa:
- Sozinho entre os Cadmeios, destemido
- Muitos então a duelo desafia,
- E de Palas por graça a todos vence.
- De emboscada, ao regresso, despeitosos
- O acometem cinqüenta cavaleiros,
- Com chefes dois, Meon divo Hemonides,
- O inconcusso Antofônio Licofonte.
- Ele os castiga, e por celeste auspício
- Poupa a Meon, que núncio envia a Tebas.
- Tal foi Tideu Etólio, pai de um filho
- Melhor de língua e de valor somenos.”
- Sofre-o Diomedes respeitoso e mudo,
- E Estênelo é quem fala: “Atrida, mentes;
- Sabe que de mais fortes blasonamos
- Que nossos pais: com Jove e o Céu propício,
- Bem poucos, derruindo-lhe as muralhas,
- Tomamos Tebas a de sete portas;
- Eles, ímpios e insanos, pereceram.
- Nossos avós conosco não compares.”
- Sério o encarou Tidides: “Cala e atende.
- Fogoso o grande rei não culpo, amigo,
- De grevados Aqueus urgir ao prélio:
- Se destrói Ílio santa, a glória é sua,
- E ingente o luto, se nos falha a empresa.
- No ímpeto nosso intrepidez provemos.”
- Do carro em armas salta; o bronze aos peitos
- Do furibundo campeão remuge,
- Pondo nos corações gelado medo.
- Antes que rolem na sonora praia,
- No alto encapela Zéfiro as maretas,
- Que na terra a fremir túmidas quebram,
- Té que no promontório em cerco espumam:
- Tais, sob os cabos seus, vão-se adensando
- Graias falanges em fervor contínuo.
- Tácito ia o soldado e atento às ordens;
- Creras a turba toda emudecida:
- Na marcha o vário arnês lampeja e fulge.
- Qual a miúdo inúmeras ovelhas,
- Ao mungi-las do leite o rico dono,
- Balam, gemer ouvindo os cordeirinhos;
- Assim clamava o exército contrário:
- Misto confuso de nações remotas,
- Não tinha o mesmo grito, acento ou língua.
- Uns Gradivo, outros insta a gázea Palas,
- Fuga, Terror, Discórdia sitibunda,
- Parenta e amiga do sanguíneo Marte;
- Que, tímida ao princípio, aos Céus remonta,
- No chão caminha e a fronte enubla e esconde.
- Esta, ao passar, aqui e ali semeia
- Raiva homicida, mestos ais dobrando.
- Juntos os campos, já de escudos e hastas
- E de éreas malhas chocam-se os guerreiros;
- Os copados broquéis do embate rugem;
- Gloria o vencedor; soluça arcando
- O moribundo; o sangue alaga a terra.
- Qual, inchados jorrando estrepitosos
- Do monte ao vale, rios dois volteiam
- Num mesmo abismo, e longe o estrondo escuta
- Espantado o pastor: assim, por todos
- Lavra o susto, baralha-se o estampido.
- Antíloco encetou num da vanguarda,
- No Teucro Talisíada Ecepolo,
- A quem fura o morrião de basta coma,
- E brônzea cúspide o frontal penetra:
- Enoita-se-lhe a vista, e como torre
- Baqueou. Por despi-lo, o Calcodôncio
- Digno rei dos Abantes, pretendendo
- Isentar-se dos tiros, debruçado
- Agarrando-lhe os pés, desvia a tarja:
- Magnânimo Agenor com ênea ponta
- Lhe vulnera o vazio e os órgãos laxa;
- A alma o corpo deserta, e em acre pugna
- Sobre ele Argeus e Troas rosto a rosto,
- Quais lobos carniceiros, se abalroam.
- Lanceia o Telamônio a Simoésio,
- Filho de Antemion, solteiro e imberbe:
- No Ida, os gados a ver baixando às margens
- Do Símois com seus pais, a mãe o teve;
- Donde vinha-lhe o nome. Aos que o geraram
- Em frutos não pagou ternura tanta,
- Pelo bronze de Ajax em flor cortado:
- A destra mama atinge e lhe atravessa
- O ombro a lançada, que o rebolca e estende.
- Ao pé de úmido lago o choupo liso,
- Que a rama e o cimo exalta, o carpinteiro
- Talha a ferro aceirado, por que em rodas
- Curve-o de belo coche, e à beira o tronco
- Jaz do rio a secar; destarte o jovem,
- A quem despoja o herói, murchece e tomba.
- A Ajax, na chusma, o Priameio Antifo
- De arnês betado aponta: a Leuco, assecla
- De Ulisses, na virilha o dardo alcança;
- E Leuco, indo arrastando a Simoésio,
- Larga-o das mãos e dele a par descamba.
- Raivoso pelo amigo, em brilho aêneo,
- Se envia Ulisses às primeiras filas;
- Tem-se, os lumes rodeia, a lança brande.
- Afastaram-se os Teucros; mas o tiro
- Não se esgarrou, que a Democoonte fere,
- De Príamo bastardo, o qual de Abido
- Frisões árdegos trouxe: a letal choupa
- As fontes passa; a vista se lhe entreva,
- Soam-lhe com fragor na terra as armas.
- A vanguarda, Heitor mesmo é rechaçado.
- Recolhendo os cadáveres e em grita,
- Com mor ímpeto os Gregos acometem.
- De Pérgamo olha Febo e iroso brama:
- “Constância, forte gente, ânimo, Teucros.
- Não têm corpos de pedra ou ferro os Dânaos,
- Que brônzeo gume expilam; nem de Tétis
- Crinipulcra os protege agora o filho,
- Que mesto em seus baixéis recoze a bílis.”
- De alto assim troa o deus; mas a Tritônia,
- De Jove augusta prole, de ala em ala,
- Onde os vê tíbios, acalora os Dânaos.
- Diores de Amarinceu do fado é preia:
- Um calhau de enche-mão, que joga o de Enos
- Dos Traces condutor Piso Imbrasides,
- No tornozelo destro o aleija; o canto
- Os tendões ambos e ossos lhe esmigalha:
- A alma exalando, a bracejar aos Gregos,
- De costas cai; no umbigo a lança Piso
- Mete-lhe; os intestinos se derramam,
- Eterna escuridão lhe cobre os olhos.
- Toas Etólio ao matador se atira,
- Pela mama ao pulmão lhe enterra o bronze;
- Aproxima-se dele, e a válida hasta
- Lhe extrai dos peitos, puxa logo a espada,
- Que lhe traspassa o ventre e a vida rouba.
- Desarmá-lo não pôde, que em redondo
- Hastatos sócios de topete hirsuto,
- Beloso embora, a Toas repeliram.
- Assim, dois capitães ali ficaram,
- Um Trácio, um dos Epeus eriarnesados,
- E outros bravos com eles pereceram.
- Quem, de golpes ileso ao longe e ao perto,
- Guiando-o Palas, pelo campo andasse,
- A nenhum dos guerreiros acusara.
- Muitos naquele dia Aqueus e Frígios,
- Em pó submersos, prosternados foram. * * *