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IlíadaLivro III
LivroIII

Os Teucros em batalha, após seus cabos

394 versos · 5 notas do tradutor


  1. Os Teucros em batalha, após seus cabos,
  2. Gritando avançam: tal se eleva às nuvens
  3. Dos grous o grasno, que em aéreas turmas,
  4. Da invernada e friagens desertores,
  5. Contra o povo Pigmeu com ruína e morte,
  6. O Oceano transvoam. Desejosos
  7. De entreajudar-se, tácitos os Gregos,
  8. Força e coragem respirando, marcham.
  9. Qual se, ingrato ao pastor, Noto enche os cumes
  10. De névoa, mais que a noite ao furto asada,
  11. Pois que a tiro de pedra mal se enxerga;
  12. Aos pés túrbido pó não menos surge
  13. Dos que iam pelo campo acelerados.
  14. Perto eles já, da prima Tróica fila
  15. Páris nítido sai: com arco e espada,
  16. Pele de um pardo enverga; de ênea ponta
  17. A vibrar dois hastis, os mais valentes
  18. Um por um desafia. Em grave passo
  19. Vendo-o vir Menelau, como esfaimado
  20. Leão exulta que, ao topar fornido
  21. Galheiro cervo ou corpulenta corça,
  22. Ferra-o voraz, embora em cerco o apertem
  23. Viçosos moços, vívidos sabujos.
  24. Do coche em armas vingativo salta;
  25. Mas Alexandre, que na frente o avista,
  26. Para os seus retraiu-se estremecendo.
  27. Se alguém no serro ou brenha encontra serpe,
  28. Trépido recuando empalidece:
  29. O deiforme elegante assim do Atrida
  30. Aos soberbos Troianos retrocede.
  31. Agro o invectiva Heitor: “Funesto Páris,
  32. Mulherengo falaz, nunca nasceras;
  33. Ou solteiro acabar melhor te fora
  34. Que escárnio a todos ser. És sim bonito;
  35. O Argeu comado, que pugnaz te cria,
  36. Ri de que alma tão vil teu corpo aloje.
  37. A navegar, poltrão, forçaste amigos,
  38. Da Ápia ousando a beleza peregrina,
  39. Consorte e irmã de heróis, trazer contigo?
  40. E és a teu pai flagelo, aos teus e à pátria,
  41. Mofa de estranhos, de ti mesmo opróbrio?
  42. Fugiste a Menelau? provaras que homem
  43. Houve as primícias da mulher que usurpas:
  44. Cítara, nem madeixas, nem beldade,
  45. Nem Vênus com seus mimos te valera,
  46. No pó submerso. Por devida paga,
  47. Se os nossos Teucros tímidos não fossem,
  48. Tu já vestiras túnica de seixos.”
  49. E o formoso Alexandre: “Essa fraterna
  50. Mereço, Heitor; mas no âmago tens rijo
  51. Coração, qual secure que, aumentando
  52. Ao pulso a robustez, penetra o lenho,
  53. Talha e em navais aprestos o afeiçoa.
  54. Da áurea Vênus os prêmios não me exprobres;
  55. Nem são de recusar os dons celestes,
  56. Nem alvedrio é nosso o consegui-los.
  57. Se me queres na liça, Aqueus e Troas
  58. Sossega: eu só com Menelau a braços
  59. Dispute Helena; o vencedor aceite
  60. E reconduza a dama e os seus tesouros.
  61. Ferido o pacto, em sólida amizade
  62. Neste pingue torrão fiquem-se os nossos;
  63. De cavalos fecunda aqueles Argos
  64. E Acaia busquem de gentis mulheres.”
  65. Folga Heitor, e hasta em punho, os seus retendo,
  66. Se adianta; mas alvo era de pedras,
  67. Frechas e lanças, té bradar o Atrida:
  68. “Basta, Aquivos, cessai, crinita gente;
  69. Que acena o galeato herói Priâmeo.”
  70. Ei-los subitamente se aquietam,
  71. E chama Heitor: “Sabei de mim, Dardânios
  72. E Aqueus de fina greva, o que Alexandre
  73. Propõe, da guerra autor. De parte a parte
  74. Largadas no almo chão fulgúreas armas,
  75. Menelau marcial a sós com ele
  76. Dispute Helena; o vencedor aceite
  77. E reconduza a dama e os seus tesouros;
  78. Nós outros aliança e paz firamos.”
  79. Calam-se, e Menelau sonoro troa:
  80. “Sede-me atentos; esta angústia é minha.
  81. Atormenta-me a guerra: Aqueus e Troas
  82. Por mim, por Alexandre origem dela,
  83. Nímio têm padecido! Os mais pactuem;
  84. Morra qualquer um dos dous que a Parca assine.
  85. Preta imole-se à Terra uma cordeira,
  86. Cordeiro branco ao sol, branco ao Satúrnio.
  87. Mas Príamo o tratado ratifique;
  88. Seus filhos com perfídia os juramentos
  89. Podem quebrar, sem pejo do Supremo.
  90. Dos mancebos a mente é sempre instável:
  91. O ancião, reportando-se ao passado,
  92. Olha ao futuro, concilia todos.”
  93. Alegram-se os Trojúgenas e Aquivos,
  94. Terminar concebendo a luta infausta.
  95. Dos coches apeando, os enfileiram;
  96. As armas despem, que ante si descansam:
  97. Breve espaço medeia. Dois arautos
  98. Expede logo Heitor, que as reses tragam,
  99. E a Príamo convida. A rês terceira
  100. Manda vir Agamemnon por Taltíbio,
  101. Que ao rei submisso para as naus caminha.
  102. A Helena bracicândida vem Íris,
  103. Nas feições de Laódice, do Antenório
  104. Príncipe Helicaon dileta esposa,
  105. E a mais bela de Príamo gerada.
  106. Acha-a tecendo em casa dupla trama,
  107. Luzida e larga, onde as ações bordava
  108. Que arnesados Aqueus e éqüites Frígios
  109. Sustentavam por ela encruecidos.
  110. Chega a núncia veloz: “Sus, ninfa amada,
  111. Contempla e admira os Graios e os Troianos:
  112. Não há muito, em combates lagrimosos
  113. Ardiam por matanças; quedos ora,
  114. Sem contenda, arrimados aos escudos,
  115. Os longos piques junto a si pregaram.
  116. Só lança a lança Menelau com Páris
  117. Vai duelar: do que vencer o nome
  118. Terás de queridíssima consorte.”
  119. Assim na alma a saudade se lhe estampa
  120. Do marido e dos lares e parentes.
  121. De véu cândido ao rosto, água nos olhos,
  122. Saiu do gineceu; não vai sozinha,
  123. Vai com fâmulas duas, a Pitéia
  124. Etra e Climene de bovinos lumes.
  125. Às portas Ceias já de assento encontra
  126. A Príamo na torre, e Panto e Clício,
  127. Hiceteon belaz, Timetes, Lampo,
  128. Mais Antenor e Ucalegon sisudos,
  129. Que por velhos abstinham-se da guerra;
  130. Porém, bons oradores, semelhavam
  131. A cigarras que, n’árvore pousadas,
  132. A selva adoçam com suave canto.
  133. À torre vendo aproximar-se Helena,
  134. Dizem baixo entre si: “Não sem motivo
  135. Povos rivais aturam tantos males!
  136. Que porte e garbo! efígie é das deidades.
  137. Mas, tal qual seja, embarque; a nós de exício
  138. Não continue a ser e a nossos filhos.”
  139. Então chamou-a Príamo: “Anda, ó cara,
  140. Teu cônjuge primeiro e afins e amigos
  141. Atenta ao pé de mim. Não és culpada;
  142. Guerra tão crua, os deuses ma enviaram.
  143. Aquele Argeu quem é, bizarro e esbelto?
  144. Outros se lhe avantajam na estatura;
  145. Mas nunca os olhos meus tamanho viram
  146. Decoro e majestade: um rei parece.”
  147. Respondeu-lhe a mais nobre das mulheres:
  148. “Amado sogro, temo-te e venero;
  149. Oh! morte eu padecera, antes que o toro
  150. Por teu Páris tivesse abandonado,
  151. E os irmãos e a só filha e as companheiras!
  152. Eu vivo e em mesto pranto me definho.
  153. Mas vou satisfazer-te: o herói que apontas
  154. É rei sublime e campeão tremendo,
  155. O pujante Agamemnon; que vergonha!
  156. Se um dia o mereci, foi meu cunhado.”
  157. Pasma e exclama o ancião: “Feliz Atrida!
  158. Mimoso da fortuna, que em florentes
  159. Graios dominas! Muitos vi peritos
  160. Cavaleiros da Frígia pampinosa,
  161. E as de Migdon divino e Otreu falanges,
  162. Que do Sangário às bordas acampavam;
  163. Lá como auxiliar no ataque estive
  164. Das viris Amazonas: mor quantia
  165. De olhi-negros Aquivos se apresentam.”
  166. Prossegue a interrogá-la: “A quem do Atrida
  167. Sobrepuja a cabeça, dize ó filha,
  168. E é dos peitos mais largo e das espáduas?
  169. Em terra as armas, as fileiras corre:
  170. De espessa lã guieiro se me antolha
  171. Que entre infindo passeia alvo rebanho.”
  172. Torna a Dial vergôntea: “Esse o prudente
  173. Laércio Ulisses é, de Ítaca rude,
  174. Em todo estratagema e ardis sabido.”
  175. E Antenor: “A verdade, ó mulher, falas.
  176. Por teu respeito aqui já veio Ulisses
  177. De embaixador com Menelau: prestei-lhes
  178. Uma franca e amigável hospedagem.
  179. Discerni a cordura e o gênio de ambos.
  180. Eles em pé, dos Teucros no conselho,
  181. Menelau sobranceiros tinha os ombros;
  182. Sentados, o Laércio mais nobreza.
  183. Não multíloquo e vago, embora jovem,
  184. Sim conciso os discursos bem tecendo,
  185. Razões argutas Menelau volvia.
  186. Mas, se o Ítaco a orar se levantava,
  187. No chão pregada a vista, o cetro imóvel,
  188. Direito e sem pender, o creras homem
  189. Inexperto, iracundo, ou quase louco;
  190. Do imo ao soltar a voz, qual neve hiberna
  191. As palavras em flocos lhe choviam:
  192. Com ele então ninguém se comparasse;
  193. Na facúndia e no gesto era um portento.”
  194. “Quem é, pergunta Príamo, o guerreiro
  195. Que, espadaúdo e grande, a fronte acima
  196. Dos Dânaos assoberba?” — “É, disse a nora,
  197. Ajax, dos Gregos fortaleza e muro.
  198. Idomeneu Cretense ali dos cabos,
  199. Como um deus, se rodeia: ao vir de Creta,
  200. De Menelau nos paços o acolhíamos.
  201. Outros vejo daqui de negros olhos,
  202. Que eu fácil nomeara; mas não vejo
  203. Castor na picaria, insigne Pólux
  204. No pugilato, príncipes das gentes,
  205. Maternos meus irmãos: ou não largaram
  206. Da leda Esparta, ou nos baixéis detidos,
  207. Pejam-se de empenhar-se nas pelejas
  208. Que, por meu vitupério, se prolongam.”
  209. Oculto lhe era que ambos já na doce
  210. Pátria Lacedemônia descansavam.
  211. Traziam da cidade os mensageiros
  212. As hóstias e odre cheio de jucundo
  213. Bom licor de natio; Ideu cratera
  214. Também traz luzidia e copos de ouro,
  215. E assim convida o rei: “Sus, Laomedôncio;
  216. Magnatas Frígios e emalhados Gregos
  217. Rogam desças e o pacto nos confirmes.
  218. De hastas com Menelau contenda Páris:
  219. Quem vencer haja Helena e seus tesouros.
  220. Ferida a paz, em Tróia ficaremos;
  221. De cavalos fecunda aqueles Argos
  222. E Acaia busquem de gentis mulheres.”
  223. Manda o coche arrear trêmulo o velho:
  224. Obedecem-lhe; sobe e os loros tira;
  225. Sobe Antenor com ele; os corredores,
  226. Das portas Ceias despedidos, param.
  227. Já do assento vistoso desmontados,
  228. Entre Aqueus e Troianos caminhavam;
  229. Ergue-se o mor Atrida e o cauto Ulisses.
  230. Prestes as reses, na cratera o vinho
  231. Os arautos resplêndidos misturam,
  232. Água às mãos régias cristalina vertem.
  233. Puxa Agamemnon do cutelo, apenso
  234. Da bainha da espada formidável,
  235. Raspa a moleira às vítimas, e o pêlo
  236. Os arautos aos próceres dividem;
  237. Ele alça deprecando a voz e as palmas:
  238. “Do Ida augusto senhor, máximo padre,
  239. Sol que vês e ouves tudo, rios, Terra,
  240. Vós que no inferno castigais perjuros,
  241. Desta aliança fiadores sede.
  242. Se Páris vence a Menelau, conserve
  243. Toda a riqueza e a dama, e nós voguemos;
  244. Se o vence o louro Atrida, aqui nos rendam
  245. Helena e o seu tesouro, e por memória
  246. Multa condigna paguem: morto Páris,
  247. Se Príamo e seus filhos ma refusam,
  248. Té que os force ao dever, não largo as armas.”
  249. Nisto, as gargantas aos cordeiros sangra:
  250. Exânimes no solo e palpitantes,
  251. Do éreo instrumento ao gume a vida perdem.
  252. Rasos os copos, a cratera esgotam,
  253. E ao Supremo libando o voto expressam,
  254. Ou cada Argivo ou Teucro: “Jove eterno
  255. E mais deuses, no chão, como este vinho,
  256. Dos que primeiro o pacto violarem
  257. Esparjam-se os miolos e os dos filhos,
  258. Sejam dos outros as mulheres suas.”
  259. Nada firma o Satúrnio, e o rei Dardânio:
  260. “Ó Troas, balbucia, Aqueus, ouvi-me:
  261. Volto a Ílion ventosa; que estes olhos
  262. Entre o rival belígero e o meu Páris
  263. O duelo cruel suster não podem.
  264. Júpiter sabe e os imortais qual deles
  265. Chamam seus fados.” — O varão divino
  266. Monta, no coche as vítimas coloca;
  267. Tem consigo Antenor, e as rédeas bate:
  268. Ambos à desfilada se recolhem.
  269. Eis Ulisses e Heitor o espaço medem,
  270. Eis num elmo sorteiam quem da lança
  271. Aênea encete o bote. Frígio ou Graio,
  272. Súplice as mãos estende e aos céus implora:
  273. “Do Ida augusto senhor, máximo padre,
  274. Quem quer que o mal causasse, a Dite o entregues;
  275. Nós de amizade o pacto mantenhamos.”
  276. Sacode o elmo Heitor, e o rosto vira;
  277. Sai o nome de Páris. Em fieira,
  278. Têm seus donos ao pé cavalos e armas.
  279. Arnesa-se Alexandre, o pulcro esposo
  280. Da emadeixada Helena: as caneleiras
  281. Com prata afivelando, ao peito a coura
  282. Do irmão seu Licaon, que bem lhe quadra,
  283. Lâmina aênea claviargêntea ombreia,
  284. De grande escudo sólido se adarga;
  285. Flutua-lhe à cabeça o capacete,
  286. De crina e hórrida crista, primoroso;
  287. Pique válido empunha. De iguais armas
  288. Galhardo Menelau se adorna e veste.
  289. De ponto em branco, ao meio avançam torvos:
  290. Frio estupor, a tal conspecto, assalta
  291. Bem grevados Aqueus e éqüites Frígios.
  292. Sanhudos no recinto se acometem,
  293. Hastas brandindo. A sua arroja Páris;
  294. Rasca o broquel do Atrida sem rompê-lo,
  295. Na brônzea rigidez se amolga a ponta.
  296. Menelau, por seu turno, impreca: “Ó Jove,
  297. Dá-me a injúria anular que hauri primeira;
  298. No sacrílego autor meu braço a puna.
  299. De atraiçoar vindouros estremeçam
  300. O hóspede lhano que os receba amigo.”
  301. A lança aqui desfere, que no instante
  302. Ao Priâmeo entra aguda o reforçado
  303. Fúlgido escudo, rasga-lhe a excelente
  304. Loriga e malha, a túnica penetra
  305. No quadril: curva-se ele e a morte esquiva.
  306. De argênteos cravos puxa o Atrida o gládio,
  307. Que na cimeira voa-lhe em pedaços;
  308. Fitando os céus então, suspira e geme:
  309. “És o mais sevo nume, ó tu Satúrnio,
  310. Cuidei nesse traidor vingar a afronta:
  311. Estalou-me nas mãos, oh! raiva, a espada,
  312. E arremessei frustrâneo um tiro cego.”
  313. Nisto, pelo cocar o aferra e empuxa
  314. Para os Aqueus: o pespontado loro
  315. Que ao mento o elmo liga, a mole goela
  316. Cerra e o sufoca; eterna glória obtendo,
  317. Firme o arrastara, se a Dial Ciprina
  318. Rapidamente não quebrasse o atilho,
  319. De hóstia bovina espólio. O herói, sacado
  320. O elmo vazio, a revoltões remete-o
  321. Aos contentes consócios, que o recadam.
  322. Por matá-lo inda enrista acesa lança;
  323. Mas fácil, como deusa, em névoa grossa
  324. Vênus o leva ao tálamo fragrante.
  325. À torre mesma corre, onde acha Helena
  326. Entre as Dardânias: unectário peplo
  327. Abanando-lhe, o vulto imita e as rugas
  328. Da fiel cardadeira que na Esparta
  329. As lãs curava e as boas lhe escolhia;
  330. Disfarçada comete-a: “Vem, que Páris
  331. No toro conjugal te aguarda, filha:
  332. Enfeitado e gentil, não de um combate
  333. Livre o julgaras, sim que a dança o espera,
  334. E que já de um folguedo refocila.”
  335. A Helena isto comove; mas, donoso
  336. Vendo-lhe o seio, o colo de alabastro,
  337. Dos olhos o fulgor, pávida exclama:
  338. “Bárbara, em fascinar-me assim prossegues?
  339. Rojar-me intentas à Meônia ou Frígia?
  340. Lá tens algum mimoso entre esses povos?
  341. Quando, o guapo Alexandre hoje abatido,
  342. Ré Menelau me aceita e me perdoa,
  343. Traças com teus enganos empecer-nos?
  344. Vai tu própria; não ponhas pés no Olimpo.
  345. Esquece os deuses, dele sempre ao lado,
  346. Suporta-lhe o desdém, até que esposa
  347. Tu sejas de um mortal, ou sua escrava.
  348. Não mais, desse cobarde o leito ornando
  349. Quero a fábula ser das Teucras damas,
  350. Curtir nova desonra e mágoas novas.”
  351. E a deusa irada: “Não me apures, teme
  352. Que eu te persiga, mísera, e aborreça
  353. Quanto hoje te amo: excitarei discórdia,
  354. Que os Dardânios e os Gregos exaspere,
  355. E vítima serás de horrendos fados.”
  356. Estremece a Ledéia, e silenciosa,
  357. Do peplo candidíssimo velada,
  358. Às Troadas se furta, e a guia Vênus.
  359. No palácio elegante apenas entram,
  360. As servas todas no lavor se apressam;
  361. Monta à câmara sua Helena bela.
  362. Numa sede a coloca a mãe dos risos
  363. Em face de Alexandre; aversa olhando
  364. A do Egífero neta o argúi severa:
  365. “Pois te salvaste? aos golpes sucumbisses
  366. Do meu primeiro esposo! Em destra lança
  367. E em força te gabavas de excedê-lo:
  368. Anda, provoca a Menelau brioso,
  369. Torna ao duelo agora. Estulto, crê-me,
  370. O louro Menelau nem mais encares,
  371. Que da hasta e forte mão serás prostrado.”
  372. Brando se escusa Páris: “Doce Helena,
  373. Com essas lancetadas não me punjas:
  374. Venceu-me o Atrida por favor de Palas;
  375. Deuses mais faustos me farão vencê-lo.
  376. Vamos em nossa cama congraçar-nos:
  377. Tal ardor nunca tive e tais desejos;
  378. Nem quando, arrebatada à meiga Esparta,
  379. Velejava contigo, e a vez primeira
  380. Na ilha Cranaé do amor gozamos;
  381. Hoje mais te apeteço e mais te anelo.”
  382. Então sobe adiante, e o segue a esposa;
  383. No entalhado seu leito adormeceram.
  384. Menelau, como fera, escuma e vaga
  385. Em busca do formoso e divo Páris:
  386. Nem Troa algum, nem ínclito aliado
  387. Ao valente rival mostrá-lo pôde;
  388. Que nenhum o escondera, a todos sendo
  389. Ódio mortal. — Bradou-lhes Agamemnon:
  390. “Teucros e auxiliares, atendei-me:
  391. Claro a vitória a Menelau pertence;
  392. Rendei pois a riqueza e Helena Argiva,
  393. Multa pagai-nos que o porvir memore.”
  394. Dos seus o aplauso unânime retumba. * * *

Nota a nota · 5 notas

v. 16–18Pele de um pardo enverga; de ênea ponta
Pardo por leopardo é de Sá de Menezes. — Láinon esso chitóna não diz foras sepultado, sim apedrejado: o vocábulo seixos aclara o pensamento.
↩ voltar à passagem, v. 16
v. 125–127Às portas Ceias já de assento encontra
À pg. 299 do meu Virgílio Brasileiro, edição de 1858, falando eu da torre que Eneias fez desabar sobre os Gregos, aprovei a opinião de Delille de ser dali que Helena a Príamo nomeava os capitães inimigos: hoje, refletindo nesta passagem de Homero, vejo que é falsíssima aquela opinião. O palácio era dentro da cidade, longe do teatro das batalhas; tanto assim que, vindo firmar a convenção, num carro com Antenor desceu o velho às portas Ceias, e à torre que ali formava uma das defensas é que o veio encontrar a nora, e foi donde ela nomeou os Gregos. É claro pois, a quem estudar os lugares de Homero e de Virgílio, que trata cada um de uma torre diferente. — À vista do que, injusta é a censura de M. Bignan, concebida assim: “Comment se fait-il qu’aprés un siège de dix ans, Priam, au troisième chant, soit obligé de demander les noms des heros grecs, et qu'Helene ne sache pas si ses deux fréres Castor e Pollux sont venus combattre devant Troie?” — Examinemos. O decrépito Príamo nunca assistia às batalhas, e os Gregos nunca se aproximavam senão para atacar: abrigado o velho no seu palácio não os podia ver senão de longe, isto é da torre que Eneas fez desabar, a qual dominava toda a cidade e o acampamento, e dali não se distinguiam as pessoas, mas somente o todo do exército. A vez primeira que esteve perto dos inimigos, foi esta em que as tréguas lhe permitiram vir com segurança. — Quanto a não ter Helena alguma notícia dos irmãos, com Mme. Dacier e com o marquês de Fortia d’Urban, membro do Instituto de França, respondo que Páris sem dúvida lhe tinha ocultado a morte dos irmãos para não magoá-la.
↩ voltar à passagem, v. 125
v. 130–138Porém, bons oradores, semelhavam
Homero tem por suave a estrídula voz da cigarra, e lhe compara os bons discursos. Rochefort, que certamente não gostava de tal canto, opina que o poeta assemelha a monotonia das arengas dos velhos à monotonia das cigarras: se assim fosse, a comparação tivera sido em desabono da eloqüência de Antenor e dos demais, quando é evidente que os louva. Ora, posto que aspérrimo o tal ruído, ao longe todavia, sendo menos áspero, pode alguma vez agradar a um viandante depois de longo e fastidioso caminho por solidões silenciosas; o que teria experimentado Homero nas suas peregrinações. — É sabido que este elogio a Helena, de velhos que reprovavam o rapto e a insistência de Príamo, é talvez o maior que se tem feito à formosura; elogio tanto mais admirável, quanto mais simples é nas expressões e palavras.
↩ voltar à passagem, v. 130
v. 216Magnatas Frígios e emalhados Gregos
Contra o parecer de alguns, uso de Frígios por Troianos. Sendo a cidade na Troada e a Troada na Frígia, podemos chamar Frígios ou Troas os que pelejavam contra os Gregos, assim como chamamos Europeu ou Italiano a qualquer Genovês. Em certos casos porém cumpre fazer a diferença; v. g. quando, ao enumerarem-se os capitães de Príamo, assinam-se a cada um as tropas do seu comando. Quanto aos nomes Aquivo ou Aqueu, Argivo, ou Argeu, Tessalo, Mirmidon, Heleno e outros, milita a mesma razão: ora podem-se tomar uns pelos outros, ora devem-se especificar. Obrando assim, vou com Virgílio, que só por só, no meu conceito, entendia melhor a Homero que os modernos críticos e tradutores: sem escrúpulo o sigo às mais das vezes, preferindo o seu juizo ao dos sábios dos nossos tempos.
↩ voltar ao verso 216
v. 364A do Egífero neta o argúi severa:
Egífero, adjetivo latino, corresponde a egiacho adotado por Monti no italiano: sirvo-me de ambos, segundo o pede a eufonia: egíaco no grego é o que traz escudo de pele de cabra ou égide. Nos livros antecedentes já tenho usado deste epíteto.
↩ voltar ao verso 364
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