Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
532 versos · 7 notas do tradutor
- Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
- A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,
- Verdes no Orco lançou mil fortes almas,
- Corpos de heróis a cães e abutres pasto:
- Lei foi de Jove, em rixa ao discordarem
- O de homens chefe e o Mirmidon divino.
- Nume há que os malquistasse? O que o Supremo
- Teve em Latona. Infenso um letal morbo
- No campo ateia; o povo perecia,
- Só porque o rei desacatara a Crises.
- Com ricos dons remir viera a filha
- Aos alados baixéis, nas mãos o cetro
- E a do certeiro Apolo ínfula sacra.
- Ora e aos irmãos potentes mais se humilha:
- “Atridas, vós Aqueus de fina greva,
- Raso o muro Priâmeo, assim regresso
- Vos dêem feliz do Olimpo os moradores!
- Peço a minha Criseida, eis seu resgate;
- Reverentes à prole do Tonante,
- Ao Longe-vibrador, soltai-me a filha.”
- Que, aceito o preço esplêndido, se acate
- O sacerdote murmuraram todos;
- Mas desprouve a Agamemnon, que o doesta
- E expele duro: “Em cerco às naus bojudas
- Não me apareças mais, quer ouses, velho,
- Deter-te ou retornar; nem áureo cetro,
- Nem ínfula do deus quiçá te valha.
- Nunca a libertarei, té que envelheça
- Fora da pátria, em meu palácio de Argos
- A urdir-me teias e a compor meu leito.
- Sai, não me irrites, se te queres salvo.”
- Taciturno o ancião treme e obedece,
- Busca as do mar flutissonantes praias.
- Ao que pariu pulcrícoma Latona
- Afastando-se impreca: “Arcitenente,
- Ouve, Esminteu, que Tênedos enfreias,
- Crisa proteges e a divina Cila,
- Se de festões colguei teu santuário,
- Se de cabras e touros coxas pingues
- Te hei queimado, compraze-me os desejos,
- A tiros teus meu choro os Dânaos paguem.”
- Febo, a tais preces, arco e aljava cruza,
- Do vértice do céu baixa iracundo;
- Vem semelhante à noite, e a cada passo
- Tinem-lhe ao ombro as frechas. Ante a frota
- Suspenso, a farpa do carcás descaixa,
- Terrível o arco argênteo estala e zune:
- Moles primeiramente a cães e a mulos,
- Depois com vira acerba ataca os homens,
- De cadáveres sempre a arder fogueiras.
- As tropas dias nove asseteadas,
- Ao décimo as convida e ajunta Aquiles;
- Inspiração da bracinívea Juno,
- Que seus Dânaos morrer cuidosa via.
- Ele, em pinha o congresso, velocípede
- Se alça e diz: “A escaparmos, julgo, Atrida,
- Retrocedermos errabundos cabe:
- Peste os nossos consome e os ceifa a guerra.
- Eia, adivinho, arúspice, ou de sonhos
- (Jove os envia) conjector se inquira,
- Que explique a ofensa do agastado Febo:
- Se a votos e hecatombes lhe faltamos;
- Se, para desarmar-se, olor de assados
- Cordeiros nos reclama e nédias cabras.”
- A seu lugar tornou. De áugures mestre,
- No passado e presente e porvir sábio,
- Surgiu Calcas Testórides, que a Tróia
- Por influxos de Apolo as naus guiara,
- E concionando exordiou prudente:
- “Mandas-me, ó caro a Júpiter, o agravo
- Do grã frecheiro expor. Aqui prometas
- Com braço e voz cobrir-me: o fel eu temo
- Do amplo-reinante que domina os Graios;
- E ao fraco se um monarca ódio concebe,
- Cose-o e concentra, enquanto o não sacia.
- Tu me assegura.” — “Afouto, brada Aquiles,
- Vaticina. Por Febo, a Jove grato,
- A quem rogas e oráculos te ensina,
- Nenhum, desfrute eu vivo o térreo aspecto,
- Nenhum violentas mãos te porá, Calcas;
- Nem que seja Agamemnon, que entre Aquivos
- De mais prestante e augusto se ufaneia.”
- Anima-se o bom velho: “Sacrifícios
- Nem votos pede Apolo; em nós o ultraje
- Punindo vai do Atrida, que ao ministro
- O livramento rejeitou da filha;
- Nem grave a destra poupará castigos,
- Se não reverte a jovem de olhos pretos,
- Sem resgate ou presente, ao pai querido,
- Remetendo-se a Crisa uma hecatombe.
- Com isto por ventura o deus se aplaque.”
- O áugur mal se abancava, o rei soberbo,
- Senhor pujante, merencório ergueu-se:
- Raiva as entranhas lhe intumesce e afuma,
- Cintila a vista em brasa; esguelha a Calcas
- Tétrico cenho: “Desastroso vate,
- Nunca essa boca aprouve-me: o teu ponto
- É pregoar desditas; nem palavra
- Nem obra tens que preste. Agora os Dânaos,
- Pena-os Febo em vingança da retida
- Criseida em quem me inflamo, a quem pospunha
- Clitemnestra gentil que esposei virgem,
- Que não lhe cede em garbo, engenho e prendas.
- Pois mais convém, liberta a restituo;
- Sadio o anseio, não padeça o povo.
- Mas preparai-me um prêmio; eu só dos Gregos
- Dele excluído ser não me é decente;
- O meu, testemunhais, me foi roubado.”
- Controverte o Peleio: “Vanglorioso
- Avidíssimo Atrida, que outra paga
- Exiges dos magnânimos Aquivos?
- Por dividir ignoro onde haja espólio;
- Partiu-se o das cidades saqueadas;
- Hoje um novo sorteio é repugnante.
- Ao deus concede-a; recompensa triple,
- E quádrupla terás, quando o Satúrnio
- Derrocar nos outorgue a excelsa Tróia.”
- Retorque o rei: “Se és bravo ó divo Aquiles,
- Com dolo e subterfúgios não me enganes:
- Possuis tua cativa, eu perco a minha;
- E impões que de perdê-la me contente?
- Meu peito satisfaçam de igual prenda
- Os liberais Aqueus; senão, teu prêmio,
- De Ulisses ou de Ajax, trarei comigo:
- Amargará quem for. Sobrestejamos
- Nisto por ora. Ao pélago deitemos
- Negra nau bem remada, que transporte
- A hecatombe e Criseida esbelta e linda.
- Um dos cabos, Ajax, o egrégio Ulisses,
- Idomeneu comande-a, ou tu Pelides,
- Tremendíssimo herói, para que Apolo
- Nos tentes granjear com sacrifícios.”
- “Ah! como, o vulto fecha e estronda Aquiles,
- Vulpina alma sem pejo, a teus acenos
- Há quem marche a conflitos e emboscadas?
- Não vim bater os valorosos Teucros
- Por queixa pessoal: corcéis nem reses
- Me furtaram, nem agros destruíram
- Da altriz guerreira Ftia; entre nós muita
- Serra medeia opaca e o mar sonoro.
- Viemos, cão protervo, para em Tróia
- A Menelau e a ti lavar a nódoa.
- Alardeias, ingrato, e nos desprezas;
- Audaz cominas arrancar-me a escrava,
- A dádiva de Aqueus por tantas lidas.
- Caia Ílion famosa: embora o peso
- Da guerra em mim carregue, o mais opimo
- Quinhão terás; com pouco eu volte a bordo
- Sem boquejar, de choques fatigado.
- A Ftia me recolho e os meus navios,
- Já que aviltas a mão que de tesouros
- A fome te fartava: eu te abandono.”
- “Foge, Agamemnon replicou-lhe, foge,
- Se é teu prazer; que fiques não te imploro:
- Honram-me outros, e em Júpiter confio.
- Dos reis alunos dele és quem detesto;
- Só respiras discórdias, rixas, pugnas.
- Tens valor? agradece-lho. Os navios
- Recolhe e os teus; nos Mirmidões impera:
- Não te demoro; esse rancor desdenho.
- Priva-me de Criseida Febo Apolo:
- Em nau minha esquipada vou mandá-la.
- À tenda hei de ir-te mesmo, eu to previno,
- Tomar-te a elegantíssima Briseida;
- Sentirás em poder como te excedo,
- E outrem se me antepor e ombrear trema.”
- Chameja o herói, no hirsuto peito volve
- Se de ante o fêmur desbainhe o estoque
- E por entre os Aqueus lho embeba todo,
- Ou se o furor no coração reprima.
- Já meia espada a cogitar sacava:
- Eis da alva Juno, que os escuda e preza,
- Por ordem Palas desce, e aos mais invisa,
- Atrás o aferra pela flava coma.
- Volta-se ele espantado e a reconhece
- Pelo medonho olhar, e sem demora:
- “A que vens ó do Egífero progênie?
- A assistir aos convícios de Agamemnon?
- Pois to declaro, e conto já fazê-lo,
- Tem de acabar a vida esse orgulhoso.”
- E a déia olhicerúlea: “Vim, de acordo
- Com Juno albinitente, amiga de ambos,
- Comedir-te e amansar. Anda, em palavras
- Tu desabafa, a lâmina embainha.
- Por esta injúria, to predigo certo,
- Inda haverás em triplo insignes prêmios.
- Sê-nos pois dócil, a paixão modera.”
- “Cumpre, o fogoso torna-lhe, é cordura
- Mesmo irado curvar-me a tais preceitos:
- Quem se submete, os deuses mais o escutam.”
- Logo a pesada mão no argênteo punho
- Conteve, encasa e esconde o gládio horrendo.
- Ela a Júpiter se ala e às mais deidades.
- Não deposto o furor, contra Agamemnon:
- “Ébrio, acérrimo Aquiles vocifera,
- Cara de perro e coração de cervo,
- Nunca te armas e à liça te abalanças,
- Nunca às ciladas os homens acompanhas:
- Isto te é morte. Em vasto acampamento,
- Sim, mais vale esbulhar os que te arrostam:
- Cobardes reges, vorador do povo;
- Senão, tanta insolência aqui findara.
- Por este cetro juro, que estroncado
- Jamais rebentará, pois na montanha
- Folhas e casca cerceou-lhe o gume;
- Por este, que os Grajúgenas arvoram
- Do justo guarda e das leis divinas,
- Juro, Atrida, é solene o juramento,
- Suspirarão sem falta por Aquiles;
- Nem lhes serás de auxílio, quando em barda
- Esse Heitor homicida os vá segando.
- Então de raiva e nojo hás de comer-te,
- Porque o maior dos Gregos rebaixaste.”
- Nisto, arrojando o cetro auricravado,
- Sentou-se. O Atrida em cólera abafava.
- Nestor Pílio intervém, de cuja língua
- Doce eloqüência mais que o mel fluía.
- Dos falantes que, nados na alma Pilos,
- Criaram-se com ele, idade duas
- Decorridas, reinava na terceira.
- Discreto e afável, o discurso tece:
- “Numes eternos, oh! que luto à Grécia!
- Oh, que júbilo a Príamo e seus filhos!
- Folgue Ílio à nova de que assim litigam
- Os de mor pulso e tino. Obedecei-me,
- Sou velho, ó moços. Tido em boa conta
- Com melhor que vós me dava outrora.
- Varões vi nunca, nem verei, qual Drias
- Das gentes regedor, Ceneu e Exádio,
- Um Pirítoo, um divo Polifemo,
- Teseu Egides a imortais parelho.
- Outros como estes não nutria a terra:
- Feros pugnaram trucidando a feros
- Montícolas Centauros. Lá de Pilos,
- Da Ápia eu vinha rogado; conversava-os,
- Quanto era em mim nas lutas me exercia.
- Ninguém dos vivos de hoje os contrastara;
- Atendiam contudo os meus conselhos:
- Atendê-los vos praza. Ao mais estrênuo
- Tu não tomes dos nossos a só paga;
- Nem de ao rei contravir, Pelides, cures;
- Dos eleitos que Júpiter estima,
- Cetrígero nenhum se lhe equipara:
- Mãe deusa te gerou, valor te sobra;
- Tem ele mais poder, que impera em muitos.
- Eu to suplico, Atrida, a fúria amaina,
- Sê brando para quem nesta árdua empresa
- É baluarte e escudo aos Gregos todos.”
- E Agamemnon: “Com tento nos falaste,
- Reto ancião. Primar quer sempre esse homem,
- Poderio se arroga, e eu não lho sofro.
- Se os imortais invicto o constituíram,
- Permitem-lhe por isso os impropérios?”
- “Fraco eu seria e vil, o atalha Aquiles,
- Se inda me sujeitasse: os mais o aturem;
- Cesse em mim teu domínio, eu to recuso.
- Digo, e na mente o grava: ao retomardes
- Meu galardão, contigo nem com outrem
- Pendência travarei; mas não me toques
- Al do que encerro em leve bojo escuro.
- Ousa-o; que saberão como o defendo
- Como em teu sangue impuro ensopo a lança.”
- Finda a rixa, o congresso Aqueu dissolvem.
- O herói para seu bordo retirou-se,
- A escolta e o seu Menécio. Ao mar o Atrida
- Baixel deita, e remeiros vinte elege;
- Conduz no embarque a nítida Criseida,
- Mais a hecatombe: sob o cauto Ulisses
- Fendem rápido as úmidas campinas.
- Com lustrações o exército Agamemnon
- Expurga e n’água a lavadura atiram;
- Cabras e touros cento a Febo ao longo
- Do inesgotável pego sacrificam:
- Monta ao céu pingue cheiro envolto em fumo.
- Ali mesmo efeitua o chefe Argivo
- Sua ameaça; dous arautos chama,
- Taltíbio e Euríbate, expeditos servos:
- “Ide ao Pelides e agarrai-me a escrava;
- Aliás, mais agro transe, à força aberta
- A formosa Briseida eu vou tirar-lha.”
- E com ríspidas ordens os despede.
- O infrugífero mar cercando invitos,
- Junto ao real e à capitânia quedo,
- Entre os seus Mirmidões na praia o acharam:
- Por certo não gostou de os ver Aquiles.
- De assombro estacam, nem tugir se atrevem
- Ante o herói formidável, que o percebe:
- “Salve, núncios de Jove e dos guerreiros;
- Sus, não vos culpo, arautos. Agamemnon
- Vo-lo ordenou. Vai tu, celeste aluno,
- Vai por ela, Pátroclo, e a moça levem.
- Aos mortais, ao rei sevo, às divindades,
- Vós mo atesteis, se for mister meu braço
- A desviar dos outros a vergonha...
- Que furor cego! alheio do presente,
- O porvir não prevê, nem como os Dânaos
- Das naus sem risco em derredor pelejem.”
- Da tenda, à voz do amigo, traz Pátroclo
- E entrega-lhes Briseida fresca e bela,
- Que os seguiu pesarosa à esquadra Argiva.
- Só, carpindo-se, Aquiles na espumante
- Beira ficou-se; o ponto azul esguarda,
- As palmas tende e à boa mãe recorre:
- “De curta vida, ó Tétis, me pariste;
- Sequer me engrandecesse o Altipotente;
- Mas ele não me outorga a menor glória.
- Em meu despeito o soberano Atrida
- Arrebatou-me o prêmio e dele goza.”
- Ao pé do anoso pai, lá no áqueo fundo
- Sentiu-lhe o pranto a veneranda ninfa:
- Da salsa espuma, como névoa, surde;
- Conchegada ao Pelides lamentoso,
- Com mão fagueira consolando o anima:
- “Choras? que ânsia te aflige? Nada encubras,
- Comunica-me, filho, as penas tuas.”
- Do íntimo o celerípede suspira:
- “Sabes; que val dizer-to? A sacra Tebas
- De Eetion depredada, o espólio todo
- Arrecadou-se, e em regra o dividimos:
- Teve o Atrida a pulquérrima Criseida.
- Remir a filha com riqueza imensa
- Do Longe-vibrador veio o ministro
- Às lestes naus de cobre encouraçadas;
- Nas mãos faixa Apolínea e o cetro de ouro,
- Roga e aos dous potentados mais se abate:
- Que, em reverência ao cargo, se receba
- O esplêndido resgate, áfio aprovam;
- Menos o Atrida, que o repulsa e afronta.
- Parte o velho indignado; e o deus que o ama,
- Dele a instâncias, vibrou feral contágio,
- De que a gente em cardumes fenecia,
- Pestíferas as setas rechinando
- Por todo o exército. Eminente vate
- O oráculo solveu-nos; e eu primeiro
- A apaziguar o nume exorto os sócios.
- Furente ergue-se o rei, minaz fulmina,
- E não debalde; que olhi-espertos Gregos
- Em ágil nau Criseida reconduzem
- Com pios dons, e arautos mesmo agora
- Do pavilhão transferem-me a donzela
- Que os Dânaos me doaram. Tu, que o podes,
- Socorre o filho, ao grã Tonante ascende;
- Se o já serviste com palavras e obras,
- Hoje o depreca. A mim no pátrio alvergue,
- De única blasonavas que entre os deuses
- Preservaste o nubícogo Satúrnio
- Do feio opróbrio, quando, à frente a esposa
- E Minerva e Netuno, o encadearam:
- Mas tu, madre, lhe acorres e o desprendes,
- Convocas em auxílio o Centimano,
- Que é nos céus Briareu, na terra Egéon.
- Mais robusto que o pai, da honra altivo,
- De Jove a par se teve, e de assustados
- Os imortais do empenho desistiram.
- Recorda-lhe isto, abraça-lhe os joelhos:
- Que ajudar queira os Troas; que os Aquivos,
- Té às popas e ao mar cerrados, paguem
- Por seu tirano e a maldizê-lo expirem.
- O amplo-dominador confesse a culpa
- De insultar o fortíssimo dos Gregos.”
- E em lágrimas a déia: “Ai! Filho, como
- Te amamentei gerado em hora infausta?
- Oh! se de mágoa ileso a bordo fosses!
- Urge-te a Parca, e mais que todos penas:
- Malfadado nasceste em régios paços.
- Em paz, nas prestes naus, teu ódio ceves;
- Que hei-de ao nevoso Olimpo ir ver se dobro
- Quem se deleita com trovões e raios.
- Ele e sua corte, às abas do Oceano,
- De inocentes Etíopes desd’ontem
- A mesa logram. No dozeno dia,
- Ao voltar à mansão de aênea base,
- Revolvida a seus pés tocá-lo espero.”
- Nisto, sumiu-se-lhe e o deixou raivando
- De o desfalcarem da mulher garbosa.
- De Crisa em funda barra entrava Ulisses.
- Ferram-se as velas, no atro bojo as metem;
- Enxárcias afrouxando, o mastro arreiam;
- A remo aportam, a âncora seguram,
- E atadas as rajeiras, desembarcam;
- Pós a hecatombe do arci-argênteo Febo,
- Da sulcadora nau saiu Criseida.
- No altar o sábio Ulisses a apresenta,
- Vira-se ao pai querido: “Aqui mandou-me,
- Crises, o rei dos reis trazer-te a virgem
- E estas cem reses com que o deus mitigues
- Que em dores nos soçobra.” Alvoroçado
- O velho ao peito ansioso aperta a filha.
- A perfeita hecatombe então colocam
- Em torno da ara; e, os dedos já lavados,
- Pegam do salso bolo. O sacerdote
- Orando eleva as palmas: “Se a meus rogos,
- De Tênedos Senhor, ó tu que amparas
- Crisa e a divina Cila, em desagravo
- O campo Argeu feriste, hoje me escuta,
- Remove a peste que devora os Dânaos.”
- Febo o escutou. Completa a rogativa,
- Esparso o farro, à vítima o pescoço
- Vergam atrás, e degolada a esfolam;
- Cérceas as coxas, no redenho envoltas,
- Cobrem-nas vivas postas. Ao tostá-las
- Crises na lenha tinto baco asperge:
- Qüinqüedentado espeto lhe sustinha
- Cada servente. Provam-se as fressuras,
- Já combustas as coxas, e em tassalhos
- A mais carne enroscada assam peritos,
- E a obra é feita. Apronta-se o convívio:
- Ninguém do seu quinhão queixar-se pôde.
- Exausta a sede e a fome, das crateras
- Coroadas almo vinho os moços vertem;
- Cada qual auspicando os copos liba.
- Por captarem favor, o dia inteiro
- Jovens Dânaos entoam ledo péan,
- E seus cantos o deus regozijavam.
- Cedendo o sol à treva, ao pé repousam
- Do amarrado navio, e assim que alveja
- A aurora dedirrósea, o porto largam.
- Ereto o mastro, as pandas brancas velas
- A brisa enfuna que o certeiro Apolo
- Bafeja, e a ressoar cerúlea vaga
- Do buco em derredor, cortava a quilha
- O páramo salobre. No abordarem
- O arraial dos Aqueus, varado em seco
- Sobre longos rolhões o bruno casco,
- Por tendas e outras naus se repartiram.
- Sempre enfadado nos baixéis, o ardente
- Generoso Pelides na assembléia
- De heróis não comparece ou nas batalhas;
- Do ócio porém seu coração ralado,
- Almeja o alarma e pela guerra brame.
- Ao duodécimo dia, à casa etérea,
- Em testa Jove, os numes se encaminham.
- Dos mares Tétis, sem que olvide o filho,
- Surgindo matutina, ali se alteia;
- Semoto encontra o providente Padre
- No fastígio do Olimpo cumioso;
- Pára, da sestra prende-lhe os joelhos,
- Da destra o mento afaga, e assim lhe implora:
- “Se entre imortais, senhor, te fui profícua
- Por dito e ação, preenche-me este voto:
- Orna a meu filho a vida, já que é breve;
- Que o rei possante o assoberbou de insultos
- E retém-lhe o só prêmio. Glorifica-o,
- Ó pai celeste; aos Frígios dá vitória,
- Té que de honras os Dânaos o acumulem.”
- O anuviador calou-se, e ela mais insta:
- “Pois que receias? ou concede ou nega;
- Que a deusa ínfima sou prove-se agora.”
- Do imo geme o Tonante: “É mau que incites
- A com seus ralhos molestar-me Juno,
- Que, assídua em me aturdir perante os numes,
- Desses Troianos parcial me acusa.
- Vai-te, ela não te enxergue. A mim o tomo:
- Do certíssimo aceno entre as deidades,
- Selo à minha promessa irrevogável.”
- Então franze as cerúleas sobrancelhas,
- da cabeça imortal sacode a coma,
- E estremece abalado o imenso Olimpo.
- Obtido o fim, do éter puro Tétis
- Pula ao mar, e o Satúrnio à régia passa.
- Nenhum dos deuses o esperou sentado;
- Vão respeitosos cortejá-lo todos.
- Ele entronou-se; e Juno, que aventara
- Da Nereida argentípede o segredo,
- Assaltando o invectiva: “Quem, doloso,
- Fora de mim se conluiou contigo?
- Sempre agradam-te ajustes clandestinos;
- Nunca um só pensamento me descobres.”
- E o rei supremo: “Em penetrar não cuides
- Arcanos meus; esposa embora sejas,
- Penosos te serão. Nem deus nem homem
- Quanto ouvir devas me ouvirá primeiro:
- Mas o que a parte no ânimo concebo,
- Não mo perguntes, nem mo inquiras, Juno.”
- A augusta irmã contesta: “Que proferes?
- Jamais pergunto nem te inquiro nada;
- A teu sabor tranqüilo deliberas.
- Mas temo te seduza, ó cru Satúrnio,
- A branca filha do marinho velho:
- Madrugou-te abraçando-te os joelhos;
- E suspeito anuíste a que ante a frota
- Sucumbam Dânaos por amor de Aquiles.”
- Redargúi o que as nuvens amontoa:
- “Ruim maliciosa, eu não te escapo;
- No desagrado meu com isso incorres.
- Trago pior terás; que lucro esperas?
- Se é verdade o que dizes, foi meu gosto.
- Não mais, submissa em teu lugar sossega:
- Se as mãos te calmo invictas, pouco importa
- Que te acudam do pólo os moradores.”
- A olhitáurea, tremente e silenciosa,
- Volve a seu posto, na alma a dor sopeia;
- Os demais carregaram-se tristonhos.
- Por consolar a bracinívea madre,
- Vulcano ínclito fabro assim começa:
- “É praga intolerável que aos Supremos
- Questões humanas alvoroto excitem;
- Se o mal grassa, os festins seu preço perdem.
- À mãe discreta aviso a que amacie
- Meu pai dileto; a repreensão de novo
- Não nos turbe as delícias do banquete:
- Pois, se tal se lhe antoja, o Onipotente
- Destes assentos nos derriba a todos.
- Sim, com ternos obséquios o acarinhes:
- Plácido ele nos seja.” E em tom mais baixo;
- Duplicôncava taça, erguido, oferta:
- “Paciente, cara mãe, sufoca o anojo;
- Estes olhos batida ah! não te vejam.
- Meu zelo e meu pesar que prestariam?
- Contra o fulminador árduo é lutarmos.
- No acorrer-te uma vez, do pé travado,
- Precipitou-me do limiar divino.
- Toda a noite rolei na imensidade;
- A Lemnos, posto o Sol, fui ter exânime,
- E os Síntios ao cair me agasalharam.”
- Sorrindo, a clara déia o copo aceita.
- Pela destra, em redor, seu filho aos numes
- Da cratera entornava o doce néctar.
- Os beatos celícolas romperam
- Numa infinita cachinada, quando
- Vulcano a escancear se azafamava.
- É já tarde, e regalam-se os convivas
- De iguais porções de opíparos manjares.
- Tange na lira Apolo, e as Musas cantam
- Com suave cadência e melodia.
- Dês que a diurna luz desaparece,
- Desencostados, cada qual procura
- Seu domicílio no esplendente alcáçar,
- Do coxo mestre fábrica estupenda.
- O fulgurante Olímpio ao toro sobe,
- Onde usa o meigo sono acometê-lo;
- Dorme-lhe em braços a auritrônia Juno. * * *