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IlíadaLivro I
LivroI

Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles

532 versos · 7 notas do tradutor


  1. Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
  2. A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,
  3. Verdes no Orco lançou mil fortes almas,
  4. Corpos de heróis a cães e abutres pasto:
  5. Lei foi de Jove, em rixa ao discordarem
  6. O de homens chefe e o Mirmidon divino.
  7. Nume há que os malquistasse? O que o Supremo
  8. Teve em Latona. Infenso um letal morbo
  9. No campo ateia; o povo perecia,
  10. Só porque o rei desacatara a Crises.
  11. Com ricos dons remir viera a filha
  12. Aos alados baixéis, nas mãos o cetro
  13. E a do certeiro Apolo ínfula sacra.
  14. Ora e aos irmãos potentes mais se humilha:
  15. “Atridas, vós Aqueus de fina greva,
  16. Raso o muro Priâmeo, assim regresso
  17. Vos dêem feliz do Olimpo os moradores!
  18. Peço a minha Criseida, eis seu resgate;
  19. Reverentes à prole do Tonante,
  20. Ao Longe-vibrador, soltai-me a filha.”
  21. Que, aceito o preço esplêndido, se acate
  22. O sacerdote murmuraram todos;
  23. Mas desprouve a Agamemnon, que o doesta
  24. E expele duro: “Em cerco às naus bojudas
  25. Não me apareças mais, quer ouses, velho,
  26. Deter-te ou retornar; nem áureo cetro,
  27. Nem ínfula do deus quiçá te valha.
  28. Nunca a libertarei, té que envelheça
  29. Fora da pátria, em meu palácio de Argos
  30. A urdir-me teias e a compor meu leito.
  31. Sai, não me irrites, se te queres salvo.”
  32. Taciturno o ancião treme e obedece,
  33. Busca as do mar flutissonantes praias.
  34. Ao que pariu pulcrícoma Latona
  35. Afastando-se impreca: “Arcitenente,
  36. Ouve, Esminteu, que Tênedos enfreias,
  37. Crisa proteges e a divina Cila,
  38. Se de festões colguei teu santuário,
  39. Se de cabras e touros coxas pingues
  40. Te hei queimado, compraze-me os desejos,
  41. A tiros teus meu choro os Dânaos paguem.”
  42. Febo, a tais preces, arco e aljava cruza,
  43. Do vértice do céu baixa iracundo;
  44. Vem semelhante à noite, e a cada passo
  45. Tinem-lhe ao ombro as frechas. Ante a frota
  46. Suspenso, a farpa do carcás descaixa,
  47. Terrível o arco argênteo estala e zune:
  48. Moles primeiramente a cães e a mulos,
  49. Depois com vira acerba ataca os homens,
  50. De cadáveres sempre a arder fogueiras.
  51. As tropas dias nove asseteadas,
  52. Ao décimo as convida e ajunta Aquiles;
  53. Inspiração da bracinívea Juno,
  54. Que seus Dânaos morrer cuidosa via.
  55. Ele, em pinha o congresso, velocípede
  56. Se alça e diz: “A escaparmos, julgo, Atrida,
  57. Retrocedermos errabundos cabe:
  58. Peste os nossos consome e os ceifa a guerra.
  59. Eia, adivinho, arúspice, ou de sonhos
  60. (Jove os envia) conjector se inquira,
  61. Que explique a ofensa do agastado Febo:
  62. Se a votos e hecatombes lhe faltamos;
  63. Se, para desarmar-se, olor de assados
  64. Cordeiros nos reclama e nédias cabras.”
  65. A seu lugar tornou. De áugures mestre,
  66. No passado e presente e porvir sábio,
  67. Surgiu Calcas Testórides, que a Tróia
  68. Por influxos de Apolo as naus guiara,
  69. E concionando exordiou prudente:
  70. “Mandas-me, ó caro a Júpiter, o agravo
  71. Do grã frecheiro expor. Aqui prometas
  72. Com braço e voz cobrir-me: o fel eu temo
  73. Do amplo-reinante que domina os Graios;
  74. E ao fraco se um monarca ódio concebe,
  75. Cose-o e concentra, enquanto o não sacia.
  76. Tu me assegura.” — “Afouto, brada Aquiles,
  77. Vaticina. Por Febo, a Jove grato,
  78. A quem rogas e oráculos te ensina,
  79. Nenhum, desfrute eu vivo o térreo aspecto,
  80. Nenhum violentas mãos te porá, Calcas;
  81. Nem que seja Agamemnon, que entre Aquivos
  82. De mais prestante e augusto se ufaneia.”
  83. Anima-se o bom velho: “Sacrifícios
  84. Nem votos pede Apolo; em nós o ultraje
  85. Punindo vai do Atrida, que ao ministro
  86. O livramento rejeitou da filha;
  87. Nem grave a destra poupará castigos,
  88. Se não reverte a jovem de olhos pretos,
  89. Sem resgate ou presente, ao pai querido,
  90. Remetendo-se a Crisa uma hecatombe.
  91. Com isto por ventura o deus se aplaque.”
  92. O áugur mal se abancava, o rei soberbo,
  93. Senhor pujante, merencório ergueu-se:
  94. Raiva as entranhas lhe intumesce e afuma,
  95. Cintila a vista em brasa; esguelha a Calcas
  96. Tétrico cenho: “Desastroso vate,
  97. Nunca essa boca aprouve-me: o teu ponto
  98. É pregoar desditas; nem palavra
  99. Nem obra tens que preste. Agora os Dânaos,
  100. Pena-os Febo em vingança da retida
  101. Criseida em quem me inflamo, a quem pospunha
  102. Clitemnestra gentil que esposei virgem,
  103. Que não lhe cede em garbo, engenho e prendas.
  104. Pois mais convém, liberta a restituo;
  105. Sadio o anseio, não padeça o povo.
  106. Mas preparai-me um prêmio; eu só dos Gregos
  107. Dele excluído ser não me é decente;
  108. O meu, testemunhais, me foi roubado.”
  109. Controverte o Peleio: “Vanglorioso
  110. Avidíssimo Atrida, que outra paga
  111. Exiges dos magnânimos Aquivos?
  112. Por dividir ignoro onde haja espólio;
  113. Partiu-se o das cidades saqueadas;
  114. Hoje um novo sorteio é repugnante.
  115. Ao deus concede-a; recompensa triple,
  116. E quádrupla terás, quando o Satúrnio
  117. Derrocar nos outorgue a excelsa Tróia.”
  118. Retorque o rei: “Se és bravo ó divo Aquiles,
  119. Com dolo e subterfúgios não me enganes:
  120. Possuis tua cativa, eu perco a minha;
  121. E impões que de perdê-la me contente?
  122. Meu peito satisfaçam de igual prenda
  123. Os liberais Aqueus; senão, teu prêmio,
  124. De Ulisses ou de Ajax, trarei comigo:
  125. Amargará quem for. Sobrestejamos
  126. Nisto por ora. Ao pélago deitemos
  127. Negra nau bem remada, que transporte
  128. A hecatombe e Criseida esbelta e linda.
  129. Um dos cabos, Ajax, o egrégio Ulisses,
  130. Idomeneu comande-a, ou tu Pelides,
  131. Tremendíssimo herói, para que Apolo
  132. Nos tentes granjear com sacrifícios.”
  133. “Ah! como, o vulto fecha e estronda Aquiles,
  134. Vulpina alma sem pejo, a teus acenos
  135. Há quem marche a conflitos e emboscadas?
  136. Não vim bater os valorosos Teucros
  137. Por queixa pessoal: corcéis nem reses
  138. Me furtaram, nem agros destruíram
  139. Da altriz guerreira Ftia; entre nós muita
  140. Serra medeia opaca e o mar sonoro.
  141. Viemos, cão protervo, para em Tróia
  142. A Menelau e a ti lavar a nódoa.
  143. Alardeias, ingrato, e nos desprezas;
  144. Audaz cominas arrancar-me a escrava,
  145. A dádiva de Aqueus por tantas lidas.
  146. Caia Ílion famosa: embora o peso
  147. Da guerra em mim carregue, o mais opimo
  148. Quinhão terás; com pouco eu volte a bordo
  149. Sem boquejar, de choques fatigado.
  150. A Ftia me recolho e os meus navios,
  151. Já que aviltas a mão que de tesouros
  152. A fome te fartava: eu te abandono.”
  153. “Foge, Agamemnon replicou-lhe, foge,
  154. Se é teu prazer; que fiques não te imploro:
  155. Honram-me outros, e em Júpiter confio.
  156. Dos reis alunos dele és quem detesto;
  157. Só respiras discórdias, rixas, pugnas.
  158. Tens valor? agradece-lho. Os navios
  159. Recolhe e os teus; nos Mirmidões impera:
  160. Não te demoro; esse rancor desdenho.
  161. Priva-me de Criseida Febo Apolo:
  162. Em nau minha esquipada vou mandá-la.
  163. À tenda hei de ir-te mesmo, eu to previno,
  164. Tomar-te a elegantíssima Briseida;
  165. Sentirás em poder como te excedo,
  166. E outrem se me antepor e ombrear trema.”
  167. Chameja o herói, no hirsuto peito volve
  168. Se de ante o fêmur desbainhe o estoque
  169. E por entre os Aqueus lho embeba todo,
  170. Ou se o furor no coração reprima.
  171. Já meia espada a cogitar sacava:
  172. Eis da alva Juno, que os escuda e preza,
  173. Por ordem Palas desce, e aos mais invisa,
  174. Atrás o aferra pela flava coma.
  175. Volta-se ele espantado e a reconhece
  176. Pelo medonho olhar, e sem demora:
  177. “A que vens ó do Egífero progênie?
  178. A assistir aos convícios de Agamemnon?
  179. Pois to declaro, e conto já fazê-lo,
  180. Tem de acabar a vida esse orgulhoso.”
  181. E a déia olhicerúlea: “Vim, de acordo
  182. Com Juno albinitente, amiga de ambos,
  183. Comedir-te e amansar. Anda, em palavras
  184. Tu desabafa, a lâmina embainha.
  185. Por esta injúria, to predigo certo,
  186. Inda haverás em triplo insignes prêmios.
  187. Sê-nos pois dócil, a paixão modera.”
  188. “Cumpre, o fogoso torna-lhe, é cordura
  189. Mesmo irado curvar-me a tais preceitos:
  190. Quem se submete, os deuses mais o escutam.”
  191. Logo a pesada mão no argênteo punho
  192. Conteve, encasa e esconde o gládio horrendo.
  193. Ela a Júpiter se ala e às mais deidades.
  194. Não deposto o furor, contra Agamemnon:
  195. “Ébrio, acérrimo Aquiles vocifera,
  196. Cara de perro e coração de cervo,
  197. Nunca te armas e à liça te abalanças,
  198. Nunca às ciladas os homens acompanhas:
  199. Isto te é morte. Em vasto acampamento,
  200. Sim, mais vale esbulhar os que te arrostam:
  201. Cobardes reges, vorador do povo;
  202. Senão, tanta insolência aqui findara.
  203. Por este cetro juro, que estroncado
  204. Jamais rebentará, pois na montanha
  205. Folhas e casca cerceou-lhe o gume;
  206. Por este, que os Grajúgenas arvoram
  207. Do justo guarda e das leis divinas,
  208. Juro, Atrida, é solene o juramento,
  209. Suspirarão sem falta por Aquiles;
  210. Nem lhes serás de auxílio, quando em barda
  211. Esse Heitor homicida os vá segando.
  212. Então de raiva e nojo hás de comer-te,
  213. Porque o maior dos Gregos rebaixaste.”
  214. Nisto, arrojando o cetro auricravado,
  215. Sentou-se. O Atrida em cólera abafava.
  216. Nestor Pílio intervém, de cuja língua
  217. Doce eloqüência mais que o mel fluía.
  218. Dos falantes que, nados na alma Pilos,
  219. Criaram-se com ele, idade duas
  220. Decorridas, reinava na terceira.
  221. Discreto e afável, o discurso tece:
  222. “Numes eternos, oh! que luto à Grécia!
  223. Oh, que júbilo a Príamo e seus filhos!
  224. Folgue Ílio à nova de que assim litigam
  225. Os de mor pulso e tino. Obedecei-me,
  226. Sou velho, ó moços. Tido em boa conta
  227. Com melhor que vós me dava outrora.
  228. Varões vi nunca, nem verei, qual Drias
  229. Das gentes regedor, Ceneu e Exádio,
  230. Um Pirítoo, um divo Polifemo,
  231. Teseu Egides a imortais parelho.
  232. Outros como estes não nutria a terra:
  233. Feros pugnaram trucidando a feros
  234. Montícolas Centauros. Lá de Pilos,
  235. Da Ápia eu vinha rogado; conversava-os,
  236. Quanto era em mim nas lutas me exercia.
  237. Ninguém dos vivos de hoje os contrastara;
  238. Atendiam contudo os meus conselhos:
  239. Atendê-los vos praza. Ao mais estrênuo
  240. Tu não tomes dos nossos a só paga;
  241. Nem de ao rei contravir, Pelides, cures;
  242. Dos eleitos que Júpiter estima,
  243. Cetrígero nenhum se lhe equipara:
  244. Mãe deusa te gerou, valor te sobra;
  245. Tem ele mais poder, que impera em muitos.
  246. Eu to suplico, Atrida, a fúria amaina,
  247. Sê brando para quem nesta árdua empresa
  248. É baluarte e escudo aos Gregos todos.”
  249. E Agamemnon: “Com tento nos falaste,
  250. Reto ancião. Primar quer sempre esse homem,
  251. Poderio se arroga, e eu não lho sofro.
  252. Se os imortais invicto o constituíram,
  253. Permitem-lhe por isso os impropérios?”
  254. “Fraco eu seria e vil, o atalha Aquiles,
  255. Se inda me sujeitasse: os mais o aturem;
  256. Cesse em mim teu domínio, eu to recuso.
  257. Digo, e na mente o grava: ao retomardes
  258. Meu galardão, contigo nem com outrem
  259. Pendência travarei; mas não me toques
  260. Al do que encerro em leve bojo escuro.
  261. Ousa-o; que saberão como o defendo
  262. Como em teu sangue impuro ensopo a lança.”
  263. Finda a rixa, o congresso Aqueu dissolvem.
  264. O herói para seu bordo retirou-se,
  265. A escolta e o seu Menécio. Ao mar o Atrida
  266. Baixel deita, e remeiros vinte elege;
  267. Conduz no embarque a nítida Criseida,
  268. Mais a hecatombe: sob o cauto Ulisses
  269. Fendem rápido as úmidas campinas.
  270. Com lustrações o exército Agamemnon
  271. Expurga e n’água a lavadura atiram;
  272. Cabras e touros cento a Febo ao longo
  273. Do inesgotável pego sacrificam:
  274. Monta ao céu pingue cheiro envolto em fumo.
  275. Ali mesmo efeitua o chefe Argivo
  276. Sua ameaça; dous arautos chama,
  277. Taltíbio e Euríbate, expeditos servos:
  278. “Ide ao Pelides e agarrai-me a escrava;
  279. Aliás, mais agro transe, à força aberta
  280. A formosa Briseida eu vou tirar-lha.”
  281. E com ríspidas ordens os despede.
  282. O infrugífero mar cercando invitos,
  283. Junto ao real e à capitânia quedo,
  284. Entre os seus Mirmidões na praia o acharam:
  285. Por certo não gostou de os ver Aquiles.
  286. De assombro estacam, nem tugir se atrevem
  287. Ante o herói formidável, que o percebe:
  288. “Salve, núncios de Jove e dos guerreiros;
  289. Sus, não vos culpo, arautos. Agamemnon
  290. Vo-lo ordenou. Vai tu, celeste aluno,
  291. Vai por ela, Pátroclo, e a moça levem.
  292. Aos mortais, ao rei sevo, às divindades,
  293. Vós mo atesteis, se for mister meu braço
  294. A desviar dos outros a vergonha...
  295. Que furor cego! alheio do presente,
  296. O porvir não prevê, nem como os Dânaos
  297. Das naus sem risco em derredor pelejem.”
  298. Da tenda, à voz do amigo, traz Pátroclo
  299. E entrega-lhes Briseida fresca e bela,
  300. Que os seguiu pesarosa à esquadra Argiva.
  301. Só, carpindo-se, Aquiles na espumante
  302. Beira ficou-se; o ponto azul esguarda,
  303. As palmas tende e à boa mãe recorre:
  304. “De curta vida, ó Tétis, me pariste;
  305. Sequer me engrandecesse o Altipotente;
  306. Mas ele não me outorga a menor glória.
  307. Em meu despeito o soberano Atrida
  308. Arrebatou-me o prêmio e dele goza.”
  309. Ao pé do anoso pai, lá no áqueo fundo
  310. Sentiu-lhe o pranto a veneranda ninfa:
  311. Da salsa espuma, como névoa, surde;
  312. Conchegada ao Pelides lamentoso,
  313. Com mão fagueira consolando o anima:
  314. “Choras? que ânsia te aflige? Nada encubras,
  315. Comunica-me, filho, as penas tuas.”
  316. Do íntimo o celerípede suspira:
  317. “Sabes; que val dizer-to? A sacra Tebas
  318. De Eetion depredada, o espólio todo
  319. Arrecadou-se, e em regra o dividimos:
  320. Teve o Atrida a pulquérrima Criseida.
  321. Remir a filha com riqueza imensa
  322. Do Longe-vibrador veio o ministro
  323. Às lestes naus de cobre encouraçadas;
  324. Nas mãos faixa Apolínea e o cetro de ouro,
  325. Roga e aos dous potentados mais se abate:
  326. Que, em reverência ao cargo, se receba
  327. O esplêndido resgate, áfio aprovam;
  328. Menos o Atrida, que o repulsa e afronta.
  329. Parte o velho indignado; e o deus que o ama,
  330. Dele a instâncias, vibrou feral contágio,
  331. De que a gente em cardumes fenecia,
  332. Pestíferas as setas rechinando
  333. Por todo o exército. Eminente vate
  334. O oráculo solveu-nos; e eu primeiro
  335. A apaziguar o nume exorto os sócios.
  336. Furente ergue-se o rei, minaz fulmina,
  337. E não debalde; que olhi-espertos Gregos
  338. Em ágil nau Criseida reconduzem
  339. Com pios dons, e arautos mesmo agora
  340. Do pavilhão transferem-me a donzela
  341. Que os Dânaos me doaram. Tu, que o podes,
  342. Socorre o filho, ao grã Tonante ascende;
  343. Se o já serviste com palavras e obras,
  344. Hoje o depreca. A mim no pátrio alvergue,
  345. De única blasonavas que entre os deuses
  346. Preservaste o nubícogo Satúrnio
  347. Do feio opróbrio, quando, à frente a esposa
  348. E Minerva e Netuno, o encadearam:
  349. Mas tu, madre, lhe acorres e o desprendes,
  350. Convocas em auxílio o Centimano,
  351. Que é nos céus Briareu, na terra Egéon.
  352. Mais robusto que o pai, da honra altivo,
  353. De Jove a par se teve, e de assustados
  354. Os imortais do empenho desistiram.
  355. Recorda-lhe isto, abraça-lhe os joelhos:
  356. Que ajudar queira os Troas; que os Aquivos,
  357. Té às popas e ao mar cerrados, paguem
  358. Por seu tirano e a maldizê-lo expirem.
  359. O amplo-dominador confesse a culpa
  360. De insultar o fortíssimo dos Gregos.”
  361. E em lágrimas a déia: “Ai! Filho, como
  362. Te amamentei gerado em hora infausta?
  363. Oh! se de mágoa ileso a bordo fosses!
  364. Urge-te a Parca, e mais que todos penas:
  365. Malfadado nasceste em régios paços.
  366. Em paz, nas prestes naus, teu ódio ceves;
  367. Que hei-de ao nevoso Olimpo ir ver se dobro
  368. Quem se deleita com trovões e raios.
  369. Ele e sua corte, às abas do Oceano,
  370. De inocentes Etíopes desd’ontem
  371. A mesa logram. No dozeno dia,
  372. Ao voltar à mansão de aênea base,
  373. Revolvida a seus pés tocá-lo espero.”
  374. Nisto, sumiu-se-lhe e o deixou raivando
  375. De o desfalcarem da mulher garbosa.
  376. De Crisa em funda barra entrava Ulisses.
  377. Ferram-se as velas, no atro bojo as metem;
  378. Enxárcias afrouxando, o mastro arreiam;
  379. A remo aportam, a âncora seguram,
  380. E atadas as rajeiras, desembarcam;
  381. Pós a hecatombe do arci-argênteo Febo,
  382. Da sulcadora nau saiu Criseida.
  383. No altar o sábio Ulisses a apresenta,
  384. Vira-se ao pai querido: “Aqui mandou-me,
  385. Crises, o rei dos reis trazer-te a virgem
  386. E estas cem reses com que o deus mitigues
  387. Que em dores nos soçobra.” Alvoroçado
  388. O velho ao peito ansioso aperta a filha.
  389. A perfeita hecatombe então colocam
  390. Em torno da ara; e, os dedos já lavados,
  391. Pegam do salso bolo. O sacerdote
  392. Orando eleva as palmas: “Se a meus rogos,
  393. De Tênedos Senhor, ó tu que amparas
  394. Crisa e a divina Cila, em desagravo
  395. O campo Argeu feriste, hoje me escuta,
  396. Remove a peste que devora os Dânaos.”
  397. Febo o escutou. Completa a rogativa,
  398. Esparso o farro, à vítima o pescoço
  399. Vergam atrás, e degolada a esfolam;
  400. Cérceas as coxas, no redenho envoltas,
  401. Cobrem-nas vivas postas. Ao tostá-las
  402. Crises na lenha tinto baco asperge:
  403. Qüinqüedentado espeto lhe sustinha
  404. Cada servente. Provam-se as fressuras,
  405. Já combustas as coxas, e em tassalhos
  406. A mais carne enroscada assam peritos,
  407. E a obra é feita. Apronta-se o convívio:
  408. Ninguém do seu quinhão queixar-se pôde.
  409. Exausta a sede e a fome, das crateras
  410. Coroadas almo vinho os moços vertem;
  411. Cada qual auspicando os copos liba.
  412. Por captarem favor, o dia inteiro
  413. Jovens Dânaos entoam ledo péan,
  414. E seus cantos o deus regozijavam.
  415. Cedendo o sol à treva, ao pé repousam
  416. Do amarrado navio, e assim que alveja
  417. A aurora dedirrósea, o porto largam.
  418. Ereto o mastro, as pandas brancas velas
  419. A brisa enfuna que o certeiro Apolo
  420. Bafeja, e a ressoar cerúlea vaga
  421. Do buco em derredor, cortava a quilha
  422. O páramo salobre. No abordarem
  423. O arraial dos Aqueus, varado em seco
  424. Sobre longos rolhões o bruno casco,
  425. Por tendas e outras naus se repartiram.
  426. Sempre enfadado nos baixéis, o ardente
  427. Generoso Pelides na assembléia
  428. De heróis não comparece ou nas batalhas;
  429. Do ócio porém seu coração ralado,
  430. Almeja o alarma e pela guerra brame.
  431. Ao duodécimo dia, à casa etérea,
  432. Em testa Jove, os numes se encaminham.
  433. Dos mares Tétis, sem que olvide o filho,
  434. Surgindo matutina, ali se alteia;
  435. Semoto encontra o providente Padre
  436. No fastígio do Olimpo cumioso;
  437. Pára, da sestra prende-lhe os joelhos,
  438. Da destra o mento afaga, e assim lhe implora:
  439. “Se entre imortais, senhor, te fui profícua
  440. Por dito e ação, preenche-me este voto:
  441. Orna a meu filho a vida, já que é breve;
  442. Que o rei possante o assoberbou de insultos
  443. E retém-lhe o só prêmio. Glorifica-o,
  444. Ó pai celeste; aos Frígios dá vitória,
  445. Té que de honras os Dânaos o acumulem.”
  446. O anuviador calou-se, e ela mais insta:
  447. “Pois que receias? ou concede ou nega;
  448. Que a deusa ínfima sou prove-se agora.”
  449. Do imo geme o Tonante: “É mau que incites
  450. A com seus ralhos molestar-me Juno,
  451. Que, assídua em me aturdir perante os numes,
  452. Desses Troianos parcial me acusa.
  453. Vai-te, ela não te enxergue. A mim o tomo:
  454. Do certíssimo aceno entre as deidades,
  455. Selo à minha promessa irrevogável.”
  456. Então franze as cerúleas sobrancelhas,
  457. da cabeça imortal sacode a coma,
  458. E estremece abalado o imenso Olimpo.
  459. Obtido o fim, do éter puro Tétis
  460. Pula ao mar, e o Satúrnio à régia passa.
  461. Nenhum dos deuses o esperou sentado;
  462. Vão respeitosos cortejá-lo todos.
  463. Ele entronou-se; e Juno, que aventara
  464. Da Nereida argentípede o segredo,
  465. Assaltando o invectiva: “Quem, doloso,
  466. Fora de mim se conluiou contigo?
  467. Sempre agradam-te ajustes clandestinos;
  468. Nunca um só pensamento me descobres.”
  469. E o rei supremo: “Em penetrar não cuides
  470. Arcanos meus; esposa embora sejas,
  471. Penosos te serão. Nem deus nem homem
  472. Quanto ouvir devas me ouvirá primeiro:
  473. Mas o que a parte no ânimo concebo,
  474. Não mo perguntes, nem mo inquiras, Juno.”
  475. A augusta irmã contesta: “Que proferes?
  476. Jamais pergunto nem te inquiro nada;
  477. A teu sabor tranqüilo deliberas.
  478. Mas temo te seduza, ó cru Satúrnio,
  479. A branca filha do marinho velho:
  480. Madrugou-te abraçando-te os joelhos;
  481. E suspeito anuíste a que ante a frota
  482. Sucumbam Dânaos por amor de Aquiles.”
  483. Redargúi o que as nuvens amontoa:
  484. “Ruim maliciosa, eu não te escapo;
  485. No desagrado meu com isso incorres.
  486. Trago pior terás; que lucro esperas?
  487. Se é verdade o que dizes, foi meu gosto.
  488. Não mais, submissa em teu lugar sossega:
  489. Se as mãos te calmo invictas, pouco importa
  490. Que te acudam do pólo os moradores.”
  491. A olhitáurea, tremente e silenciosa,
  492. Volve a seu posto, na alma a dor sopeia;
  493. Os demais carregaram-se tristonhos.
  494. Por consolar a bracinívea madre,
  495. Vulcano ínclito fabro assim começa:
  496. “É praga intolerável que aos Supremos
  497. Questões humanas alvoroto excitem;
  498. Se o mal grassa, os festins seu preço perdem.
  499. À mãe discreta aviso a que amacie
  500. Meu pai dileto; a repreensão de novo
  501. Não nos turbe as delícias do banquete:
  502. Pois, se tal se lhe antoja, o Onipotente
  503. Destes assentos nos derriba a todos.
  504. Sim, com ternos obséquios o acarinhes:
  505. Plácido ele nos seja.” E em tom mais baixo;
  506. Duplicôncava taça, erguido, oferta:
  507. “Paciente, cara mãe, sufoca o anojo;
  508. Estes olhos batida ah! não te vejam.
  509. Meu zelo e meu pesar que prestariam?
  510. Contra o fulminador árduo é lutarmos.
  511. No acorrer-te uma vez, do pé travado,
  512. Precipitou-me do limiar divino.
  513. Toda a noite rolei na imensidade;
  514. A Lemnos, posto o Sol, fui ter exânime,
  515. E os Síntios ao cair me agasalharam.”
  516. Sorrindo, a clara déia o copo aceita.
  517. Pela destra, em redor, seu filho aos numes
  518. Da cratera entornava o doce néctar.
  519. Os beatos celícolas romperam
  520. Numa infinita cachinada, quando
  521. Vulcano a escancear se azafamava.
  522. É já tarde, e regalam-se os convivas
  523. De iguais porções de opíparos manjares.
  524. Tange na lira Apolo, e as Musas cantam
  525. Com suave cadência e melodia.
  526. Dês que a diurna luz desaparece,
  527. Desencostados, cada qual procura
  528. Seu domicílio no esplendente alcáçar,
  529. Do coxo mestre fábrica estupenda.
  530. O fulgurante Olímpio ao toro sobe,
  531. Onde usa o meigo sono acometê-lo;
  532. Dorme-lhe em braços a auritrônia Juno. * * *

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Método de tradução
As repetições de Homero se reduzem a duas classes: ora, por exemplo, manda Júpiter um recado, que o messageiro dá pelos mesmos ou quase pelos mesmos termos; ora, juntam-se epítetos, que por continuados às vezes podem enfastiar. Conservo as primeiras como próprias da singeleza do autor, e porque nelas se assemelha aos antigos da Bíblia. Quanto às segundas, procedo assim: trato do verter os epítetos com exatidão e nos lugares mais apropriados; isto feito, omito as repetições onde seriam enfadonhas. Ainda mais: vario a forma de cada epíteto, ou me sirvo de um equivalente: em vez de Aquiles velocípede, digo também impetuoso, rápido, fogoso; e assim no demais. Note-se que os adjetivos gregos, terminando em casos diversos, não têm a monotonia dos nossos, que só variam nos dois gêneros e nos dois números. — Rochefort apoda do pueril o empenho de variar: não sei como quem andava sempre agarrado ao rabicho da cabeleira de Boileau e de Racine, se levantou contra a variedade no estilo, que um recomenda e pratica o outro. Se vertêssemos servilmente as repetições de Homero, deixava a obra de ser aprazível como é a dele; a pior das infidelidades. Com isto não quero fazer a apologia das paráfrases: aspiro a ser tradutor.
Vocabulário
Não creiam porém que as principais línguas da Europa (não falo da alemã, da qual nada pesco) possuem um termo que salve a dificuldade: o correaux dos franceses é por ventura o que mais se lhe chega; mas como dele não se tem servido os seus tradutores, temo que lhe falte alguma coisa imprecetível a um estrangeiro. — O mais notável é que nisto falha o mesmo latim: Virgílio, devendo enunciar a idéia, criou o seu memorem Junonis ob iram; de sorte que a pobreza da sua língua neste ponto o fez inventar uma expressão admirável, como o são a maior parte das que se encontram neste mestre incomparável do estilo.

Nota a nota · 5 notas

v. 1–2Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
Falando de Aquiles, ou de Enéias, ou de Heitor, indiferentemente uso de Pelides ou Peleio, de Anchisiada ou Anchiseo; de Priamides ou Priameo ou Priameio: a razão é que Pelides, por exemplo, significando o filho de Peleu, e Peleio o que pertence a Peleu, segue-se que Aquiles é Pelides por ser filho de Peleu, e é Peleio, por ser pertencente a Peleu; segue-se mais que o Pelides é sempre Peleio, porém não vice-versa. O mesmo raciocínio se aplica exatamente aos mais nomes semelhantes, inumeráveis em Homero. — Menin, por onde principia o poema, é ira tenaz, ira não passageira; o nosso termo desacompanhado não o verte cabalmente. Rancor é ódio encoberto, que não vai bem com a franqueza de Aquiles. Cólera é ira súbita com amarelidão no rosto; não indica a permanência da paixão do herói. Ressentimento, além de poder ser oculto, não exprime a constante irritação. Despeito, que em certo modo se lhe aproxima, tendo contraído uma acepção mais usual, carece da energia do grego. Furor, ou fúria, por impetuoso não é durável. Raiva é mais dos outros animais e pareceria dizer que estava como um cão danado. Sanha, segundo Fr. Francisco de S. Luiz, é ira que se mostra nos gestos e nas contorções do rosto. Assim, posto que em dados casos qualquer destes vocábulos se possa aplicar a Aquiles, não o pode ser à paixão que nutriu longamente e às claras, Foi-me pois necessário ajuntar o objetivo tenaz.
↩ voltar à passagem, v. 1
v. 30–48A urdir-me teias e a compor meu leito. ⋯ Moles primeiramente a cães e a mulos,
A’ntioõsan tem o ambíguo sentido de participar ou de tratar do leito; o nosso compor, igualmente. — A’rgoùs traduzo por moles, contra os que enxergam aqui uma antífrase e o tomam por ligeiros. Não vejo precisão de antífrase; pois, sendo a moleza o primeiro sinal da peste nos animais, o adjetivo, não de simples ornato, exprime a observação de Homero. Veja-se a pintura da peste do 3º das Geórgicas.
↩ voltar à passagem, v. 30
v. 196Cara de perro e coração de cervo,
— Verteu Rochefort: “Rei embriagado de orgulho, cuja audácia pérfida junta aos olhos de um leão o coração de um cervo tímido.” A mudança de cão em leão, como o disfarce do verso correspondente ao 159 do original, vem do decoro de convenção, que às vezes esfriava os melhores engenhos do século de Luiz XIV, exceto Moliére e Lafontaine. O poeta não dissimulava que a ira, mesmo nos heróis, quebra todas as barreiras; não compassava as paixões pelo tom adotado nas cortes e salões modernos; via com olho igual veados, leões e cães, nem chamava o porco animal que se nutre de bolotas. M. Giguet, Monti e poucos mais, não se deixaram levar deste fútil escrúpulo.
↩ voltar ao verso 196
v. 287Ante o herói formidável, que o percebe:
Salve, do verbo salveo, nós o adotamos nas saudações, mas invariável para o singular e para o plural. Os Latinos diziam salve, salvete, solveto, salvetote; conforme o número e a pessoa; nós usamos da fórmula salve em todos os casos, tomando-o como se fosse uma interjeição: desagradáveis seriam em nossa língua as outras vozes, nem há exemplo do seu uso.
↩ voltar ao verso 287
v. 494Por consolar a bracinívea madre,
Boõpis, mui repetido, significa de olhos grandes ou de olhos bovinos, bem que a última acepção falte em vários lexicógrafos. A segunda refere-se à primeira: Juno é de olhos bovinos, por tê-los bonitos e rasgados; pois tais são os da novilha. Olhitáurea ou olhitoura chama Filinto a Juno, à imitação do poeta Grego. Sirvo-me do epíteto em todos os sentidos, por variedade.
↩ voltar ao verso 494
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