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IlíadaLivro XIX
LivroXIX

Do fluente Oceano a crócea Aurora

336 versos · 4 notas do tradutor


  1. Do fluente Oceano a crócea Aurora
  2. Surgindo, homens e deuses alumia;
  3. E às naus Tétis baixando, o seu dileto
  4. Em soluços encontra e os companheiros,
  5. Que em torno de Pátroclo o lamentavam;
  6. Pega da mão do filho a clara déia:
  7. “Do céu vontade foi; bem que saudosos,
  8. Deixemo-lo em descanso, amado Aquiles.
  9. Tu Vulcânias recebe ínclitas armas,
  10. Quais não coube a varão jamais vesti-las.”
  11. Deposto aos pés do herói, o arnês retine.
  12. De susto os Mirmidões fitar nem ousam
  13. Tal maravilha, apartam-se espantados:
  14. Ele, ao vê-lo, de cólera trasborda,
  15. Olhos em brasa, as pálpebras em chama;
  16. Folga de o manejar. De examiná-lo
  17. Já saciado: “Minha mãe, profere,
  18. Certo a não fez mortal, obra é divina!
  19. Armar-me irei; mas temo que entrem moscas
  20. Nas chagas do guerreiro e criem vermes,
  21. Que ah! sem vida, o cadáver deturpando,
  22. Os dissolvidos membros lhe apodreçam.”
  23. E a genetriz: “Não cures disso, filho;
  24. Enxotarei eu mesma o agreste enxame
  25. Que imolados belígeros devora.
  26. Jazesse um ano, que seria inteiro,
  27. E inda melhor. Convoca os chefes Gregos;
  28. Apaziguado, ao rei dos reis perdoa;
  29. Do teu valor te escuda, ao prélio corre.”
  30. Disse, e brio audacíssimo lhe infunde;
  31. Mas em Pátroclo, a preservá-lo, instila
  32. Pelas ventas ambrosia e rubro néctar.
  33. Ao longo vai da praia o divo Aquiles,
  34. E excitando os Grajúgenas vozeia:
  35. Surdem mesmo os que a bordo permanecem,
  36. Despenseiros, pilotos, contramestres,
  37. A olhar o campeão que às armas torna;
  38. Os fâmulos de Marte, Ulisses nobre
  39. E Tidides belaz, das chagas inda
  40. Vêm manquejando, n’hasta abordoados
  41. E sentam-se diante; último assoma
  42. O sumo cabo, na áspera contenda
  43. Por Coon Antenórida ferido.
  44. Começa Aquiles: “Poderoso Atrida,
  45. Primeiro que a discórdia nos roesse,
  46. Magoados corações por uma escrava,
  47. Oh! Diana ante as naus a asseteasse,
  48. No mesmo dia que abati Lirnesso!
  49. Nem tanto Aqueu prostrado o pó mordera,
  50. Nem do ódio meu tenaz Heitor folgara:
  51. Há-de lembrar nossa disputa aos Gregos.
  52. Mas enfim o passado é sem remédio;
  53. Curva-nos o destino. Amaino a fúria,
  54. Justo não é perpetuar as iras.
  55. Eia, os comados sócios, Agamemnon,
  56. Ao prélio anima; ensaiarei se os Teucros
  57. Pernoitar junto às naus inda pretendem:
  58. Algum, penso, escapado à lança minha,
  59. Dobrar não deve os joelhos em sossego.”
  60. Conciliado o magnânimo Pelides,
  61. Os Dânaos alegraram-se, e Agamemnon
  62. Do próprio assento orou sem levantar-se:
  63. “Márcios Gregos amigos, escutai-me,
  64. Não me atalheis: quem há, facundo embora,
  65. Que no alvorote ouvir ou falar possa?
  66. Desfalece o arengueiro mais sonoro.
  67. Dirijo-me ao Pelides; mas vós outros
  68. Sede-me atentos. Os Aqueus me imputam
  69. Quanto o meu fado e Júpiter obraram
  70. E a noctívaga Erínis, que Ate seva,
  71. Naquele dia que roubei-te o prêmio,
  72. Lançaram-me na mente. E que remédio?
  73. Ate o fez crua e atroz, que, intacto o solo,
  74. Sobre as cabeças dos varões passeia,
  75. A ofender, a enredar. Nem mesmo a Jove
  76. Seu genitor poupou, que é proclamado
  77. Potentíssimo entre homens e entre numes,
  78. Quando, apesar do sexo, o enganou Juno,
  79. Indo a parir Alcmena a Hercúlea força
  80. Na turrígera Tebas. A jactar-se
  81. Disse ele então: — Celícolas, agora
  82. Vos declaro um segredo. Hoje Ilitia
  83. Homem, dos partos árbitra, à luz manda
  84. Que os vizinhos impere, e do meu sangue. —
  85. Matreira Juno: — É falso, tal não cumpres;
  86. Ou jura-me solene que os vizinhos
  87. Há-de imperar quem hoje nasça e caia
  88. Aos pés de uma mulher, e de teu sangue. —
  89. Ele jurou incauto, e arrependeu-se.
  90. Voa do Olimpo Juno; busca em Argos
  91. A alma esposa de Estênelo Perseides,
  92. Prenhe de sete meses, e imatura
  93. À luz fê-la brotar seu tenro filho;
  94. De Alcmena tolhe o parto e as agras dores.
  95. Veio contá-lo a Jove: — Altitonante,
  96. Euristeu forte é nado, o Estenelides;
  97. Merece, que é teu sangue, o império de Argos. —
  98. Pungido n’alma, aos nítidos cabelos
  99. O Satúrnio Ate agarra, jura à Estige
  100. Não consentir no Olimpo e claro assento.
  101. Ate nociva a todos, e a rodá-la
  102. Do estelífero pólo a precipita:
  103. Ela o afligiu de cá; gemia o Padre
  104. Vendo sob Euristeu sofrer Alcides.
  105. E eu, quando às popas destroçava os Gregos
  106. O galeato herói, não me esquecia
  107. De Ate que esta só vez tirou-me o siso.
  108. Pois Jove o permitiu, quero aplacar-te:
  109. Corre ao combate, o exército afervora;
  110. Tudo que ontem na tenda o nobre Ulisses
  111. Te enumerou, terás. O ardor guerreiro
  112. Sopeia, espera, e da nau minha servos
  113. Presentarão mil dons que te contentem.”
  114. Responde o velocípede: “Os presentes
  115. Em teu poder está, rei soberano,
  116. Ou retê-los, ou dar-mos, como é justo:
  117. Agora, ao marte, não convém tardanças;
  118. Há muito que fazer. De novo Aquiles
  119. Se veja a derrotar falanges Teucras;
  120. Batei-vos corpo a corpo, a exemplo dele.”
  121. E o cauteloso Ulisses: “Bem que exímio
  122. Sejas, divino Eácida, à batalha
  123. Sem comer nossos Gregos não constranjas;
  124. Que, encetada uma vez, não será breve,
  125. E um deus a instigará de parte a parte.
  126. Vinho e pasto os restaure; o mais robusto
  127. Em jejum té sol posto não resiste:
  128. O brio o incita, mas de fome e sede
  129. Pesado e mole, tremem-lhe os joelhos.
  130. O repleto peleja o dia inteiro;
  131. De ânimo audaz, não refocila os membros,
  132. Antes que cesse totalmente a pugna.
  133. Almoce a tropa, as dádivas o Atrida
  134. Nos apresente em público, e tu folgues.
  135. O rei nos jure, e em pé, que nunca a jovem
  136. Teve em seu leito, ou se ajuntou com ela.
  137. Mitiga-te com isto; e lauta mesa
  138. Ele na tenda sua te aderece,
  139. Para nada omitir-se. De ora avante
  140. Sê mais reto, Agamemnon; que um monarca
  141. Em reparar a injúria não se avilta.”
  142. E o rei dos reis: “Agrada-me, Laércio,
  143. Quanto em ordem e a ponto nos lembraste.
  144. Jurar é meu desejo, e às divindades
  145. Perjuro não serei. Contenha o fogo,
  146. Nesta assembléia os dons espere Aquiles;
  147. Sinceros a aliança aqui firamos.
  148. Concordo, Ulisses, toma a flor guerreira,
  149. Que nos traga os presentes e as cativas;
  150. E pelos vastos arraiais Taltíbio
  151. A toda a pressa um javali conduza
  152. Que a Júpiter e ao Sol vítima seja.”
  153. Replicou-lhe o Pelides: “Agamemnon,
  154. Glorioso monarca, isso fizesses,
  155. Quando, suspenso o ataque, menos ira
  156. O fígado me inchasse. Tantos jazem,
  157. De Heitor prostrados com celeste ajuda,
  158. E instais pelo festim! Ao prélio, amigos;
  159. Vingança, e a folgo à tarde cearemos.
  160. Nem bebida ou comer pela garganta
  161. A mim me há-de passar; que em minha tenda,
  162. Para o pórtico os pés, de agudo bronze
  163. Está meu bravo sócio traspassado,
  164. Entre saudoso pranto: hei só na mente
  165. Sangue e estrago, e soluços e agonias.”
  166. Torna Ulisses: “Fortíssimo dos Gregos,
  167. Exceles tu na lança, eu na prudência:
  168. De um mais velho e instruído aceita o aviso.
  169. Cansados os heróis que a muitos segam,
  170. Messe maior derribam, das batalhas
  171. Quando inclina a balança o árbitro sumo.
  172. Com nosso ventre os mortos não choremos;
  173. Diariamente os esquadrões sucumbem;
  174. Como do luto respirar? Um dia
  175. Sagre-se à dor, e enterrem-se os finados.
  176. Quem se livrou, da sede e fome cure,
  177. E em brônzeo arnês, indômito ao conflito
  178. Retorne amaro. Incitamento novo
  179. Nenhum de vós aguarde; ai do que inerte
  180. Nas popas se ficar! Num corpo, todos
  181. Marchemos, gente forte, aos inimigos.”
  182. Presto escolhe os Nestóridas e Meges,
  183. Melanipo e o Creôncio Licomedes,
  184. Merion e Toas; vão-se à tenda régia.
  185. Dito e feito: uma dúzia de cavalos,
  186. Mais vinte caldeirões, trípodes sete,
  187. Guapas jovens prendadas apresentam,
  188. Sendo oitava Briseida airosa e linda:
  189. Os que pesou talentos mostra Ulisses,
  190. E os moços após ele o mais traziam;
  191. Tudo à vista se expôs. — O Atrida ergueu-se;
  192. Taltíbio, um deus na voz, sustendo arrasta
  193. O javali para o pastor dos povos:
  194. Este puxa o punhal que pende sempre
  195. Da bainha da espada, e ao cerdo o pêlo
  196. Em primícias raspado, alçando as palmas,
  197. Se encomenda ao Supremo. Respeitosos
  198. Os circunstantes em silêncio o escutam:
  199. Ele o céu largo fita, e assim perora:
  200. “O ótimo atesto onipotente Padre,
  201. E a Terra e o Sol, e as Fúrias que no inferno
  202. Punem falsários: nunca foi tocada
  203. Por mim Briseida, ou compartiu meu leito,
  204. Pura ficou. Se minto, os sacros deuses
  205. O castigo me inflijam do perjúrio.”
  206. Disse, e a punhal o javali degola;
  207. Taltíbio a volteá-lo às brancas ondas
  208. O atira aos peixes, e o Pelides clama:
  209. “Júpiter, que de angústias nos reservas!
  210. No imo nem me ofendera, nem Briseida
  211. Me arrebatara o Atrida, se de morte
  212. Não quisesse ferir a tantos Gregos.
  213. Ide agora almoçar; depois, aos Teucros.”
  214. E solve o ajuntamento, sem demora
  215. O seu navio cada qual procura.
  216. Aos de Aquiles as dádivas traspassam
  217. Os Mirmidões, que em tendas as colocam;
  218. Assentam-se as mulheres, e escudeiros
  219. Metem na estrebaria os corredores.
  220. Vê d’áurea Vênus êmula Briseida
  221. O lacerado corpo, e em roda ulula,
  222. Rasga os peitos e o colo e as pulcras faces,
  223. Em pranto e a soluçar: “Pátroclo amigo,
  224. Vivo deixei-te e morto aqui te encontro,
  225. Sublime herói! De mal em mal tropeço!
  226. Vi num dia expirar quem me escolheram
  227. Meus dignos pais, e os três irmãos dess’alma
  228. Que gerou minha mãe; quando o marido
  229. Matou-me a bronze Aquiles e ao divino
  230. Mínete os muros destruiu, quiseste
  231. As lágrimas reter-me, e asseveravas
  232. Que, esposa eu transportada, em sua corte
  233. Farias que ele celebrasse as bodas;
  234. Choro-te, ó generoso, ó compassivo!”
  235. E as mais, também o morto parecendo
  236. Gemer e prantear, por si carpiram.
  237. Que se alimente os príncipes lhe pedem,
  238. Mas recusa o Pelides suspirando:
  239. “Não me insteis, vos conjuro, ó camaradas:
  240. A dor não me permite alimentar-me;
  241. Espero pela tarde.” E os reis despede.
  242. Ficam por consolá-lo os dois Atridas,
  243. Nestor e Idomeneu, Fênix e Ulisses;
  244. Mas seu único alívio é na carnagem.
  245. De saudades anseia e em ais prorrompe:
  246. “Íntimo do meu peito, aqui na tenda
  247. Lauto almoço me punhas, quando os Gregos
  248. Marte aguçavam lagrimoso aos Teucros:
  249. Ora tens roto o seio, e o nojo impede
  250. Que eu beba e coma. Nem pior seria
  251. Se morresse meu pai, que terno em Ftia
  252. Chora talvez por mim, flagelo de Ílio
  253. Da odiosa Lacena em desafronta;
  254. Nem que em Ciro perdesse a prenda amada,
  255. Se é que vive o deiforme Neoptolemo,
  256. Contava o coração que eu só da pátria
  257. Longe acabasse, mas que tu meu filho
  258. Em fresca nau de Ciro conduzisses,
  259. Para o meter de posse dos meus servos,
  260. Do meu celso palácio e mais riquezas.
  261. Peleu cuido sem vida, ou velho e enfermo
  262. Se inda respira, aguarda a cada passo
  263. Do meu final desastre o anúncio triste.”
  264. Assim lamenta, e os próceres com ele
  265. Dos longínquos penhores se apiadam.
  266. Condoído o Satúrnio, a Palas chama:
  267. “Filha, o exímio varão desamparaste;
  268. Já não te importa Aquiles? Ante as popas
  269. Sentado assíduo geme, e enquanto almoçam
  270. Os Dânaos todos, ele só jejua.
  271. Para estancar a fome, eia, lhe instiles
  272. Nos órgãos doce ambrosia e néctar puro.”
  273. Pronta por si, corta Minerva os ares,
  274. Qual arguto xofrango de asas pandas;
  275. Baixa ao campo, onde os Gregos já se armavam,
  276. No Pelides instila ambrosia e néctar,
  277. Por que a fome os joelhos não lhe afraque,
  278. E à casa etérea de seu pai remonta.
  279. Das naus fervia a gente: como as neves
  280. Que Jove expede gélidas, soprando
  281. Serenador e desenvolto Bóreas,
  282. Broquéis surdem copados, malhas, elmos,
  283. Fraxíneas hastas, côncovas lorigas;
  284. Sobe o fulgor aos céus, ao lume aêneo
  285. Ri-se a terra, ao tropel freme a campanha.
  286. No meio, olhos em fogo, estruge os dentes
  287. Sanhudo o herói, de mágoas devorado;
  288. Veste as obras do deus: com prata as grevas
  289. Às pernas afivela; o peito arnesa;
  290. Ao tiracolo claviargêntea espada.
  291. Embraça o belo primoroso escudo,
  292. Cujo imenso esplendor, ferindo as nuvens,
  293. Era como o da Lua, ou como a chama
  294. Que arde elevada em solitário monte
  295. Para guia dos nautas que a procela
  296. Dos amigos alonga em mar piscoso.
  297. Como estrela, à cabeça o casco brilha
  298. De eqüinas sedas e áureo undante crino
  299. Que em torno da cimeira pôs Mulcíber.
  300. Nas armas, prova o maioral de povos
  301. Se lhe iam bem: como asas o exalçavam.
  302. Tira do forro a pátria enorme lança,
  303. Que ninguém mais, só ele, manejava,
  304. Do Pélion freixo, a tanto herói funesto,
  305. A Peleu dantes por Quiron talhado.
  306. Alcimo e Automedon a biga jungem
  307. Com circunfuso loro, ajeitam freios,
  308. Para o assento incrustado as rédeas puxam;
  309. Do hábil flagelo Automedon pegando,
  310. Ao carro salta. Após, de ponto em branco,
  311. Aquiles monta, e como o Sol fulgura;
  312. Aos Peleios corcéis tremendo brada:
  313. “De Podargo alta raça, ó Xanto e Bálio,
  314. Fartos nós da peleja, de outro modo
  315. Vosso auriga salvai no campo Graio:
  316. Morto não me deixes, qual meu Pátroclo.”
  317. Xanto a cabeça inclina, e esparsa a coma
  318. Cai entre o jugo em terra; assim responde,
  319. Pois deu-lhe fala a bracinívea Juno:
  320. “Salvo esta vez serás, fogoso Aquiles;
  321. Mas perto a Parca tens, sem nossa culpa,
  322. Sim de um nume e do fado. Se a Pátroclo
  323. Os Teucros despojaram, por inércia
  324. Não foi dos teus corcéis; foi na vanguarda
  325. Prostrado pelo filho de Latona,
  326. Para Heitor gloriar-se. A ligeireza
  327. De Zéfiro no curso igualaremos,
  328. Que se diz mais veloz; contudo é força
  329. Por um deus e um varão domado seres.”
  330. A voz lhe embargam neste ponto as Fúrias.
  331. Clama o herói indignado: “A morte, Xanto,
  332. Me vaticinas? Isso não te quadra.
  333. Força é morrer, eu sei, de Ftia longe
  334. E de meus pais queridos; mas aos Troas
  335. Hei-de saciar a sede de combates.”
  336. Nisto, à frente gritando, impele o carro. * * *

Nota a nota · 4 notas

v. 45–48Primeiro que a discórdia nos roesse,
Parece-me que o poeta não devera pôr na boca do herói estas palavras odiosas. Como! depois de confessar que amava apaixonadamente a Briseida, agora deseja que a tivera asseteado Diana! Briseida não era pessoa ordinária, mas a filha de um príncipe, e Pátroclo a considerava tão boa, que lhe prometeu fazer o possível para casá=la com o próprio Aquiles; circunstância que mais agrava o seu cruelíssimo desejo. Isto mostra quão infelizes eram as mulheres naqueles tempos, e quão miserável tem sido sempre a condição de escrava.
↩ voltar à passagem, v. 45
v. 63–113“Márcios Gregos amigos, escutai-me, ⋯ Presentarão mil dons que te contentem.”
É com efeito longa a fala de Agamemnon. Porém não é supérfluo o que diz a respeito de Ate e de Juno e Júpiter. Os que têm achado inútil este pedaço, e que mesmo o têm suprimido nas traduções, não advertiram que, mostrando Agamemnon ser Ate fortíssima a ponto de poder eficazmente auxiliar a Juno contra o deus supremo, diminui a sua culpa em se deixar vencer por aquela deusa. No verso 107 vem as palavras esta só vez, correspondendo ao proton do verso 133 do original, que muitos omitem; mas é evidente que esta palavra concorre para ser desculpado Agamemnon, que alega ter-se deixado levar pela discórdia uma só vez.
↩ voltar à passagem, v. 63
v. 228–334Que gerou minha mãe; quando o marido ⋯ E de meus pais queridos; mas aos Troas
M. Giguet não é claro nesta lugar: o texto não diz somente que o herói esposaria a Briseida, mas também que Pátroclo para isso concorreria; o que melhor explica o pranto e lágrimas dela nessa ocasião. Monti exprimiu-se mais precisamente. A promessa de Pátroclo de ser a favor do casamento, como acima fica dito, agrava a crueza de Aquiles para com Briseida. A intenção do Homero foi na verdade mostrar o caráter fogoso e exagerado do seu herói; mas duvido que seja este um suficiente motivo para o justificar.
↩ voltar à passagem, v. 228
v. 313–316“De Podargo alta raça, ó Xanto e Bálio,
Verte M. Giguet: “Songez à ramener votre maître dans les rangs des Grecs, lorsque nous cesserons de combatre; et, comme Patrocle, ne 1’abandonnez point, s'il vient à succumber.” Mas diz o texto: “Não salveis o vosso auriga no campo Grego, deixando morto o senhor vosso; do mesmo modo que salvastes Automedon e deixastes morto a Pátroclo.” Monti, Mancini e outros, igualmente se afastaram do original, sem lembrarem o que obrou o valentíssimo Automedon, quando salvou-se por entre os inimigos fazendo proezas.
↩ voltar à passagem, v. 313
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