Do fluente Oceano a crócea Aurora
336 versos · 4 notas do tradutor
- Do fluente Oceano a crócea Aurora
- Surgindo, homens e deuses alumia;
- E às naus Tétis baixando, o seu dileto
- Em soluços encontra e os companheiros,
- Que em torno de Pátroclo o lamentavam;
- Pega da mão do filho a clara déia:
- “Do céu vontade foi; bem que saudosos,
- Deixemo-lo em descanso, amado Aquiles.
- Tu Vulcânias recebe ínclitas armas,
- Quais não coube a varão jamais vesti-las.”
- Deposto aos pés do herói, o arnês retine.
- De susto os Mirmidões fitar nem ousam
- Tal maravilha, apartam-se espantados:
- Ele, ao vê-lo, de cólera trasborda,
- Olhos em brasa, as pálpebras em chama;
- Folga de o manejar. De examiná-lo
- Já saciado: “Minha mãe, profere,
- Certo a não fez mortal, obra é divina!
- Armar-me irei; mas temo que entrem moscas
- Nas chagas do guerreiro e criem vermes,
- Que ah! sem vida, o cadáver deturpando,
- Os dissolvidos membros lhe apodreçam.”
- E a genetriz: “Não cures disso, filho;
- Enxotarei eu mesma o agreste enxame
- Que imolados belígeros devora.
- Jazesse um ano, que seria inteiro,
- E inda melhor. Convoca os chefes Gregos;
- Apaziguado, ao rei dos reis perdoa;
- Do teu valor te escuda, ao prélio corre.”
- Disse, e brio audacíssimo lhe infunde;
- Mas em Pátroclo, a preservá-lo, instila
- Pelas ventas ambrosia e rubro néctar.
- Ao longo vai da praia o divo Aquiles,
- E excitando os Grajúgenas vozeia:
- Surdem mesmo os que a bordo permanecem,
- Despenseiros, pilotos, contramestres,
- A olhar o campeão que às armas torna;
- Os fâmulos de Marte, Ulisses nobre
- E Tidides belaz, das chagas inda
- Vêm manquejando, n’hasta abordoados
- E sentam-se diante; último assoma
- O sumo cabo, na áspera contenda
- Por Coon Antenórida ferido.
- Começa Aquiles: “Poderoso Atrida,
- Primeiro que a discórdia nos roesse,
- Magoados corações por uma escrava,
- Oh! Diana ante as naus a asseteasse,
- No mesmo dia que abati Lirnesso!
- Nem tanto Aqueu prostrado o pó mordera,
- Nem do ódio meu tenaz Heitor folgara:
- Há-de lembrar nossa disputa aos Gregos.
- Mas enfim o passado é sem remédio;
- Curva-nos o destino. Amaino a fúria,
- Justo não é perpetuar as iras.
- Eia, os comados sócios, Agamemnon,
- Ao prélio anima; ensaiarei se os Teucros
- Pernoitar junto às naus inda pretendem:
- Algum, penso, escapado à lança minha,
- Dobrar não deve os joelhos em sossego.”
- Conciliado o magnânimo Pelides,
- Os Dânaos alegraram-se, e Agamemnon
- Do próprio assento orou sem levantar-se:
- “Márcios Gregos amigos, escutai-me,
- Não me atalheis: quem há, facundo embora,
- Que no alvorote ouvir ou falar possa?
- Desfalece o arengueiro mais sonoro.
- Dirijo-me ao Pelides; mas vós outros
- Sede-me atentos. Os Aqueus me imputam
- Quanto o meu fado e Júpiter obraram
- E a noctívaga Erínis, que Ate seva,
- Naquele dia que roubei-te o prêmio,
- Lançaram-me na mente. E que remédio?
- Ate o fez crua e atroz, que, intacto o solo,
- Sobre as cabeças dos varões passeia,
- A ofender, a enredar. Nem mesmo a Jove
- Seu genitor poupou, que é proclamado
- Potentíssimo entre homens e entre numes,
- Quando, apesar do sexo, o enganou Juno,
- Indo a parir Alcmena a Hercúlea força
- Na turrígera Tebas. A jactar-se
- Disse ele então: — Celícolas, agora
- Vos declaro um segredo. Hoje Ilitia
- Homem, dos partos árbitra, à luz manda
- Que os vizinhos impere, e do meu sangue. —
- Matreira Juno: — É falso, tal não cumpres;
- Ou jura-me solene que os vizinhos
- Há-de imperar quem hoje nasça e caia
- Aos pés de uma mulher, e de teu sangue. —
- Ele jurou incauto, e arrependeu-se.
- Voa do Olimpo Juno; busca em Argos
- A alma esposa de Estênelo Perseides,
- Prenhe de sete meses, e imatura
- À luz fê-la brotar seu tenro filho;
- De Alcmena tolhe o parto e as agras dores.
- Veio contá-lo a Jove: — Altitonante,
- Euristeu forte é nado, o Estenelides;
- Merece, que é teu sangue, o império de Argos. —
- Pungido n’alma, aos nítidos cabelos
- O Satúrnio Ate agarra, jura à Estige
- Não consentir no Olimpo e claro assento.
- Ate nociva a todos, e a rodá-la
- Do estelífero pólo a precipita:
- Ela o afligiu de cá; gemia o Padre
- Vendo sob Euristeu sofrer Alcides.
- E eu, quando às popas destroçava os Gregos
- O galeato herói, não me esquecia
- De Ate que esta só vez tirou-me o siso.
- Pois Jove o permitiu, quero aplacar-te:
- Corre ao combate, o exército afervora;
- Tudo que ontem na tenda o nobre Ulisses
- Te enumerou, terás. O ardor guerreiro
- Sopeia, espera, e da nau minha servos
- Presentarão mil dons que te contentem.”
- Responde o velocípede: “Os presentes
- Em teu poder está, rei soberano,
- Ou retê-los, ou dar-mos, como é justo:
- Agora, ao marte, não convém tardanças;
- Há muito que fazer. De novo Aquiles
- Se veja a derrotar falanges Teucras;
- Batei-vos corpo a corpo, a exemplo dele.”
- E o cauteloso Ulisses: “Bem que exímio
- Sejas, divino Eácida, à batalha
- Sem comer nossos Gregos não constranjas;
- Que, encetada uma vez, não será breve,
- E um deus a instigará de parte a parte.
- Vinho e pasto os restaure; o mais robusto
- Em jejum té sol posto não resiste:
- O brio o incita, mas de fome e sede
- Pesado e mole, tremem-lhe os joelhos.
- O repleto peleja o dia inteiro;
- De ânimo audaz, não refocila os membros,
- Antes que cesse totalmente a pugna.
- Almoce a tropa, as dádivas o Atrida
- Nos apresente em público, e tu folgues.
- O rei nos jure, e em pé, que nunca a jovem
- Teve em seu leito, ou se ajuntou com ela.
- Mitiga-te com isto; e lauta mesa
- Ele na tenda sua te aderece,
- Para nada omitir-se. De ora avante
- Sê mais reto, Agamemnon; que um monarca
- Em reparar a injúria não se avilta.”
- E o rei dos reis: “Agrada-me, Laércio,
- Quanto em ordem e a ponto nos lembraste.
- Jurar é meu desejo, e às divindades
- Perjuro não serei. Contenha o fogo,
- Nesta assembléia os dons espere Aquiles;
- Sinceros a aliança aqui firamos.
- Concordo, Ulisses, toma a flor guerreira,
- Que nos traga os presentes e as cativas;
- E pelos vastos arraiais Taltíbio
- A toda a pressa um javali conduza
- Que a Júpiter e ao Sol vítima seja.”
- Replicou-lhe o Pelides: “Agamemnon,
- Glorioso monarca, isso fizesses,
- Quando, suspenso o ataque, menos ira
- O fígado me inchasse. Tantos jazem,
- De Heitor prostrados com celeste ajuda,
- E instais pelo festim! Ao prélio, amigos;
- Vingança, e a folgo à tarde cearemos.
- Nem bebida ou comer pela garganta
- A mim me há-de passar; que em minha tenda,
- Para o pórtico os pés, de agudo bronze
- Está meu bravo sócio traspassado,
- Entre saudoso pranto: hei só na mente
- Sangue e estrago, e soluços e agonias.”
- Torna Ulisses: “Fortíssimo dos Gregos,
- Exceles tu na lança, eu na prudência:
- De um mais velho e instruído aceita o aviso.
- Cansados os heróis que a muitos segam,
- Messe maior derribam, das batalhas
- Quando inclina a balança o árbitro sumo.
- Com nosso ventre os mortos não choremos;
- Diariamente os esquadrões sucumbem;
- Como do luto respirar? Um dia
- Sagre-se à dor, e enterrem-se os finados.
- Quem se livrou, da sede e fome cure,
- E em brônzeo arnês, indômito ao conflito
- Retorne amaro. Incitamento novo
- Nenhum de vós aguarde; ai do que inerte
- Nas popas se ficar! Num corpo, todos
- Marchemos, gente forte, aos inimigos.”
- Presto escolhe os Nestóridas e Meges,
- Melanipo e o Creôncio Licomedes,
- Merion e Toas; vão-se à tenda régia.
- Dito e feito: uma dúzia de cavalos,
- Mais vinte caldeirões, trípodes sete,
- Guapas jovens prendadas apresentam,
- Sendo oitava Briseida airosa e linda:
- Os que pesou talentos mostra Ulisses,
- E os moços após ele o mais traziam;
- Tudo à vista se expôs. — O Atrida ergueu-se;
- Taltíbio, um deus na voz, sustendo arrasta
- O javali para o pastor dos povos:
- Este puxa o punhal que pende sempre
- Da bainha da espada, e ao cerdo o pêlo
- Em primícias raspado, alçando as palmas,
- Se encomenda ao Supremo. Respeitosos
- Os circunstantes em silêncio o escutam:
- Ele o céu largo fita, e assim perora:
- “O ótimo atesto onipotente Padre,
- E a Terra e o Sol, e as Fúrias que no inferno
- Punem falsários: nunca foi tocada
- Por mim Briseida, ou compartiu meu leito,
- Pura ficou. Se minto, os sacros deuses
- O castigo me inflijam do perjúrio.”
- Disse, e a punhal o javali degola;
- Taltíbio a volteá-lo às brancas ondas
- O atira aos peixes, e o Pelides clama:
- “Júpiter, que de angústias nos reservas!
- No imo nem me ofendera, nem Briseida
- Me arrebatara o Atrida, se de morte
- Não quisesse ferir a tantos Gregos.
- Ide agora almoçar; depois, aos Teucros.”
- E solve o ajuntamento, sem demora
- O seu navio cada qual procura.
- Aos de Aquiles as dádivas traspassam
- Os Mirmidões, que em tendas as colocam;
- Assentam-se as mulheres, e escudeiros
- Metem na estrebaria os corredores.
- Vê d’áurea Vênus êmula Briseida
- O lacerado corpo, e em roda ulula,
- Rasga os peitos e o colo e as pulcras faces,
- Em pranto e a soluçar: “Pátroclo amigo,
- Vivo deixei-te e morto aqui te encontro,
- Sublime herói! De mal em mal tropeço!
- Vi num dia expirar quem me escolheram
- Meus dignos pais, e os três irmãos dess’alma
- Que gerou minha mãe; quando o marido
- Matou-me a bronze Aquiles e ao divino
- Mínete os muros destruiu, quiseste
- As lágrimas reter-me, e asseveravas
- Que, esposa eu transportada, em sua corte
- Farias que ele celebrasse as bodas;
- Choro-te, ó generoso, ó compassivo!”
- E as mais, também o morto parecendo
- Gemer e prantear, por si carpiram.
- Que se alimente os príncipes lhe pedem,
- Mas recusa o Pelides suspirando:
- “Não me insteis, vos conjuro, ó camaradas:
- A dor não me permite alimentar-me;
- Espero pela tarde.” E os reis despede.
- Ficam por consolá-lo os dois Atridas,
- Nestor e Idomeneu, Fênix e Ulisses;
- Mas seu único alívio é na carnagem.
- De saudades anseia e em ais prorrompe:
- “Íntimo do meu peito, aqui na tenda
- Lauto almoço me punhas, quando os Gregos
- Marte aguçavam lagrimoso aos Teucros:
- Ora tens roto o seio, e o nojo impede
- Que eu beba e coma. Nem pior seria
- Se morresse meu pai, que terno em Ftia
- Chora talvez por mim, flagelo de Ílio
- Da odiosa Lacena em desafronta;
- Nem que em Ciro perdesse a prenda amada,
- Se é que vive o deiforme Neoptolemo,
- Contava o coração que eu só da pátria
- Longe acabasse, mas que tu meu filho
- Em fresca nau de Ciro conduzisses,
- Para o meter de posse dos meus servos,
- Do meu celso palácio e mais riquezas.
- Peleu cuido sem vida, ou velho e enfermo
- Se inda respira, aguarda a cada passo
- Do meu final desastre o anúncio triste.”
- Assim lamenta, e os próceres com ele
- Dos longínquos penhores se apiadam.
- Condoído o Satúrnio, a Palas chama:
- “Filha, o exímio varão desamparaste;
- Já não te importa Aquiles? Ante as popas
- Sentado assíduo geme, e enquanto almoçam
- Os Dânaos todos, ele só jejua.
- Para estancar a fome, eia, lhe instiles
- Nos órgãos doce ambrosia e néctar puro.”
- Pronta por si, corta Minerva os ares,
- Qual arguto xofrango de asas pandas;
- Baixa ao campo, onde os Gregos já se armavam,
- No Pelides instila ambrosia e néctar,
- Por que a fome os joelhos não lhe afraque,
- E à casa etérea de seu pai remonta.
- Das naus fervia a gente: como as neves
- Que Jove expede gélidas, soprando
- Serenador e desenvolto Bóreas,
- Broquéis surdem copados, malhas, elmos,
- Fraxíneas hastas, côncovas lorigas;
- Sobe o fulgor aos céus, ao lume aêneo
- Ri-se a terra, ao tropel freme a campanha.
- No meio, olhos em fogo, estruge os dentes
- Sanhudo o herói, de mágoas devorado;
- Veste as obras do deus: com prata as grevas
- Às pernas afivela; o peito arnesa;
- Ao tiracolo claviargêntea espada.
- Embraça o belo primoroso escudo,
- Cujo imenso esplendor, ferindo as nuvens,
- Era como o da Lua, ou como a chama
- Que arde elevada em solitário monte
- Para guia dos nautas que a procela
- Dos amigos alonga em mar piscoso.
- Como estrela, à cabeça o casco brilha
- De eqüinas sedas e áureo undante crino
- Que em torno da cimeira pôs Mulcíber.
- Nas armas, prova o maioral de povos
- Se lhe iam bem: como asas o exalçavam.
- Tira do forro a pátria enorme lança,
- Que ninguém mais, só ele, manejava,
- Do Pélion freixo, a tanto herói funesto,
- A Peleu dantes por Quiron talhado.
- Alcimo e Automedon a biga jungem
- Com circunfuso loro, ajeitam freios,
- Para o assento incrustado as rédeas puxam;
- Do hábil flagelo Automedon pegando,
- Ao carro salta. Após, de ponto em branco,
- Aquiles monta, e como o Sol fulgura;
- Aos Peleios corcéis tremendo brada:
- “De Podargo alta raça, ó Xanto e Bálio,
- Fartos nós da peleja, de outro modo
- Vosso auriga salvai no campo Graio:
- Morto não me deixes, qual meu Pátroclo.”
- Xanto a cabeça inclina, e esparsa a coma
- Cai entre o jugo em terra; assim responde,
- Pois deu-lhe fala a bracinívea Juno:
- “Salvo esta vez serás, fogoso Aquiles;
- Mas perto a Parca tens, sem nossa culpa,
- Sim de um nume e do fado. Se a Pátroclo
- Os Teucros despojaram, por inércia
- Não foi dos teus corcéis; foi na vanguarda
- Prostrado pelo filho de Latona,
- Para Heitor gloriar-se. A ligeireza
- De Zéfiro no curso igualaremos,
- Que se diz mais veloz; contudo é força
- Por um deus e um varão domado seres.”
- A voz lhe embargam neste ponto as Fúrias.
- Clama o herói indignado: “A morte, Xanto,
- Me vaticinas? Isso não te quadra.
- Força é morrer, eu sei, de Ftia longe
- E de meus pais queridos; mas aos Troas
- Hei-de saciar a sede de combates.”
- Nisto, à frente gritando, impele o carro. * * *