Gemia a grã cidade, e pelas praias
741 versos · 7 notas do tradutor
- Gemia a grã cidade, e pelas praias
- Do alto Helesponto às naus se encaminhavam.
- Sem dispersar os Mirmidões, Aquiles:
- “Équites caros, disse, os corredores
- Não soltemos; de coche, ao morto vamos
- O tributo de lágrimas pagar-lhe.
- Assim que em ais ali desafogarmos,
- Desatem-se os cavalos e ceemos.”
- Após ele, os Aqueus nas crinipulcras
- Bigas circundam vezes três Pátroclo,
- E Tétis exacerba o luto e o pranto;
- Do afugenta-esquadrões saudosos todos,
- O chão regam do choro, as armas regam.
- Em soluços Aquiles, urra impondo
- As homicidas mãos do sócio aos peitos:
- “Salve, Pátroclo, na Plutônia estância!
- Hei-de a palavra encher: Heitor em pasto
- A cães dar; em vingança, doze ilustres
- Jovens de Ílio ante a pira degolar-te.”
- Aqui, no pó de bruços, obra indigna!
- Roja à tumba do amigo o herói Troiano.
- As éreas deixam coruscantes armas,
- Os cavalos altíssonos desjungem:
- Da capitânia em roda, o lauto aprestam
- Feral banquete: a ferro bois sangrados
- Mugem, balam ovelhas, berram cabras;
- Tostam-se ao fogo de Vulcano os pêlos
- De gordos porcos de alvejantes presas;
- Mana em torno a Pátroclo o sangue em ondas.
- Entanto, ao sumo Atrida o rei Pelides,
- Iroso e consternado, os mais conseguem
- A custo conduzir. Chegados sendo
- Ao real de Agamemnon, este arautos
- Canoros aquecer trípode manda,
- Para expurgar-se da sangueira Aquiles.
- Este o recusa: “Pelo Deus supremo
- E ótimo, juro não tocar em banho,
- Antes que ao meu Pátroclo a pira ateie,
- Sepulcro erija, este cabelo sagre:
- Pena igual não terei, por mais que viva.
- Ora ao festim odioso nos prestemos.
- N’alva ordena, Agamemnon, que à fogueira
- Cumulem grossa lenha, a elevem digna
- Do herói que baixa a Dite, e aos olhos nossos
- Hão-de sumir infatigáveis chamas;
- Depois, o exército às muralhas marche.”
- Obedecem-lhe e comem, nem se queixam
- De quinhões desiguais; já bem ceados,
- Vai cada qual se repousar na tenda.
- Só nas praias flutíssonas Aquiles
- No meio jaz dos Mirmidões, num sítio
- Onde a vaga rugia; e, quando o sono
- Meigo lhe esparge o alívio do cansaço,
- De perseguir Heitor perante os muros
- E de tanto chorar, espectro em sonhos,
- Ao mísero Pátroclo parecido
- Em trajo, em voz, no talhe e belos olhos,
- Põe-se-lhe à cabeceira: “Aquiles dormes?
- E o morto esqueces que na vida amaste:
- Sepulta-me, que junto às portas erro
- Da ampla casa Plutônia; dos finados
- Repulsando-me as almas, não permitem
- Com elas misturar-me além do Estige.
- Dá-me essa mão, que em lágrimas eu lave;
- Combusto apenas, do Orco mais não torno
- Em segredo não mais consultaremos!
- Tragou-me a sorte que de berço tive;
- A tua é perecer, divino Aquiles,
- Aos muros dos belígeros Troianos.
- Peço-te e recomendo que os meus ossos
- Unas aos teus, Pelides, já que unidos
- Criados fomos, dês que lá de Opunte
- Mocinho com Menetes vim a Ftia,
- Porque, ao jogo irritado, involuntário
- Matei sem tento o filho de Anfidamas.
- Teu pai me recolheu benignamente,
- Alimentou-me e nomeou teu pajem;
- Nossos ossos encerre a de asas de ouro
- Urna pela mãe deusa a ti doada.”
- “A mim, dileto irmão, responde Aquiles,
- Vens com tais ordens? Vou cumpri-las todas.
- Ah! chega-te, e sequer nos abracemos,
- Desabafo ao pesar.” E as mãos lhe estende,
- Mas nada abraça, alteia a sombra um grito,
- Como em fumo soterra-se. O Pelides,
- Palma com palma atônito batendo,
- Mesto profere: “Oh! Certo há no Orco fundo
- Vácuas imagens, não tangíveis corpos:
- A alma do meu Pátroclo, de estupenda
- Semelhança com ele, aqui me intima
- Tristíssima e chorosa expressas ordens.”
- Com isto o luto acende, e a rósea Aurora
- Acha-o carpindo em cerco do cadáver.
- Da tenda gente e mus, que tragam lenha,
- Expede o Atrida, e Merion com eles,
- De Idomeneu guapíssimo escudeiro.
- Munidos vão de cordas e machados,
- E os mus diante; encostas, morros, vales
- E azinhagas transpondo, às matas chegam
- Do Ida multimanante; a bronze afiado
- Carvalhos de alta grenha à pressa abatem,
- Que estrepitosos roncam; sempre alerta,
- Carregam logo os mus, que o solo calcam
- Entre espinhais, do plaino desejosos;
- E eles, prescreve-o Merion, carretam
- À praia troncos, onde o herói sepulcro
- Erigir a Pátroclo e a si traçara.
- Em torno ao lígneo monte se apinhoam.
- Armar-se aos Mirmidões ordena Aquiles
- E as parelhas dispor; alvoroçados
- Revestem-se de bronze, aos carros montam
- Combatentes e aurigas; seguem nuvens
- De infantaria; o esquife amigos trazem,
- Que o morto cobrem de aparadas crinas;
- O herói mesto a cabeça atrás sustenta,
- Que a Dite envia com funérea pompa.
- Deposto o esquife no lugar marcado,
- A lenha empilham sobre. — O divo Aquiles
- Al medita: afastando-se da pira,
- Corta o louro cabelo, que florente,
- Votado ao rio Espérquio, lhe crescia;
- Geme, olha o negro mar: “Debalde, Espérquio,
- To consagrou Peleu por meu retorno,
- Prometendo imolar uma hecatombe
- E cinqüenta carneiros junto às fontes,
- Onde ara tens odora e santo luco;
- Pois do ancião desatendeste as preces,
- Nem torno à doce pátria. Assim, permite
- Que este cabelo o amigo a Plutão leve.”
- Ao metê-lo nas mãos do seu Pátroclo,
- Mais ateava o luto; o qual durara
- Além do sol cadente, se ele mesmo
- Não dissesse a Agamemnon: “Para choros
- Fica assaz tempo. Às tropas te compete
- Fazer cear: o funeral nos deixem;
- Os cabos sós conosco permaneçam.”
- O Atrida a gente pelas naus desparze,
- Das exéquias restando os funcionários.
- De pés cúbitos cem fogueira alçando,
- O corpo em cima contristados pousam.
- Esfolam pretos bois, ovelhas pingues:
- Da gordura o Pelides unge-o todo
- Em derredor as carnes lhe acumula.
- Ânforas de óleo e mel no esquife emborca;
- Árduos quatro corcéis com pena lança
- À fogueira, e dois cães também degola,
- Dos nove à sua mesa apascentados;
- Os nobres filhos doze, obra inumana!
- De Troianos magnânimos imola,
- E para os consumir atiça o fogo.
- A soluçar enfim o amigo invoca:
- “Salve, Pátroclo, na Plutônia estância!
- A palavra cumpri: queimei contigo
- Os doze Teucros, não a Heitor Priâmeo,
- Que só destino a famulentos perros.”
- Ameaça em vão; de dia e noite Vênus
- De Heitor aparta os cães, e por que a rojo
- Não se espedace, untou-o de rosado
- Óleo divino: adensa em roda Apolo
- Nuvem cerúlea, impede que o sol forte
- Os músculos e nervos lhe desseque.
- Não arde a pira entanto. O nobre Aquiles
- Cogita a parte, belos sacrifícios
- A Bóreas vota e a Zéfiro; suplica,
- Libando em áurea taça, que animada
- O cadáver consuma a voraz chama.
- Íris o escuta e voa; encontra os ventos
- Na caverna de Zéfiro sonoro
- Em banquete solene. A núncia ao verem
- Queda à entrada lapídea, erguem-se todos,
- E cada qual o encosto lhe oferece;
- Mas ela: “Não me assento, porque às margens
- Do Oceano e aos Etíopes retorno:
- Quero participar das hecatombes,
- Que aos imortais prodigam. Pede Aquiles
- A vós, Zéfiro e Bóreas, com promessas
- E egrégios votos, que inflameis a pira
- Ante a qual a Pátroclo os Dânaos gemem.”
- Foi-se; os ventos rugindo impelem nuvens,
- Com sopro hórrido e ríspido encapelam
- O clamoroso pego, a Tróia arribam,
- Encostam-se à fogueira, o esforço dobram:
- Toda a noite respira e estala a chama;
- De áurea cratera toda noite Aquiles,
- Em taça duplicôncova exaurindo,
- O chão de vinho ensopa, evoca a sombra:
- Qual pai queimando os ossos do esposado
- Filho, com mágoa da família extinto,
- O herói chora ao queimar os ossos,
- Roja-se em crebros ais perante a pira.
- Quando anuncia Lúcifer que os mares
- Vêem desdobrar seu manto a crócea Aurora,
- O fogo langue e morre; ao Trácio ponto,
- Que freme inchado, os ventos se retiram.
- Distante, lasso o herói, no sono pega;
- Mas acorda ao rumor dos que se agregam
- De Agamemnon em roda, e em pé discorre:
- “Atrida, e vós ó príncipes da Grécia,
- Com roxo vinho o fogo apaguei todo;
- Os ossos do Menécio recolhamos,
- Fáceis de conhecer, porque ele em meio
- Da pira estava, e os outros nos extremos,
- Mistos combustos homens e cavalos.
- Em duplo zerbo envoltos, urna de ouro
- Guarde-os, até que a Dite eu mesmo desça.
- Túmulo alto não quero, mas decente:
- Amplo no-lo alçareis, quando aqui, Dânaos,
- Nas cavas naus partindo, me deixardes.”
- Prontos, com roxo vinho o fogo apagam
- Da pira inteira, e ao fundo abate a cinza;
- A chorar do bom sócio os brancos ossos,
- Com duplo zerbo, em urna de ouro colhem;
- Metem-na em véu sutil, na tenda a fecham;
- Terra ao pé da fogueira amontoando,
- Ao circular sepulcro as bases lançam.
- Feito o que, já voltavam; mas detém-os
- E assenta-os o Peleio em vasto corro:
- Das naus vêm caldeirões, trípodes, vasos,
- Vêm cachaçudos bois, ginetes, mulas,
- E airosas moças e polido ferro.
- Para o curso dos carros mostra os prêmios:
- É primeiro, formosa hábil cativa,
- E capaz de medidas vinte duas
- Trípode asada; é outro, égua bravia
- De seis anos, que um mu no ventre encerra;
- Terceiro, um caldeirão nunca servido,
- Luzente e limpo, de medidas quatro;
- Áureos talentos dois seguem-se; é quinto,
- Biaurito boião da chama ileso.
- Aquiles se ergue: “Atrida e Graios chefes,
- Eis os Prêmios dos rápidos aurigas.
- A ser diversa a causa do certame,
- Certo o primeiro à tenda eu levaria;
- Tenho imortais corcéis, que a todos vencem,
- Dom Netunino, que Peleu passou-me:
- Eu descanso e os corcéis. Ah! que lhes falta
- Quem, lavando-os em límpida corrente,
- Os ungia e afagava as belas crinas;
- Ora, espalhada a coma, aqui lagrimam,
- Com dor no coração! Vós outros, eia,
- Aparecei; do exército concorram
- Os que em seus coches e cavalos fiam.”
- Disse, e lestos aurigas se apresentam.
- Filho de Admeto o maioral Eumelo,
- Afamado cursor, surgiu primeiro.
- Surgiu Diomedes na parelha ganha
- Ao salvo Eneias por mercê de Apolo.
- Surgiu no seu Podargo o louro Atrida
- E em Eta, égua veloz, que em paga houvera
- De Equepolo Anquisíada Agamemnon,
- Por dispensá-lo da Troiana guerra,
- E o deixar na opulenta Sicíone
- Fruir delícias, do Satúrnio dadas.
- Foi quarto o nobre Antíloco, do grande
- Nestor filho, e agitava amplo-crinita
- Biga de Pilos em voante carro.
- Então seu pai desperta-lhe a prudência:
- “De pequeno te amou Jove e Netuno,
- Que todo eqüestre jogo te ensinaram;
- Pouco hás mister. Girar as metas sabes,
- Só dos lentos corcéis temo a tardança:
- Nenhum rival te excede em manejá-los,
- Bem que os tenham melhores. Sê, meu filho,
- Destro e previsto, não te fuja o prêmio.
- Mais vale arte que força ao carpinteiro;
- Arte guia o piloto em lenho frágil
- Da tormenta açoitado: assim, com arte
- Cursor vence a cursor. Quem tudo libra
- Em cavalos e coche, anda às guinadas,
- A vagar pelo estádio sem governo:
- Quem dos seus desconfia, atento à meta
- Rente a circula, as bridas retém firme
- Ou laxa a tempo, olhando ao que o precede.
- Observas? Uma braça está de fora
- De lariço ou carvalho o seco tronco,
- Pelas chuvas não podre; há brancas pedras,
- Uma de cada parte, onde o caminho
- Da planície no meio a boca estreita,
- São feral monumento, ou priscos marcos:
- Lá pôs Aquiles da carreira o termo;
- Lá dirige o teu carro. À esquerda um pouco
- No assento inclina; ameaça, grita, inflama
- Da direita o cavalo, afrouxa as rédeas;
- Cerre-se o outro à meta, que pareça
- I-la o meião rascando, sem que esbarres,
- E ofendas os corcéis e o coche rompas:
- Opróbrio teu seria e alheio gáudio.
- Filho, cautela: a meta se urges perto,
- Nenhum pode apanhar-te ou preterir-te;
- Nem que após te viesse Arion ginete,
- Raça imortal, possuído por Adrasto,
- Nem os que Laomedonte aqui nutria.”
- Ao filho assim adverte, e ao posto volve.
- Quinto apronta Merion comantes brutos.
- Montam; sacode Aquiles no elmo as sortes
- Primeiro sai Antíloco Nestório;
- Segundo Eumelo; é Menelau terceiro;
- Merion quarto; é último o sublime
- Tidides forte. Em linha se colocam;
- Indica o herói no plaino as longes metas;
- Onde era o de Peleu divino pajem
- Fênix, que tudo imparcial decida.
- A gritos e a chicote a ponto incitam
- Os corcéis que da praia ao campo arrancam.
- De pó nuvens aos peitos se enovelam,
- Crinas ao vento a flutuar: os coches
- Ora tocam no chão, ora alto pulam;
- Têm-se firmes nas selas os cursores;
- Pelo triunfo os corações palpitam;
- Cada qual seus ginetes estimula.
- Que a terra a esboroar, não correm, voam.
- Girada a meta, a toda brida voltam
- Ao mar encanecido, e mais o afogo
- Dos heróis se distingue. Longe avançam
- As éguas agilíssimas de Feres:
- Depois, Diomedes nos cavalos Tróicos
- A respirar tão próximos, que o bafo
- De Eumelo o dorso aquenta e os vastos ombros,
- Ao coche as ventas protendidas bufam.
- Vencera ou fora dúbio o vencimento,
- Se infesto Apolo o açoute luzidio
- Não sacasse a Tidides. Este brame,
- D’água os olhos arrasa, ao ver as éguas
- Mais desenvoltas, os cavalos menos,
- Por lhes faltar o estímulo. De Apolo
- Sente a fraude Minerva, e de repente
- Restitui o chicote, alenta a biga:
- De Admeto ao filho a déia quebra o jugo:
- O temão rola, as éguas se extraviam:
- Cai junto à roda Eumelo; aos cotovelos,
- Boca e nariz, ao pé das sobrancelhas,
- Fere-se, coalha a voz, lagrima irado.
- Fulge avante o rival: prestou Minerva
- Aos sonípedes força, e deu-lhe a palma.
- Insta o Nestório atrás do flavo Atrida
- Brada ao paterno tiro: “Eia, estirai-vos
- Em celérrimo curso. Não pretendo
- Com Diomedes lutar, a quem Minerva
- Afogueia os corcéis, reserva a glória,
- Mas segui-me incessantes os do Atrida:
- Eta fêmea é vergonha preterir-vos.
- Por que desfaleceis? Prometo e faço:
- Não mais Nestor vos tratará com mimo,
- Antes mortos sereis a brônzeo gume,
- Se obtenho um prêmio vil por vossa incúria.
- Precipitamente arrebatai-me:
- Infalível ardil maquino, esguardo
- Como no estreito a Menelau supere.”
- Da ameaça com medo, eles disparam;
- O incansável Antíloco no instante
- O passo viu: barranco era precípite,
- Pela invernada aberto no caminho.
- Cose-se a ele o Atrida, um choque evita;
- Mas o rival torcendo empuxa os brutos
- Um pouco fora, e desviado segue.
- Em susto Menelau: “Suspende, insano,
- Enfreia o curso teu na augusta via;
- Deixa que alargue, e passarás a folgo:
- Os carros entre si não se espedacem.”
- Surdo aguilhoa Antíloco a parelha:
- Correram quanto solto abrange o disco
- De atleta jovem, que o vigor ostenta.
- Recua Eta o Podargo: o Atrida cessa,
- Teme os coches e arreios se embaracem,
- Por terra da vitória os contendores.
- “Antíloco, bradou, sábio eras crido,
- E ninguém há mais pérfido; prossegue,
- Mas sem jurares não terás o prêmio.”
- Logo afala os corcéis: “Bem que arrojados,
- Não demoreis; das patas e joelhos
- Primeiro aqueles cansarão por velhos.”
- Dóceis, à desfilada, eis se apropinquam.
- De circo espectadores aguardavam
- Os férvidos alípedes poentos.
- O Cresso cabo os avistou primeiro,
- Na atalaia sentado, e a voz sentia
- Do mais próximo auriga; reconhece
- Baio ginete que na testa malha
- Branca tinha e redonda como a Lua;
- Ergue-se e diz: “Amigos chefes Graios,
- Olhai vós: outro coche, outro escudeiro,
- Fora do que pensávamos, descubro.
- Certo as éguas de Eumelo estão feridas,
- Que mais lestas eu vi dobrando a meta,
- E enxergá-las não posso, inda que os olhos
- Por tudo espalhe. As rédeas lhe escaparam,
- Ou girou mal o guia, ou não conteve
- Na meta o coche; que é talvez em peças,
- Derribado o seu dono, extraviadas
- As éguas em furor. Em pé vós outros
- Atentai: não discirno, mas suponho
- O chefe Etólio ser, do cavaleiro
- Tideu prole condigna, Diomedes.”
- O Oiliades o argúi: “Falas às tontas,
- Idomeneu? Pela ampla arena as éguas
- Aerípedes vêm. Não és tão moço
- Para teres a vista mais aguda.
- És temerário; não te cabe à toa
- Pronunciar, outros juízes temos:
- Elas marcham diante, e as rege Eumelo.”
- Retorque Idomeneu: “Sempre insolente,
- Malédico e rixoso, és entre os Gregos
- Inferior no demais. Ora apostemos
- Uma caldeira ou trípode; Agamemnon
- Nos julgue, Ajax, à tua custa aprendas
- Que essas rápidas éguas se atrasaram.”
- O Oiliades replica exasperado;
- E azedara a contenda, se o Peleio
- Não se interpõe: “De injúrias vos abstende,
- Ajax e Idomeneu; por certo em outros
- Escandecência tal estranharíeis.
- Ora tranqüilos esperai por todos;
- Conhecereis em breve quais ginetes
- Primeiro são no páreo, e quais segundos.”
- Não acabava, e relumbrou Tidides,
- Fustigando entonados vencedores,
- Que empoeiram seu guia, o espaço tragam;
- De ouro e estanho luzindo, o leve coche
- Na fina areia as rodas mal sinala;
- Queda no circo a biga, dos pescoços
- E peitorais em bagas escorria.
- Diomedes pula da brilhante sela,
- Encosta ao jugo o açoite; sem demora
- Toma Estênelo a trípode e a cativa,
- Que entrega aos sócios, e os corcéis desprende.
- Antíloco Neleio, mais por dolo
- Que por destreza, a Menelau precede:
- Quanto um cavalo da rodagem dista,
- Lambendo-a em círculo a peluda cauda;
- Ao bater a campina em curso alado,
- Assim distava o Atrida, bem que a tiro
- De disco esteve já: mais se alentava
- Eta criniluzente, e, houvesse espaço,
- Fora certa a vitória. Atrás o estrênuo
- Merion Cretense vinha, de hasta quanto
- O bote alcança; que era larga a biga,
- E ele mesmo o cursor menos perito.
- De Admeto o filho, derradeiro, as éguas
- E ornadíssimo coche a pé tirava.
- De vê-lo comisera-se o Pelides,
- E aos Aquivos exclama: “Vem prosterna
- Do mais prestante a unguíssona parelha!
- Justo é lhe darmos o segundo prêmio,
- E o filho de Tideu guarde o primeiro.”
- Soa o aplauso, e de Eumelo a égua fora,
- Se não reclama Antíloco: “Pelides,
- Essa iníqua sentença me exacerba!
- Negas meu jus com pena de que um nume,
- Frustrando-lhe a destreza, lhe ofendesse
- O coche e leve tiro! Aos céus rogasse,
- Não seria o postremo. Se hás piedade
- E o amas, tens rebanho e ouro e cobre,
- Tens escravas contigo e bons cavalos,
- Com que ao diante, ou já, brindá-lo possas;
- Então a gosto aplaudem-te os Aquivos.
- Meu prêmio não darei; se alguém o anela,
- Ora de armas na mão buscá-lo venha.”
- Sorrindo Aquiles, ao querido sócio
- Disse afável: “Será como desejas;
- De Asteropeu lustrosa Eumelo tenha
- Érea couraça de alvo estanho orlada,
- Que ele há-de apreciar.” Da tenda manda
- Que a traga Automedon seu camarada.
- Na posse do presente, Eumelo folga.
- O divo Menelau, sentido iroso,
- Do arauto, que silêncio impôs aos Gregos,
- Tomado arvora o cetro: “Que é da tua
- Honra e prudência, Antíloco? Infamaste
- Meu valor, meus corcéis, de encontro a eles
- Os teus de menos brio atravessando;
- Príncipes Gregos, sem favor julgai-nos;
- Ninguém diga: — Mentindo e prepotente
- O Atrida obteve do Nestório o prêmio;
- Pois, se ronceiros os cavalos tinha,
- Em violência e furor o avantajava. —
- Eu mesmo o julgarei, nem cuido que haja
- Dânao que o desaprove: ao rito nosso,
- De Jove aluno Antíloco, ante o carro,
- O flagelo empunhando que agitavas,
- Tange os cavalos, por Netuno jura
- Que o meu curso impediste involuntário.”
- Responde o sábio Antíloco: “Perdoa,
- Rei Menelau; na idade e na valia
- Me vences muito, os erros não ignoras
- Da cega juventude irrefletida;
- Sê comigo indulgente. A égua é tua,
- De mim recebe-a; se do meu quiseres,
- Tudo, ó ramo de Jove, aqui te oferto;
- Contanto que não saia do teu peito,
- Nem perjure as deidades.” Nisto, a égua
- Ao rei trouxe o magnânimo Nestório.
- Qual derrama-se orvalho nas espigas
- Da crescida seara ao vento crespas
- No coração do nobre Atrida aspersa
- A alegria o repassa, e verteu fora:
- “Quebro, Antíloco, as iras, pois que nunca,
- Menos hoje, iludiu-te a mocidade;
- Cauto os melhores enganar evites.
- Graio nenhum mais presto me aclamara;
- Por mim tens padecido amargos transes,
- E teu bom pai e irmão. Rendo-me e dou-te
- Esta que é minha; testemunhem todos
- Que alma ingrata não tenho e empedernida.”
- E a égua a Noemon, do moço pajem,
- Remete, e aceita o caldeirão fulgente.
- Levanta Merion em quarto prêmio
- Os dois áureos talentos. Resta o quinto,
- Biaurito boião, que entre o concurso
- Leva a Nestor Aquiles: “Velho augusto,
- Não mais verás Pátroclo; por memória,
- Esta fúnebre dádiva conserves.
- É prêmio de honra, não de cesto ou luta,
- Dardo ou carreira: os anos te acabrunham.”
- Cala, e entrega o boião. Nestor contente
- Pega-lhe, e ajunta: “Bem discorres, filho:
- Nem fortes membros tenho ou pés ligeiros,
- Nem movo ágil na espádua o frouxo braço.
- Fosse eu na flor, como um Burpásio, quando
- Ao régio Amarinceu com ricos prêmios
- Funeral seus herdeiros celebraram!
- Nenhum valente ali se me igualava,
- Nem de Epeus, nem de Pílios, nem de Etólios;
- Venci no cesto o Enópio Clitomedes;
- Na luta, o desenvolto Anceu Pleurônio;
- O celérrimo Ificlo, na carreira;
- No arremesso, a Fileu e a Polidoro.
- Os Actóridas sós me antepassaram,
- Que eram dois, e invejavam-me a vitória
- De mor preço: os corcéis um destes gêmeos
- Regia sempre sempre, outro açoitava.
- Tal fui; toca aos mancebos imitar-me:
- Hoje à cruel velhice a fronte curvo,
- Dante sobre os heróis me distinguia.
- Conclui os funerais do sócio egrégio.
- Teu benévolo dom me regozija;
- Porque de mim te lembras, nem prescindes
- De acatar, como justo, o idoso amigo.
- Largo o Céu te agradeça a cortesia.”
- Depois de ouvir os gabos do Neleio,
- Rompe Aquiles a turba, indica os prêmios
- Do pugilato cru: no circo amarra,
- Primo, indefessa de seis anos mula,
- Braba e quase indomável; em segundo,
- Põe bicôncava copa: “Atridas, clama,
- Vós grevados Argeus, que os punhos vibrem
- Dois prestantes varões determinemos:
- A quem triunfo Apolo der às claras,
- Esse a mula obtenha laboriosa;
- A bicôncava copa haja o vencido.”
- Surge o varão, nervudo e corpulento,
- Panopides Epeu, no cesto exímio,
- E agarra a mula: “Quem deseje a copa,
- Venha; esta cuido que nenhum me ganhe;
- De primeiro púgil eu me glorio.
- Não basta ser obscuro nas batalhas?
- Mas não é de um mortal primar em tudo.
- Ouse qualquer, e com certeza afirmo
- Que hei-de os ossos moer-lhe. Assistam muitos,
- Que o retirem daqui por mim domado.”
- Reina mudo silêncio; mas deiforme
- Só levantou-se Euríalo, do régio
- Talaionides Mecisteu renovo,
- O qual nos jogos fúnebres de Edipo
- Rendera em Tebas os Cadmeios todos.
- O lanceiro Diomedes o acorçoa,
- E lhe almeja a vitória; ata-lhe um cinto,
- Guantes lhe calça de silvestre couro.
- A ponto, ambos no circo se oferecem;
- Punho a punho engalfinham-se e rebatem;
- Bolha em cópia o suor, os queixos rangem.
- O divo Epeu de chofre o rosto esmaga
- Ao circunspecto Euríalo, que ter-se
- Mais não podendo, abate os pulcros membros.
- Qual, ao sopro do norte, em praia algosa
- D’água à tona enrugada salta o peixe,
- E o serve a negra vaga; assim ferido
- Rolou, mas generoso Epeu levanta-o
- Com rijo braço. Amigos o transportam,
- Rojando inúteis pés, cruor cuspindo,
- A nutar a cabeça e desmaiado;
- Da bicôncava copa não se esquecem.
- Da luta prêmios dois presenta Aquiles:
- Apta ao fogo, uma trípode é primeiro,
- Preço de doze bois; outro, uma serva,
- Que se estimava em quatro e boa em tudo.
- Alçado aos Gregos diz: “Surgi, valentes,
- Vosso esforço provai neste certame.”
- Soberbo o Telamônio ofereceu-se,
- Depois Ulisses nos ardis fecundo.
- Nus, mas tangados, mão por mão se atracam
- Da liça em meio, como escoras mestras,
- Na cumeeira traveja artífice hábil
- Contra aquilões; constritos os costados
- Pelo válido braço, harto rouquejam;
- Pinga o suor; cruentas roxas bolhas
- Crescem nos ombros e quadris; cobiçam
- Tamanha glória, a trípode excelente:
- Ulisses derribar a Ajax não pode,
- Nem este a Ulisses de vigor pasmoso.
- O tédio já lavrava, e Ajax vozeia:
- “Divo astuto Laércio, ou me levantes,
- Ou eu to faça: o resto incumbe a Jove.”
- Nisto, acima o levou; com treta Ulisses,
- De um cambapé na curva, o laxa e estira,
- E sobre ele supino cai de peitos:
- O povo os admirava estupefato.
- Vai também levantá-lo, e a custo um pouco
- Move-o do chão, nos joelhos implicado;
- Sujos enrolam-se ambos na poeira.
- Tentavam nova luta, quando Aquiles
- Os coibiu: “Cesse o cruel certame,
- Tais forças não gasteis. Vencestes ambos,
- E o prêmio igual será. Fique aos mais Gregos
- A liça franca.” Os dois heróis o escutam,
- O pó limpam do corpo e se revestem.
- Para o pedestre curso, ostende insigne
- Capaz de seis medidas uma argêntea
- Cratera, em todo o mundo a mais formosa:
- Pela indústria Sidônia elaborada,
- Por mar chatins Fenícios a importaram,
- Dádiva a Toas; mas Euneu Jasônio,
- Que houve-a depois, de Licaon Priâmeo
- Solveu com ela o preço ao bom Menécio.
- Então com ela premiava Aquiles
- A quem fosse mais leve na carreira.
- Pôs ao segundo um gordo boi vistoso;
- Áureo meio talento, ao mais tardio:
- “Sus, grita, neste páreo assinalai-vos.”
- Surde o Oiliades bravo, o Ítaco sábio,
- Surde Antíloco o jovem mais ligeiro;
- Postam-se em fila: o termo Aquiles marca,
- E lhes acena. Da barreira atiram-se:
- Reluz avante Ajax, Ulisses perto,
- Quanto a que tece da petrina airosa
- Afasta a lançadeira, que hábil joga,
- Trama extensa no urdume entrelaçando.
- Antes que o pó se apague da pegada,
- Ele a calca, e o pescoço lhe bafeja
- No alado curso. Aclamações e vivas
- Sustentavam-lhe o afogo da vitória.
- No extremo quase, em mente o Laercides
- Ora: “Auxílio, Minerva olhicerúlea!”
- A deusa o atende; os membros lhe agilita,
- Pernas e mãos; já já no fim, transvia
- A Ajax, que sobre o esterco das mugentes
- Vítimas imoladas ao Menécio,
- Resvalando, enlameia a boca e as ventas.
- Leva a cratera o paciente Ulisses;
- Ajax do boi silvestre aferra os cornos,
- A bosta escarra: “Os pés falsou-me a deusa;
- Ah! de Ulisses mãe terna o assiste sempre.”
- Com doce gargalhada o receberam.
- Toma o Nestório o derradeiro prêmio,
- E diz sorrindo: “Amigos, estais vendo,
- O céu honra os provectos: pouco em anos
- Me sobra Ajax; aquele, bem que nado
- Com nossos pais, é verde, e na carreira
- Ninguém há que o supere, exceto Aquiles.”
- O herói folgou do encômio, e respondeu-lhe:
- “Este louvor, Antíloco, não perdes.”
- E outro meio talento ao moço oferta,
- Que ledo e contentíssimo o recebe.
- Depois o pique trouxe e o elmo e escudo
- Que Pátroclo a Sarpédon arrancara:
- “Dois valentes agora se aparelhem
- E provem seu denodo. Quem primeiro
- Com choupa aênea, à vista da assembléia,
- O arnês do seu rival tingir de sangue,
- Esse terá de Asteropeu rendido
- Bela Treícia claviargêntea espada;
- Comuns serão as armas de Sarpédon:
- Lauto festim na minha tenda aceitem.”
- Surge o grã Telamônio e o grã Tidides.
- Preparando-se à parte, à pugna investem
- Com cenho que aterrora e espanta os Gregos;
- Ardendo as lanças vezes três sopesam,
- Cerram-se três: o escudo Ajax perfura,
- A couraça ao rival defende a pele;
- Por cima do pavês a cúspide ênea
- Busca Diomedes lhe embeber no colo.
- Temendo por Ajax, partir os prêmios
- E o combate fechar determinaram;
- Mas a Diomedes um montante Aquiles
- Deu com sua bainha e bálteo insigne.
- Bruto, qual sai da forja, um disco expõe-se
- Que jogava Eetion, e o trouxe Aquiles
- Entre a riqueza ao forte rei tomada:
- “Em pé, grita, o Grajúgena robusto;
- Por vastos que haja o vencedor seus campos,
- Assaz ferro terá para cinco anos,
- Sem quinteiro ou pastor ir ao mercado.”
- Polipetes pugnaz, Leonteu deiforme,
- O Telamônio e Epeu, se perfilaram.
- Epeu roda-o, nervoso e pouco destro,
- Com risada geral. De Marte ramo,
- Foi segundo Leonteu. Rijo e forçudo,
- O gigantesco Ajax transcende as marcas.
- Já Polipetes o torneia e expede;
- Quanto o báculo voa do boieiro
- A revoltões por cima da manada,
- Supera o tiro seu: ressoa o aplauso;
- Do rei braçudo ovantes camaradas
- Aquele enorme disco às naus recolhem.
- De ferro, aos sagitários, dez bipenes,
- Dez machadinhas põe; na arena, ao longe
- Um mastro erige da cerúlea proa;
- Alvo das frechas, num cordel apensa
- Do tope, atada aos pés, tímida pomba:
- “Quem, disse, nela acerte, haja as bipenes;
- Quem, aberrando, os fios lhe desfaça,
- Como inferior, as machadinhas leve.”
- Com ímpeto o rei Teucro se levanta,
- Mais o escudeiro Merion. De Teucro
- Sai do elmo a sorte; incontinente a vira
- Dispara, sem que a Febo uma hecatombe
- Sagre de primogênitos cordeiros:
- Cioso o deus o arreda, mas a farpa
- Corta os laços dos pés, que ao chão vieram;
- Ei-la nos céus adeja, e os vivas soam.
- O arco verga Merion e a seta aponta;
- Ao Longe-vibrador um sacrifício
- Vota solene; à revoante pomba
- N’asa entre as nuvens percutindo a seta,
- Ante o que a desfechou fisga-se em terra;
- A ave recai no mastro, o colo pende,
- A envergadura estira; a veloz alma
- Evola-se, e distante o corpo tomba.
- Fica espantado o povo. As dez bipenes
- Ganha Merion, e Teucro as machadinhas.
- De atiradores prêmio, um longo pique
- Presenta, e um caldeirão todo escultado,
- Puro das chamas, do valor de um touro.
- Ergue-se o amplo-reinante e o Cresso pajem
- Merion; mas atalha-os o Pelides:
- “É sabido, Agamemnon, quanto em forças
- E em dardejar exceles. Para bordo
- Manda o vaso, eu te rogo, e o pique demos
- Ao bravo Merion, se tu o consentes.”
- Não se opôs Agamemnon: dado o pique
- A Merion, Taltíbio arauto aceita
- Para seu amo o caldeirão formoso. * * *