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IlíadaLivro V
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A Diomedes robora e esforça Palas

772 versos · 8 notas do tradutor


  1. A Diomedes robora e esforça Palas,
  2. Para que ele se exalce e em fama cresça.
  3. Indefesso arde-lhe o elmo, arde-lhe o escudo:
  4. Como a estrela outonal que mais cintila
  5. Banhada no Oceano, áscuas de fogo
  6. Da cabeça e dos ombros lhe flamejam.
  7. Ao denso do tumulto o impele a deusa.
  8. Vulcâneo antiste, o probo e rico Dares
  9. Com filhos dois, Fegeu e Ideu, vivia,
  10. Teucros pujantes, que das linhas partem
  11. Em seus ginetes; mas a pé, Tidides.
  12. Propínquos já, Fegeu primeiro atira;
  13. Por sobre o esquerdo braço a tremente hasta
  14. Roça apenas o herói, que a sua esgrime,
  15. Nem a desprega em vão: rasga-lhe os peitos,
  16. Rola-o do carro, donde o irmão saltando,
  17. Sem defendê-lo, a nera morte evita
  18. Num nevoeiro, em que do luto parte
  19. Forrou Vulcano ao velho. O nado egrégio
  20. De Tideu belacíssimo os cavalos
  21. Empolga e entrega aos seus, que a bordo os ponham.
  22. A Dares morto um filho, um subtraído,
  23. Turbam-se os Teucros. E a de garços olhos,
  24. A mão tomando a Marte: “Ó Marte, exclama,
  25. Flagelo de homens e eversor de muros,
  26. A quem quer que a vitória assine Jove,
  27. Teucros e Aqueus não deixaremos livres,
  28. Para de Jove a cólera atalharmos?”
  29. Assim Palas arreda o sevo nume,
  30. E a ir o induz às veigas do Escamandro.
  31. Cada Argeu cabo, os Frígios em destroço,
  32. Prostra um fugido. O rei dos reis precede:
  33. Às costas entre as pás, de um bote, enfia
  34. O celso Hódio Halison, da biga o deita;
  35. Rumor na queda horrendo as armas deram.
  36. Festo, renovo do Meônio Boros,
  37. Da pingue Tarne vindo, ao montar, presto
  38. Lanceiro Idomeneu famigerado
  39. A destra espádua lhe varou: do carro
  40. Veio abaixo, e o toldou feral caligem;
  41. Dos fâmulos do herói foi despojado.
  42. Ao bom monteiro Estrófida Escamândrio
  43. Não valeu sagitícola Diana,
  44. Que de longe a tirar e a caçar feras,
  45. Quantas geram-se em brenhas, o ensinara:
  46. O pique Menelau do tergo aos peitos
  47. Lhe enterra, e ao baquear as armas toam.
  48. Fereclo tomba, do Harmonides garfo,
  49. Do Harmonides prendado por Minerva,
  50. Que tudo com mão prima fabricava;
  51. Que autor foi, dos oráculos ignaro,
  52. Das naus irmãs em que Alexandre a ruína
  53. Trouxe de Ílio e do artífice a tristeza:
  54. Merion, após o filho seu, na destra
  55. Nádega o fere, e a ponta por debaixo
  56. Do osso alcança a bexiga; os joelhos frouxam,
  57. Cai lamentoso, e véu letal o cobre.
  58. Meges mata a Pedeu, bastarda prole
  59. De Antenor, que entre os seus criou Teano,
  60. Comprazendo ao marido e compassiva:
  61. Destro o Filides no toutiço a lança
  62. Prega, os dentes lhe passa e a língua tronca;
  63. De rijo o metal frio agudo morde.
  64. Hipsenor, divo ramo do veemente
  65. Dolópion, do Escamandro sacerdote,
  66. Por nume venerado, ao gládio escoa-se
  67. De Eurípilo Evemônides preclaro:
  68. Este, à carreira, de um fendente no ombro,
  69. Cerce cortou-lhe o braço, que de chofre
  70. Sanguíneo jaz no campo; urgente fado
  71. Lhe ocupa os olhos de purpúrea morte.
  72. Enquanto acres pelejam, mal discernes
  73. Se é dos Graios Diomedes, se é dos Frígios:
  74. Sanhoso andava, qual voraz corrente
  75. Por chuveiros de Jove intumescida,
  76. Que inunda e as pontes arrebata, e os valos
  77. Dos vergéis, esperança dos colonos;
  78. Ia arrasando os batalhões Troianos,
  79. À vastadora fúria não bastantes.
  80. O Licaônio, que na arena o adverte
  81. A derrotar falanges, o arco atesa;
  82. O armo direito, no ímpeto, lhe frecha
  83. Pelo cavo da coura, do volúvel
  84. Passador cruentada, e ledo grita:
  85. “Eia, avante os corcéis, bizarros Troas;
  86. Que o mais tremendo Aquivo está frechado,
  87. Nem longo a dor suportará violenta,
  88. Se da Lícia em verdade urgiu-me Febo.”
  89. Foi jactância: Diomedes não sucumbe;
  90. Recua até seu coche, e ao Capaneio:
  91. “Desce, a vira cruel me arranca, amigo.”
  92. Pula Estênelo, e do ombro a extrai ligeiro;
  93. Pelas orlas da malha o sangue bolha.
  94. Diomedes ora então: “Meu voto acolhe,
  95. Palas, filha do Egífero indomada:
  96. Se hás a mim e a meu pai na acesa pugna
  97. Favorecido, assiste-me de novo;
  98. A meu dardo se afronte, e eu puna aquele
  99. Que asseteou-me, e gaba-se que em breve
  100. Nem mais verei do Sol a claridade.”
  101. A preces tais, Minerva o enrija e alesta,
  102. Reforçando-lhe o braço, e perto fala:
  103. “Peleja afouto; que te pus, Diomedes,
  104. No peito o coração do vibra-escudo
  105. Bravo Tideu. Rasguei-te a venda e névoa,
  106. Para os mortais e os numes distinguires:
  107. A qualquer deus respeita e não resistas;
  108. Mas, se Vênus Dial sair a campo,
  109. Com érea choupa vulnerá-la podes.”
  110. E aqui desaparece a gázea Palas.
  111. Torna ao conflito o herói; se à frente há pouco
  112. Era atroz, o furor se lhe triplica.
  113. Quando o leão, que assalta agreste bardo,
  114. Sem rendê-lo o pastor golpeia e assanha,
  115. Foge e a grei desampara; a pulo a fera
  116. Trepa, amedronta o ermo, umas sobre outras
  117. Atropela as lanígeras ovelhas,
  118. Do redil sai ovante e ensangüentado:
  119. Anda assim na baralha o cru Tidides.
  120. Na mama, de ênea ponta, encrava Astino;
  121. Do caudilho Hipenor descose à espada
  122. Pelo úmero a clavícula, e o despega
  123. Do pescoço e da pá. Deixa-os morrendo,
  124. E atrás corre de Abante e Polieido,
  125. Filhos do antigo intérprete Euridamas,
  126. Que os despediu sem consultar os sonhos;
  127. Derriba-os Diomedes e os despoja.
  128. Envia-se a Foon e a Xanto, arrimos
  129. De Fenopo dos anos consumido:
  130. As almas lhes arranca, e ao pai coitado,
  131. Órfão de prole, afunde em nojo e penas;
  132. Que os não recebe incólumes, e é força
  133. Com outros partilhar a sua herança.
  134. Dois Priamidas num só carro topa,
  135. Crômio e Equemon: do assento os precipita,
  136. Ao teor do leão que, em prado ou monte,
  137. Da novilha ou do touro a cerviz quebra;
  138. Desarma-os, e a parelha os seus transportam.
  139. Da derrota cuidoso, busca Eneias
  140. A Pândaro entre o estrépido dos dardos,
  141. E acha e instiga o divino Licaônio:
  142. “Que é do teu arco, singular frecheiro?
  143. A glória esqueces? Há na Lícia acaso
  144. Quem ta pleiteie? Erguendo a Jove as palmas,
  145. Seta joga ao varão que, em mal dos Frígios,
  146. Rompe, ajoelha, esmorece a tantos fortes.
  147. Será deus que furente exija ofertas,
  148. E de um deus o furor é pernicioso.”
  149. E o Licaônio: “Em tudo se me antolha,
  150. Ó conselheiro de arnesados povos,
  151. Tidides coraçudo; seus ginetes
  152. E a rodela conheço e o casco oblongo.
  153. Se um deus será, não sei; mas, se é quem digo,
  154. Não guerreia sem nume: algum de perto,
  155. Cosido em névoa, lhe desvia os tiros.
  156. Entre a coura frechado no ombro destro,
  157. Cuidei mandá-lo a Dite, e vivo surde:
  158. Certo é-me hostil um deus. Nem biga tenho;
  159. Em casa novos, de louçãs cortinas,
  160. Onze carros deixei, parelhas onze,
  161. A quem limpo centeio e espelta nutrem.
  162. Veterano meu pai, no alcáçar nosso
  163. Ao partir instruindo-me, insistia
  164. Que do meu coche estimulasse os Frígios:
  165. O sábio aviso desprezei, temendo
  166. Que, afeitos a bom pasto, os corredores
  167. No estreito assédio padecessem míngua.
  168. A pé vim, no arco afouto, que a Tidides
  169. E a Menelau já disparei sem fruto;
  170. Ensangüentados, lhes irrito a sanha.
  171. Desprendi-o em má hora do cabide,
  172. No momento em que chefe a Ílio amena,
  173. Por agradar ao divo Heitor, marchava;
  174. Mas, a rever a pátria, o lar, a esposa,
  175. O excelso meu palácio, destra infensa
  176. A cabeça me corte, se em migalhas
  177. Não queimo a fogo ardente os arcos todos,
  178. Meus desleais e inúteis companheiros.”
  179. “De arengas basta, replicou-lhe Eneias;
  180. Anda, varão, tentemos a fortuna.
  181. Sobe-te ao coche, por que saibas como
  182. Dos cavalos de Troe os meus provindos,
  183. Pelo campo trotando, acossam, fogem:
  184. Hão de aceleradíssimos salvar-nos,
  185. Se a Tidides reserva a palma Jove.
  186. Sus, toma o látego e as brunidas rédeas,
  187. E apeado contendo; ou, se o preferes,
  188. A arrostá-lo te apresta, e eu reja a biga.”
  189. E Pândaro: “Os cavalos com mor tino,
  190. Auriga tu, governarás, Eneias,
  191. Se à retirada nos forçar Diomedes:
  192. Estranhando-me a voz, da liça podem
  193. Não se apartar vagantes e espantados;
  194. E ele talvez, no alcance impetuoso,
  195. Nos prosterne e os solípedes te roube.
  196. Tu pois menea-os, que de lança invisto.”
  197. Ao coche então variegado ascendem;
  198. E o claro Capaneio, que os divisa
  199. Na desfilada, pressuroso amoesta:
  200. “A ti vejo, amicíssimo Tidides,
  201. Vir dois varões de pulso, o grande archeiro
  202. Que Licaônio se intitula e aquele
  203. Que de Vênus se abona e Anquises nado.
  204. Retrocedamos nós; se a vida prezas,
  205. Com fúria tanta avante não discorras.”
  206. O sócio o mira: “À fuga em vão suades;
  207. Não sou dos que trepidam nem recuam.
  208. Tenho inda o meu vigor: montar me peja,
  209. Remeto a pé; que eu trema o veda Palas.
  210. Quando um na veloz biga nos escape,
  211. Os dois por certo não. Se a douta deusa,
  212. N’alma te fique, me outorgar matá-los,
  213. Contém, das pinas suspendendo as rédeas,
  214. Esses corcéis, atira-te aos de Eneias,
  215. Leva-os dos Teucros aos grevados Gregos.
  216. São raça dos que ao pai de Ganimedes
  217. Em troco dera o Altíssono, os melhores
  218. Que o Sol viu respirar e a ruiva Aurora:
  219. De Laomedonte a furto, o régio Anquises
  220. Lhes submeteu seis éguas; dos que obteve,
  221. Quatro poldros cevando à manjedoura,
  222. Árdegos dois belazes doa ao filho.
  223. Preá-los nos será de ingente glória.”
  224. Entanto, aqueles o ágil tiro incitam,
  225. E apropinquados, Pândaro começa:
  226. “Ó do márcio Tideu vergôntea nobre,
  227. Da seta escarneceste; ora experimenta
  228. Se mais serve esta lança.” E a lança expede:
  229. A érea ponta, acertando-lhe no escudo,
  230. Penetra a coura, e troa o Licaônio:
  231. “Traspassado na ilharga, em breve expiras;
  232. Penso ter conseguido honra perene.”
  233. Imperturbado o herói: “Falhou-te o bote;
  234. Se repousardes, um de vós ao menos
  235. Saciará com seu sangue o fero Marte.”
  236. Ei-lo dardeja, e ao rés das sobrancelhas
  237. De Pândaro ao nariz dirige Palas
  238. O êneo farpão, que os alvos dentes parte,
  239. A língua fende e a barba lhe atravessa:
  240. Do assento cai, e estruge o arnês lustroso:
  241. Os sonípedes fogem de assustados;
  242. Ele, exangue e esvaído, arqueja e morre.
  243. Protegendo o cadáver, insta Eneias,
  244. Que em derredor como um leão peleja;
  245. De hasta longa e rodela, a quem se oponha
  246. A imolar decidido, horrendo ruge.
  247. A dois varões dagora pedra enorme,
  248. Que Tidides agarra e só maneja,
  249. Dá na perna ao Troiano, onde encaixado
  250. O fêmur gira, e a pele e os tendões ambos
  251. Lacerando, o acetábulo fratura:
  252. De joelhos tomba, a forte mão se estriba,
  253. Enoita-se-lhe a vista; e fenecera
  254. O de homens regedor, se não lhe acode
  255. Vênus, que o teve do boieiro Anquises.
  256. Trêmula a déia o cinge ao branco seio,
  257. E as dobras lhe antepõe de níveo peplo,
  258. A resguardá-lo de inimigo dardo,
  259. Que nos peitos profunde e à morte o envie;
  260. Safa à pressa do campo o seu querido.
  261. A Estênelo do amigo as ordens lembram:
  262. Contém, das pinas suspendendo as rédeas,
  263. Os seus corcéis, que do tumulto afasta;
  264. Corre aos de Eneias de vistosas crinas,
  265. Leva-os dos Teucros aos grevados Gregos;
  266. Entrega-os a Deipilo, que os embarque,
  267. Seu camarada com quem mais conforma.
  268. O Capaneio das nitentes bridas
  269. Pega e os seus afervora unguissonantes;
  270. Vai com Diomedes encontrar-se alegre.
  271. De atroz bronze este segue a inerme Cípria,
  272. Que os prélios não domina, qual Minerva
  273. Ou de muros Belona assoladora;
  274. Sacrílego, entre a chusma, de hasta aguda
  275. Num salto esflora a tenra mão celeste,
  276. Roto o fragrante véu lavor das Graças:
  277. Pela palma lhe escorre o ambrósio fluido,
  278. O icor dos imortais: que nem pão comem,
  279. Nem bebem roxo vinho, e assim beatos
  280. Sangue não têm. Em gritos larga o filho;
  281. Febo o arrebata e esconde em atra nuvem,
  282. Que de hostis remessões o ampare e salve.
  283. “Cede, o audaz vozeou, de Jove ó garfo;
  284. Não te basta embair mulheres frágeis?
  285. Provaste a guerra; eu fio que ao diante
  286. Só deste nome guerra te horrorizes.”
  287. Mesta a afligida, lívida a mimosa
  288. Cútis, sai do bulício pela destra
  289. Da acrípede núncia; dos Troianos
  290. Acha à esquerda sentado o feroz Marte,
  291. E em negrume os frisões e a lança ocultos.
  292. Aos pés do irmão suplica: “Irmão! socorro;
  293. De áureo jaez empresta-me o teu carro,
  294. Que aos celícolas pronto me conduza:
  295. Dói-me este golpe do mortal Diomedes,
  296. Que ao pai Júpiter mesmo arremetera.”
  297. Ele sentido o empresta; ela magoada
  298. Monta com Íris, que laxando as bridas,
  299. Estende o açoite, e os corredores voam.
  300. Já no escarpado Olimpo, a guia etérea
  301. Pára e os desjunge, e ambrósio pasto os nutre.
  302. A Dial ajoelhou-se à mãe Dione,
  303. Que terna a beija e abraça e acaricia:
  304. “Que nume tanto ousou, como se, ó cara,
  305. Um erro escandaloso cometeras?”
  306. E a dos risos amante: “Não foi nume,
  307. Foi Diomedes soberbo, quando a Eneias,
  308. Por quem mais estremeço, ao perigoso
  309. Combate eu subtraía. A grega audácia,
  310. Não somente a mortais, ataca os deuses.”
  311. “Filha, torna a santíssima Dione,
  312. Devora a dor. Gravíssimos pesares
  313. Têm dado os homens ao discorde Olimpo.
  314. Meses treze Efialtos e Oto Aloidas,
  315. Ligaram Marte a rígidas cadeias:
  316. No éreo cárcere o sôfrego de lides
  317. Morrera das prisões extenuado,
  318. Se, advertido Mercúrio da madrasta
  319. Linda Eribeia, a furto o não livrasse.
  320. Com tricúspide vira o Anfitriônio
  321. A destra mama retalhando a Juno,
  322. Causou-lhe agro tormento. A Plutão mesmo
  323. Do Egíaco esse filho destemido
  324. Com seta alada, à porta dos infernos
  325. Sobejo molestou: martirizado
  326. N’alma e no corpo, aos astros ele alçou-se,
  327. Do ombro robusto a farpa inda pendente;
  328. Mas, pois o Estígio rei mortal não era,
  329. Péon com bálsamo o curou suave.
  330. Ímpio o herói façanhudo, arcipotente
  331. Violava assim do Olimpo os moradores.
  332. Por Minerva açulado, ora Tidides
  333. Néscio atreveu-se a ti, não cogitando
  334. Que pouco dura quem se atreve aos numes,
  335. Nem da guerra tornado, em seus joelhos
  336. Meigos filhos papai lhe balbuciam.
  337. Tidides guarde-se hoje de que o dome
  338. Quem te exceda em valor; que o sono quebre
  339. Sua Adastrina Egíale à família,
  340. Casta chorando o Grego mais galhardo,
  341. Que lhe colheu mancebo a flor virgínea.”
  342. Aqui da filha à palma o icor enxuga;
  343. Sara a ferida, acalmam-se-lhe as dores.
  344. Mordentes Juno Palas, que isto observam,
  345. Tentam Jove, e começa a de olhos garços:
  346. “Padre, irritar-te irei? Se não me iludo,
  347. Vênus estimulando alguma Argiva
  348. Seus Teucros a seguir, por quem se fina,
  349. Indo animar a dama bem velada,
  350. N’áurea fivela a mão rascou mimosa.”
  351. Ele sorrindo a loura Vênus chama:
  352. “Não te compete, filha, deixa a guerra
  353. Entregue a Palas e ao fogoso Marte;
  354. Cuida no doce amor, nas doces bodas.”
  355. Enquanto assim discursam, contra Eneias
  356. Insiste o grã Diomedes, conhecendo
  357. Que o protegia Apolo, e sem respeito
  358. Quer prostrá-lo e despir de insignes armas.
  359. Febo, em três investidas, repulsou-lhe
  360. O escudo refulgente; mas à quarta,
  361. Quando igual a um demônio arremetia,
  362. O Longe-vibrador minaz troveja:
  363. “Tem-te, mortal, aos deuses não te afoutes;
  364. Sidérea é nossa raça, e humano rojas.”
  365. Lento recua o herói ao bote certo.
  366. Pôs fora o Délio, em Pérgamo sagrada,
  367. Num seu delubro a Eneias, de quem tratam
  368. No ádito vasto com decoro e zelo
  369. Diana sagitária e a mãe Latona.
  370. Forma o deus arci-argênteo uma figura,
  371. Do Teucro simulando o arnês e o vulto;
  372. E em torno mutuamente os contendores
  373. Aos peitos frangem de bovino espólio
  374. Ou redondos broquéis ou leves tarjas.
  375. Depois a Marte: “Ó Marte, exício de homens,
  376. De muros destrutor, sangrento Marte,
  377. Não lançarás do prélio esse atrevido,
  378. Capaz de acometer ao padre sumo?
  379. Feriu de perto a Vênus junto ao carpo,
  380. E a mim qual nume de arrojar-se acaba.”
  381. Disse, e na celsa Pérgamo assentou-se.
  382. Marte no ardente Acamas se disfarça,
  383. Dos Traces capitão; de fila em fila,
  384. Excita os Priamidas: “Até quando,
  385. Vós príncipes, de Júpiter alunos,
  386. Consentireis aos Gregos a matança?
  387. As vossas portas esperais que assaltem?
  388. Jaz por terra o Anquisíada famoso,
  389. Que ao mesmo Heitor em honras igualamos:
  390. Eia, salvemos o guerreiro sócio.”
  391. E um por um ele anima e os fortalece.
  392. Já Sarpédon severo: “Onde os teus brios?
  393. Defender a cidade, Heitor, contavas
  394. Com teus irmãos e afins, sem outro auxílio:
  395. Nenhum vejo daqui, nenhum descubro;
  396. Ante o leão sabujos tremebundos;
  397. E os aliados combatendo estamos.
  398. Lá da Lícia e do Xanto vorticoso,
  399. Deixando um filho tenro e a mulher cara
  400. E cobiçados bens, venho ajudar-vos;
  401. Nada que perca tendo ou que me tirem,
  402. A arrostá-lo comigo os meus exorto:
  403. Em ócio, os teus acorçoar olvidas
  404. A resistir e a proteger seus lares.
  405. Olha não sejam do inimigo preia,
  406. Todos em ampla rede emaranhados,
  407. Nem chegue o fim da populosa Tróia.
  408. Cumpre que veles de dia e noite, e implores
  409. Aos convocados chefes que, depondo
  410. Agravos seus, de pelejar não cessem.”
  411. Mordido n’alma, Heitor pula do carro,
  412. Hastis sopesa, o exército perlustra,
  413. E aviva e alenta a horrífica batalha.
  414. Os Teucros volvem da fugida, e os Gregos
  415. Cerram-se e aguardam com denodo o embate.
  416. Quando padejam trigo em eira sacra,
  417. E ao vento os grãos ciranda a flava Ceres,
  418. A moinha branqueja amontoada:
  419. Cobre os Dânaos assim o pó que alteia
  420. Dos corcéis o estrupido aos céus de bronze.
  421. Novamente ao combate os coches rodam,
  422. As hostes já se travam, já se investem.
  423. Marte, enublado, proceloso o campo
  424. Lustra e anda em auxílio dos Troianos,
  425. Dócil à voz do irmão de alfanje de ouro,
  426. Que espertá-los mandou, vendo ausentar-se
  427. A ajudadora dos Aqueus Minerva.
  428. Febo do ádito pingue esforça e expede
  429. O Anquíseo cabo; de revê-lo folgam
  430. Vivo e incólume e ardente, e nada inquirem;
  431. Urge o afã que suscita o argenti-archeiro,
  432. Marte homicida, Erinis sitibunda.
  433. Instam os Ajax e Ulisses e Diomedes,
  434. Bem que os Dânaos de si desprezem gritos
  435. E as forças do inimigo, e estejam firmes.
  436. Por Satúrnio amarrada a pico aéreo,
  437. Em calma estaca a nuvem, se dormitam
  438. Bóreas e os mais que estrídulos espancam
  439. Turbos vapores: a pé quedo os Graios
  440. Destarte o choque impávidos esperam.
  441. Agamemnon ordena e ativa as alas:
  442. “Amigos, homens sede; no discrime
  443. Vos sustente a vergonha. A morte poupa,
  444. Mais do que ceifa, os que a desonra temem;
  445. Os fujões desampara ajuda e glória.”
  446. Eis fere a Deicoon, de Eneias sócio,
  447. Pergásides que, sempre antessignano,
  448. Era aos filhos de Príamo igualado:
  449. Não basta o escudo à furibunda lança,
  450. Que lho fura o talim e o baixo ventre;
  451. Com fracasso baqueia, o arnês ressoa.
  452. Dois rende Eneias da soberba Feres,
  453. Onde opulento o genitor morava,
  454. Ramo do Alfeu, que à larga os Pílios banha:
  455. Do rio prole, Orsíloco imperante
  456. A Diocleu gerou; do herói nasceram
  457. Gêmeos Créton e Orsíloco. Estes, hábeis
  458. Em todo o prélio, púberes navegam
  459. A Ílio em poldros fecunda, e então querendo
  460. Os Atridas vingar, seu termo encontram:
  461. Quais em montanha ou selva amamentados,
  462. Cachorros de leoa a bois e ovelhas
  463. Depredam gordas e os currais devastam,
  464. Até que êneos zargunchos os castigam;
  465. Tais o indômito Anquísio aterra-os ambos,
  466. Semelhantes a abetos espigados.
  467. O fero Menelau doeu-se deles;
  468. Na frente erilustroso, a lança brande:
  469. Marte a cair o induz às mãos de Eneias.
  470. Sai o Nestório Antíloco: receia
  471. Faleça o cabo Argivo e balde a empresa.
  472. Os rivais de haste em reste, se ameaçam:
  473. Antíloco aproxima-se do Atrida;
  474. Bem que animoso, Eneias retrocede
  475. Ao ver os dois varões que investem juntos.
  476. Estes, os mortos míseros ao meio
  477. Dos sócios arrastando, ao rijo tornam
  478. Da batalha, onde imolam Filemene,
  479. De peltados altivos Paflagônios
  480. Mavórcio maioral: o bom lanceiro
  481. Menelau a clavícula partiu-lhe.
  482. Joga Antíloco um seixo ao cotovelo
  483. De Midon Atimníade, que os brutos
  484. Solípedes desvia: o ebúrneo freio
  485. Do punho escapa ao forte auriga e pajem;
  486. Logo o Nestório as fontes lhe estoqueia;
  487. Ele, entre vascas, do artefato coche
  488. De ombros revira e testa, e ali se afunda
  489. Na basta areia, até que seus cavalos
  490. Às patadas o enrolam na poeira.
  491. Chicoteia-os Antíloco e os retira.
  492. Lobriga-os na revolta e a gritos rompe
  493. Heitor, com Teucras hostes, que afogueia
  494. Marte e a grave Belona: ela consigo
  495. Traz o imano Tumulto; ele hasta enorme
  496. Após Heitor floreia, ou já precede-o.
  497. Tidides mesmo ao conhecê-lo treme;
  498. Retém-se como ignaro viandante,
  499. Ao cabo de extensíssima campina,
  500. Ante rápido rio, que espumoso
  501. Ronca e ao mar se despenha. Ei-lo turvado:
  502. “O nobre Heitor, amigos, admiramos
  503. Guapo na lança e audaz; mas sempre um nume
  504. O resguarda, e hoje é Marte em vulto humano.
  505. Com firmeza os Troianos arrostemos;
  506. Só não queiramos resistir a deuses.”
  507. Apropínqua-se Heitor; num carro mata
  508. Guerreiros dois, Anquíalo e Menestes.
  509. Comiserado Ajax, de perto e quedo
  510. Corre a fúlgida lança ao Selagides
  511. Ânfio potente em Peso e pecoroso,
  512. Que os Teucros por mofina ajudar veio;
  513. Entra a choupa o talim, penetra o lado;
  514. Ânfio baqueia; o Telamônio acode
  515. Para despi-lo; tolhe-o de arremessos
  516. Luzente nuvem, que no escudo apara;
  517. Desprende o hastil pisando-lhe o cadáver;
  518. Dos rojões oprimido, o herói não pôde
  519. Dos ombros lhe sacar as pulcras armas:
  520. Temeu cercado ser pelos Troianos,
  521. Que em pinha e hastatos com furor instavam,
  522. E inda que altipujante o rechaçaram.
  523. Do conflito no ardor, violento fado
  524. A Tlepolemo, Heráclida bizarro,
  525. Contra Sarpédon concitou divino;
  526. E estando fronte a fronte o filho e o neto
  527. Do anuviador, começa Tlepolemo:
  528. “Dos Lícios capitão, por que estremeces,
  529. Imperito guerreiro? Quem te aclama
  530. Raça de Jove, mente; és mui somenos
  531. Dos que o Egífero teve em prisca idade.
  532. Olha Alcides meu pai, Leonino peito,
  533. Que, os frisões reclamando a Laomedonte,
  534. Vindo em navios seis com poucos sócios,
  535. Ermou de Ílio assolada as vastas ruas.
  536. Teus soldados, cobarde, vais perdendo;
  537. Nem, fosses bravo, aos Teucros valerias,
  538. Que do Orco às portas baixarás agora.”
  539. “Sim, Tlepolemo, respondeu Sarpédon,
  540. Ílio santa pagou maldade e ultrajes
  541. Desse ingrato que os brutos recusou-lhe,
  542. De tão longe arribando o herói Tiríntio;
  543. Mas a ti minha lança, eu to predigo,
  544. Dar-te-á morte escura e a mim renome,
  545. Tua alma ao rei da lúgubre quadriga.”
  546. Arvorou Tlepolemo hástia fraxínea,
  547. E ao mesmo tempo tiros dois voaram:
  548. Sarpédon na cerviz lhe embebe a sua,
  549. De atra caligem lhe enoitece os lumes;
  550. De Tlepolemo a cúspide ligeira
  551. O osso da coxa esquerda ao Lício encrava,
  552. A quem seu pai livrou da Parca acerba.
  553. Tiram da liça o divinal Sarpédon,
  554. Que em dor grave labora, e a ninguém lembra,
  555. No subi-lo a seu carro e em tanto aperto,
  556. A crua ponta lhe extrair da coxa.
  557. Indo em braços Gregos Tlepolemo,
  558. A tal conspecto Ulisses comovido,
  559. Na grande alma revolve se atrás corra
  560. De Sarpédon valente, ou se prossiga
  561. No horrendo morticínio. Obstando o fado
  562. A que pereça o filho do Tonante
  563. Por seu bronze afinado, contra a chusma
  564. O excitou Palas: ele ceifa a Crômio,
  565. Hálio, Pritânis, Alastor, Cereno,
  566. E Noemon e Alcandro; e mais fizera,
  567. Se o galeato celso Heitor em frente
  568. Não marchasse adargado e coruscante,
  569. Susto incutindo. Folga de enxergá-lo
  570. E com doente voz lhe diz Sarpédon:
  571. “Socorro, ilustre amigo; dos contrários
  572. Não seja eu presa: em vosso muro ao menos
  573. Me fuja a vida já que aos pátrios lares
  574. Não me cabe voltar, nem ser de alívio
  575. À prezada consorte e a meu filhinho.”
  576. Nada o Priâmeo no ímpeto responde,
  577. Que ardente almeja repelir os Dânaos
  578. E muitos conculcar; mas nobres Lícios
  579. O capitão sob a ramosa faia
  580. Do genitor Egíaco asilaram,
  581. E o forte Pelagon, seu predileto,
  582. O freixo lhe extraiu. Desfalecido
  583. Ofuscaram-se-lhe os olhos; mas de Bóreas
  584. Fresco hálito aspirando, o alento cobra.
  585. A Heitor e a Marte os Graios não dão costas,
  586. Nem avançam; mas cedem pouco a pouco,
  587. Sabendo o nume nas hostis fileiras.
  588. Quem sob o herói e o brônzeo atroz Gradivo
  589. Caiu primeiro? Quem postremo? Têutras
  590. Deiforme, Orestes picador, o Etólio
  591. Treco hastato, Enomao, o Enópio Heleno,
  592. E Orésbio de turbante variegado,
  593. Que tesouros em Hila acumulava
  594. Junto ao Cefísio lago, onde os Beócios
  595. Viviam felizmente em grossas lavras.
  596. Em mísera derrota observa os Gregos
  597. Satúrnia bracicândida: “Hui, Minerva,
  598. Dial prole indomada, a tolerarmos
  599. O Atroz Mavorte, a Menelau faltamos:
  600. Nem Ílio destruir, nem voltar pode:
  601. Sus, nossa intrepidez manifestemos.”
  602. A olhicerúlea deusa não se escusa.
  603. Mesmo Juno augustíssima os cavalos
  604. Do metal fulvo arreia. Hebe se apressa
  605. No carro de eixo férreo a pôr os curvos
  606. Orbes de oito êneos raios, cujas cambas,
  607. De ouro incorrupto, os chaços têm munidos
  608. De lâminas de bronze: oh maravilha!
  609. Roda em meiões de prata, e prata e ouro
  610. Compõem da caixa os correões; a caixa
  611. Por dois tornéis da frente as bridas lançam,
  612. E um temão corre argênteo: Hebe no extremo
  613. Auripulcros lhe prende jugo e loros;
  614. E ávida Juno de contenda e estragos,
  615. Ata ao jugo os alípedes cavalos.
  616. Solta Minerva no paterno solho
  617. Bordado véu que esplêndido lavrara;
  618. Do nubícogo deus veste a loriga,
  619. Veste o arnês dos combates lagrimosos.
  620. Fimbriado seu broquel medonho embraça,
  621. A que o Terror circunda: nele a Força,
  622. Nele a Perseguição, nele a Discórdia,
  623. Nele vê-se a cabeça de Medusa,
  624. Do Egífero portento, aborto horrível.
  625. De quádruplo cocar cinge áureo casco,
  626. De sobejo aos peões de cem cidades.
  627. Monta ao fúlgido coche, enorme libra
  628. Válida lança, com que inteiras hostes,
  629. Do Prepotente filha, irada prostra.
  630. Juno os tiros verbera: eis por si rangem
  631. Portões que as Horas guardam, sentinelas
  632. Da suma casa etérea, a cuja entrada
  633. Fechar e abrir lhes toca a nuvem densa.
  634. Fácil transpõe o carro, e Jove as deusas
  635. No tope acham do Olimpo cumioso.
  636. Fez alto Juno, e a seu marido sonda:
  637. “Quê! não refreias, soberano padre,
  638. Marte cruel, que a tais e tantos Gregos,
  639. Ímpio e sem pejo, temerário abate?
  640. Choro n’alma, e tranqüilos folgam Vênus
  641. E Apolo arco-de-prata que instigaram
  642. O demente e sem lei. Tu não te agastas
  643. Se da batalha vulnerado o afasto?”
  644. Concedeu-lho o supremo: “Afila a Palas;
  645. É quem sói acossá-lo e confrangi-lo.”
  646. Leda o látego estala e acena a déia;
  647. Espontâneo os ginetes pelo espaço,
  648. Entre o pólo estrelado e a terra voam.
  649. Quanto alguém, de alta penha, ao longe avista,
  650. Se olha amplo roxo mar, tanto os celestes
  651. Atroantes corcéis de um pulo alcançam.
  652. A Ílio chegadas, onde mescla a veia
  653. Ao Símois o Escamandro, desjungidos
  654. Larga-os Juno, e em neblina cega envoltos,
  655. Ambrósio pasto lhes ministra o Símois.
  656. Como tímidas pombas volteando,
  657. A auxiliar os Dânaos se apressuram.
  658. Já num grupo de fortes, que a Tidides
  659. Em pinha rodeavam, quais javardos
  660. E leões carniceiros nada imbeles,
  661. A de alvos braços grita, sob a forma
  662. Do famoso Estentor, cujo éreo brado
  663. A guerreiros cinqüenta a voz cobria:
  664. “Que opróbrio! Ó Dânaos de gentil presença!
  665. Enquanto era convosco o divo Aquiles,
  666. Nunca as Dardânias portas o inimigo,
  667. Da ardida lança com terror, transpunha;
  668. Hoje ante as curvas naus brigar se atreve!”
  669. Isto os aviva e alenta. A olhicerúlea
  670. A Diomedes se vai, que ao pé do coche
  671. De Pândaro a frechada refrigera,
  672. Aflito e lasso, da rodela a soga
  673. Inundada em suor; e, ao levantá-la
  674. Para a chaga absterger do negro sangue,
  675. Pegando-lhe do jugo, o punge a deusa:
  676. “Não semelhas Tideu: pequeno em corpo,
  677. Grande na ação, conter-lhe eu quis o fogo,
  678. E ao vir único a Tebas de enviado
  679. Junto a muitos Cadmeios, prescrevi-lhe
  680. Que aos banquetes pacífico assistisse;
  681. Mas ele alfim, seu ânimo escutando,
  682. Por mim sempre ajudado e protegido,
  683. Os Tebanos provoca e vence a todos.
  684. Ora eu também te ajudo e te protejo,
  685. Contra os Frígios te inflamo e te afervoro;
  686. E essa fadiga te amolece os membros,
  687. Ou torpe vil temor te esfria e enerva.
  688. Não, do filho de Eneu tu não procedes.”
  689. E ele: “Egíoca deusa, eu te conheço:
  690. Falar-te vou sincero e sem rebuço.
  691. Nem temor, nem moleza me acobarda;
  692. Lembra-me o teu preceito; a brônzeo gume
  693. Na ação ferisse eu Vênus; mas que os outros
  694. Imortais respeitasse. Retirei-me
  695. E aqui reúno os meus, porque estou vendo
  696. Marte mesmo a reger a Teucra gente.”
  697. Palas inda: “Mortal que n’alma prezo,
  698. Marte e a qualquer não temas, que em ti velo:
  699. Arremessa os corcéis e a Marte fere;
  700. Um perverso inconstante não respeites,
  701. Que a mim e a Juno os Teucros prometera
  702. Em pró dos Gregos molestar, e insano
  703. Ei-lo os Teucros defende e esquece os Gregos.”
  704. Disse, e Estênelo empurra, que do carro
  705. Saltou mais lesto, e irosa com Diomedes
  706. Monta a par; de uma deusa e herói tamanho
  707. Do eixo a faia carregado geme.
  708. De bridas e chicote, ela os cornípedes
  709. Deita a Marte, que sujo da carnagem
  710. Ao grã Perifas, dos Etólios honra,
  711. Filho do magno Oquésio, despojava.
  712. De Plutão põe Minerva o capacete,
  713. Para encobrir-se ao nume furibundo.
  714. Vendo a Tidides, o homicida o corpo
  715. Deixa disforme, exânime e estirado,
  716. E endireita ao galhardo cavaleiro.
  717. Já fronte a fronte, suspirando Marte
  718. Por desalmá-lo, sobre o jugo e as rédeas
  719. Atesa o braço e esgrime; a lança aênea
  720. Da olhicerúlea a destra arreda e frustra.
  721. O herói despede a sua, que ao vazio
  722. Dirige Palas, onde o cinto morde:
  723. Rasga-se a branda pele, e o brônzeo nume
  724. Urra, ao sacar-se a ponta, qual de nove
  725. Ou dez mil combatentes o alarido
  726. Em prélio aceso; aterra Argeus e Troas
  727. Do formidando Marte o grito horrendo.
  728. Como negreja no ar bulcão, tocado
  729. Por terral estuoso, olha-o Tidides
  730. No ir-se por esse espaço em grossa nuvem.
  731. Chega à sublime estância; ao pé de Jove
  732. Senta-se consternado, e imortal sangue
  733. Mostrando que manava da ferida,
  734. Lamentoso bramou: “Com tais façanhas
  735. Não te enfadas, meu pai? Discórdia mútua,
  736. Por comprazer a homens, nos flagela,
  737. E a causa és tu: geraste uma insensata,
  738. Em flagícios fecunda e iníqua sempre.
  739. Sujeitos os do Olimpo habitadores,
  740. Te obedecemos todos; mas a peste
  741. Que produziste só, condescendente
  742. Nem a castigas, nem sequer censuras.
  743. Acaba de inflamar contra nós outros
  744. Do soberbo Diomedes a arrogância:
  745. Ele o carpo feriu primeiro a Vênus,
  746. E a mim se me arrojou, nem que um deus fosse.
  747. Se estes ligeiros pés não me valessem,
  748. Longas dores no fero morticínio
  749. Estivera curtindo, ou vivo embora,
  750. De éreos golpes cruéis desfalecera.”
  751. O nubícogo padre averso o encara:
  752. “Cessem, versátil, importunas queixas.
  753. O celícola és tu mais detestando:
  754. A rixa amas e a guerra; herdaste o gênio
  755. Da indócil mãe, que sopear me custa:
  756. O mal creio te vem dos seus conselhos.
  757. Porém não sofro mais que assim padeças;
  758. És meu filho, e pariu-te a esposa minha.
  759. A seres de outro leito, ímprobo, há muito
  760. Dos Uranidas o somenos foras.”
  761. Manda a Péon então que dele trate:
  762. Péon lhe untou na chaga linimentos;
  763. E, não sendo um mortal, foi pronta a cura.
  764. Como o líquido leite, em que alvo suco
  765. Verteu-se de figueira, de contínuo
  766. Rapidamente remexido coalha;
  767. Tão breve sara o proceloso Marte.
  768. Hebe o lava, o perfuma e o paramenta;
  769. Ele ao pé de seu pai de glória exulta.
  770. Já remoto o verdugo, o exício de homens,
  771. Alam-se do supremo ao claro assento
  772. Juno Argiva e Minerva Alalcomênia. * * *

Nota a nota · 8 notas

v. 82O armo direito, no ímpeto, lhe frecha
Os nossos dicionários mal explicam o que é armo: Constâncio o dá por antiquado e como sinônimo de ombro e de braço. Armo é a juntura do braço com a espádua, e portanto é termo especial e necessário: veja-se Noel.
↩ voltar ao verso 82
v. 113–151Quando o leão, que assalta agreste bardo, ⋯ Tidides coraçudo; seus ginetes
Bardo é curral mudável para ovelhas. — Alguém estranhou-me ginete para verter ippos: convenho que cavalo é mais genérico, bem que derive de um termo latino mais restrito; porém como tratamos do cavalo de guerra, ginete é propriíssimo, para significar o de casta fina e brioso.
↩ voltar à passagem, v. 113
v. 162Veterano meu pai, no alcáçar nosso
Também me advertiram quo alcáçar, do árabe, não era para traduzir o que em Homero corresponde a palácio. Não aceitei a advertência; porque, a proceder-se conforme a esta crítica, fora mister evitar mesmo palácio, visto que naquele tempo não conheciam os Gregos o monte Palatino, ou pelo menos este nome, donde veio o das nossas casas nobres; e até fora impossível traduzir os antigos nas línguas de hoje, cujos vocábulos não existiam. Servirmo-nos das línguas atuais é cousa diversa de atribuirmos aos antepassados idéias que eles não tinham.
↩ voltar ao verso 162
v. 336Meigos filhos papai lhe balbuciam.
Pappasonsin não se pode exprimir sem o nosso papai: dir-me-ão que é baixo; direi que é familiar, como o verbo grego.
↩ voltar ao verso 336
v. 483De Midon Atimníade, que os brutos
Quase nunca uso das licenças poéticas: aqui usei, por causa da brevidade e energia, da figura ectlipse, que se acha muito em Camões e amiúde em Sá de Miranda e em Ferreira, e que no verso latino é como de rigor. — Por esta ocasião, permita-se-me defender os nossos bons quinhentistas, e principalmente a Ferreira, das durezas que lhes notam; defesa esta que devo ao poeta, cujas obras, caindo-me nas mãos quando eu apenas contava treze anos, foram as primeiras que me fizeram amar a alta poesia, e tiveram tanta parte na minha educação moral. Ferreira, depois de Miranda e mais amplamente, foi quem em português propagou os hendecassílabos (a opinião de que poetas anteriores deles tivessem usado, é pelo menos duvidosa), tendo que se modelar pelos Italianos, cujas liberdades adotou. As palavras rio, boa, húa, méa e várias outras, contraídas numa sílaba, — a sinalefa com a primeira vogal acentuada, — são imitações de Dante, Petrarca e Ariosto. Camões ao princípio igualmente os seguiu; mas seu delicado ouvido sentiu ao depois a desarmonia, e fugiu do escolho mormente nos Lusíadas. E porque, fazendo assim Camões, o Tasso, como ele excelente metrificador, continuou com o exemplo dos seus três grandes antecessores? A razão nasce da índole dos dous idiomas: o italiano, ainda mais doce que o português, toca de efeminado e mole; o português, mais enérgico e presso, torna-se áspero às vezes nas bocas de má pronúncia ou debaixo de penas mal aparadas. O verso italiano há mister certas contracões para se fortalecer, o que otimamente conheceu o praticou Alfieri em nossos dias; e Ferreira ficava escabroso, quando assim fazia em assuntos que requerem estilo suave. Daqui podemos tirar esta ilação: que nem sempre se hão de reprovar tais liberdades; as quais até podem vir a propósito em algumas ocasiões, como ao pintarmos um combate, ao descrevermos o ruído de uma tempestade ou de uma catarata, e em muitos outros casos. E observe-se que as contrações ou sinalefas duras, o são menos vindo nas primeiras sílabas, e o são mais vindo depois da sexta: o que tudo se deve considerar, porque o poeta precisa de todas as tintas e matizes, à maneira do pintor, para quem não há cor desprezível; o ponto é sabê-las misturar. — Se Camões fosse quem entre nós, como Sá de Miranda, introduzisse os hendecassílabos, é provável que imitasse muitas formas duras no português; mais felizmente veio para os aperfeiçoar. Fernão Surrupita, crítico sem critério, — seguido pelo parcial e voluntário Manuel de Faria, com quem fez coro o padre Thomaz de Aquino e outros —, escolheu de pensado em Ferreira alguns versos mal soantes, e ainda os estropeou, para estabelecer uma comparação entre ele e Camões; como se não se pudesse respeitar a imunidade do nosso épico, sem se deprimir a justa fama do autor da Castro e de outras obras seletas. Acrescentarei que num homem do cunho de Ferreira ou do Dante ou de Young, autores em quem se notam algumas durezas, não se hão de catar pequeninos defeitos, sumidos na multidão de belezas de primeira ordem: guarde-se tão miúda censura para aqueles que, não sabendo jamais elevar-se ao grandioso ou ao sublime, só poderiam agradar pela doçura e melodia. — Sem embargo de reconhecer em Ferreira esses defeitozinhos, o falecido Garret disse que, mesmo na sua versificação muito havia que aprender: juízo precioso, por ser de outro poeta exímio, dos melhores que têm metrificado em nossa língua.
↩ voltar ao verso 483
v. 545Tua alma ao rei da lúgubre quadriga.”
Klytopõlõs, célebre em cavalos foi omitido por Monti, e M. Giguet o traduziu pelo adjetivo ilustre; os demais tradutores que consultei não se explicam melhor: Homero alude ao carro de Plutão com seus dous tiros negros e medonhos; o que busquei exprimir claramente.
↩ voltar ao verso 545
v. 606–611Orbes de oito êneos raios, cujas cambas,
— Posto quo Moraes e Constâncio tenham confundido cambas com cãibas, estas, como já disse atrás, são peças de freio, e cambas são peças das rodas do coche que ficam junto aos chaços. Estes fazem parte da roda e fecham o círcalo. — Meião é o aro por onde entra a mecha do eixo. Correões são os sustentáculos da caixa. Tornéis aqui são argolas por onde saem as bridas.
↩ voltar à passagem, v. 606
v. 769Ele ao pé de seu pai de glória exulta.
Uranidas, segundo Monti, que do termo se serviu, e segundo M. Giguet e outros, são os habitantes do céu, não os Titães, como quer o intérprete latino.
↩ voltar ao verso 769
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Próximo livroVISós na lide os mortais, de parte a parte