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IlíadaLivro XI
LivroXI

Surgindo a Aurora do Titônio leito

719 versos · 5 notas do tradutor


  1. Surgindo a Aurora do Titônio leito,
  2. O globo e os céus alumiava, quando
  3. Jove a nera Discórdia às naus despede;
  4. A qual da guerra sacudindo o facho,
  5. Parou no centro, na de Ulisses, donde
  6. Em tendas e baixéis ouvida fosse
  7. De Aquiles e de Ajax, que aos dois extremos,
  8. No seu valor seguros, alojavam.
  9. Brame horrentíssimo, e retine o grito
  10. Ao coração dos Dânaos, que incessantes
  11. Anseiam batalhar, e então mais doce
  12. Lhes era a pugna que a tornada à pátria.
  13. Clama e intima Agamemnon que se aprestem,
  14. E aêneo luz. Com prata finas grevas
  15. Primeiro às pernas afivela; aos peitos
  16. Loriga veste, que hóspede Ciniras
  17. Mandou-lhe em dádiva, ao troar em Chipre
  18. A nova de ir a Tróia a Grega armada:
  19. Compunha esmalte escuro dez estrias,
  20. Doze ouro, estanho vinte; azuis ao colo
  21. Três serpes iriando lhe trepavam,
  22. Como o curvo sinal que o Padre em nuvens
  23. Aos falantes gravou. De áurea tauxia
  24. E de áureo boldrié, fulgura a espada
  25. Em argêntea bainha. Adarga-o todo
  26. Estupendo pavês, maneiro e ingente,
  27. Com dez êneos debruns, com vinte umbigos
  28. Branquíssimos de estanho, e de aço bruno
  29. Disparava o do meio ameaçadora
  30. A feia Górgona e o Terror e a Fuga;
  31. De argêntea faixa ao longo se torcia
  32. Vivo dragão cerúleo, que recurvas
  33. Tinha cabeças três num só pescoço.
  34. Do elmo de quatro cones tachonado
  35. Crista lhe nuta horrenda e eqüina coma.
  36. Válidas eriagudas lanças duas
  37. Toma, cujo fulgor fere as estrelas.
  38. Palas de cima e Juno, em honra toam
  39. Do opulento senhor da grã Micenas.
  40. Prescrito a cada auriga ter em ordem
  41. Junto ao fosso os corcéis, ruidoso e imenso
  42. Antes d’alva o alarido, a pé remete
  43. Armados campeões, e atrás em fila
  44. Vêm vindo os carros. Do éter o Satúrnio
  45. Rumoreja, e de sangue orvalho chove,
  46. Presságio de que ao Orco iam ser muitas
  47. Almas de altos varões precipitadas.
  48. Além, num teso, o reto Polidamas
  49. Alinha os seus, e Eneias nume ao povo,
  50. Mais os três Antenóridas, Polibo,
  51. Nobre Agenor, inda solteiro Acamas
  52. A imortais parecido; à frente a enorme
  53. Rodela vibra Heitor: qual dentre as nuvens
  54. Sem véu nenhum reluz funesto Sírio,
  55. E alguma vez se ofusca; assim na prima
  56. Ala aparece o herói, percorre a extrema,
  57. Prevê, dispõe, comanda, em bronze esplende,
  58. Como o tonante Egíoco lampeja.
  59. Quando centeio ou trigo os segadores
  60. Em farta messe opostos vão ceifando,
  61. O agro juncam de espigas: tais se prostram,
  62. Com mútua horrenda clade, Argeus e Teucros;
  63. A desastrada fuga a nenhum lembra;
  64. Barba a barba, acometem como lobos.
  65. Lutuosa a Discórdia olhando exulta,
  66. Único deus que assiste: os mais, por cumes
  67. Do Olimpo, quedos em mansões formosas,
  68. O Anuviador acusam, que aos Troianos
  69. Destinava o triunfo; mas o Padre,
  70. Sem lhe importar, a parte e ledo mira
  71. Naus e cidade, os fulgurantes bronzes,
  72. O ferir e o morrer dos combatentes.
  73. Enquanto ia crescendo a manhã sacra,
  74. A turba tiros cai; mas, quando em vales
  75. De árvores decotar a mão sacia
  76. Lânguido o lenhador, e ávido anela
  77. Almo sustento e seu jantar prepara,
  78. Uns então pelos outros animados,
  79. Rompem com brio os Dânaos as falanges.
  80. Agamemnon precede, e abate o régio
  81. Maioral Bianor e Oileu cocheiro.
  82. Oileu se apeia e investe; mas na fronte,
  83. Sem que êneo casco o embargue, entrada lança
  84. Pelo osso, dentro o cérebro deturpa:
  85. Doma-lhe a audácia o rei. Nus amo e pajem
  86. Da túnica e loriga, os abandona.
  87. Foi-se a Ísios e Antifo Priameios,
  88. Legítimo e bastardo, ambos num coche:
  89. Era o bastardo auriga, Antifo ilustre
  90. Pelejador, os quais, pascendo ovelhas
  91. Em fraga Idea, atara em fléxeis vimes
  92. E o seu resgate recebera Aquiles:
  93. De hasta a Ísios o Atrida a mama fere,
  94. A Antifo de um fendente ao pé da orelha
  95. Derriba; eis despede-os das brilhantes armas,
  96. Reconhecendo-os, pois a bordo os vira,
  97. De quando o velocípede os prendera.
  98. Leão, que em toca assalta a corçozinhos,
  99. Fácil com dente rábido os lacera
  100. E as tenras almas tira; a mãe coitada,
  101. Perto embora, não cuida em protegê-los,
  102. Trêmula em denso carvalhal se acouta,
  103. Suando evade-se à cruenta fera:
  104. Assim, nenhum Troiano ousa acudir-lhes,
  105. Do Ímpeto Graio trépidos fugiam.
  106. O argólico leão corre a Pisandro
  107. E ao firme estrênuo Hipóloco, dois ramos
  108. De Antímaco valente, o qual, peitado
  109. Pelo esplêndido Páris, mais se opunha
  110. A ser entregue Helena ao flavo esposo;
  111. Toma-os num ponto e seus corcéis retidos,
  112. Pois largaram de susto insignes rédeas,
  113. No carro de joelhos implorando:
  114. “Vivos nos leva, Atrida, e aceita o preço
  115. Da remissão; que Antímaco, pai nosso,
  116. Cobre e ouro encerra e trabalhado ferro,
  117. E te há de encher de dádivas infindas,
  118. Se presos nos souber na Argiva armada.”
  119. Falam chorando ao rei com meigas vozes,
  120. E ele não meigas volve: “Que! sois filhos
  121. De Antímaco belaz, que em Tróica junta
  122. Votou morte a Grajúgenas legados,
  123. A Ulisses divinal e a Menelau?
  124. Ora pagai-nos a paterna injúria.”
  125. Disse, e um bote a Pisandro, pelos peitos,
  126. Lança do coche, ressupino o estira;
  127. Salta Hipóloco em terra, e a gládio o Aquivo
  128. Os braços e o pescoço lhe decepa,
  129. E como um tronco arbóreo à chusma o atira.
  130. Dali desfaz, com outros bem grevados,
  131. Hostes inteiras: a pedestre imola
  132. Pedestre, cavaleiro a cavaleiro;
  133. Pulvéreas nuvens ergue ericalçado
  134. O ruidoso tropel quadrupedante.
  135. O rei vai na carnagem prosseguindo
  136. E acorçoando os seus: como edaz fogo
  137. Em virgem mata, ao vário Eólio sopro,
  138. Árvores turbinoso extirpa e fende;
  139. Ele assim talha e estronca os fugitivos,
  140. E a nitrir, entre as filas derrotadas,
  141. Rojam árduos corcéis vazios carros,
  142. Tristes por seus cocheiros, que ali jazem
  143. Mais gratos aos abutres que às esposas.
  144. A Heitor fora do pó, dos tiros fora,
  145. Da carnívora ação, da gritaria,
  146. Jove entanto conduz: na ânsia de abrigo,
  147. Já de Ilo o prisco túmulo trasposto,
  148. À baforeira os Teucros se aproximam;
  149. Rugindo os segue o Atrida, e vai manchando
  150. Em cruor polvorento as mãos invictas;
  151. Retêm-se eles às portas junto à faia,
  152. Uns a espera dos outros. Qual em noite
  153. Borrascosa o leão pela campina
  154. Pávidos bois acossa, e ao mais tardonho
  155. Rasga a cerviz com navalhadas presas,
  156. Sangue lhe chupa e entranhas; Agamemnon
  157. Tal os encalça e o derradeiro prostra:
  158. Quem de costas caía, quem de bruços,
  159. Da régia lança aos furibundos golpes.
  160. O herói tocava os muros; e eis baixando,
  161. Na destra o raio, o pai de homens e numes
  162. No pino do Ida em fontes abundante
  163. Senta-se, a núncia ali-dourada chama:
  164. “Rápido, Iris: Heitor que o pé reprima,
  165. Enquanto à frente o maioral dos Gregos
  166. Cortar nos batalhões, mas sempre alente
  167. Os seus a resistir o embate horrível.
  168. Assim que o vulnerar ou dardo ou seta,
  169. Ao carro monte; eu lhe darei vitória:
  170. Há-de às instrutas naus levar o estrago,
  171. Té que o sol tombe e venha a sacra noite.”
  172. Aerípede a núncia do Ideu cume
  173. À santa Ílio descendo, o Priamides
  174. Encontra em pé no aparelhado coche:
  175. “Guerreiro na prudência igual a Jove,
  176. Isto ele aqui te ordena: o pé reprimas,
  177. Enquanto à frente o maioral dos Gregos
  178. Cortar nos batalhões, mas sempre alentes
  179. Os teus a resistir o embate horrível.
  180. Assim que o vulnerar ou dardo ou seta,
  181. Montes ao carro, e te dará vitória:
  182. Hás-de às instrutas naus levar o estrago,
  183. Té que o sol tombe e venha a sacra noite.”
  184. Some-se Íris. Heitor pula do coche,
  185. Dardos brande erifúlgidos, alas corre,
  186. Provocando a conflito: voltam face
  187. Os Teucros logo; intrépidos os Dânaos
  188. Cerram-se firmes, a peleja instauram;
  189. De encetá-la ansioso, rui o Atrida.
  190. Celestes musas, declarai-me agora,
  191. Que ilustre auxiliar ou que Troiano
  192. Com Agamemnon se arrostou primeiro?
  193. Alto e audaz o Antenórida Ifidamas,
  194. Na altriz criado pecorosa Trácia.
  195. De pequeno o educara o avô materno
  196. Cisseu, pai da pulquérrima Teano;
  197. O qual vendo-o na ovante puberdade,
  198. Para tê-lo consigo, deu-lhe a filha.
  199. Noivo, ao soar a empresa, vasos doze
  200. Tripulando, ancorou-os em Percope,
  201. Veio por terra socorrer a Tróia.
  202. De perto, fronte a fronte, já se investem:
  203. Agamemnon desfecha, e o dardo aberra;
  204. Ele por sob a coira à cinta o apanha,
  205. Com rijo pulso e esforço enterra a ponta,
  206. Que o bom talim não fura, mas qual chumbo
  207. Topando amolga em lâmina de prata.
  208. Com garras de leão, furioso o Atrida
  209. A haste a si puxa, arranca-lha, de um talho
  210. Cerceia-lhe o pescoço e os membros solve.
  211. Por seus concidadãos sono éreo dorme,
  212. Ah! longe da mulher que em flor obteve,
  213. Da qual nem se logrou nem prole havia,
  214. À qual cem bois doara e prometera
  215. Cabras e ovelhas mil dos seus pastios.
  216. Despiu-lhe as pulcras armas Agamemnon,
  217. Entrou com elas pela Argiva turba.
  218. Coon, claro Antenórida e o mais velho,
  219. Defunto o irmão, toldados sente os lumes;
  220. De esguelha sorrateiro escorregando,
  221. Além do cotovelo, no antebraço
  222. De Agamemnon a choupa enfia aênea:
  223. Ao golpe freme o rei, mas não desiste;
  224. Hasta em punho dos ventos roborada,
  225. Acomete a Coon, que de Ifidamas,
  226. Do mesmo pai gerado, ia o cadáver
  227. Arrastando e a gritar que o socorressem:
  228. Nisto, abaixo do escudo um bote acerta,
  229. Sob o fraterno corpo é degolado.
  230. Cheio o destino, ao Orco assim o Atrida
  231. Estes dois Antenóridas remete.
  232. Enquanto o sangue da ferida mana,
  233. A gládio alas descose, a dardo, a pedras;
  234. Assim que estanca e esfria, eis lancetadas
  235. Lhe vêm, não menos cruas que as da frecha
  236. Que despedem no parto as Ilitias,
  237. Filhas de Juno e mães de cruas dores.
  238. Monta, e magoado a seu cocheiro ordena
  239. Que aos baixéis o transporte, e vocifera
  240. Com voz tonante: “Príncipes e amigos,
  241. Toca-vos repelir das naus o assalto;
  242. Veda o padre bater-me o dia inteiro.”
  243. O auriga para a frota os crinipulcros
  244. Frisões verbera, que espontâneos voam;
  245. Sob os pés a poeira, a escuma aos peitos,
  246. O atribulado rei do prélio afastam.
  247. Ausente o Aquivo chefe, trovejando
  248. Heitor instiga os seus: “Troianos, Lícios,
  249. De perto exímios Dardanos, sede homens,
  250. A vossa intrepidez vos lembre, amigos:
  251. Foi-se o herói, e o Satúrnio dá-me a glória;
  252. Maior a alcançareis, aos feros Dânaos
  253. Remessai-me os solípedes ginetes.”
  254. Com isto inflama e os corações esforça.
  255. Como açula o monteiro a cães de fila
  256. Contra leão ou javali sanhudo,
  257. O atroz Marte Priâmeo contra os Graios
  258. Os Magnânimos Teucros açulava:
  259. Ao conflito se arroja impetuoso,
  260. Qual sibilante furacão das nuvens
  261. Salta e encapela o ferrugíneo pego.
  262. Que heróis de Heitor a cólera provaram,
  263. Ao cingi-lo o Supremo da vitória?
  264. Osseu logo, Agelau, Autono, Opites,
  265. Com Dolope de Clício, Oféltio, Esimno,
  266. Oros, e enfim o acérrimo Hiponoo:
  267. Passa ao depois às turmas. Quando em luta
  268. Zéfiro exasperado açouta as nuvens,
  269. Que vivo Noto imbrífero ajuntara,
  270. Ao multívago sopro incha a mareta,
  271. Remoinha e salpica a espuma os ares:
  272. Tantas vidas à plebe Heitor segava.
  273. Fora total o exício e irreparável,
  274. A fugida mortífera, a Tidides
  275. Se não clamasse Ulisses: “Que! Diomedes,
  276. Nosso brio esquecemos? oh! que opróbrio,
  277. Se o belígero Heitor nos toma a frota!
  278. Põe-te ao meu lado, amigo.” — “Sim, responde,
  279. Eu te sustentarei; mas pouco importa,
  280. Que Jove aos Teucros o triunfo apresta.”
  281. Disse, e a lançada à sestra mama expele
  282. Do assento ao rei Timbreu; no entanto Ulisses
  283. Lhe mata o pajem Molion deiforme.
  284. Da batalha estes fora à chusma investem,
  285. Como a lebréus dois javalis bravosos:
  286. O ímpeto e assalto novo a desbarata,
  287. E os de Heitor perseguidos já respiram.
  288. Num coche os nados brilham do adivinho
  289. Meropo de Percote; irmãos que o padre
  290. Vedou que entrassem na homicida guerra,
  291. E a quem surdos as Parcas atraíram:
  292. Priva-os Diomedes ínclito lanceiro
  293. Do alento e belo arnês, enquanto Ulisses
  294. Mata Hipódomo e Hipíroco e os despoja.
  295. Do Ida olhando o Satúrnio, iguala a pugna,
  296. E as mortes fervem. Lanceou Diomedes
  297. Na coxa o herói Agástrofo Peônio:
  298. Doeu-lhe dos corcéis faltar-lhe o efúgio;
  299. Que o pajem longe os tinha, e ele pedestre
  300. Acre avançava, até que a vida perde.
  301. Heitor o adverte, e às hostes brame e acorre;
  302. Diomedes mesmo enfia: “Ulisses, olha,
  303. Um turbilhão nos volve Heitor furente;
  304. Constância, amigo, o embate rechacemos.”
  305. Nisto, o pique despede, e não baldio,
  306. Bate-lhe na cabeça; mas do bronze
  307. Repulso o bronze, a cútis nem lhe esflora;
  308. Tríplice o tolhe o elmo, dom de Febo.
  309. Desaparece Heitor, e a poucos passos
  310. Cai ajoelhado, à forte mão sustido;
  311. Um tenebroso véu lhe enfusca os olhos:
  312. Pela Teucra vanguarda ia Diomedes
  313. Seu pique recobrar no chão pregado,
  314. Quando em si torna Heitor e ao carro pula,
  315. No tropel se confunde e o transe evita.
  316. E o Grego, em reste a lança: “Inda escapaste,
  317. Cão, do corte letal salvou-te Apolo,
  318. Que entre o fragor das armas sempre invocas.
  319. Hás-de, ajude-me um deus, comigo haver-te;
  320. Outros por ti mo pagarão agora.”
  321. Ao Peônio deitava-se, eis que o tiro
  322. Arma o taful da emadeixada Helena,
  323. Atrás do cipo tumular do antigo
  324. Ilo, Dardânio padre: o herói despia
  325. Do hasteiro extinto Agástrofo a couraça
  326. Vária e o broquel e o grave capacete;
  327. O arco dispara, a vira não desmente,
  328. Que ao pé destro as falanges atravessa
  329. E enterra-se no chão. Rindo ufanoso
  330. Páris sai da emboscada: “Estás ferido,
  331. Nem me falhou a seta: oh! se te houvera
  332. Profundado as entranhas! De ti, monstro,
  333. Respiravam Troianos, que te hão medo,
  334. Assim como a leão berrantes cabras.”
  335. E Diomedes impávido: “Insolente,
  336. Só bom no corno e rufião de moças,
  337. Vem cara a cara, e o arco e pleno coldre
  338. Verás se te aproveitam: vanglorias
  339. De arranhares-me um pé? não me inquieta,
  340. Foi de fêmea ou criança espinho leve;
  341. Mossa não faz o golpe de um cobarde.
  342. Meu dardo, sim, é ruína do em que toca,
  343. É pranto e mágoa da carpida esposa,
  344. De filhos desamparo; em sangue a terra
  345. Avermelha e apodrece; em torno ao morto
  346. Mais que a mulheres os abutres chama.”
  347. Põe-se Ulisses diante; ele se encosta
  348. No amigo e extrai a farpa: em todo o corpo
  349. Sofre agras dores; monta, e angustiado
  350. Manda ao cocheiro que o transporte a bordo.
  351. Dos seus abandonado Ulisses resta;
  352. Suspira e fala com sua alma grande:
  353. “Ai! que farei? Se à multidão por medo
  354. Me esquivo, é mau; pior, se aqui me apanham,
  355. Pois Jove há dispersado os outros Graios.
  356. Mas que indago, minha alma? Eu sei que é torpe
  357. O combate largar; deve um guerreiro
  358. Com firmeza ou ferir ou ser ferido.”
  359. Enquanto em si discursa, as Tróicas turmas
  360. Sobrevêm adargadas e o torneiam,
  361. Dentro a peste acolhendo. Se em balbúrdia
  362. Flóreos moços e cães javali caçam,
  363. Da mata surde a fera, os alvos dentes
  364. Nas recurvas queixadas amolando;
  365. Apesar do rangido e aspecto horrendo,
  366. Férvida a chusma o ataca: assim, de Ulisses
  367. Divino em cerco, os Troas o acometem.
  368. Ei-lo de hasta, ao famoso Deiopite
  369. O ombro fisga, a Toon e Enono estende,
  370. E a Cersidamas, ao pular da sela,
  371. Por debaixo do escudo o umbigo ofende;
  372. No pó tomba o infeliz, de palma em terra.
  373. Deixa-os, e agride o Hipásida Caropo,
  374. De Soco generoso irmão germano;
  375. Soco deiforme a socorrê-lo avança,
  376. Perto brama: “Doloso e infatigável,
  377. Filhos ambos de Hipaso, ou tens a glória
  378. De mortos hoje nos despir as armas,
  379. Ou desta minha ao bote a vida exalas.”
  380. Esgrime, e a choupa a lúcida rodela
  381. Fura e a mesma couraça artificiosa,
  382. Rasga-lhe as carnes das costelas: Palas
  383. As vísceras preserva. O golpe Ulisses
  384. Mortal não o sentiu; recua um pouco:
  385. “Ah! fraco, diz, soou-te a hora extrema:
  386. De progredir no prélio me tolheste;
  387. Mas desta lança o gume, hoje to afirmo,
  388. Dar-te-á morte escura e a mim triunfo,
  389. Tua alma ao rei da lúgubre quadriga.”
  390. Soco retrocedia, quando a ponta
  391. Finca-se atrás na espádua e sai aos peitos;
  392. Rui com fracasso; o vencedor o insulta:
  393. “Soco Hipasíada egrégio cavaleiro,
  394. Do fim letal, ah! vil, não te evadiste;
  395. Pai nem piedosa mãe te cerra os olhos;
  396. De asas batendo-te, aves de rapina
  397. Te-hão de cruas tragar: morto eu, de Aquivos
  398. Respeitosos terei funéreas honras.”
  399. Aqui, da pele e do copado escudo
  400. O dardo extrai que lhe vibrara Soco:
  401. Dor curte acerba e lhe borbota o sangue;
  402. Ao vê-lo, os Teucros a exortar-se acodem;
  403. Retrograda e alça a voz; o grito ouviu-lhe
  404. O belicoso Menelau três vezes,
  405. E volto a Ajax: “Ó Telamônio excelso,
  406. Do Laércio me soa o aflito brado,
  407. Como de quem labora em grande afronta:
  408. Rompamos pela turba a defendê-lo.
  409. Temo que só, por tantos apertado,
  410. Pereça o herói, com mágoa dos Aquivos.”
  411. Marcha, e após ele o divinal guerreiro;
  412. Acham de Jove o aluno entre os contrários.
  413. Já frechado, fugaz galhudo cervo
  414. Ao caçador se esquiva, enquanto o sangue
  415. Tépido escorre e movem-se-lhe as pernas,
  416. Té que o doma a ferida, e em monte umbroso
  417. Crus ávidos chacais vão lacerá-lo;
  418. Nisto, um leão rebenta formidável,
  419. Que derrama os chacais e a presa toma:
  420. Assim bravo tropel cercava o astuto
  421. Herói, que de hasta em punho o amargo dia
  422. Repulsa audaz; mas rui o Telamônio
  423. De pavês torreante, e foge a turba.
  424. A Ulisses Menelau sustém nos braços,
  425. E o coche entanto o pajem lhe aproxima.
  426. Remete Ajax ao Priameio espúrio
  427. Dóriclo e o mata; a Pândaco vulnera,
  428. Mais a Lisandro e Píraso e Pilarte.
  429. Quando o imbrífero nume das montanhas
  430. Torrentes rola, a cheia o campo inunda,
  431. Secos leva lariços e carvalhos,
  432. E o lodo arroja ao mar: Ajax destarte
  433. Vai cavalos talhando e cavaleiros.
  434. Isto ignorava Heitor, à esquerda e às ribas
  435. Do Escamandro a pugnar, onde as cabeças
  436. Bastas caindo, há grita imensa em torno
  437. Do grande Pílio e Idomeneu mavórcio.
  438. Lá, de hasta e carro, Heitor passeia ardido,
  439. E hostes brilhantes façanhoso arrasa;
  440. Mas brecha entre esses bravos não se abrira,
  441. Se o raptor da pulcrícoma não fere
  442. Com trifarpada seta no ombro destro
  443. Ao belaz Macaon pastor de povos.
  444. Desanimam-se os Dânaos, receando,
  445. Inclinado o conflito, ali perdê-lo;
  446. E à pressa Idomeneu: “Monta, Nelides,
  447. Honra da Grécia; a Macaon recolhe,
  448. Para a frota os ungüíssonos dirige:
  449. Por muitos vale um médico; ele os dardos
  450. Extrai, unge a ferida e acalma as dores.”
  451. Sem demora Nestor sobe a seu carro,
  452. E do exímio Esculápio o digno filho;
  453. Toca os ginetes, que de grado arrancam,
  454. De voltar para as naus contentes voam.
  455. Do coche Hectóreo, Cebrion dispersos
  456. Avista os seus e clama: “Aqui num cabo
  457. De horríssona batalha combatemos,
  458. E os mais Teucros, Heitor, baralha e espanca-os
  459. O Telamônio Ajax, que reconheço
  460. Pelo imenso pavês. Lá galopemos
  461. Onde o estrondo é maior, onde a carnagem
  462. De équites e peões é mais ferina.”
  463. Ei-lo estala o chicote, e os crinipulcros,
  464. Sentindo o açoute, a Gregos e a Troianos
  465. Corpos e escudos rápido calcavam:
  466. Eixo e caixa de sangue afeiam gotas
  467. Que das patas e rodas se espargiam.
  468. Heitor como arde por cortar na turba!
  469. Derrota, esgrime, nem descansa o braço,
  470. A gládio e lança e pedra assola e estraga;
  471. Porém do Telamônio o encontro evita.
  472. A Ajax do Olimpo Jove incutiu medo:
  473. De setêmplice tarja às costas fica;
  474. Atento à chusma, atônito se aparta,
  475. Feroz volta-se, e lento o passo alterna.
  476. Cães e campinos, em noturna vela,
  477. Famélico leão do cerco expedem,
  478. Vedando-lhe o cevar-se em pingues reses;
  479. Em vão remete, que, de audazes pulsos
  480. Dardos voando e fachos, ruge iroso
  481. Recua, e n’alva se retira mesto:
  482. Assim, tristonho e invito, Ajax temendo
  483. Pelas Aquivas naus, deixava os Teucros.
  484. Apesar dos meninos que o fustigam,
  485. Dentro a seara tosa asno tardio;
  486. Sem que fracas pauladas o inquietem,
  487. Só deixa o pasto quando a fome extingue:
  488. Tal, dos golpes zombava o Telamônio
  489. Dos valorosos Teucros e aliados;
  490. Lembra-lhe o brio próprio, encara ou foge
  491. Contendo as hostes de assaltarem juntas
  492. A Grega frota. Em meio ele só brame
  493. Dos exércitos ambos; chovem tiros,
  494. Fincam-se no pavês, muitos na areia,
  495. De embeber-se nas carnes desejosos.
  496. Eurípilo Evemônio, ao vê-lo opresso,
  497. Corre com brava ardente lança ao cabo
  498. Apisaon Fausiade, por baixo
  499. Do diafragma o fígado lhe vara
  500. E afrouxa-lhe os joelhos. A apear-se
  501. Vai por despi-lo, e o arco atesa Páris;
  502. Na destra coxa, a Eurípilo vibrada,
  503. Quebra-se a frecha e cruas dores causa.
  504. Ele aos seus revertendo ilude os fados,
  505. E forte vocifera: “Aqueus e amigos,
  506. Alto! afastai de Ajax o escuro dia;
  507. Duvido escape da tormenta horríssona,
  508. Mas socorrei de Telamon o filho.”
  509. De escudo aos ombros e hasta em reste, os sócios
  510. Junto ao ferido apinham-se; a encontrá-los
  511. De fronte Ajax reverte; em mó carregam,
  512. Pelo tropel qual fogo iam lavrando.
  513. Suadas ao levar Neleias éguas
  514. A Macaon e o dono, o Velocípede
  515. Reconhece-os da popa, donde a lide
  516. E a fuga lagrimosa contemplava;
  517. Grita ao Menécio, que parelho a Marte,
  518. Princípio do seu mal, da tenda assoma:
  519. “Que me queres, Aquiles, que me ordenas?”
  520. O amigo então: “Pátroclo da minh’alma,
  521. Intolerável peso oprime os Dânaos,
  522. E ante mim os figuro suplicantes.
  523. Presto, a Nestor pergunta, ó caro a Jove,
  524. Qual dos chefes transporta golpeado;
  525. Pelo talhe o Asclepíade parece;
  526. Rápida biga seu semblante encobre.”
  527. Dócil o bom Menécio ao companheiro,
  528. Entre o campo corria e as naus Aquivas.
  529. Nestor e Macaon já n’alma terra
  530. Apeiam-se, e desjunge antigo pajem
  531. Eurímedon o carro; as vestes ambos
  532. Na praia do suor ao vento enxugam:
  533. Vão-se à tenda, em camilhas se recostam.
  534. Bebida apresta a nítida Hecamede,
  535. Filha do grande Arsímoe, que o Gerênio
  536. Por exceder a todos nos conselhos,
  537. Houve em Tênedos, presa do Pelides.
  538. Põe de azulados pés à lisa mesa
  539. Flor de sacra farinha em disco aêneo,
  540. Recente mel e um pico de cebola;
  541. Põe copa linda, que trouxera o velho,
  542. De cravos de ouro, e de ouro um par de pombos
  543. Em torno a cada uma de asas quatro,
  544. Com dois no fundo, ali se apascentavam:
  545. Movê-la outrem sem custo não pudera,
  546. E cheia o velho facilmente a erguia.
  547. A divinal donzela Prânio vinho
  548. Dentro mescla, e raspado em êneo ralo
  549. Queijo caprino e uns pós de branco trigo;
  550. E os conforta com isto e os dessedenta.
  551. Já se recreiam conversando, e à porta
  552. A um nume igual apareceu Pátroclo:
  553. Em pé Nestor, condu-lo pela destra
  554. Ao resplêndido escano; mas o núncio
  555. Renui dizendo: “Ancião de Jove aluno,
  556. Não me assento; é terrível quem me envia
  557. Para saber qual fosse o vulnerado;
  558. Vejo que é Macaon, a Aquiles torno.
  559. Tão colérico humor tu bem conheces:
  560. Em seus furores o inocente culpa.”
  561. “Ah! clama o velho, sente Aquiles hoje
  562. Dos vulnerados pena? O luto ignora
  563. Do campo inteiro? A bordo os mais estrênuos
  564. À mão tente ou de longe estão feridos:
  565. A pique o Atrida e Ulisses, mas frechados
  566. Na coxa Eurípilo e no pé Tidides;
  567. Arco a farpa enviou contra este amigo.
  568. Forte em vão, sem piedade espera Aquiles
  569. Que hostil fogo, apesar do esforço nosso,
  570. Consuma as naus, e pereçamos todos?
  571. “Oh! pubente fosse eu robusto e ágil,
  572. Qual dos Epeus e Pílios na discórdia
  573. Pelo armento roubado em represália,
  574. Quando o Hipiróquio Itimoneu, que em Élis
  575. Habitava, abati! sob o meu dardo,
  576. Ao defender seus bois, caiu na frente;
  577. Bravia a tropa, derrotada, aos nossos
  578. Tudo largou: de ovelhas greis cinqüenta,
  579. Iguais vacuns manadas, e não menos
  580. Varas de porcos e de cabras fatos;
  581. De éguas baias o triplo e seus mamotes.
  582. Folgou Neleu de noite à nossa entrada,
  583. Porque estreei novel com tais proezas.
  584. Pregões chamaram n’alva a quem devia
  585. Elide gado, e os príncipes a presa
  586. Pelos muitos queixosos dividiram.
  587. Como Hércules, talando as nossas terras,
  588. Os melhores matara, e eu só restasse
  589. Dos filhos doze de Neleu valentes,
  590. Da míngua nossa e dano os lorigados
  591. Ultrajantes Epeus escarneciam:
  592. Meu pai quatro frisões mandara aos jogos
  593. Disputar uma trípode, e os reteve
  594. O rei de Elide Augeias; triste o auriga
  595. Veio contá-lo. Então Neleu, da afronta
  596. Picado, reservou com seus pastores
  597. Em boiadas e greis trezentas reses,
  598. Justa porção distribuindo ao povo;
  599. Mas ao terceiro dia, ao celebrarmos
  600. Pela cidade aos numes sacrifícios,
  601. Tropa eqüestre e pedestre eis nos assalta,
  602. E ambos os Moliões, inda mocinhos,
  603. Pouco versados em Mavórcias lides.
  604. A íngreme Trioessa à margem fica
  605. Do Alfeu, na extrema da arenosa Pilos:
  606. Na ânsia de sovertê-la, a sitiavam;
  607. Mas de noite, a campina ao traspassarem,
  608. Desce a Pilos Minerva, incita e ajunta
  609. Ávida gente a pelejar disposta.
  610. Neleu me crê bisonho e o coche oculta;
  611. E a pé mesmo, entre os nossos cavaleiros,
  612. Me assinalei, guiado por Tritônia.
  613. Deságua o Minieio e banha Arena,
  614. Onde a Aurora esperávamos celeste
  615. E afluíam peões. O dia em meio,
  616. Ante o Alfeu todo o exército, ao Supremo
  617. Feitas gratas ofrendas, imolamos
  618. Um touro ao santo rio, outro a Netuno,
  619. Juvenca indômita à cerúlea Palas,
  620. E ceiamos em ranchos e dormimos
  621. A borda armados sempre. Aquele assédio
  622. Vastadores Epeus mais estreitavam;
  623. Porém com Márcio arrojo os prevenimos:
  624. Mal assomava o Sol, a Jove e a Palas
  625. A suplicar, travamos a batalha.
  626. Eu por Múlio a encetei, genro de Augeias,
  627. Que a filha primogênita esposara
  628. Flava Agamede, a qual da terra inteira
  629. As salutares plantas conhecia:
  630. De um bote, ao me encarar, na areia o estiro;
  631. Salto-lhe ao coche, e o troto antessignano.
  632. Vendo os Epeus dos équites caído
  633. O chefe mais belaz, sem ordem fogem.
  634. Qual furacão ruí de lança em punho;
  635. Coches tomei cinqüenta, e a cada coche
  636. Derribei dois varões que o pó morderam.
  637. De Actor e Molion prostara os filhos,
  638. Se, envoltos em negrume, o avô Netuno
  639. Amplo-dominador os não salvasse.
  640. Deu-nos vitória o Céu: matando fomos
  641. E armas colhendo no alastrado campo;
  642. À cereal Buprásio, à pétrea Olênia,
  643. E Alésio até Colona, os perseguimos,
  644. Donde gente e corcéis retirou Palas;
  645. E um lá inda imolei. De volta a Pilos,
  646. A Jove entre imortais rendiam graças,
  647. Entre homens a Nestor. Fui tal no esforço.
  648. “Mas para si guarda o valor Aquiles;
  649. Há de pesar-lhe o exército perder-se.
  650. Quando, amigo, eu e Ulisses pela Acaia
  651. Levantávamos tropas, no agasalho
  652. Das casas de Peleu, de Aquiles junto
  653. Nós te encontramos e a teu pai Menetes:
  654. Num claustro o ancião Peleu bovinas coxas
  655. Ao tonante queimava, de áurea taça
  656. Roxo vinho entornado em rubras chamas;
  657. Vós preparáveis suculentas carnes.
  658. Alvoroçado Aquiles, pela destra
  659. Nos trouxe do vestíbulo, e assentados
  660. Nos regalou com pródiga hospedagem.
  661. Repleta a fome e a sede, a minha arenga
  662. O ardor vos avivou. Peleu de acordo,
  663. Vimo-lo ao filho prescrever que fosse
  664. Pugnaz, constante, superior a todos.
  665. O Actórides Menetes, a Agamemnon
  666. Ao te expedir, clamava aos olhos nossos:
  667. — Meu filho, em geração te excede Aquiles,
  668. Sem par na valentia; és mais idoso,
  669. Mais prudente: amoesta-o, e será dócil. —
  670. Tu paternos preceitos olvidaste;
  671. Ora, adverte esse herói: quem sabe se hoje
  672. Um nume há de ajudar-te a comovê-lo?
  673. Fazem muito os conselhos da amizade.
  674. E se um presságio o espanta, e à mãe augusta
  675. Jove algum declarou, mande-te ao menos
  676. Dos Mirmidões à testa a esperançar-nos.
  677. Seu belo arnês te empreste; que, os Troianos
  678. Contendo a semelhança, da fadiga
  679. Os mavórcios Aqueus talvez respirem,
  680. E um respiro aproveita. A frescas tropas,
  681. No primo choque, os inimigos lassos
  682. Fácil é rechaçar das naus e tendas.”
  683. Disse; ao longo da praia, comovido,
  684. Corre em busca do Eácida Pátroclo.
  685. À nau se apropinquou do sábio Ulisses,
  686. Onde era a cúria e o foro e as santas aras:
  687. Ia ali da frechada coxeando
  688. O destemido Eurípilo Evemônio,
  689. Em suor testa e espádua, negro o sangue
  690. A merejar, mas inconcusso o peito.
  691. Exclamou condoído o herói Menécio:
  692. “Ai! tristes nossos príncipes e cabos,
  693. Que assim, longe da pátria e amigos lares,
  694. Cães cevareis em Tróia! inda os Aquivos,
  695. Dize, aluno de Jove, inda resistem,
  696. Ou da lança de Heitor serão domados?”
  697. E ele: “Excelso Pátroclo, é sem refúgio,
  698. Vão cair ante a frota os Gregos todos.
  699. Quantos bravos havia estão feridos;
  700. Cresce a força Troiana e cresce a fúria.
  701. Mas tu salva-me e leva ao meu navio;
  702. Tira-me a seta, em banho morno a chaga,
  703. Asperge os lenimentos que de Aquiles
  704. Aprendeste, e que afirmam lhe ensinara
  705. Quiron dentre os Centauros o mais justo:
  706. Pois dos médicos dois, se não me engano,
  707. Na tenda sua Macaon de auxílio
  708. De mão hábil carece, e Podalírio
  709. O atroz Marte sustém no campo Teucro.”
  710. “Herói, torna o Menécio, que nos cumpre?
  711. Que será? Com recado para Aquiles
  712. Vou do Gerênio, dos Argeus custódio;
  713. Mas deixar-te não quero ao desamparo.”
  714. Ei-lo, ao colo o transporta e o põe na tenda,
  715. Onde em couro taurino o deita o pajem;
  716. Sacando-lhe a punhal a acerba farpa,
  717. O cruor tetro lava, e machucada
  718. Amargosa raiz à coxa aplica;
  719. Veda o sangue, a dor calma, o golpe seca. * * *

Nota a nota · 5 notas

v. 195–211De pequeno o educara o avô materno ⋯ Por seus concidadãos sono éreo dorme,
Em Tróia era permitido o casamento do sobrinho com a irmã de sua mãe: omitindo vários tradutores que Cisseu era o avô materno de Ifidamas, desaparece a indicação daquele costume. — Dizemos hoje férreo sono por morte; Homero dizia sono éreo ou brônzeo: a diferença vem de que os instrumentos de morte eram de bronze ou de certa liga de bronze, e posteriormente foram de ferro; sendo mui natural ser tirada a metáfora do metal dominante na guerra. M. Giguet nesta passagem trocou de metáfora; e Monti, pondo férreo sono, cometeu um repreensivel anacronismo.
↩ voltar à passagem, v. 195
v. 224Hasta em punho dos ventos roborada,
Diz M. Giguet: armé d’une javeline impetueuse comme la tempête; porém Monti: Colla salda dagli Euri asta nudrida. Sigo a Monti, ou antes o original, cujo verdadeiro sentido está nestas palavras da interpretação latina: tenens ventis auctam et firmatam hastam.
↩ voltar ao verso 224
v. 261Salta e encapela o ferrugíneo pego.
Ioeidéa significa roxo ou escuro ou também cor de ferrugem: a interpretação latina o tomou no último, e otimamente a meu ver; porque o mar, quando a atmosfera se carrega de eletricidade, fica às vezes ferrugíneo. Não se deve perder esta observação de Homero; o qual não era somente um assombroso poeta, mas um sábio conhecedor dos fenômenos da natureza, quanto se podia ser em seu tempo.
↩ voltar ao verso 261
v. 336Só bom no corno e rufião de moças,
O arco era às vezes de corno, e daqui vem que Homero e Virgílio amiúde ao arco chamam corno. Neste lugar deve-se conservar a palavra; porque, pretendendo-se meter a ridículo a Páris, isto melhor se consegue lembrando-lhe a vil matéria de que se servia na guerra. E parthenopipa creio que fica bem traduzido por rufião de moças; frase própria da ira de Diomedes.
↩ voltar ao verso 336
v. 413–495Já frechado, fugaz galhudo cervo ⋯ De embeber-se nas carnes desejosos.
Nem me agrada a comparação do valentíssimo Ulisses com um cervo tímido; nem ao depois, a do grande Ajax com um burro tardio, nem dos valorosos Troianos com fracos meninos: parecem-me não ser de bom gosto, por não se ajustarem com o objeto. Mas é admirável a pintura, que segue imediatamente à última comparação, de Ajax posto só entre os dois campos a aparar no seu largo pavês os tiros de todo o exército inimigo, desejosos de se lhe embeber nas carnes.
↩ voltar à passagem, v. 413
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