Surgindo a Aurora do Titônio leito
719 versos · 5 notas do tradutor
- Surgindo a Aurora do Titônio leito,
- O globo e os céus alumiava, quando
- Jove a nera Discórdia às naus despede;
- A qual da guerra sacudindo o facho,
- Parou no centro, na de Ulisses, donde
- Em tendas e baixéis ouvida fosse
- De Aquiles e de Ajax, que aos dois extremos,
- No seu valor seguros, alojavam.
- Brame horrentíssimo, e retine o grito
- Ao coração dos Dânaos, que incessantes
- Anseiam batalhar, e então mais doce
- Lhes era a pugna que a tornada à pátria.
- Clama e intima Agamemnon que se aprestem,
- E aêneo luz. Com prata finas grevas
- Primeiro às pernas afivela; aos peitos
- Loriga veste, que hóspede Ciniras
- Mandou-lhe em dádiva, ao troar em Chipre
- A nova de ir a Tróia a Grega armada:
- Compunha esmalte escuro dez estrias,
- Doze ouro, estanho vinte; azuis ao colo
- Três serpes iriando lhe trepavam,
- Como o curvo sinal que o Padre em nuvens
- Aos falantes gravou. De áurea tauxia
- E de áureo boldrié, fulgura a espada
- Em argêntea bainha. Adarga-o todo
- Estupendo pavês, maneiro e ingente,
- Com dez êneos debruns, com vinte umbigos
- Branquíssimos de estanho, e de aço bruno
- Disparava o do meio ameaçadora
- A feia Górgona e o Terror e a Fuga;
- De argêntea faixa ao longo se torcia
- Vivo dragão cerúleo, que recurvas
- Tinha cabeças três num só pescoço.
- Do elmo de quatro cones tachonado
- Crista lhe nuta horrenda e eqüina coma.
- Válidas eriagudas lanças duas
- Toma, cujo fulgor fere as estrelas.
- Palas de cima e Juno, em honra toam
- Do opulento senhor da grã Micenas.
- Prescrito a cada auriga ter em ordem
- Junto ao fosso os corcéis, ruidoso e imenso
- Antes d’alva o alarido, a pé remete
- Armados campeões, e atrás em fila
- Vêm vindo os carros. Do éter o Satúrnio
- Rumoreja, e de sangue orvalho chove,
- Presságio de que ao Orco iam ser muitas
- Almas de altos varões precipitadas.
- Além, num teso, o reto Polidamas
- Alinha os seus, e Eneias nume ao povo,
- Mais os três Antenóridas, Polibo,
- Nobre Agenor, inda solteiro Acamas
- A imortais parecido; à frente a enorme
- Rodela vibra Heitor: qual dentre as nuvens
- Sem véu nenhum reluz funesto Sírio,
- E alguma vez se ofusca; assim na prima
- Ala aparece o herói, percorre a extrema,
- Prevê, dispõe, comanda, em bronze esplende,
- Como o tonante Egíoco lampeja.
- Quando centeio ou trigo os segadores
- Em farta messe opostos vão ceifando,
- O agro juncam de espigas: tais se prostram,
- Com mútua horrenda clade, Argeus e Teucros;
- A desastrada fuga a nenhum lembra;
- Barba a barba, acometem como lobos.
- Lutuosa a Discórdia olhando exulta,
- Único deus que assiste: os mais, por cumes
- Do Olimpo, quedos em mansões formosas,
- O Anuviador acusam, que aos Troianos
- Destinava o triunfo; mas o Padre,
- Sem lhe importar, a parte e ledo mira
- Naus e cidade, os fulgurantes bronzes,
- O ferir e o morrer dos combatentes.
- Enquanto ia crescendo a manhã sacra,
- A turba tiros cai; mas, quando em vales
- De árvores decotar a mão sacia
- Lânguido o lenhador, e ávido anela
- Almo sustento e seu jantar prepara,
- Uns então pelos outros animados,
- Rompem com brio os Dânaos as falanges.
- Agamemnon precede, e abate o régio
- Maioral Bianor e Oileu cocheiro.
- Oileu se apeia e investe; mas na fronte,
- Sem que êneo casco o embargue, entrada lança
- Pelo osso, dentro o cérebro deturpa:
- Doma-lhe a audácia o rei. Nus amo e pajem
- Da túnica e loriga, os abandona.
- Foi-se a Ísios e Antifo Priameios,
- Legítimo e bastardo, ambos num coche:
- Era o bastardo auriga, Antifo ilustre
- Pelejador, os quais, pascendo ovelhas
- Em fraga Idea, atara em fléxeis vimes
- E o seu resgate recebera Aquiles:
- De hasta a Ísios o Atrida a mama fere,
- A Antifo de um fendente ao pé da orelha
- Derriba; eis despede-os das brilhantes armas,
- Reconhecendo-os, pois a bordo os vira,
- De quando o velocípede os prendera.
- Leão, que em toca assalta a corçozinhos,
- Fácil com dente rábido os lacera
- E as tenras almas tira; a mãe coitada,
- Perto embora, não cuida em protegê-los,
- Trêmula em denso carvalhal se acouta,
- Suando evade-se à cruenta fera:
- Assim, nenhum Troiano ousa acudir-lhes,
- Do Ímpeto Graio trépidos fugiam.
- O argólico leão corre a Pisandro
- E ao firme estrênuo Hipóloco, dois ramos
- De Antímaco valente, o qual, peitado
- Pelo esplêndido Páris, mais se opunha
- A ser entregue Helena ao flavo esposo;
- Toma-os num ponto e seus corcéis retidos,
- Pois largaram de susto insignes rédeas,
- No carro de joelhos implorando:
- “Vivos nos leva, Atrida, e aceita o preço
- Da remissão; que Antímaco, pai nosso,
- Cobre e ouro encerra e trabalhado ferro,
- E te há de encher de dádivas infindas,
- Se presos nos souber na Argiva armada.”
- Falam chorando ao rei com meigas vozes,
- E ele não meigas volve: “Que! sois filhos
- De Antímaco belaz, que em Tróica junta
- Votou morte a Grajúgenas legados,
- A Ulisses divinal e a Menelau?
- Ora pagai-nos a paterna injúria.”
- Disse, e um bote a Pisandro, pelos peitos,
- Lança do coche, ressupino o estira;
- Salta Hipóloco em terra, e a gládio o Aquivo
- Os braços e o pescoço lhe decepa,
- E como um tronco arbóreo à chusma o atira.
- Dali desfaz, com outros bem grevados,
- Hostes inteiras: a pedestre imola
- Pedestre, cavaleiro a cavaleiro;
- Pulvéreas nuvens ergue ericalçado
- O ruidoso tropel quadrupedante.
- O rei vai na carnagem prosseguindo
- E acorçoando os seus: como edaz fogo
- Em virgem mata, ao vário Eólio sopro,
- Árvores turbinoso extirpa e fende;
- Ele assim talha e estronca os fugitivos,
- E a nitrir, entre as filas derrotadas,
- Rojam árduos corcéis vazios carros,
- Tristes por seus cocheiros, que ali jazem
- Mais gratos aos abutres que às esposas.
- A Heitor fora do pó, dos tiros fora,
- Da carnívora ação, da gritaria,
- Jove entanto conduz: na ânsia de abrigo,
- Já de Ilo o prisco túmulo trasposto,
- À baforeira os Teucros se aproximam;
- Rugindo os segue o Atrida, e vai manchando
- Em cruor polvorento as mãos invictas;
- Retêm-se eles às portas junto à faia,
- Uns a espera dos outros. Qual em noite
- Borrascosa o leão pela campina
- Pávidos bois acossa, e ao mais tardonho
- Rasga a cerviz com navalhadas presas,
- Sangue lhe chupa e entranhas; Agamemnon
- Tal os encalça e o derradeiro prostra:
- Quem de costas caía, quem de bruços,
- Da régia lança aos furibundos golpes.
- O herói tocava os muros; e eis baixando,
- Na destra o raio, o pai de homens e numes
- No pino do Ida em fontes abundante
- Senta-se, a núncia ali-dourada chama:
- “Rápido, Iris: Heitor que o pé reprima,
- Enquanto à frente o maioral dos Gregos
- Cortar nos batalhões, mas sempre alente
- Os seus a resistir o embate horrível.
- Assim que o vulnerar ou dardo ou seta,
- Ao carro monte; eu lhe darei vitória:
- Há-de às instrutas naus levar o estrago,
- Té que o sol tombe e venha a sacra noite.”
- Aerípede a núncia do Ideu cume
- À santa Ílio descendo, o Priamides
- Encontra em pé no aparelhado coche:
- “Guerreiro na prudência igual a Jove,
- Isto ele aqui te ordena: o pé reprimas,
- Enquanto à frente o maioral dos Gregos
- Cortar nos batalhões, mas sempre alentes
- Os teus a resistir o embate horrível.
- Assim que o vulnerar ou dardo ou seta,
- Montes ao carro, e te dará vitória:
- Hás-de às instrutas naus levar o estrago,
- Té que o sol tombe e venha a sacra noite.”
- Some-se Íris. Heitor pula do coche,
- Dardos brande erifúlgidos, alas corre,
- Provocando a conflito: voltam face
- Os Teucros logo; intrépidos os Dânaos
- Cerram-se firmes, a peleja instauram;
- De encetá-la ansioso, rui o Atrida.
- Celestes musas, declarai-me agora,
- Que ilustre auxiliar ou que Troiano
- Com Agamemnon se arrostou primeiro?
- Alto e audaz o Antenórida Ifidamas,
- Na altriz criado pecorosa Trácia.
- De pequeno o educara o avô materno
- Cisseu, pai da pulquérrima Teano;
- O qual vendo-o na ovante puberdade,
- Para tê-lo consigo, deu-lhe a filha.
- Noivo, ao soar a empresa, vasos doze
- Tripulando, ancorou-os em Percope,
- Veio por terra socorrer a Tróia.
- De perto, fronte a fronte, já se investem:
- Agamemnon desfecha, e o dardo aberra;
- Ele por sob a coira à cinta o apanha,
- Com rijo pulso e esforço enterra a ponta,
- Que o bom talim não fura, mas qual chumbo
- Topando amolga em lâmina de prata.
- Com garras de leão, furioso o Atrida
- A haste a si puxa, arranca-lha, de um talho
- Cerceia-lhe o pescoço e os membros solve.
- Por seus concidadãos sono éreo dorme,
- Ah! longe da mulher que em flor obteve,
- Da qual nem se logrou nem prole havia,
- À qual cem bois doara e prometera
- Cabras e ovelhas mil dos seus pastios.
- Despiu-lhe as pulcras armas Agamemnon,
- Entrou com elas pela Argiva turba.
- Coon, claro Antenórida e o mais velho,
- Defunto o irmão, toldados sente os lumes;
- De esguelha sorrateiro escorregando,
- Além do cotovelo, no antebraço
- De Agamemnon a choupa enfia aênea:
- Ao golpe freme o rei, mas não desiste;
- Hasta em punho dos ventos roborada,
- Acomete a Coon, que de Ifidamas,
- Do mesmo pai gerado, ia o cadáver
- Arrastando e a gritar que o socorressem:
- Nisto, abaixo do escudo um bote acerta,
- Sob o fraterno corpo é degolado.
- Cheio o destino, ao Orco assim o Atrida
- Estes dois Antenóridas remete.
- Enquanto o sangue da ferida mana,
- A gládio alas descose, a dardo, a pedras;
- Assim que estanca e esfria, eis lancetadas
- Lhe vêm, não menos cruas que as da frecha
- Que despedem no parto as Ilitias,
- Filhas de Juno e mães de cruas dores.
- Monta, e magoado a seu cocheiro ordena
- Que aos baixéis o transporte, e vocifera
- Com voz tonante: “Príncipes e amigos,
- Toca-vos repelir das naus o assalto;
- Veda o padre bater-me o dia inteiro.”
- O auriga para a frota os crinipulcros
- Frisões verbera, que espontâneos voam;
- Sob os pés a poeira, a escuma aos peitos,
- O atribulado rei do prélio afastam.
- Ausente o Aquivo chefe, trovejando
- Heitor instiga os seus: “Troianos, Lícios,
- De perto exímios Dardanos, sede homens,
- A vossa intrepidez vos lembre, amigos:
- Foi-se o herói, e o Satúrnio dá-me a glória;
- Maior a alcançareis, aos feros Dânaos
- Remessai-me os solípedes ginetes.”
- Com isto inflama e os corações esforça.
- Como açula o monteiro a cães de fila
- Contra leão ou javali sanhudo,
- O atroz Marte Priâmeo contra os Graios
- Os Magnânimos Teucros açulava:
- Ao conflito se arroja impetuoso,
- Qual sibilante furacão das nuvens
- Salta e encapela o ferrugíneo pego.
- Que heróis de Heitor a cólera provaram,
- Ao cingi-lo o Supremo da vitória?
- Osseu logo, Agelau, Autono, Opites,
- Com Dolope de Clício, Oféltio, Esimno,
- Oros, e enfim o acérrimo Hiponoo:
- Passa ao depois às turmas. Quando em luta
- Zéfiro exasperado açouta as nuvens,
- Que vivo Noto imbrífero ajuntara,
- Ao multívago sopro incha a mareta,
- Remoinha e salpica a espuma os ares:
- Tantas vidas à plebe Heitor segava.
- Fora total o exício e irreparável,
- A fugida mortífera, a Tidides
- Se não clamasse Ulisses: “Que! Diomedes,
- Nosso brio esquecemos? oh! que opróbrio,
- Se o belígero Heitor nos toma a frota!
- Põe-te ao meu lado, amigo.” — “Sim, responde,
- Eu te sustentarei; mas pouco importa,
- Que Jove aos Teucros o triunfo apresta.”
- Disse, e a lançada à sestra mama expele
- Do assento ao rei Timbreu; no entanto Ulisses
- Lhe mata o pajem Molion deiforme.
- Da batalha estes fora à chusma investem,
- Como a lebréus dois javalis bravosos:
- O ímpeto e assalto novo a desbarata,
- E os de Heitor perseguidos já respiram.
- Num coche os nados brilham do adivinho
- Meropo de Percote; irmãos que o padre
- Vedou que entrassem na homicida guerra,
- E a quem surdos as Parcas atraíram:
- Priva-os Diomedes ínclito lanceiro
- Do alento e belo arnês, enquanto Ulisses
- Mata Hipódomo e Hipíroco e os despoja.
- Do Ida olhando o Satúrnio, iguala a pugna,
- E as mortes fervem. Lanceou Diomedes
- Na coxa o herói Agástrofo Peônio:
- Doeu-lhe dos corcéis faltar-lhe o efúgio;
- Que o pajem longe os tinha, e ele pedestre
- Acre avançava, até que a vida perde.
- Heitor o adverte, e às hostes brame e acorre;
- Diomedes mesmo enfia: “Ulisses, olha,
- Um turbilhão nos volve Heitor furente;
- Constância, amigo, o embate rechacemos.”
- Nisto, o pique despede, e não baldio,
- Bate-lhe na cabeça; mas do bronze
- Repulso o bronze, a cútis nem lhe esflora;
- Tríplice o tolhe o elmo, dom de Febo.
- Desaparece Heitor, e a poucos passos
- Cai ajoelhado, à forte mão sustido;
- Um tenebroso véu lhe enfusca os olhos:
- Pela Teucra vanguarda ia Diomedes
- Seu pique recobrar no chão pregado,
- Quando em si torna Heitor e ao carro pula,
- No tropel se confunde e o transe evita.
- E o Grego, em reste a lança: “Inda escapaste,
- Cão, do corte letal salvou-te Apolo,
- Que entre o fragor das armas sempre invocas.
- Hás-de, ajude-me um deus, comigo haver-te;
- Outros por ti mo pagarão agora.”
- Ao Peônio deitava-se, eis que o tiro
- Arma o taful da emadeixada Helena,
- Atrás do cipo tumular do antigo
- Ilo, Dardânio padre: o herói despia
- Do hasteiro extinto Agástrofo a couraça
- Vária e o broquel e o grave capacete;
- O arco dispara, a vira não desmente,
- Que ao pé destro as falanges atravessa
- E enterra-se no chão. Rindo ufanoso
- Páris sai da emboscada: “Estás ferido,
- Nem me falhou a seta: oh! se te houvera
- Profundado as entranhas! De ti, monstro,
- Respiravam Troianos, que te hão medo,
- Assim como a leão berrantes cabras.”
- E Diomedes impávido: “Insolente,
- Só bom no corno e rufião de moças,
- Vem cara a cara, e o arco e pleno coldre
- Verás se te aproveitam: vanglorias
- De arranhares-me um pé? não me inquieta,
- Foi de fêmea ou criança espinho leve;
- Mossa não faz o golpe de um cobarde.
- Meu dardo, sim, é ruína do em que toca,
- É pranto e mágoa da carpida esposa,
- De filhos desamparo; em sangue a terra
- Avermelha e apodrece; em torno ao morto
- Mais que a mulheres os abutres chama.”
- Põe-se Ulisses diante; ele se encosta
- No amigo e extrai a farpa: em todo o corpo
- Sofre agras dores; monta, e angustiado
- Manda ao cocheiro que o transporte a bordo.
- Dos seus abandonado Ulisses resta;
- Suspira e fala com sua alma grande:
- “Ai! que farei? Se à multidão por medo
- Me esquivo, é mau; pior, se aqui me apanham,
- Pois Jove há dispersado os outros Graios.
- Mas que indago, minha alma? Eu sei que é torpe
- O combate largar; deve um guerreiro
- Com firmeza ou ferir ou ser ferido.”
- Enquanto em si discursa, as Tróicas turmas
- Sobrevêm adargadas e o torneiam,
- Dentro a peste acolhendo. Se em balbúrdia
- Flóreos moços e cães javali caçam,
- Da mata surde a fera, os alvos dentes
- Nas recurvas queixadas amolando;
- Apesar do rangido e aspecto horrendo,
- Férvida a chusma o ataca: assim, de Ulisses
- Divino em cerco, os Troas o acometem.
- Ei-lo de hasta, ao famoso Deiopite
- O ombro fisga, a Toon e Enono estende,
- E a Cersidamas, ao pular da sela,
- Por debaixo do escudo o umbigo ofende;
- No pó tomba o infeliz, de palma em terra.
- Deixa-os, e agride o Hipásida Caropo,
- De Soco generoso irmão germano;
- Soco deiforme a socorrê-lo avança,
- Perto brama: “Doloso e infatigável,
- Filhos ambos de Hipaso, ou tens a glória
- De mortos hoje nos despir as armas,
- Ou desta minha ao bote a vida exalas.”
- Esgrime, e a choupa a lúcida rodela
- Fura e a mesma couraça artificiosa,
- Rasga-lhe as carnes das costelas: Palas
- As vísceras preserva. O golpe Ulisses
- Mortal não o sentiu; recua um pouco:
- “Ah! fraco, diz, soou-te a hora extrema:
- De progredir no prélio me tolheste;
- Mas desta lança o gume, hoje to afirmo,
- Dar-te-á morte escura e a mim triunfo,
- Tua alma ao rei da lúgubre quadriga.”
- Soco retrocedia, quando a ponta
- Finca-se atrás na espádua e sai aos peitos;
- Rui com fracasso; o vencedor o insulta:
- “Soco Hipasíada egrégio cavaleiro,
- Do fim letal, ah! vil, não te evadiste;
- Pai nem piedosa mãe te cerra os olhos;
- De asas batendo-te, aves de rapina
- Te-hão de cruas tragar: morto eu, de Aquivos
- Respeitosos terei funéreas honras.”
- Aqui, da pele e do copado escudo
- O dardo extrai que lhe vibrara Soco:
- Dor curte acerba e lhe borbota o sangue;
- Ao vê-lo, os Teucros a exortar-se acodem;
- Retrograda e alça a voz; o grito ouviu-lhe
- O belicoso Menelau três vezes,
- E volto a Ajax: “Ó Telamônio excelso,
- Do Laércio me soa o aflito brado,
- Como de quem labora em grande afronta:
- Rompamos pela turba a defendê-lo.
- Temo que só, por tantos apertado,
- Pereça o herói, com mágoa dos Aquivos.”
- Marcha, e após ele o divinal guerreiro;
- Acham de Jove o aluno entre os contrários.
- Já frechado, fugaz galhudo cervo
- Ao caçador se esquiva, enquanto o sangue
- Tépido escorre e movem-se-lhe as pernas,
- Té que o doma a ferida, e em monte umbroso
- Crus ávidos chacais vão lacerá-lo;
- Nisto, um leão rebenta formidável,
- Que derrama os chacais e a presa toma:
- Assim bravo tropel cercava o astuto
- Herói, que de hasta em punho o amargo dia
- Repulsa audaz; mas rui o Telamônio
- De pavês torreante, e foge a turba.
- A Ulisses Menelau sustém nos braços,
- E o coche entanto o pajem lhe aproxima.
- Remete Ajax ao Priameio espúrio
- Dóriclo e o mata; a Pândaco vulnera,
- Mais a Lisandro e Píraso e Pilarte.
- Quando o imbrífero nume das montanhas
- Torrentes rola, a cheia o campo inunda,
- Secos leva lariços e carvalhos,
- E o lodo arroja ao mar: Ajax destarte
- Vai cavalos talhando e cavaleiros.
- Isto ignorava Heitor, à esquerda e às ribas
- Do Escamandro a pugnar, onde as cabeças
- Bastas caindo, há grita imensa em torno
- Do grande Pílio e Idomeneu mavórcio.
- Lá, de hasta e carro, Heitor passeia ardido,
- E hostes brilhantes façanhoso arrasa;
- Mas brecha entre esses bravos não se abrira,
- Se o raptor da pulcrícoma não fere
- Com trifarpada seta no ombro destro
- Ao belaz Macaon pastor de povos.
- Desanimam-se os Dânaos, receando,
- Inclinado o conflito, ali perdê-lo;
- E à pressa Idomeneu: “Monta, Nelides,
- Honra da Grécia; a Macaon recolhe,
- Para a frota os ungüíssonos dirige:
- Por muitos vale um médico; ele os dardos
- Extrai, unge a ferida e acalma as dores.”
- Sem demora Nestor sobe a seu carro,
- E do exímio Esculápio o digno filho;
- Toca os ginetes, que de grado arrancam,
- De voltar para as naus contentes voam.
- Do coche Hectóreo, Cebrion dispersos
- Avista os seus e clama: “Aqui num cabo
- De horríssona batalha combatemos,
- E os mais Teucros, Heitor, baralha e espanca-os
- O Telamônio Ajax, que reconheço
- Pelo imenso pavês. Lá galopemos
- Onde o estrondo é maior, onde a carnagem
- De équites e peões é mais ferina.”
- Ei-lo estala o chicote, e os crinipulcros,
- Sentindo o açoute, a Gregos e a Troianos
- Corpos e escudos rápido calcavam:
- Eixo e caixa de sangue afeiam gotas
- Que das patas e rodas se espargiam.
- Heitor como arde por cortar na turba!
- Derrota, esgrime, nem descansa o braço,
- A gládio e lança e pedra assola e estraga;
- Porém do Telamônio o encontro evita.
- A Ajax do Olimpo Jove incutiu medo:
- De setêmplice tarja às costas fica;
- Atento à chusma, atônito se aparta,
- Feroz volta-se, e lento o passo alterna.
- Cães e campinos, em noturna vela,
- Famélico leão do cerco expedem,
- Vedando-lhe o cevar-se em pingues reses;
- Em vão remete, que, de audazes pulsos
- Dardos voando e fachos, ruge iroso
- Recua, e n’alva se retira mesto:
- Assim, tristonho e invito, Ajax temendo
- Pelas Aquivas naus, deixava os Teucros.
- Apesar dos meninos que o fustigam,
- Dentro a seara tosa asno tardio;
- Sem que fracas pauladas o inquietem,
- Só deixa o pasto quando a fome extingue:
- Tal, dos golpes zombava o Telamônio
- Dos valorosos Teucros e aliados;
- Lembra-lhe o brio próprio, encara ou foge
- Contendo as hostes de assaltarem juntas
- A Grega frota. Em meio ele só brame
- Dos exércitos ambos; chovem tiros,
- Fincam-se no pavês, muitos na areia,
- De embeber-se nas carnes desejosos.
- Eurípilo Evemônio, ao vê-lo opresso,
- Corre com brava ardente lança ao cabo
- Apisaon Fausiade, por baixo
- Do diafragma o fígado lhe vara
- E afrouxa-lhe os joelhos. A apear-se
- Vai por despi-lo, e o arco atesa Páris;
- Na destra coxa, a Eurípilo vibrada,
- Quebra-se a frecha e cruas dores causa.
- Ele aos seus revertendo ilude os fados,
- E forte vocifera: “Aqueus e amigos,
- Alto! afastai de Ajax o escuro dia;
- Duvido escape da tormenta horríssona,
- Mas socorrei de Telamon o filho.”
- De escudo aos ombros e hasta em reste, os sócios
- Junto ao ferido apinham-se; a encontrá-los
- De fronte Ajax reverte; em mó carregam,
- Pelo tropel qual fogo iam lavrando.
- Suadas ao levar Neleias éguas
- A Macaon e o dono, o Velocípede
- Reconhece-os da popa, donde a lide
- E a fuga lagrimosa contemplava;
- Grita ao Menécio, que parelho a Marte,
- Princípio do seu mal, da tenda assoma:
- “Que me queres, Aquiles, que me ordenas?”
- O amigo então: “Pátroclo da minh’alma,
- Intolerável peso oprime os Dânaos,
- E ante mim os figuro suplicantes.
- Presto, a Nestor pergunta, ó caro a Jove,
- Qual dos chefes transporta golpeado;
- Pelo talhe o Asclepíade parece;
- Rápida biga seu semblante encobre.”
- Dócil o bom Menécio ao companheiro,
- Entre o campo corria e as naus Aquivas.
- Nestor e Macaon já n’alma terra
- Apeiam-se, e desjunge antigo pajem
- Eurímedon o carro; as vestes ambos
- Na praia do suor ao vento enxugam:
- Vão-se à tenda, em camilhas se recostam.
- Bebida apresta a nítida Hecamede,
- Filha do grande Arsímoe, que o Gerênio
- Por exceder a todos nos conselhos,
- Houve em Tênedos, presa do Pelides.
- Põe de azulados pés à lisa mesa
- Flor de sacra farinha em disco aêneo,
- Recente mel e um pico de cebola;
- Põe copa linda, que trouxera o velho,
- De cravos de ouro, e de ouro um par de pombos
- Em torno a cada uma de asas quatro,
- Com dois no fundo, ali se apascentavam:
- Movê-la outrem sem custo não pudera,
- E cheia o velho facilmente a erguia.
- A divinal donzela Prânio vinho
- Dentro mescla, e raspado em êneo ralo
- Queijo caprino e uns pós de branco trigo;
- E os conforta com isto e os dessedenta.
- Já se recreiam conversando, e à porta
- A um nume igual apareceu Pátroclo:
- Em pé Nestor, condu-lo pela destra
- Ao resplêndido escano; mas o núncio
- Renui dizendo: “Ancião de Jove aluno,
- Não me assento; é terrível quem me envia
- Para saber qual fosse o vulnerado;
- Vejo que é Macaon, a Aquiles torno.
- Tão colérico humor tu bem conheces:
- Em seus furores o inocente culpa.”
- “Ah! clama o velho, sente Aquiles hoje
- Dos vulnerados pena? O luto ignora
- Do campo inteiro? A bordo os mais estrênuos
- À mão tente ou de longe estão feridos:
- A pique o Atrida e Ulisses, mas frechados
- Na coxa Eurípilo e no pé Tidides;
- Arco a farpa enviou contra este amigo.
- Forte em vão, sem piedade espera Aquiles
- Que hostil fogo, apesar do esforço nosso,
- Consuma as naus, e pereçamos todos?
- “Oh! pubente fosse eu robusto e ágil,
- Qual dos Epeus e Pílios na discórdia
- Pelo armento roubado em represália,
- Quando o Hipiróquio Itimoneu, que em Élis
- Habitava, abati! sob o meu dardo,
- Ao defender seus bois, caiu na frente;
- Bravia a tropa, derrotada, aos nossos
- Tudo largou: de ovelhas greis cinqüenta,
- Iguais vacuns manadas, e não menos
- Varas de porcos e de cabras fatos;
- De éguas baias o triplo e seus mamotes.
- Folgou Neleu de noite à nossa entrada,
- Porque estreei novel com tais proezas.
- Pregões chamaram n’alva a quem devia
- Elide gado, e os príncipes a presa
- Pelos muitos queixosos dividiram.
- Como Hércules, talando as nossas terras,
- Os melhores matara, e eu só restasse
- Dos filhos doze de Neleu valentes,
- Da míngua nossa e dano os lorigados
- Ultrajantes Epeus escarneciam:
- Meu pai quatro frisões mandara aos jogos
- Disputar uma trípode, e os reteve
- O rei de Elide Augeias; triste o auriga
- Veio contá-lo. Então Neleu, da afronta
- Picado, reservou com seus pastores
- Em boiadas e greis trezentas reses,
- Justa porção distribuindo ao povo;
- Mas ao terceiro dia, ao celebrarmos
- Pela cidade aos numes sacrifícios,
- Tropa eqüestre e pedestre eis nos assalta,
- E ambos os Moliões, inda mocinhos,
- Pouco versados em Mavórcias lides.
- A íngreme Trioessa à margem fica
- Do Alfeu, na extrema da arenosa Pilos:
- Na ânsia de sovertê-la, a sitiavam;
- Mas de noite, a campina ao traspassarem,
- Desce a Pilos Minerva, incita e ajunta
- Ávida gente a pelejar disposta.
- Neleu me crê bisonho e o coche oculta;
- E a pé mesmo, entre os nossos cavaleiros,
- Me assinalei, guiado por Tritônia.
- Deságua o Minieio e banha Arena,
- Onde a Aurora esperávamos celeste
- E afluíam peões. O dia em meio,
- Ante o Alfeu todo o exército, ao Supremo
- Feitas gratas ofrendas, imolamos
- Um touro ao santo rio, outro a Netuno,
- Juvenca indômita à cerúlea Palas,
- E ceiamos em ranchos e dormimos
- A borda armados sempre. Aquele assédio
- Vastadores Epeus mais estreitavam;
- Porém com Márcio arrojo os prevenimos:
- Mal assomava o Sol, a Jove e a Palas
- A suplicar, travamos a batalha.
- Eu por Múlio a encetei, genro de Augeias,
- Que a filha primogênita esposara
- Flava Agamede, a qual da terra inteira
- As salutares plantas conhecia:
- De um bote, ao me encarar, na areia o estiro;
- Salto-lhe ao coche, e o troto antessignano.
- Vendo os Epeus dos équites caído
- O chefe mais belaz, sem ordem fogem.
- Qual furacão ruí de lança em punho;
- Coches tomei cinqüenta, e a cada coche
- Derribei dois varões que o pó morderam.
- De Actor e Molion prostara os filhos,
- Se, envoltos em negrume, o avô Netuno
- Amplo-dominador os não salvasse.
- Deu-nos vitória o Céu: matando fomos
- E armas colhendo no alastrado campo;
- À cereal Buprásio, à pétrea Olênia,
- E Alésio até Colona, os perseguimos,
- Donde gente e corcéis retirou Palas;
- E um lá inda imolei. De volta a Pilos,
- A Jove entre imortais rendiam graças,
- Entre homens a Nestor. Fui tal no esforço.
- “Mas para si guarda o valor Aquiles;
- Há de pesar-lhe o exército perder-se.
- Quando, amigo, eu e Ulisses pela Acaia
- Levantávamos tropas, no agasalho
- Das casas de Peleu, de Aquiles junto
- Nós te encontramos e a teu pai Menetes:
- Num claustro o ancião Peleu bovinas coxas
- Ao tonante queimava, de áurea taça
- Roxo vinho entornado em rubras chamas;
- Vós preparáveis suculentas carnes.
- Alvoroçado Aquiles, pela destra
- Nos trouxe do vestíbulo, e assentados
- Nos regalou com pródiga hospedagem.
- Repleta a fome e a sede, a minha arenga
- O ardor vos avivou. Peleu de acordo,
- Vimo-lo ao filho prescrever que fosse
- Pugnaz, constante, superior a todos.
- O Actórides Menetes, a Agamemnon
- Ao te expedir, clamava aos olhos nossos:
- — Meu filho, em geração te excede Aquiles,
- Sem par na valentia; és mais idoso,
- Mais prudente: amoesta-o, e será dócil. —
- Tu paternos preceitos olvidaste;
- Ora, adverte esse herói: quem sabe se hoje
- Um nume há de ajudar-te a comovê-lo?
- Fazem muito os conselhos da amizade.
- E se um presságio o espanta, e à mãe augusta
- Jove algum declarou, mande-te ao menos
- Dos Mirmidões à testa a esperançar-nos.
- Seu belo arnês te empreste; que, os Troianos
- Contendo a semelhança, da fadiga
- Os mavórcios Aqueus talvez respirem,
- E um respiro aproveita. A frescas tropas,
- No primo choque, os inimigos lassos
- Fácil é rechaçar das naus e tendas.”
- Disse; ao longo da praia, comovido,
- Corre em busca do Eácida Pátroclo.
- À nau se apropinquou do sábio Ulisses,
- Onde era a cúria e o foro e as santas aras:
- Ia ali da frechada coxeando
- O destemido Eurípilo Evemônio,
- Em suor testa e espádua, negro o sangue
- A merejar, mas inconcusso o peito.
- Exclamou condoído o herói Menécio:
- “Ai! tristes nossos príncipes e cabos,
- Que assim, longe da pátria e amigos lares,
- Cães cevareis em Tróia! inda os Aquivos,
- Dize, aluno de Jove, inda resistem,
- Ou da lança de Heitor serão domados?”
- E ele: “Excelso Pátroclo, é sem refúgio,
- Vão cair ante a frota os Gregos todos.
- Quantos bravos havia estão feridos;
- Cresce a força Troiana e cresce a fúria.
- Mas tu salva-me e leva ao meu navio;
- Tira-me a seta, em banho morno a chaga,
- Asperge os lenimentos que de Aquiles
- Aprendeste, e que afirmam lhe ensinara
- Quiron dentre os Centauros o mais justo:
- Pois dos médicos dois, se não me engano,
- Na tenda sua Macaon de auxílio
- De mão hábil carece, e Podalírio
- O atroz Marte sustém no campo Teucro.”
- “Herói, torna o Menécio, que nos cumpre?
- Que será? Com recado para Aquiles
- Vou do Gerênio, dos Argeus custódio;
- Mas deixar-te não quero ao desamparo.”
- Ei-lo, ao colo o transporta e o põe na tenda,
- Onde em couro taurino o deita o pajem;
- Sacando-lhe a punhal a acerba farpa,
- O cruor tetro lava, e machucada
- Amargosa raiz à coxa aplica;
- Veda o sangue, a dor calma, o golpe seca. * * *