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IlíadaLivro XVIII
LivroXVIII

Arde a peleja, e Antíloco despede.

526 versos · 3 notas do tradutor


  1. Arde a peleja, e Antíloco despede.
  2. No já completo a meditar, Aquiles
  3. Ante as naus esporadas suspirava
  4. Dentro em sua alma nobre: “Hui! por que os Dânaos
  5. Turbados pelo campo as naus procuram?
  6. É que os numes o trago me preparam
  7. Por minha mãe predito; ela afirmava
  8. Que mão Troiana ao Mirmidon mais forte
  9. Roubaria, inda eu vivo, a luz diurna:
  10. Certo jaz morto o mísero Menécio!
  11. Cá voltar o mandei, remoto o incêndio,
  12. E nunca expor-se do Priâmeo à fúria.”
  13. Enquanto assim pensava, o bom Nestório
  14. Chega-se, em quentes lágrimas lavado:
  15. “Ai! Pelides sem-par, ouve o mais triste
  16. Fúnebre anúncio, que oxalá não fora:
  17. Nu disputa-se o corpo de Pátroclo,
  18. E Heitor brilhante lhe possui as armas.”
  19. O herói súbito enubla-se: aos punhados,
  20. De pó suja a cabeça e o rosto afeia,
  21. Denigre em cinza a túnica olorosa;
  22. Carpindo e lacerando as gentis faces,
  23. Por grande espaço o grande corpo estira.
  24. As que ele cativara e o seu Pátroclo,
  25. Mestas lamentam, saem fora e o cercam,
  26. A punhos contundindo o seio belo,
  27. Laxos os membros. O Nestório aflito
  28. Chora, nas suas tendo as mãos de Aquiles,
  29. Receia que este a ferro se degole.
  30. O urrar medonho ouviu-lhe a augusta madre
  31. Com seu pai no áqueo pego, e ulula e geme.
  32. Logo a torneiam Glauca, Toa, Acteia,
  33. Neseia, Espio, Cimódoce e Talia,
  34. Olhipulcra Hália, Jera, Agave e Doto,
  35. E Melita e Cimótoe, e Linoria,
  36. Proto, Ferusa, Dinamene e Dóris,
  37. Calianira, Anfínome, Dexamene,
  38. Nemerte, Apseude, Calianassa, Anfítoe,
  39. Panopéia, e a famosa Galateia,
  40. Mais Climene, Oritia, Ianassa e Mera,
  41. E Janira e Amatia auricomada;
  42. Quantas Nereidas há nos fundos mares
  43. Enchem-lhe a gruta argêntea, os peitos ferem.
  44. Tétis seu luto exala: “Irmãs, as penas
  45. Sabei que me angustiam. Miseranda!
  46. O maior dos heróis pari mesquinha!
  47. Criado como planta em horto ameno,
  48. Forte medrava e belo, quando a Ílion
  49. Mandei-o em naus rostradas. Ah! mais nunca
  50. Posso abraçá-lo no Peleio alcáçar!
  51. Enquanto à luz do sol inda boceja,
  52. Não me é dado abrandar seus pesadumes;
  53. Mas parto a ver na ausência dos combates
  54. Que desgosto assaltou meu caro filho.”
  55. Então saiu da gruta, e as mais com ela
  56. Vão lagrimosas dividindo as vagas;
  57. Sobem de Tróia à praia, onde varadas
  58. As numerosas naus de Aquiles eram.
  59. Do imo ele soluçava, e a deusa um grito
  60. Soltando agudo, abraça-lhe a cabeça,
  61. Dorido o coração: “Tu choras, filho?
  62. Que amargor sentes? Fala, não mo encubras.
  63. Fez Jove o que pediste alçando as palmas:
  64. Opressos, rebatidos e acuados,
  65. Os Aquivos sem ti por ti suspiram.”
  66. “Sim, minha mãe, responde gemebundo;
  67. Mas que prazer terei, se é morto aquele
  68. Que eu tanto como a vida apreciava?
  69. Heitor, ao trucidá-lo, da armadura
  70. O despojou, pasmoso dom celeste
  71. Feito a Peleu, no dia em que os Supremos
  72. No toro de um mortal te colocaram.
  73. Oh! Também com mortal fosse ele unido,
  74. E entre as marinhas déias habitasse!
  75. Não te causara dor imensa um filho,
  76. Que não hás-de rever no lar paterno.
  77. Nem respirar o peito me consente
  78. No meio de homens, sem que a lança minha
  79. A alma arranque de Heitor, vingue a Pátroclo.”
  80. “Ah! torna Tétis alagada em pranto,
  81. Que dizes, filho meu? Se Heitor sucumbe,
  82. Tens iminente o fado.” — “Pois morramos,
  83. Diz soluçando Aquiles, já que ao sócio,
  84. Que tão longe expirou do pátrio ninho,
  85. Remir do bronze hostil não me era dado;
  86. Já que voltar a Ftia me é defeso;
  87. Já que a tantos Grajúgenas amigos
  88. Das mãos Hectóreas preservar não pude;
  89. Já que, excedendo na peleja a todos,
  90. Quanto no parlamento alguns me excedem,
  91. Fiquei-me aqui da terra inútil peso.
  92. Dos numes, dos mortais, vá-se a discórdia,
  93. Vá-se a ira que cega ao mesmo sábio:
  94. Ela mais doce do que o mel estila,
  95. Evapora-se e cresce e os peitos incha;
  96. Tal ma acendeste, poderoso Atrida.
  97. Mas deslembremos a cruel injúria,
  98. Submissos à fatal necessidade.
  99. Do meu Pátroclo ao matador já corro,
  100. Embora os Céus a morte me acelerem.
  101. Hércules a esquivou, tão caro a Jove?
  102. A Parca e Juno em cólera o domaram.
  103. Eu jaza onde cair, se é tal meu fado;
  104. Porém colha primeiro ingente glória.
  105. De seio airoso as Dardanas e Teucras,
  106. Em mestos ais, das faces delicadas
  107. Às mãos ambas as lágrimas enxuguem;
  108. Sintam que eu repousava. Nem mo empeças,
  109. Que nisto, minha mãe, não te obedeço.”
  110. A Argentípede logo: “É bom, meu filho,
  111. Que dos consócios teus o exício afastes:
  112. Ora, a exultar, o insigne Heitor ombreia
  113. A ênea tua armadura coruscante;
  114. Mas não exultará sobejo tempo.
  115. Tu não entres no marte, sem que eu volte
  116. Aos olhos teus: ao rei Vulcano parto;
  117. Haverás na arraiada o que precisas.”
  118. E às Nereidas virou-se: “Ao fundo aquoso
  119. Ide, irmãs, e a Nereu contai meus males:
  120. Ao celso fabro subo, que a meu filho
  121. Tempere e forje lampejantes armas.”
  122. Cessa; as Nereidas súbito mergulham,
  123. E ao celso Olimpo se encaminha Tétis.
  124. Fremindo às praias do Helesponto os Gregos,
  125. Do fero Heitor batidos, se acolhiam,
  126. Sem livrarem Pátroclo dentre as lanças;
  127. Pois, como chama, eqüestres e pedestres
  128. E o fulmíneo Priâmeo o perseguiam:
  129. Três vezes pelos pés ávido o agarra
  130. E brama aos seus; de esforço revestidos,
  131. Os Ajax vezes três do morto o expelem:
  132. Ele ardido, ora investe e escala as turmas,
  133. Ora tem-se a bradar, mas não recua:
  134. Sempre aos dois campeões tenaz resiste,
  135. Qual faminto leão se aferra à presa,
  136. Apesar dos pastores que a vigiam.
  137. E glorioso a rastos o levara,
  138. Se, da corte celeste às escondidas,
  139. De Juno por mandado, não descesse
  140. A núncia procelípede ao Pelides,
  141. A quem rápido clama: “Eia, ó dos homens
  142. O mais terrível, a Pátroclo salva,
  143. Por cujo o corpo acérrimos contendem,
  144. Mortes reciprocando, uns a retê-lo,
  145. Outros querendo a Pérgamo arrastá-lo;
  146. Heitor mormente, que num poste almeja
  147. Espetar-lhe a cabeça decepada.
  148. Sus, de ócio basta; pese-te a vergonha
  149. De jogo o amigo ser aos cães de Tróia:
  150. Opróbrio é teu, se ultrajam-lhe o cadáver.”
  151. “Iris, que deus, pergunta-lhe o Peleio,
  152. Te envia aqui?” — Responde-lhe a Taumância:
  153. “Do Satúrnio a consorte soberana.
  154. Sublime ele o não sabe, ou qualquer outro
  155. Que habite os cumes do nevoso Olimpo.”
  156. “Como, Aquiles tornou, pelejar posso?
  157. Eles me têm o arnês; a mãe querida,
  158. Antes que volte, proibiu-me a guerra:
  159. Prometeu-me trazer Vulcânias armas.
  160. E não sei que outras vista, exceto o escudo
  161. Do Telamônio Ajax; mas este, creio,
  162. Pelo Menécio luta e a morte espalha.”
  163. “Oculto não nos é, replicou Íris,
  164. Que roubaram-te o arnês: mesmo sem ele
  165. Vai-te ao fosso e aos Troianos apareças;
  166. Da ação talvez atônitos se abstenham,
  167. E os Gregos marciais do afã respirem:
  168. O mais breve respiro é proveitoso.”
  169. Dali sumiu-se. Ergueu-se o divo Aquiles;
  170. A grã Minerva a égide franjada
  171. Pôs-lhe aos válidos ombros, de áurea nuvem
  172. Refulgente o coroou: qual monta o fumo
  173. De ilha distante e praça, em morte horrível
  174. Dos cidadãos no dia propugnada,
  175. Onde, ao cadente Sol, nas atalaias
  176. Acendem fogaréus, por que os vizinhos
  177. Tragam naval socorro; assim da nobre
  178. Cabeça o resplendor feria os ares.
  179. Ei-lo ante o fosso, obediente à madre,
  180. Sem mesclar-se no prélio, alteia o grito,
  181. E o da mesma Tritônia inda o reforça,
  182. Pelos Teucros lavrou tumulto e espanto.
  183. Como o clangor da tuba, em duro cerco
  184. De hostes exiciais, o alarma soa,
  185. A voz soou de Aquiles érea e clara:
  186. Treme o inimigo; retrocedem coches,
  187. Dano os frisões comados pressagiam;
  188. Assustam-se os aurigas, do Pelides
  189. Ao ver sobre a cabeça o fogo horrendo,
  190. Mais por Minerva cérula inflamado.
  191. Vezes três sobre o fosso grita Aquiles,
  192. Três debandam-se os Teucros e aliados;
  193. Na confusão, feridos por seu bronze,
  194. Nos coches próprios doze heróis perecem.
  195. Ledos os Dânaos a Pátroclo salvam,
  196. E deposto em seu leito, em roda o choram
  197. Amigos seus. O Eácida com estes
  198. Mestas lágrimas verte, contemplando
  199. No féretro a jazer dilacerado
  200. O fido sócio que enviara à pugna,
  201. Para não mais o receber com vida.
  202. O infadigável Sol, da augusta Juno
  203. Constrangido, mergulha no oceano,
  204. E hão do cruel conflito os Gregos trégua.
  205. Os Troianos também, cessada a lide,
  206. Os tiros desjungindo a ceia esquecem
  207. E em pé se ajuntam, que nenhum se assenta;
  208. Inda os assusta o aparecer Aquiles,
  209. Do funesto combate há muito fora.
  210. A mão toma o Pantóida, único atento
  211. Ao passado e ao futuro, à mesma noite
  212. Nascido com Heitor, seu companheiro,
  213. Mais eloqüente, se inferior na lança;
  214. Cordato orou: “Cautela agora, amigos:
  215. Não se aguarde no campo a ruiva aurora;
  216. Toca a entrar na cidade, é longe o muro.
  217. Irado esse homem contra o fero Atrida,
  218. Menos acres os Dânaos combatiam;
  219. Ledo eu cá pernoitava, na esperança
  220. De rendermos as naus dupliagitadas:
  221. Hoje me temo do veloz Pelides.
  222. Bravo como é, não ficará na liça
  223. Do esforço marcial de Aqueus e Troas;
  224. Irá dentro as mulheres disputar-nos.
  225. Segui-me, isto não falha, eia, marchemos.
  226. A alma noite o retém: se aqui nos colhe,
  227. Crástino alguém terá de exprimentá-lo.
  228. Feliz do que se escape em Ílio santa!
  229. Muitíssimos serão de abutres pasto.
  230. Nunca eu ouça tal nova! Em que vos pese,
  231. A concordar-se, à noite nos munamos
  232. De valioso conselho: propugnemos
  233. Das torres nossas, reforçando as portas
  234. Com travessas e barras bem travadas.
  235. N’alva aos merlões em armas resistamos:
  236. Ser-lhe-á mais árduo contender conosco;
  237. Se as praias deixa, voltará confuso,
  238. Saciados os corcéis de vãos tentames
  239. E correrias, sem pedir-lhe o peito
  240. A cidade assolar: antes que o faça,
  241. De vagabundos cães será tragado.”
  242. Austero Heitor: “Despraz-me, Polidamas,
  243. Na muralha encerrarmo-nos de novo:
  244. Não vos cansais de estardes clausurados?
  245. De ouro, de bronzes rica, humanas línguas
  246. De Príamo a cidade apregoavam;
  247. Mas vender as alfaias e os tesouros
  248. Foram-se à Frígia, foram-se à Meônia,
  249. Depois de infesto Júpiter: e agora,
  250. Que rebater e encurralar os Gregos
  251. Ele outorgou-me... Insano, cal-te e cessa;
  252. Ninguém há que te escute, e eu não permito.
  253. Obedecei-me à risca: ceie em ranchos
  254. Todo o exército; vele homem por homem,
  255. Rondem, patrulhem. Quem receia e cuida
  256. Perder seus bens, à tropa os distribua;
  257. É melhor que ela os goze do que os Dânaos.
  258. Ao luzir da manhã, batalha seva
  259. Excite-se ante as naus. Se o divo Aquiles
  260. Surge, o caso talvez será mais grave:
  261. Do horríssono conflito eu não lhe fujo;
  262. Hei-de firme arrostá-lo, e um de nós haja
  263. Claro triunfo. A todos Marte ajuda,
  264. E o que matar espera às vezes morre.”
  265. Cegos os Teucros por Minerva, aplaudem
  266. Este fatal arbítrio, e o bom rejeitam
  267. Que expendera o sisudo Polidamas.
  268. Ceia depois o exército. — Os Aquivos
  269. Lastimando a Pátroclo a noite gastam,
  270. E ao luto a suspirar o herói preside,
  271. Postas as sevas mãos do amigo aos peitos.
  272. Qual barbudo leão, que à densa furna
  273. Chega tarde e acha faltos os cachorros,
  274. Triste e em sanha se atira pelos vales,
  275. Buscando o roubador e os seus vestígios;
  276. Tal geme e brada aos Mirmidões Aquiles:
  277. “Céus, que promessa vã! Dentro em seu paço
  278. Ao grã Menetes segurei que ovante
  279. A Opunta voltaria o filho amado,
  280. Da rasa Tróia com porção da presa!
  281. Nem sempre cumpre Jove humanos votos.
  282. Ambos fadado está que rubriquemos
  283. A mesma terra; e aqui terei jazigo,
  284. Sem que à mãe deusa torne e aos pátrios lares.
  285. Já que após ti, Menécio, à campa desço,
  286. Teus funerais espaço, até que eu mesmo
  287. Tire ao teu matador a vida e as armas,
  288. E em desafogo Teucros doze ilustres
  289. Na pira tua imole. Entanto, junto
  290. Fiques das negras naus, e dia e noite
  291. Carpindo em cerco, as Dárdanas formosas
  292. De reguados seios te pranteiem,
  293. Essas que à lança ardidos conquistamos,
  294. Opulentas cidades assolando.”
  295. Então faz pôr ao fogo trípode ampla,
  296. Onde a sangueira expurgue-se a Pátroclo:
  297. Assentam prestes num brasido o vaso,
  298. Enchem-no, acendem por debaixo lenha,
  299. E a chama em roda lambe e aquece o bojo.
  300. A água mal ferve no sonoro cobre,
  301. Lavado e ungido esparzem-lhe nas chagas
  302. Um bálsamo novene, e em lençol fino,
  303. Da fronte aos pés o envolvem sobre o leito,
  304. Alvo manto por cima. Inteira a noite
  305. Choram-no os Mirmidões, geme o Pelides.
  306. Jove à consorte e irmã: “Juno olhipulcra,
  307. O ardor enfim de Aquiles inflamaste:
  308. Certamente os Aqueus amplo-comados
  309. Provêm de ti.” — Responde a augusta Juno:
  310. “Terrífico Satúrnio, que proferes?
  311. Mortal e a nós somenos em cordura,
  312. O homem consegue o intento contra o homem;
  313. E eu que as deusas precedo, eu sangue e esposa
  314. Do nume soberano, eu só não devo
  315. Dano aos Teucros urdir e encher meu ódio!”
  316. Chega, entanto, a argentípede Nereida
  317. À Vulcânea estrelada e incorruptível,
  318. Estupendo lavor do coxo mestre;
  319. Suado a azafamado aos foles o acha,
  320. Trípodes vinte a fabricar, adornos
  321. Da aênea régia: em rodas áureas pousam,
  322. Com que espontâneo ao divinal congresso
  323. Vão-se e tornem-se à casa, oh maravilha!
  324. Perfeitas quase, as pegas só lhes faltam,
  325. Cujos cravos aguça. Ao tempo que ele
  326. Isto engenhava, aproximou-se Tétis.
  327. Eis Cáris, de Vulcano a bem toucada
  328. Gentil consorte, a mão lhe aperta e fala:
  329. “Deusa louçã de flutuante peplo,
  330. Eras aqui mui rara; a que vens hoje?
  331. Anda, vou pôr-te hospitaleira mesa.”
  332. Já, de escabelo aos pés, dentro a coloca
  333. Em primorosa claviargêntea sela;
  334. Depois chama a Vulcano: “Vem, que Tétis
  335. Algo há mister.” — O artífice responde:
  336. “Que! Vejo a deusa que salvou-me aflito,
  337. Quando ocultar esse aleijão querendo,
  338. Me fez do céu cair indigna Juno!
  339. Quanto eu sofrera, a não me dar asilo,
  340. Mais do Oceano refluente a prole
  341. Eurínome formosa! Por nove anos
  342. Em cava gruta lhes forjei colares,
  343. Anéis, fivelas, braceletes, brincos:
  344. Roncava espúmeo em torno o imenso pego;
  345. Homem nem deus algum de mim sabia,
  346. Porque Eurínome e Tétis me velavam.
  347. Procura-me a pulquérrima Nereida;
  348. Pagar-lhe devo obrigações tamanhas.
  349. Tu lhe apresenta opíparos manjares,
  350. Enquanto os foles e instrumentos guardo.”
  351. Já deixa a incude o monstruoso fabro,
  352. A vacilar nas bambas frouxas pernas:
  353. Retira os foles, mete em arca argêntea
  354. Os utensis; de esponja a cara enxuga,
  355. Pulsos, cachaço e cabeludos peitos;
  356. E, com túnica limpa e um grave cetro,
  357. Vem coxeando; o rei trôpego esteiam
  358. Moças de ouro que às vivas assemelham
  359. Na força e mente e voz, por dom celeste;
  360. Ladeiam-no cuidosas. Tardo o passo,
  361. Vizinho a Tétis, em brilhante sólio
  362. Senta-se, a mão lhe cerra acaricioso:
  363. “De roçagante peplo ó deusa augusta,
  364. Raro aqui vinhas; que pretendes hoje?
  365. Fala segura; o coração me pede
  366. Fazer tudo por ti, se for possível.”
  367. E ela a chorar: “Do Olimpo qual das deusas
  368. Tem curtido, Vulcano, as amarguras
  369. Que me propina Jove? Entre as Nereidas
  370. Fui só quem de um mortal entrei no toro,
  371. Do Eácida Peleu forçada esposa:
  372. Velho jaz e abatido; eu, mesta e aflita.
  373. Parir deu-me e criar o herói mais bravo,
  374. Que medrou como planta em horto ameno:
  375. Crescido, o enviei mesma em naus rostradas
  376. Contra estes Teucros. No Peleio alvergue
  377. Não mais hei-de abraçá-lo, e enquanto vejo
  378. E goza a luz do sol, vive em tristezas.
  379. Nem consolá-lo sei: roubou-lhe o Atrida
  380. A quem houve em prêmio, e a dor e o pejo o ralam.
  381. Dante as popas os Dânaos, rechaçados,
  382. Nem saíam; deprecam-lhe os melhores
  383. E honrosos dons prometem: nega-se ele,
  384. Mas no seu mesmo arnês manda a Pátroclo
  385. E os Mirmidões, que às portas Ceias pugnam
  386. O dia inteiro. E então caíra Tróia,
  387. Se Apolo entre a vanguarda não matasse,
  388. Para glória de Heitor, ao bom Menécio,
  389. Que amplo estrago esparzia. A teus pés rogo
  390. Faças ao filho meu de curta vida
  391. Elmo, escudo, loriga e afiveladas
  392. Grevas gentis: perdeu-lhe o amigo as armas;
  393. E ele opresso e no pó jaz consternado.”
  394. Diz Vulcano: “Sossega, não te aflijas.
  395. Pudesse à minaz Parca subtraí-lo,
  396. Como lhe hei de aprestar brilhantes armas,
  397. Dos humanos espanto.” Eis vai-se aos foles,
  398. Vira-os ao fogo, e ordena-lhes que operem.
  399. Eles em vinte forjas respiravam,
  400. Ora com sopro lento, ora apressado,
  401. Segundo o que há na mente e quer o artista.
  402. Cobre indômito ao fogo e estanho e prata
  403. E ouro pôs fino, ao cepo vasta incude,
  404. A tenaz numa mão, noutra o martelo.
  405. Sólido forma o escudo, ornado e vário
  406. De orla alvíssima e triple, donde argênteo
  407. Boldrié pende, e lâminas tem cinco.
  408. Com dedáleo primor, divino engenho,
  409. Insculpiu nele os céus e o mar e a terra;
  410. Nele as constelações, do pólo engastes,
  411. Orion valente, as Híadas, as Pleias,
  412. A Ursa que o vulgo domina Plaustro,
  413. A só que não se lava no Oceano.
  414. Duas cidades povoou. — Solenes
  415. Bodas há numa: as noivas, entre fachos,
  416. Vêm dos tálamos, guiam-nas chamando
  417. Por himeneu; de giro dançam moços,
  418. Tocam flautas e cítaras; mulheres,
  419. Dos vestíbulos seus, estão pasmadas.
  420. Apinham-se no foro, a ver o pleito
  421. Que por causa da multa as partes erguem
  422. De um recente homicídio; afirma ao povo
  423. Um tê-la pago à risca, o outro o nega,
  424. Produzir ambos testemunhas querem;
  425. Divide-se o favor, soa o tumulto,
  426. E impõe silêncio arautos; sobre lisa
  427. Pedra, em círculo sacro, estão juízes,
  428. Que em varas dos arautos clamorosos,
  429. Por seu turno opinando, em pé se encostam;
  430. Ali no meio há de ouro dois talentos,
  431. Para quem proferir melhor sentença.
  432. Na outra cidade, exércitos se acampam
  433. A reluzir. Os cercadores traçam
  434. Destruí-la, ou metade saquear-lhe
  435. Do que há no soberbíssimo castelo.
  436. Os de dentro, insistindo, armam ciladas;
  437. Em guarda ao muro os velhos e as mulheres
  438. E os meninos deixando, uma sortida
  439. Fazem com Marte e Palas, ambos de ouro
  440. E de ouro as vestes, cujo brilho e talhe
  441. Dos humildes mortais os distinguiam.
  442. Eles, já de emboscada ao pé de um rio
  443. E onde o armento bebia não se despem
  444. Do fulgoroso bronze, e avante postam
  445. Vigias dois que da chegada avisem
  446. De negros bois e ovelhas. Já descobrem
  447. Uns pastores que, alheios das insídias,
  448. Na avena divertiam-se, e improvisos
  449. Aos míseros matando, se apossavam
  450. Do alvo rebanho e gado. Os cercadores,
  451. Em assembléia, a bulha e o mugir fere,
  452. E montando os corcéis, rápido às abas
  453. Do rio empenham férvida batalha:
  454. Vaga a Discórdia, o Susto; aferra a Parca
  455. De fresco um vulnerado e um são e um morto,
  456. E os roja pelos pés, e tinto em sangue
  457. Ata aos ombros o manto. Os combatentes
  458. Parecem vivos; de uma e de outra parte,
  459. Dos sócios os cadáveres carregam.
  460. Mole alqueive insculpiu, largo, abundoso,
  461. Três vezes amanhado, e o lavram muitos,
  462. Aqui e ali dos bois virando o jugo;
  463. Ao fim de cada sulco, um homem sempre
  464. Lhes verte um copo de suave baco;
  465. Eles outros começam, desejosos
  466. De profundá-los todos. Bem que de ouro,
  467. Atrás negreja o alqueive, nem que arado
  468. Verdadeiro o fendesse: oh grã prodígio!
  469. Insculpiu loura messe, e dos ceifeiros
  470. Foice a talha afiada: em linha os molhos
  471. Por terra vão caindo; enfeixadores
  472. Seguem três para atá-los, e uns meninos
  473. Lestos atrás colhendo, os acumulam.
  474. Numa paveia, o rei cetrado assiste,
  475. Silente e alegre; à sombra de um carvalho
  476. Arautos põem-lhe a mesa, espostejada
  477. Enorme rês; mulheres aos ceifeiros
  478. Mesclam vária farinha e a ceia aprontam.
  479. Áurea vinha insculpiu de roxos cachos,
  480. Que ao peso verga, e arrima-se em argêntea
  481. Fieira de tanchões; de estanho sebe,
  482. Fosso de esmalte a cinge; uma azinhaga
  483. Só tem para a vindima: adolescentes
  484. E donzelinhas, de ânimo sinceros,
  485. O doce fruto em canistréis apanham.
  486. Tange um menino harmônico alaúde,
  487. E canta com voz meiga ao som das cordas;
  488. Bailam tripudiando os vinhateiros,
  489. A repetir a ponto as melodias.
  490. Manada ali gravou de altivos cornos:
  491. De ouro e de estanho os bois, mugindo rompem
  492. Do curral para o pasto, indo-se às margens
  493. De ressonante caniçoso rio;
  494. De ouro há vaqueiros quatro e mastins nove;
  495. Dois medonhos leões na frente empolgam
  496. Um touro berrador, que a rastos geme;
  497. Segue a matilha e a gente, mas as feras
  498. Chupam-lhe o sangue e as láceras entranhas;
  499. Os vaqueiros seus cães debalde açulam;
  500. Os cães morder as feras não se atrevem,
  501. Bem que de perto ladrem. — Pôs Vulcano
  502. Em vale ameno cândidas ovelhas,
  503. E redis e tapigos e tugúrios.
  504. Coreia ali gravou, qual na ampla Cnosso
  505. Fez Dédalo à pulcrícoma Ariadna.
  506. Moços e virgens palma a palma enlaçam.
  507. A terra pulsam: tênue linha as veste,
  508. Veste-os guapo tecido azeitonado;
  509. Elas flóreas grinaldas, eles trazem
  510. Áureos alfanjes em talins de prata.
  511. Com mestra e leve planta, ou já discorrem
  512. Qual do oleiro tocada ao móbil torno
  513. Rápida volve a roda, ou já desfilam:
  514. Deleita-se o tropel que em cerca pasma.
  515. Dois adiante uma toada rompem,
  516. A voltear e aos pulos. — Em remate,
  517. Na orla esculpiu do enorme rijo escudo
  518. A ingente força do Oceano rio.
  519. Depois forma a couraça mais que o fogo
  520. Resplandecente, e à fronte acomodado
  521. Grave brunido casco de áurea crista,
  522. E de dúctil estanho as grevas tece.
  523. Completo alçando o arnês, à mãe de Aquiles
  524. O deus o oferta; ao gavião parelha,
  525. Toma as Vulcânias coruscantes armas,
  526. Do alto nevoso Olimpo se despenha. * * *

Nota a nota · 3 notas

v. 303–311Da fronte aos pés o envolvem sobre o leito,
Novene, de nove anos, do latim e do italiano. — Vulcânia chama Virgílio, no livro VIII, a oficina de Vulcano.
↩ voltar à passagem, v. 303
v. 431Para quem proferir melhor sentença.
Diz Mme. Dacier que o prêmio não era para os juízes, mas para o que melhor se defendesse. O texto porem é imperioso, e à letra significa para o que entre eles desse a mais justa sentença; ora, as partes não proferem sentenças, limitam-se a mostrar o seu direito. Vou pois com Rochefort, que assim discorre: “Pretende Mme. Dacier, com Eustátio, que o prêmio era para quem vencesse a demanda; o que é pouco verosímil; pois, nos tempos antigos pela história conhecidos, vemos uma certa paga aos juízes, módica sim, mas dada sempre no fim da audiência; e não conhecemos na antiguidade prêmio algum particular concedido aos litigantes que vencessem a demanda.”
↩ voltar ao verso 431
v. 454–478Vaga a Discórdia, o Susto; aferra a Parca ⋯ Mesclam vária farinha e a ceia aprontam.
Do verso 454 a 457, entendo com Monti, e não com M. Giguet e outros, por me parecer que o texto favorece mais a opinião do poeta Italiano. Quanto ao que vem do verso 475 a 478, parece-me, também com Monti, que se trata de dous repastos: um foi preparado ao rei pelos arautos; o outro, mais parco e simples, mulheres o prepararam para os ceifeiros. Não poucas versões confundem a ceia do rei com a dos trabalhadores.
↩ voltar à passagem, v. 454
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